thumb|upright=1.4|O presidente da República Venceslau Brás declara guerra contra o Império Alemão e seus aliados. Ao seu lado, o ex-presidente da República e ministro interino das Relações Exteriores, Nilo Peçanha, e o presidente de Minas Gerais e futuro presidente da República, Delfim Moreira.

O Brasil na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) tinha uma posição neutra respaldada pela Convenção de Haia, buscando não restringir os seus produtos exportados na época, principalmente o café. A Alemanha era, na época, o principal parceiro comercial do Brasil, sendo seguida pela Inglaterra e pela França. Após o afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos da Marinha Imperial Alemã, o Brasil declarou guerra à Alemanha em 26 de outubro de 1917, juntando-se aos Aliados (Entente). Havia sentimento antigermânico popular, mas também oposição à entrada na guerra. O Brasil foi o único país latino-americano a participar ativamente da guerra, enviando a Divisão Naval em Operações de Guerra para a campanha no Oceano Atlântico, além de uma missão médica, aviadores e um corpo de oficiais e sargentos. Internamente, a guerra permitiu a introdução em 1916 do serviço militar obrigatório com base na Lei do Sorteio.

Histórico

Fase inicial

miniaturadaimagem|esquerda|upright|Imagem de réplica, em português atual, do decreto Nº 3.361, de 26 de outubro de 1917, sancionado pelo presidente Venceslau Brás, em que o Congresso Nacional aprova a declaração de guerra contra o Império Alemão

O Brasil declarou a sua neutralidade em 4 de agosto de 1914.Decreto 11.037 de 4 de Agosto de 1914 que estabeleceu regras gerais de neutralidade do Brasil no caso de guerra entre potências estrangeiras. Site da Câmara dos Deputados, Congresso Nacional Brasileiro Desta forma, somente um navio brasileiro, o Rio Branco, foi afundado por um submarino alemão nos primeiros anos da guerra em 1916. Tal fato foi usado pela Inglaterra para despertar o sentimento antigermânico no Brasil. O governo brasileiro pediu explicações à delegação alemã. Uma investigação posterior averiguou que na verdade o Rio Branco fora vendido para a Noruega e arrendado por armadores ingleses. O navio viajava indevidamente com a bandeira brasileira por águas restritas. A maioria da tripulação era composta por noruegueses. Assim, apesar da comoção nacional que o fato gerou, não poderia ser considerado como um ataque ilegal dos alemães.

No início da guerra, apesar de neutro, o Brasil enfrentava uma situação social e econômica complicada. A sua economia era basicamente fundamentada na exportação de apenas um produto agrícola, o café. Como este não era essencial, suas exportações (e as rendas alfandegárias, a principal fonte de recursos do governo) diminuíram com o conflito. Isto se acentuou mais com o bloqueio alemão e, depois, com a proibição à importação de café feita pela Inglaterra em 1917, que passou a considerar o espaço de carga nos navios necessário para produtos mais vitais, haja vista as grandes perdas causadas pelos afundamentos de navios mercantes pelos alemães. As relações entre Brasil e o Império Alemão, outrora extremamente cordiais, foram abaladas pela decisão alemã de autorizar seus submarinos a afundar qualquer navio que entrasse nas zonas de bloqueio. No dia 5 de abril de 1917 o vapor brasileiro Paraná, um dos maiores navios da marinha mercante ( toneladas), carregado de café, navegando de acordo com as exigências feitas a países neutros, foi atacado por um submarino alemão a milhas do cabo Barfleur, na França, e três brasileiros foram mortos.

Manifestações populares Havia no Brasil um grande interesse pelo que acontecia na Europa, a julgar pela grande cobertura feita pela mídia na época. Entre a população, mesmo o Brasil sendo um país neutro, existia uma grande simpatia pela Entente, principalmente pela França. Quando a Alemanha invadiu a Bélgica, em 8 de agosto de 1914, a Câmara dos Deputados aprovou uma condenação - movida por Irineu Machado - de violação dos tratados internacionais pela Alemanha. Em 7 de março de 1915, os Aliados fundariam a Liga Brasileira, sob a presidência de Ruy Barbosa. A Liga foi usada para difundir os ideais da Entente em solo brasileiro.

Quando a notícia do afundamento do vapor Paraná chegou ao Brasil poucos dias depois, eclodiram diversas manifestações populares nas capitais. O ministro de relações exteriores, Lauro Müller, de origem alemã e favorável à neutralidade na guerra, foi obrigado a renunciar. Em Porto Alegre, passeatas foram organizadas com milhares de pessoas. Inicialmente pacíficas, as manifestações passaram a atacar estabelecimentos comerciais de propriedades de alemães ou descendentes - o Hotel Schmidt, a Sociedade Germânia, o clube Turnebund e o jornal Deutsche Zeitung foram invadidos, pilhados e queimados..

Em 1 de novembro uma multidão danificou casas, clubes e fábricas em Petrópolis, entre eles o restaurante Brahma (completamente destruído), a Gesellschaft Germania, a escola alemã, a empresa Arp, o Diário Alemão, entre outros.. Ao mesmo tempo, em outras capitais houve pequenos distúrbios. Novos episódios com violência só ocorreriam quando da declaração de guerra do Brasil à Alemanha em outubro. Por outro lado, sindicalistas, pacifistas, anarquistas e comunistas se colocavam contra a guerra e acusavam o governo de estar desviando a atenção dos problemas internos, entrando em choque por vezes com os grupos nacionalistas favoráveis a entrada do país no conflito. À greve geral de 1917, seguiu-se acentuada de uma violenta repressão, usando a "Declaração de Guerra" em outubro do mesmo ano para declarar estado de sítio e perseguir opositores, o que provocou por exemplo uma tentativa de insurreição anarquista em 1918.

