Marcos Coelho Neto (nascido em 1763 ou por volta de 1776; morto em 1823), também grafado Marcos Coelho Netto e frequentemente chamado de Marcos Coelho Neto Filho para distingui-lo do pai homônimo, foi um compositor, regente e instrumentista brasileiro. Desenvolveu sua carreira em Vila Rica, capital da Capitania de Minas Gerais, onde tocou trompa, clarim e trompete.
Coelho Neto e seu pai participaram das festividades reais de 1786 na Casa da Ópera. Em 1804, o filho era trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, enquanto o pai servia como timpanista do regimento. Pertenceu às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima, tocando em suas cerimônias e dirigindo repetidas vezes a novena e a festa de São José. Em 1812, juntou-se a outros trinta músicos em uma petição para fundar uma irmandade de Santa Cecília e limitar as exigências de apresentações não remuneradas. Venceu os contratos municipais de música de Vila Rica em 1814 e 1815, dirigindo os cantores e instrumentistas contratados para as cerimônias públicas.
Grande parte da música sacra que traz o nome Marcos Coelho Neto não pode ser atribuída com segurança ao pai ou ao filho. O repertório compreende o hino Maria Mater Gratiae, de 1787, versões da Ladainha Lauretana em dó, ré e fá, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam e responsórios para Santo Antônio. Essas obras empregam, em geral, quatro partes vocais, cordas, baixo e pares de instrumentos de sopro. Análises de peças específicas identificam elementos barrocos, galantes e clássicos em sua escrita vocal, harmonia e forma. A análise da caligrafia favorece o filho como autor de grande parte do repertório, embora alguns estudiosos atribuam obras específicas ao pai ou deixem a questão em aberto.
A música voltou a ser executada graças ao trabalho de Francisco Curt Lange em Minas Gerais entre 1944 e 1946. Entre os manuscritos que ele reuniu estava a partitura autógrafa de Maria Mater Gratiae, datada de 1787 e hoje conservada no Museu da Inconfidência. Lange publicou o hino em 1951, ao que se seguiram apresentações na Argentina e no Brasil e uma gravação realizada no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, em 1958. Outras partituras, apresentações e gravações ampliaram o repertório disponível, sem resolver a divisão das obras entre pai e filho.
Vida e carreira
Família e identidade
Marcos Coelho Neto nasceu em Vila Rica, então capital da Capitania de Minas Gerais, mas a data exata de seu nascimento é desconhecida. Francisco Curt Lange informou a existência de um registro de batismo de 1763 para o filho primogênito de Marcos Coelho Neto, data posteriormente adotada por catálogos e edições institucionais. O recenseamento de Vila Rica de 1804, no entanto, registra o músico com 28 anos, o que indicaria um nascimento por volta de 1776. A divergência permanece sem solução, e 1763–1823 continua sendo a cronologia convencionalmente mais utilizada.
A reconstrução de sua biografia é dificultada pela homonímia com o pai, também músico em Vila Rica e morto em 1806. O recenseamento de 1804 é um dos poucos documentos que os distingue claramente: nele, Coelho Neto aparece como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, aos 28 anos, enquanto seu pai, de 58, servia como timpanista. Como ambos trabalharam para algumas das mesmas instituições, muitos documentos registram apenas o nome “Marcos Coelho Neto”. Por conveniência, a historiografia costuma diferenciá-los como pai e filho, embora “Marcos Coelho Neto Filho” não tenha sido uma forma usada de maneira constante em sua época. A variante Coelho Netto também é encontrada nas fontes. Essa ambiguidade se estende aos manuscritos musicais, e a atribuição de algumas obras continua controvertida.
Coelho Neto pertenceu, assim como o pai, às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Lange baseou-se principalmente nessa associação para descrevê-los como mulatos, mas pesquisas mais recentes observam que a filiação a uma irmandade não basta, por si só, para determinar a ascendência de uma pessoa. A documentação conhecida não permite definir com maior precisão a origem familiar de Coelho Neto nem sustenta a afirmação, reproduzida em algumas fontes modernas, de que seu pai teria sido escravizado.
Atuação profissional em Vila Rica
Coelho Neto começa a aparecer com clareza nos registros municipais em 1785, quando uma relação de músicos o identifica como segunda trompa, ao lado do pai, que tocava a primeira. No ano seguinte, participou como segundo clarim das festividades reais de Vila Rica. Voltou a ser contratado como segunda trompa em 1789 e 1791 e como segundo clarim em um Te Deum de 1792. Outras duas relações, não datadas, também o registram entre os trompistas nos últimos anos do século XVIII. Esses documentos mostram que tocava trompa, clarim e trompete — instrumentos mencionados nas fontes da época como trompa, clarim e trombeta.
Para as festas anuais e celebrações extraordinárias, o Senado da Câmara contratava a música por meio de arrematações públicas. O vencedor ficava responsável por reunir os cantores e instrumentistas e providenciar o repertório necessário. Antes de conquistar contratos em seu próprio nome, Coelho Neto participou de conjuntos organizados por outros mestres de música.
Uma dessas ocasiões foram as festas de maio de 1786, realizadas para celebrar os casamentos entre as famílias reais de Portugal e Espanha. A programação da Casa da Ópera incluía três óperas e dois dramas. Uma prestação de contas de 29 de dezembro registra despesas com a orquestra, a cópia e o ensino da música, os intérpretes, os figurinos, a iluminação, os cenários e os mecanismos de palco. Marcos Coelho e o filho receberam conjuntamente cinco oitavas e doze vinténs de ouro, mas o documento não informa quanto coube a cada um nem qual foi a função desempenhada por Coelho Neto. O registro comprova sua participação no conjunto do teatro, mas não indica que tenha ocupado um posto permanente na Casa da Ópera ou dirigido as produções.
