Dinarte de Medeiros Mariz (Serra Negra do Norte, 23 de agosto de 1903 – Brasília, 9 de julho de 1984) foi um comerciante, agropecuarista, jornalista e político brasileiro. Exerceu a prefeitura de Caicó após a Revolução de 1930, governou o Rio Grande do Norte entre 1956 e 1961 e representou o estado no Senado Federal em dois períodos, de 1955 a 1956 e de 1963 até sua morte, em 1984.
Originário do Seridó, iniciou a vida econômica no comércio de algodão e participou da Aliança Liberal em 1929. Tornou-se prefeito de Caicó por nomeação revolucionária e, durante a década de 1930, vinculou-se ao Partido Popular do Rio Grande do Norte, à imprensa oposicionista e à repressão da insurreição de novembro de 1935 no estado — episódio cuja dimensão exata em sua trajetória é objeto de versões divergentes na historiografia.
Na redemocratização de 1945, ajudou a estruturar a União Democrática Nacional (UDN) no Rio Grande do Norte. Depois de duas derrotas eleitorais para o Senado, venceu o pleito de 1954 e, no ano seguinte, foi eleito governador. Seu governo promoveu uma reforma do ensino primário e normal em cooperação com o Inep, criou a universidade estadual que originou a atual Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e instituiu o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte. A administração também foi marcada pela grande seca de 1958, pela articulação regional que antecedeu a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e por denúncias de uso político da máquina pública.
A disputa sucessória de 1960 rompeu a aliança entre Mariz e Aluízio Alves e dividiu por décadas a política potiguar entre o chamado dinartismo e o aluizismo. De volta ao Senado em 1963, Mariz apoiou a deposição do presidente João Goulart em 1964, colaborou na articulação civil do movimento e se tornou uma liderança da ala mais conservadora do regime militar. Defendeu o AI-5, medidas de exceção e uma anistia limitada, além de ter sido escolhido senador por via indireta em 1978. No fim da vida, opôs-se ao restabelecimento imediato das eleições diretas para presidente.
Primeiros anos, família e formação Dinarte de Medeiros Mariz nasceu em 23 de agosto de 1903, na Fazenda Solidão, então situada no município de Serra Negra do Norte, na região do Seridó potiguar. Era filho de Manuel Mariz Filho e Maria Cândida de Medeiros Mariz e foi o quinto de catorze irmãos. Pelo lado materno, era neto de José Bernardo de Medeiros, integrante da Assembleia Constituinte estadual de 1891 e senador pelo Rio Grande do Norte entre o início da República e 1907. Essa inserção familiar em redes políticas regionais coexistiu com uma trajetória econômica própria, construída sobretudo no comércio e na produção agropecuária do interior.
As fontes institucionais divergem sobre a extensão de sua escolarização. O verbete do CPDOC afirma que ele concluiu apenas o curso primário, enquanto o perfil biográfico do Senado registra estudos secundários no Grupo Escolar Coronel Mariz. Os trabalhos acadêmicos sobre sua trajetória ressaltam, de modo convergente, que não cursou o ensino superior e que sua formação política e empresarial ocorreu fora dos circuitos universitários.
Ainda jovem, mudou-se para Caicó, principal centro urbano do Seridó, onde trabalhou no comércio de algodão. O produto ocupava posição central na economia regional durante as primeiras décadas do século XX, articulando proprietários rurais, beneficiadores, comerciantes e exportadores. Mariz ampliou seus negócios nesse setor, tornou-se comerciante de projeção e passou a integrar as elites econômicas seridoenses, combinação que posteriormente lhe forneceu recursos materiais, vínculos sociais e uma base territorial para a carreira política.
