"O Canto da Cidade" é uma canção interpretada pela artista musical brasileira Daniela Mercury, sendo lançada em 14 de agosto de 1992 como primeiro compacto simples do álbum de mesmo nome. Originalmente escrita pelo músico Tote Gira como forma de afirmação do orgulho negro, a canção teve parte de sua letra alterada por Mercury para torná-la mais viável comercialmente; à época a cantora travava uma batalha com executivos da gravadora Sony Music para convencê-los da viabilidade do samba-reggae. Produzida por Liminha, "O Canto da Cidade" tornou-se a canção de maior sucesso da cantora até então, sendo considerada a responsável pela consolidação do gênero musical que posteriormente viria a ser conhecido como axé music em todas as regiões do Brasil e abrindo as portas para outros artistas do gênero a nível nacional.

Antecedentes thumb|left|Executivos da Sony queriam que Mercury abandonasse o samba-reggae e investisse num som similar ao do grupo franco-espanhol Gipsy Kings.

Em 1992, após o sucesso do show que fez para o projeto "Som do Meio-Dia" no vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP), Daniela Mercury assinou um contrato de distribuição com a gravadora Sony. Segundo o jornalista Mauro Ferreira, a cantora tinha, àquela altura, todas as condições para tornar-se famosa a nível nacional, mas ainda precisava da canção certa para que isso ocorresse. A Sony, contudo, não desejava que ela continuasse investindo no samba-reggae, gênero que a tornou conhecida em Salvador e do qual era um dos principais exponentes. Durante todo o processo de gravação do disco O Canto da Cidade, a gravadora tentou dissuadir a cantora de continuar no gênero, sem sucesso. A Sony queria que ela tentasse emular o ritmo dos Gipsy Kings, banda de flamenco-pop de grande êxito comercial à época. Sobre os embates que teve com a gravadora, Mercury afirma ter tido muita dificuldade e que pensou em rasgar seu contrato diversas vezes.Carta Play. "Daniela Mercury: "Imagine que eu consegui fazer tudo isso com tanta dificuldade interna!"." YouTube. 2 de dezembro de 2016. Página acessada em 1° de fevereiro de 2018.

Enquanto selecionava o repertório que gravaria para seu segundo disco solo, Mercury recebeu a canção "O Canto da Cidade" gravada numa fita K7 e interpretada por Tote Gira, seu compositor. A gravação, segundo a cantora, havia sido feita "da maneira mais tosca, mais simples, mais primitiva, mais básica". Não estava harmonizada com instrumento de corda algum, tendo sido batucada numa porta de geladeira. Segundo Gira, isso ocorreu devido à sua condição financeira precária na época. Ele pediu emprestado a amigos tanto a fita K7 quanto o gravador que utilizou para gravar a canção, tamanha era sua falta de recursos. Devido à precariedade da gravação, a canção não foi identificada como um hit em potencial pela equipe de produção da cantora. Mercury, contudo, disse ter se apaixonado pela canção assim que a ouviu pela primeira vez. "Eu fiquei louca com o refrão e com a abertura dela, que eu achava grandiosa, espetacular", disse.

A cantora procurou, através de sua equipe, o compositor para que ele a autorizasse a fazer algumas modificações na letra da canção e, assim, tentar torná-la mais comercial. Segundo Gira, a canção precisava se tornar mais nacional e menos regional para que estourasse no Brasil. Mercury trabalhou na canção durante dois meses, adicionando novos versos e buscando criar um arranjo que enriquecesse-a. Foi difícil para a cantora achar um arranjo que lhe deixasse satisfeita. Ela teria, inclusive, recebido o conselho de seu baixista Cesário Leony para que desistisse de tentar gravar a canção de uma vez por todas. "Eu não posso desistir, essa música não sai da minha cabeça, essa música é fortíssima", ela respondeu a ele na época.