Ataques contra navios brasileiros

No dia 5 de abril de 1917 o vapor Paraná foi torpedeado perto de Le Havre, com toneladas de café e 3 brasileiros morreram. O acidente criou uma comoção nacional. No entanto, propriedades alemãs ou de descendentes de alemães foram vandalizadas em Porto Alegre e Blumenau. O ministro de relações exteriores Lauro Müller foi forçado à resignar, devido ao "perigo alemão" e os discursos inflamados de Ruy Barbosa. No dia 11 de abril de 1917 o Brasil rompeu relações diplomáticas com a coligação formada entre a Alemanha e a Áustria-Hungria, e, em 20 de maio, o navio Tijuca foi torpedeado perto da costa francesa por submarino alemão. Nos meses seguintes, o governo brasileiro confiscou 42 navios alemães que estavam em portos brasileiros, como uma indenização de guerra, essa quantia considerável de navios passou a corresponder a um quarto da frota brasileira. No dia 26 de maio de 1917, o vapor brasileiro Lapa foi atingido por três tiros do canhão de um submarino alemão.

Na noite do dia 25 de agosto, na travessia de Freetown para Dacar, a divisão sofreu um ataque torpédico feito por submarino alemão, mas sem causar vítimas ou danos nos navios. Felizmente, os torpedos passaram sem causar danos entre os navios brasileiros, que lançaram um contra-ataque usando cargas de profundidade, tendo a marinha real britânica creditado aos brasileiros o afundamento de um submarino inimigo.

Em 18 de outubro de 1917, um outro navio mercante, Macau, foi torpedeado por submarino alemão U-93. No dia 23 de outubro de 1917 o cargueiro nacional Macau, um dos navios arrestados, foi torpedeado pelo submarino alemão U-93, perto da costa da Espanha, e seu comandante feito prisioneiro. Com a pressão popular contra a Alemanha, no dia 26 de outubro de 1917, o país declarou guerra à aliança germânica. Em 2 de novembro de 1917, os navios Acari e Guaíba foram torpedeados no porto da ilha de São Vicente, em Cabo Verde, por um submarino alemão, o U-151.

Apoio aos aliados thumb|Especial do Jornal do Senado sobre a participação do Brasil na guerra

A abertura dos portos brasileiros a unidades aliadas e a responsabilidade pelo patrulhamento do Atlântico Sul pela esquadra brasileira foram as primeiras ações em apoio ao esforço de guerra aliado. A Divisão Naval em Operações de Guerra, comandada pelo contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin, incorporou-se à esquadra britânica em Gibraltar e realizou o primeiro esforço naval brasileiro em águas internacionais. Em cumprimento aos compromissos assumidos com a Conferência Interaliada, reunida em Paris de 20 de novembro a 3 de dezembro de 1917, o Governo brasileiro enviou uma missão médica composta de cirurgiões civis e militares, para atuar em hospitais de campanha do teatro de operações europeu, um contingente de sargentos e oficiais para servirem junto ao exército francês; aviadores do Exército e da Marinha para se juntarem à Força Aérea Real, e o emprego de parte da Esquadra, fundamentalmente na guerra antissubmarina. Participação individual de brasileiros e descendentes em forças estrangeiras Além da participação oficial do Estado brasileiro a partir de 1917, milhares de brasileiros — principalmente descendentes de imigrantes europeus — alistaram-se individualmente em forças aliadas desde o início do conflito, motivados por laços familiares, patriotismo à terra ancestral ou convicções pessoais.

O maior contingente foi de ítalo-brasileiros (italianos residentes no Brasil e seus descendentes). Quando a Itália entrou na guerra em maio de 1915 (ao lado dos Aliados), o Reino convocou reservistas e aceitou voluntários no exterior. Jornais ítalo-brasileiros, como o Fanfulla de São Paulo, incentivaram o alistamento. Estimativas acadêmicas indicam que cerca de 12 mil ítalo-brasileiros (entre convocados e voluntários puros) retornaram para lutar, principalmente na frente italiana (Alpes, rio Isonzo, rio Piave), onde enfrentaram condições extremas de trincheiras montanhosas, gás e artilharia.

Plano Calógeras Em 1918 ficou pronto um estudo confidencial encomendado pelo candidato presidencial eleito naquele ano, Rodrigues Alves. Este estudo, coordenado pelo parlamentar especialista em política externa e assuntos militares João Pandiá Calógeras, no tocante à entrada do Brasil no conflito, recomendava o envio de uma força expedicionária de "considerável tamanho" para lutar na guerra, utilizando-se de todos os meios (incluindo os navios das potências inimigas já apreendidos em portos e águas brasileiras) para fazer desembarcar a tropa em solo francês onde esta seria treinada e equipada pelos franceses, tudo financiado com empréstimos bancários americanos, que por sua vez seriam quitados pelas compensações impostas às potências derrotadas após a guerra.. p. 283.

Este Plano (que só foi tornado público após a morte de seu elaborador) que continha propostas em relação a várias áreas governamentais, no que se referia à participação do país no conflito independia da falta da infraestrutura industrial-militar que caracterizava o Brasil à época, porém, devido aos rumos tomados pelos acontecimentos internos e externos àquele ano, somados as circunstâncias específicas da política brasileira de então, incluindo a oposição de parte da população à guerra, assim como a falta de uma política externa clara, impossibilitaram que o mesmo fosse levado adiante, impedindo assim que o país tivesse maior participação no conflito.

Participação do Exército