Aos 21 anos, casou-se com Diva Wanderley Mariz. Segundo o CPDOC, o casal teve seis filhos. Entre eles estavam Vigolvino Wanderley Mariz, que seguiu carreira parlamentar, e Teresinha Mariz, casada com Moacir Torres Duarte, suplente que assumiria a vaga de Dinarte no Senado após sua morte. A família constituiu uma das ramificações políticas mais duradouras associadas ao dinartismo, embora a liderança pessoal de Mariz permanecesse o principal elemento de coesão de sua corrente.
thumb|esquerda|Centro de Caicó, cidade onde Mariz iniciou sua atividade comercial e exerceu a prefeitura após a Revolução de 1930.
Entrada na política e atuação na década de 1930 Aliança Liberal, Revolução de 1930 e prefeitura de Caicó A entrada formal de Mariz na política ocorreu em 1929, quando aderiu à Aliança Liberal, frente que lançou Getúlio Vargas à Presidência da República e João Pessoa à vice-presidência contra a candidatura governista de Júlio Prestes. No Rio Grande do Norte, a oposição liberal agregou grupos insatisfeitos com as oligarquias dominantes e encontrou no interior lideranças capazes de mobilizar comerciantes, proprietários e segmentos urbanos. Mariz participou das articulações no Seridó e, após a derrota eleitoral da chapa liberal, aderiu ao movimento revolucionário de 1930.
Durante a Revolução de 1930, integrou uma coluna comandada por Abelardo Torres que atuou no interior potiguar. Com a queda do governo estadual e a instalação de autoridades vinculadas ao novo regime, foi nomeado prefeito de Caicó, tornando-se o primeiro chefe do Executivo municipal designado pelos revolucionários. Permaneceu no cargo entre 1930 e 1932. Sua passagem pela prefeitura consolidou a relação entre liderança política, comércio regional e redes pessoais que marcaria sua atuação posterior.
A administração municipal coincidiu com um período de reorganização das instituições locais sob o Governo Provisório de Vargas. Como em outras partes do país, os prefeitos nomeados pelos interventores não resultavam de eleições diretas e funcionavam como agentes do novo poder estadual. A experiência deu a Mariz visibilidade para além de Caicó, mas também o aproximou das disputas que, pouco depois, separariam antigos aliados da Revolução de 1930.
Oposição a Vargas e Partido Popular Em 1932, Mariz apoiou o movimento constitucionalista de São Paulo contra o Governo Provisório. A posição o colocou em confronto com as autoridades federais e estaduais. As fontes divergem quanto ao número exato de prisões — o CPDOC menciona três e o Senado, duas —, mas concordam que foi detido repetidamente em consequência de sua atividade oposicionista. A participação reforçou sua identificação com o constitucionalismo liberal e com os grupos potiguares contrários ao fortalecimento do poder central de Vargas.
Em 1934, participou, ao lado do ex-governador José Augusto Bezerra de Medeiros e de outras lideranças, da organização do Partido Popular, agremiação estadual que se opunha ao interventor Mário Câmara. No mesmo ano, fundou e dirigiu o jornal A Razão, utilizado como instrumento de combate político e de difusão das posições do partido. A imprensa ocupava função central nas disputas oligárquicas e partidárias do período, e a atuação jornalística de Mariz serviu tanto à construção de sua imagem pública quanto à organização de uma rede oposicionista no interior.
O Partido Popular obteve resultados expressivos nas eleições estaduais de 1934 e integrou a coalizão que levou Rafael Fernandes Gurjão ao governo. Mariz, entretanto, não se limitou ao espaço eleitoral. Sua influência no Seridó baseava-se na combinação entre atividade econômica, laços familiares, imprensa e capacidade de mobilização de correligionários, modelo de liderança que persistiria na redemocratização do pós-guerra.
Levante de 1935 e construção do anticomunismo Em novembro de 1935, militares e civis ligados à Aliança Nacional Libertadora protagonizaram uma insurreição em Natal, onde chegou a funcionar por alguns dias um governo revolucionário. O levante estendeu-se ao interior e foi reprimido por forças militares, policiais e contingentes civis. Segundo o relato biográfico do CPDOC e parte da historiografia tradicional, Mariz comandou uma coluna de aproximadamente 150 sertanejos mobilizados contra os insurgentes.
