O é uma importante família de línguas indígenas da América do Sul, ainda falada hoje por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais da Bolívia, do Peru e do Equador.

Generalidades

O quíchua era falado na região central dos Andes antes da formação do Império Inca, o qual adotou-a como oficial da administração. Ainda é falado hoje, na forma de vários dialetos, sendo o idioma nativo mais falado na América do Sul. Sua influência distribui-se no Peru, centro e sudoeste da Bolívia, sul da Colômbia e do Equador, norte da Argentina e norte do Chile.

História Desde muito antes da ascensão do Império Inca, no século XV, os diversos dialetos quíchuas eram amplamente disseminados na região. Os incas adotaram oficialmente o dialeto conhecido como o clássico ou do sul. Com a expansão do império por conquistas, esse dialeto se tornou a língua franca do Peru pré-colombiano, mantendo essa condição mesmo depois da conquista pela Espanha no século XVI.

Antes da chegada dos espanhóis e da introdução do alfabeto latino, a língua Quéchua não tinha forma escrita. As informações numéricas eram registradas pelos incas por meio de quipos (cordões coloridos de lã com diversos nós). Os registros escritos mais antigos do quíchua são do frei Domingo de Santo Tomás, chegado ao Peru em 1538, falando o idioma a partir de 1540, publicando sua gramática em 1560.

Muitos consideram o quíchua como uma língua do grupo quechumaran, junto com a língua aimará, principalmente pelo fato de ambas línguas terem muitas palavras em comum. Essa proposta apresenta controvérsias, visto que, se os cognatos são bem próximos (mais próximos até que cognatos "intraquéchuas"), o sistema de afixos é bem diferente. As similaridades podem se dever mais ao contato entre os falantes das duas línguas do que a origem comum. O quíchua foi espalhado para mais além das fronteiras do Império Inca pela Igreja Católica, que a escolheu para sua pregação entre os índios. Onde os povos quíchua e aimará convivem, os falantes do espanhol dão preferência aos termos quíchuas. No sul rural da Bolívia, há inclusive palavras quíchuas que são usadas inclusive pelos que falam só aimará, como

Hoje, o quíchua é uma língua oficial no Peru e na Bolívia, junto com o espanhol e o aimará. A maior dificuldade para o uso mais corrente e ensino do quíchua é a falta de material escrito na língua, tais como jornais, livros, revistas, softwares etc. As tecnologias de informação e comunicação vêm dificultando ainda mais o uso do idioma. Tanto o quíchua como o aimará e as demais línguas indígenas da América sobrevivem apenas na linguagem oral.

Vários vocábulos originais da língua entraram nas línguas modernas através do espanhol, tais como coca, condor, guano, gaúcho, inca, lhama, pampa, batata (passando de papa para papata e patata), puma, vicunha, chaco, mate, guampa, chácara,FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 387. etc.

Geografia right|thumb|250px|Subgrupos quíchuas Dialetos O idioma quíchua se distribui conforme os dialetos a seguir:

, falado nas terras mais altas do Peru central. É o mais diferente dos dialetos, sendo considerado por alguns estudiosos como sendo uma língua separada.Lyle Campbell em sua American Indian Languages: The Historical Linguistics of Native America, Oxford University Press, 1997, p. 189.

, apresenta três ramos: , falado em pontos das terras altas ocidentais do Peru. , falado na Colômbia, no Equador e nas terras de planície na Amazônia peruana e equatoriana. , falado nas terras altas do sul do Peru, na Bolívia, na Argentina e Chile. É o principal ramo, pois apresenta o maior número de falantes e tem um legado cultural e literário significativo.

Essa classificação tradicional é um guia útil, embora recentemente haja quem o conteste devido ao aparecimento de outras formas de falar quíchua que são intermediárias às citadas acima.

Falantes O número de falantes varia segundo a fonte. Os números mais confiáveis vêm dos censos do Peru (1993) e Bolívia (2001), embora provavelmente sejam subavaliados, por falta de mais dados. Por exemplo, o último censo do Equador (2001) registrou 500 mil falantes para o quíchua e o kichwa juntos, enquanto que há fontes que dão conta de 1,5 a 2,2 milhões de falantes.