Gravação A canção foi gravada no estúdio WR, o mais conhecido dos músicos baianos, em julho de 1992.Mercury, Daniela. O Canto da Cidade. Encarte do Disco. Rio de Janeiro: Sony, 1992. Liminha foi o produtor enviado a Salvador pela Sony para fazer a produção do disco que Mercury estava concebendo. Segundo a cantora, ele virou parte da banda e não tentou mudar aquilo que ela já estava fazendo. "Ele foi muito inteligente nesse sentido, deixou a gente fazer o que a gente já estava fazendo", disse. Segundo o produtor, que se encantou pelo samba-reggae dos blocos afro da cidade, ele decidiu não intervir no processo artístico porque Mercury tinha uma "banda muito boa" e "as coisas estavam se encaixando muito rapidamente". Para ele, a canção foi feita da melhor maneira possível, o que fez com que ela "saísse muito redonda".

Liminha não mexeu na estrutura da canção, já que considerava sua composição "perfeita". Segundo Mercury, ele modificou apenas alguns timbres de teclado. Seu intuito era, segundo ele próprio, "organizar o axé e trazê-lo um pouco mais para cá, deixar ele mais radiofônico". O resultado final foi, segundo a cantora, "uma canção de samba-reggae com um pouco de influência rock". Gira também ficou satisfeito com a versão final de "O Canto da Cidade", mas a Sony ainda não conseguia identificá-la como um hit em potencial. Segundo Mercury, os executivos da gravadora acreditavam que o samba-reggae era uma moda do passado. "Olodum já era", ela teria ouvido de um deles.Ferreira, Mauro. "Guerreira da Liberdade". Rolling Stone Brasil. 27 de dezembro de 2015. Página acessada em 15 de julho de 2020. Eles também julgavam, não entendendo o contexto social por trás da canção, que ela possuía uma letra pedante. A cantora, contudo, insistiu para que a canção fosse lançada como a primeira música de trabalho de seu segundo álbum solo.

Composição

Musicalmente, a canção – considerada um dos marcos iniciais do gênero que viria, mais tarde, a ser conhecido como axé musicMaria, Júlio. "Crise da axé music é exposta em documentário". 15 de janeiro de 2017. O Estado de S. Paulo. Página acessada em 2 de fevereiro de 2018. – é um samba-reggae com uma pegada rock em seu início. Ao contrário de "Swing da Cor", sucesso anterior de Daniela Mercury, "O Canto da Cidade" incorpora menos elementos musicais afro-brasileiros, como tambores, e mais elementos da música pop, como teclados e baixo. Segundo a cantora, ela vestiu o pop num som mais elaborado para que os habitantes de outros estados pudessem se identificar com a canção, sem contudo romper com suas origens baianas, o que, para ela, significou uma abordagem mais madura do samba-reggae.Lannert, John. "Daniela Mercury rising as Brazil's hottest artist.Billboard, 28 de novembro de 1992, p. 35. Página acessada em 21 de fevereiro de 2018. Na opinião do jornalista Mauro Ferreira "O Canto da Cidade" se diferencia um pouco dos demais sucessos de seu gênero musical na melodia, sendo mais original nesse aspecto, o que contribuiu para que se tornasse um sucesso inebriante.

Liricamente, a canção é simples, tendo sido considerado este um dos fatores de seu sucesso. Segundo Gira, a inspiração para escrever a letra da canção surgiu após ele assistir a uma reportagem sobre a entrega dos Prêmios Grammy de 1992, quando o músico afro-americano Quincy Jones venceu o prêmio principal da noite. Segundo o compositor, a canção foi "feita para falar da cidade e de seus valores culturais", em especial das pessoas que organizavam o carnaval, bastante peculiar em Salvador em relação às demais regiões do país. Segundo ele, o verso "a cor dessa cidade sou eu" é uma referência ao fato de Salvador ser a cidade com a maior população negra do país. Já o verso "o canto dessa cidade é meu" é uma referência à influência africana na música brasileira. "Todo o canto da música brasileira, toda a ritmia [sic] da música brasileira é negra", disse. Não tendo compreendido o contexto social no qual a canção foi concebida, os executivos da Sony acharam sua letra pedante.