A participação direta de Mariz nos combates, contudo, foi questionada por pesquisas baseadas em entrevistas e memória oral. Luiz Gonzaga Cortez registrou versões segundo as quais ele teria chegado depois dos principais confrontos, enquanto outros autores mantêm a narrativa de que organizou e liderou tropas civis. Diante da divergência, a documentação permite afirmar com segurança que Mariz se associou politicamente à repressão e transformou o episódio em um dos fundamentos de sua identidade anticomunista, mas não autoriza tratar todos os detalhes da narrativa heroica como consenso historiográfico.
Nas décadas seguintes, Mariz recorreu repetidamente à memória de 1935 para justificar posições de combate à esquerda e de defesa de medidas de segurança nacional. A experiência foi incorporada à sua autobiografia política e às homenagens produzidas por aliados, ao passo que adversários e estudiosos chamaram atenção para o caráter seletivo dessa memória. O anticomunismo, mais que um posicionamento conjuntural, tornou-se um componente permanente de seus discursos e de sua atuação partidária.
Com a implantação do Estado Novo em 1937, os partidos foram extintos e a atividade oposicionista sofreu forte restrição. Mariz afastou-se temporariamente da vida partidária e concentrou-se nos negócios. Manteve, entretanto, vínculos com antigos integrantes do Partido Popular e com grupos que voltariam a organizar-se no processo de redemocratização iniciado em 1945.
Redemocratização e ascensão na UDN Organização partidária e primeiras candidaturas Com o enfraquecimento do Estado Novo, Mariz participou da fundação da seção potiguar da União Democrática Nacional (UDN), partido nacional que reuniu liberais, conservadores, antigos opositores de Vargas e parcelas das elites regionais. No Rio Grande do Norte, a nova agremiação incorporou lideranças do antigo Partido Popular e passou a disputar espaço com o Partido Social Democrático (PSD), associado à estrutura interventorial e a segmentos governistas.
Mariz concorreu ao Senado nas eleições de dezembro de 1945, mas não foi eleito. Voltou a disputar uma cadeira em 1950, novamente sem sucesso. As derrotas não interromperam sua ascensão: durante o período, percorreu municípios, ampliou alianças com chefes locais e consolidou a UDN como força competitiva no estado. Sua base permaneceu especialmente forte no Seridó, mas alcançou progressivamente outras regiões por meio de acordos partidários e redes de comunicação.
A atuação econômica e jornalística também contribuiu para essa expansão. O perfil do Senado registra sua participação em diversos órgãos de imprensa, enquanto a pesquisa de Jailma Maria de Lima documenta que, em 1954, Mariz era acionista majoritário e financiava o déficit da Tribuna do Norte. O jornal, fundado por Aluízio Alves, desempenhava papel decisivo na propaganda udenista antes que a aliança entre ambos se rompesse no fim da década.
Eleição para o Senado em 1954 A vitória de Mariz para o Senado em 1954 resultou de uma composição eleitoral que ultrapassou os limites formais da UDN. Sua candidatura recebeu apoio de setores do Partido Social Progressista e de dissidentes do PSD, em uma conjuntura marcada por rearranjos locais e pela disputa em torno do legado do presidente Getúlio Vargas, morto em agosto daquele ano. Mariz obteve 103 711 votos, superando Georgino Avelino, José Varela e Otto Guerra.
A eleição representou sua primeira conquista de um mandato nacional. Empossado em fevereiro de 1955, integrou comissões do Senado e participou das articulações políticas que antecederam a eleição estadual daquele ano. Seu mandato, porém, foi breve: após vencer a disputa para o governo do Rio Grande do Norte, renunciou à cadeira em 12 de maio de 1956, sendo substituído por Reginaldo Fernandes.
Eleição para governador e crise de novembro de 1955