Argentina: 600 000 a 1 000 000 Bolívia: 2 100 000 (2001) Chile: pouquíssimo, em bolsões no altiplano norte (Ethnologue) Colômbia: 9 000 (Ethnologue) Equador: 500 000 a 1 000 000 Peru: 3 200 000 (1993)

Além disso, podem haver centenas ou mesmo milhares de falantes do quíchua fora das áreas tradicionais, em comunidades imigrantes.

Fonologia e ortografia

As descrições a seguir valem para o dialeto qusqu-qullaw, de Cusco, havendo diferenças grandes nos outros dialetos.

Vogais O quíchua possui apenas três vogais: , tal como o aimará. Falantes monolíngues pronunciam-nas como e , embora possam ser usadas as vogais e do espanhol. Quando junto a vogais uvulares como , e , as três vogais ficam mais como , e respectivamente.

Consoantes

Labial Alveolar Pós-alveolar Palatal Velar Uvular Glotal plosiva / africada aspirada plosiva ou africada ejetiva fricativa nasal lateral aproximante “flap” central aproximante

Nenhuma das plosivas ou fricativas é sonora, não sendo a sonoridade fonêmica no quíchua nativo da moderna variante de Cusco.

Cerca de 30% do vocabulário atual do quíchua veio do espanhol, e, assim, certos sons do espanhol como /f/, /b/, /d/ e /g/ devem ter ficado fonêmicos, mesmo para os que só falam o quíchua.

Ortografia O quíchua usa o alfabeto latino desde a conquista espanhola, porém a lingual escrita é pouquíssimo usada pela falta de material gráfico nessa língua.

Até o século XX, o quíchua era escrito com ortografia baseada no espanhol como em Inca, Huayna Cápac, Collasuyo, Mama Ocllo, Viracocha, quipu, tambo, condor, uma ortografia bem familiar a quem usa a Língua espanhola, mantida em todas as palavras que foram do quíchua para outras línguas.

Em 1975, no governo de Juan Velasco, no Peru, foi adotada nova ortografia para o quíchua, sendo essa a ortografia preferida pela Academia Mayor de la Lengua Quíchua. As palavras citadas acima, por exemplo, são grafadas como: Inka, Wayna Qapaq, Qollasuyu, Mama Oqllo, Wiraqocha, khipu, tampu, kuntur.

Essa ortografia: Usa w em lugar de hu para o som “w”. Distingue velar k de uvular q, onde ambas eram soletradas com c ou qu no sistema tradicional. Distingue as “stops” simples, ejetivas e aspiradas nos dialetos (como o de Cuzco) que têm isso (como khipu acima. Mantém as cinco vogais do espanhol.

Em 1985, outra variante desse sistema foi adotada pelo governo do Peru, usando só as três vogais quíchua. As grafias ficariam: Inka, Wayna Qapaq, Qullasuyu, Mama Uqllu, Wiraqucha, khipu, tampu, kuntur.

As diferentes ortografias são controversas no Peru. Defensores das tradicionais alegam que as novas parecem muito "estrangeiras" e que, assim, ficam mais difíceis para quem aprendeu primeiro o espanhol escrito. Os defensores das novas ortografias acreditam que elas vão mais de encontro à real fonologia quíchua e apresentam estudos mostrando que ao se ensinar o sistema de cinco vogais isso causa dificuldades às crianças ao aprender o espanhol depois.

Escritores diferem ao tratar palavras vindas de outras línguas. Às vezes elas ficam na ortografia moderna, outras vezes numa ortografia mais adaptada ao espanhol. Exemplo: "Eu sou Roberto" pode ser escrito Robertom kani ou Ruwirtum kani. (-m não é parte do nome, é um sufixo evidencial).

Rodolfo Cerrón-Palomino, lingüista peruano, propôs uma norma ortográfica para todas as formas de quíchua. Essa norma, o quíchua estándar ou Hanan Runasimi, aceito por muitas instituições no Peru, foi feito pela combinação de características conservadoras dos dois dialetos mais comuns: o quíchua ayacucho e o quíchua qusqu-qullaw (falados em Cusco, Puno, e na Bolívia e Argentina).