Segundo o portal Terra, trata-se de uma homenagem ao "povo simples de Salvador", com versos que mostram que "a cultura da cidade é definida por uma gente que encontra nos seus costumes uma forma de resistência, uma resposta à discriminação". O jornalista Rodrigo Faour aponta que a canção traz elementos da negritude e da geografia de Salvador, sendo um exemplo de como a população negra da cidade buscava se auto afirmar através da música. Mercury define a canção como uma "música [que] fala de preconceito", uma "canção da negritude falando de si", com um discurso afirmativo e original, vindo de Salvador. Apesar do respeito que Daniela ganhou entre os blocos afro após gravar a canção, há críticas de que uma letra com tom original de resistência tenha se tornado "algo pretencioso e individualista" ao ser reduzido a uma mulher branca.Cardoso Filho, Jorge. Vianna Matos, Matheus. Azevedo, Rafael José e Pimentel, Thiago. "Contradições e disputas pelos cantos do carnaval de Salvador: leituras a partir de “É d’Oxum”, por Gerônimo Santana, e “O canto da cidade”, por Daniela Mercury". In: Corpos em tempos e espaços [livro eletrônico]: reflexões sobre a historicidade dos processos comunicacionais. Organizadora: Fernanda Maurício da Silva... [et al.] - Belo Horizonte, MG: FAFICH/Selo PPGCOM/UFMG, 2024. Para o jornalista Luciano Matos, a tentativa de deixar a canção mais pop na verdade foi um "processo de embranquecimento" da mesma.

A cantora acredita se tratar de uma canção "brasileira, rítmica, vibrante e altiva" que represente a alma do brasileiro, traduzindo o sentimento de um povo que "precisava se afirmar, afirmar sua negritude com um grau de ritmo e lamento". Ela julga sua letra como "fácil" e "grandiosa", o que teria feito com que a canção virasse "um canto de todas as cidades". Segundo Gira, "foi Deus que me colocou como intermediário para que eu materializasse esse sentimento, mas eu acho que [Mercury] fala isso com propriedade". De certa forma, para ele, todo mundo que cantar a canção estará de certa forma afirmando sua negritude, porque é isso o que ela transmite.

Ao contrário do que muitos acreditam, "O Canto da Cidade" não foi composta como uma parceria entre Tote Gira e Daniela Mercury. Gira enviou a canção para Mercury e, tendo a cantora identificado seu potencial radiofônico, solicitou ao compositor a permissão para fazer algumas alterações na letra. A estrofe que a cantora mais gosta, a última, ela manteve intacta. A segunda estrofe e a ponte foram completamente alteradas pela cantora:

LETRA ORIGINALO canto da cidade. Por trás da canção. Rio de Janeiro: Canal Bis, 8 de maio de 2015. Programa de TV.Palma, Amanda e Cordeiro, Hilza. "O gueto, a rua, a fé: conheça a história de 'O Canto da Cidade'". Correio. 21 de janeiro de 2017. Página acessada em 2 de fevereiro de 2018. A cor dessa cidade sou eu O canto dessa cidade é meu

O som que vem do tambor O canto que ecoou O chão, a praça e a cor bonita A mão que fez o Pelô O tom da pele na flor tem vida Ela é bonita

Aê aê negro é Salvador Aê aê o verdadeiro amor

Não diga que não me quer Não diga que não quer mais Eu sou o silêncio da noite E o sol da manhã

Mil voltas o mundo tem Mas tem um ponto final Eu sou o primeiro que canta Eu sou o carnaval

LETRA MODIFICADAO Canto da Cidade. Google Play Music. Página acessada em 2 de fevereiro de 2018. A cor dessa cidade sou eu O canto dessa cidade é meu

O gueto, a rua, a fé Eu vou andando a pé Pela cidade, bonita O toque do afoxé E a força, de onde vem? Ninguém explica, ela é bonita

Uô ô verdadeiro amor Uô ô você vai onde eu vou

Não diga que não me quer Não diga que não quer mais Eu sou o silêncio da noite O sol da manhã

Mil voltas o mundo tem Mas tem um ponto final Eu sou o primeiro que canta Eu sou o carnaval

Sucesso