Em 1804, Coelho Neto aparece no recenseamento de Vila Rica como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias. Em agosto de 1812, foi o segundo dos 31 “professores da arte da música” que assinaram uma petição para criar uma Irmandade de Santa Cecília na igreja matriz de Ouro Preto. O grupo pretendia se proteger das frequentes exigências de apresentações sem pagamento. Sua posição profissional já estava consolidada quando venceu as arrematações municipais de música em 1814 e 1815. Recebeu 56$000 réis em cada ano e, como regente, encarregou-se de reunir e preparar os músicos para as festividades promovidas pelo Senado da Câmara.
Sua trajetória como instrumentista e regente é mais fácil de acompanhar do que seu trabalho como compositor. Como os manuscritos trazem apenas o nome “Marcos Coelho Neto”, nem sempre é possível saber qual dos dois músicos os escreveu. Paulo Castagna atribui ao filho as composições sacras registradas sob esse nome, enquanto Harry Crowl as atribui ao pai e Sílvio Crespo Filho considera o Himno a 4, de 1787, uma obra do músico mais velho.
Irmandades e música religiosa
Coelho Neto pertenceu à Irmandade de São José dos Homens Pardos e à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Tocou trompa e clarim para as duas associações. Em São José, foi contratado oito vezes como regente da novena e da festa do padroeiro, o maior total entre os dezesseis regentes contratados de 1759 a 1815. Esses acordos normalmente eram feitos de forma oral nas reuniões da mesa administrativa, cujas atas frequentemente omitiam o nome do regente.
A festa combinava uma novena com a exposição eucarística em 19 de março. Antes de a renda da irmandade diminuir, a partir de 1819, a música para a novena e a festa normalmente custava entre vinte e 35 oitavas de ouro, divididas entre o regente e seu conjunto. A capela também contratava músicos para a festa de Nossa Senhora do Parto, cuja imagem ficava em um altar lateral.
São José unia o patrocínio religioso a vínculos profissionais e sociais. Os músicos constituíam cerca de um quinto dos membros cujas ocupações são conhecidas, e 55 músicos exerceram cargos ou integraram a mesa administrativa entre 1727 e 1822. O próprio círculo de Coelho Neto pode ser identificado na aprovação do testamento do compositor Francisco Gomes da Rocha, em 1809. Coelho Neto e Caetano Rodrigues da Silva, o moço, serviram como testemunhas. O testamenteiro e a terceira testemunha também eram membros de São José.
Em agosto de 1812, Coelho Neto juntou-se a Florêncio José Ferreira Coutinho, João de Deus de Castro Lobo e outros músicos profissionais em uma petição para criar uma irmandade dedicada a Santa Cecília na igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar. A petição pretendia limitar as apresentações não remuneradas em oratórios particulares, igrejas, funerais e outras cerimônias com música. Os estatutos da irmandade, de 1815, repetiram essa restrição, mas o príncipe regente João suprimiu a cláusula que teria proibido serviços gratuitos em cerimônias particulares. A Irmandade de Santa Cecília transferiu-se para um altar lateral de São José em 1823, depois de seus membros declararem que a maioria deles também pertencia a São José.
Últimos anos e morte
Coelho Neto foi casado com Joana Teixeira da Silva e ensinou música ao filho dela, João Antônio Teixeira Rijo. Mais tarde, Rijo obteve renda como músico. Em 1823, Coelho Neto havia se tornado mentalmente incapaz, e naquele ano foi publicado um aviso que exigia a realização do inventário de seus bens. Morreu em 1823.
Música
Repertório sacro e função litúrgica
As composições relacionadas ao nome Marcos Coelho Neto formam um repertório sacro sobre textos em latim. Incluem o hino mariano Maria Mater Gratiae, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam, ladainhas em dó, ré e fá e responsórios para Santo Antônio.
Maria Mater Gratiae, datado de 29 de novembro de 1787, foi escrito para quatro partes vocais, violinos, viola, trompas e baixo. Suas duas estrofes pedem a Maria que proteja os fiéis do inimigo e os receba na hora da morte, e em seguida oferecem uma doxologia a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo. As ladainhas musicam a Ladainha Lauretana. Tais composições faziam parte das novenas, práticas paralitúrgicas realizadas durante nove dias em preparação para a festa de um santo. A ladainha em dó maior requer quatro partes vocais, dois oboés, duas trompas, dois violinos, viola e baixo. A ladainha em ré maior emprega quatro partes vocais, duas trompas, dois violinos, viola e contrabaixo.
Salve Regina pertence ao repertório de antífonas marianas. Crucem Tuam musica um texto para a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa, enquanto os responsórios datados de 1799 se relacionam à devoção a Santo Antônio.
Essa música era executada por pequenos grupos profissionais, e não por orquestras permanentes no sentido moderno. Nas Minas Gerais do século XVIII, uma companhia de música ou um partido de música habitual reunia quatro partes vocais, por vezes dobradas, a cordas, baixo e pares de flautas, oboés ou trompas. Irmandades e senados municipais contratavam mestres de música para organizar esses grupos, compor para festas religiosas e fornecer música para cerimônias ligadas à corte portuguesa. As próprias obras em latim mantinham uma função religiosa, ainda que seus intérpretes também atuassem em cerimônias teatrais, militares e municipais.
Estilo musical e prática de execução