Exemplo:

AyacuchoCusquenhoQuíchua do SulTradução upyay uhyay upyay "beber" utqa usqha utqha "rápido" llamkay llank'ay llamk'ay "trabalhar" ñuqanchik nuqanchis ñuqanchik "nós (inclusivo)" -chka- -sha- -chka- (progressivo - sufixo) punchaw p'unchay p'unchaw "dia"

Para ouvir gravações desses e de muitas outras palavras quíchua nas diversas pronúncias regionais ver o website The Sounds of the Andean Languages. Há também uma seção no site Quíchua and Aymara Spelling.

Gramática

O quíchua é um idioma aglutinante regular, oposto ao tipo fusional. A conjugação é bi-pessoal, ao concordar não só com o sujeito, mas com o objeto. As frases são Sujeito-Objeto-Verbo (SOV).

Apresenta muitos sufixos, que indicam tanto o real significado das palavras, com também indicam sutis nuances de significados, o que é comum em línguas andinas. É uma língua muito expressiva, com notáveis características peculiares aos idiomas andinos, tais como a evidencialidade, que indica a fonte e a veracidade do fato, um particípio tópico, sufixos que indicam quem leva vantagem com uma ação, como isso é visto pelo falante, estado mental, veracidade, relação espaço-temporais e outros fatores culturais.

Pronomes

NúmeroSingularPluralPessoaPrimeiraÑuqaÑuqanchik (inclusivo) Ñuqayku (exclusivo)SegundaQamQamkunaTerceiraPayPaykuna

São sete os pronomes pessoais em quíchua, com dois tipos de "nós": o inclusivo, inclui a pessoa com quem se fala, e o exclusivo, que não inclui a pessoa com quem se fala (nós e você, e nós sem você). O sufixo kuna indica o plural para segunda e terceira pessoas.

Adjetivos

O adjetivo em quíchua vem sempre antes do substantivo, não varia com gênero ou número, nem com caso.

Numeração

Cardinais: ch'usaq (0), huk (1), iskay (2), kimsa (3), tawa (4), pichqa (5), suqta (6), qanchis (7), pusaq (8), isqun (9), chunka (10), chunka hukniyuq (11), chunka iskayniyuq (12), iskay chunka (20), pachak (100), waranqa (1,000), hunu (1,000,000), lluna (1,000,000,000,000). Ordinais: acresce-se apenas a palavra ñiqin após o cardinal (Ex., iskay ñiqin = "segundo"). Há uma única exceção, huk ñiqin ("primeiro"); a expressão ñawpaq também pode ser usada para indicar algo mais restrito como "O primeiro, primordial, o mais antigo".

Substantivos

As raízes de um substantivo aderem sufixos para indicar a pessoa, o número e o caso. O sufixo que designa a pessoa geralmente antecede o de número. O oposto ocorre no dialeto da localidade de Santiago del Estero.

+ Exemplo com "casa" - wasi Função Sufixo Exemplo (tradução) sufixo que indica número plural -kuna wasikuna casas sufixo possessivo 1.pessoa singular -y wasiy minha casa 2.pessoa singular -yki wasiyki tua casa 3.pessoa singular -n wasin casa dele, dela 1.pessoa plural (incl) -nchik wasinchik nossa casa (incl.) 1.pessoa plural (excl) -y-ku wasiyku nossa casa (excl.) 2.pessoa plural -yki-chik wasiykichik casa de vocês 3.pessoa plural -n-ku wasinku casa deles sufixos de Caso Abessivo -naq wasinaq sem a casa Ablativo -manta, -piqta wasimanta, wasipiqta for a (saindo da casa) Acusativo -(k)ta wasita a casa (objeto) Adessivo -(ni)ntin wasintin a casa (obj.) Benefativo -paq wasipaq para a casa Causativa -rayku wasirayku por causa da casa Comitativo (instrumental) -wan wasiwan com a casa Comparativo -naw, -hina wasinaw, wasihina …do que a casa Dativo -paq wasipaq para a casa Direcional -man wasiman rumo à casa Exclusivo -lla(m) wasilla(m) só a casa Genitivo -p(a) wasip(a) da casa Imediato -raq wasiraq primeiro a casa Inclusivo -piwan, puwan wasipiwan, wasipuwan incluindo a casa Interativo -pura wasipura dentre as casas Locativo -pi, -traw wasipi, wasitraw dentro da casa Similativo -masi wasimasi vizinho Transitivo -(rin)ta wasinta através da casa Terminativo -kama, -yaq wasikama, wasiyaq até a casa

Advérbios