Os prédios históricos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul são um grupo de edificações, algumas de dimensões palacianas, da cidade brasileira de Porto Alegre. Todos os prédios pertencem à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e estão localizados em sua maioria no seu Campus Central, junto ao Parque Farroupilha, outros no Campus Saúde, no Campus do Vale e no município de Eldorado do Sul.
O complexo se divide cronologicamente em dois grandes grupos. O conjunto conhecido como os prédios da "Primeira Geração", concentrado no Campus Central, surgiu entre 1898 e 1928 para abrigar as primeiras escolas de ensino superior do estado e seus departamentos técnicos, que em 1934 se fundiram para dar nascimento à UFRGS moderna. Em estilo eclético, são um dos principais marcos arquitetônicos da capital, e sua importância histórica deriva da grande influência que as faculdades exerceram no desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da sociedade, do ensino e da cultura no Rio Grande do Sul. Todo o conjunto é um Patrimônio Cultural do Estado e está inventariado pela Prefeitura, e dois prédios foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Depois de passar muito tempo mal conservado, no início do século XXI todo o complexo foi restaurado e requalificado para pleno uso.
O segundo grupo, o da "Segunda Geração", dividido entre o Campus Central e o Campus Saúde, foi construído entre 1941 e 1964 em estilo modernista, para atender à premente necessidade de novos espaços para uma universidade que crescia rápido. São menos conhecidos e estudados, mas guardam significativo interesse arquitetônico e também foram inventariados pela Prefeitura. Um destes, o prédio da Reitoria, é Patrimônio Cultural do Estado. Os campi da UFRGS são ativos centros de ensino e pesquisa, e o Campus Central também reserva espaços para a comunidade, atuando como um centro cultural com vários museus e variada programação, incluindo cursos, palestras, visitas guiadas, concertos, exposições e outras.
Primeira Geração Sua construção mantém estreito vínculo com o desenvolvimento urbano e cultural da cidade e são testemunhos da própria história de uma das principais universidades públicas do Brasil.Tonioli, Renata Manara. Cidade e universidade : arquitetura e configuração urbana do Campus Centro da UFRGS. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014, pp. 11-13 Alguns originaram-se como sedes para as primeiras escolas de ensino superior estado, a saber a Escola de Engenharia, a Faculdade de Direito, a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Agronomia, outros foram erguidos pelas faculdades para receber suas divisões técnicas especializadas, como foi o caso do Observatório Astronômico e do Instituto de Química Industrial. A UFRGS moderna nasceu com a fusão dessas diversas escolas independentes.
O complexo de doze edifícios, considerado a "Primeira Geração" das edificações da UFRGS, foi erguido entre 1898 e 1928 no extremo noroeste do atual Parque Farroupilha, uma área que no início do século XIX era uma vasta várzea alagadiça que servia de depósito de lixo e ponto de descanso de carreteiros e boiadeiros, e que recentemente, com o crescimento da cidade, vinha sendo objeto de crescente interesse imobiliário e urbanístico. Diversos prédios passaram por adaptações, ampliações e reformas posteriores, formando um conjunto diversificado, com variados estilos arquitetônicos, predominando o eclético.Siviero, Luís Artur. Gestão e manutenção de edifícios históricos da UFRGS : aplicação da tecnologia BIM no Castelinho. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2010, pp. 34-36 Alguns são influenciados pela Art Nouveau, estando entre os primeiros representantes desta estética na arquitetura de Porto Alegre.
A construção deste conjunto imponente se inseriu na política dos governos do estado e do município, dominados pelo Partido Republicano Rio-Grandense e seus ideais positivistas, fazendo um grande esforço para alavancar os estudos superiores e técnicos que trariam o progresso e uma nova civilização, e para "transformar a Porto Alegre provinciana da era imperial numa cidade com ares metropolitanos". Entre o fim do século XIX e o início do século XX a cidade testemunhou uma grande multiplicação de palacetes para a burguesia endinheirada e sedes suntuosas para bancos, empresas e repartições públicas, acompanhada de uma remodelação do urbanismo do Centro.Tonioli, pp. 63-64
Depois da Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha em 1935, montada no Parque Farroupilha, passou-se a considerar a reorganização e expansão dos edifícios da universidade, criada em 1934 como Universidade de Porto Alegre, incorporando as escolas independentes. Um projeto de 1937 considerou transformar todo o parque em uma Cidade Universitária, demolindo todos os edifícios e construindo novos, exceto a Medicina e o Instituto de Educação, mas o projeto foi mal recebido pela sociedade e pela Prefeitura e foi abandonado. Pouco depois, ao longo da reforma do Plano Diretor municipal, sendo já uma área muito valorizada, foi proposta a evacuação de todo o Campus, levando todas as unidades universitárias para outro local, a fim de permitir a abertura de ruas e uma completa reurbanização da área, o que também não foi levado adiante. Precisando de mais espaço, apesar da resistência municipal, a universidade foi autorizada a construir novos prédios nas proximidades dos já existentes, que seriam conhecidos como a "Segunda Geração" dos prédios históricos da UFRGS, e a partir de 1951 começaram as obras. Previa-se junto a demolição de alguns dos mais antigos, mas isso não aconteceu. Na gestão do reitor Eliseu Paglioli (1952-1964) as obras aceleraram, sendo construídos mais de uma dezena de edifícios, alguns deles já em novos campi.Tonioli, pp. 72-78
Na gestão do reitor Francisco Ferraz (1984-1988), quando muitas unidades de ensino já haviam sido transferidas para os novos Campus do Vale, o Campus Olímpico e o Campus Saúde, surgia a ideia de transformar o complexo edificado do Campus Central em um centro cultural, e para isso seria necessário revitalizar seus prédios e seus espaços abertos, na época muito maltratados. Foi lançado então o Projeto Centro Cultural, que até 1987 atraiu mais de 200 mil pessoas para visitas guiadas e atividades culturais. Um programa de conservação iniciou ao mesmo tempo, fazendo reparos em diversos edifícios, como o Instituto Parobé, o Castelinho, a Engenharia, o Observatório e outros.Tonioli, pp. 46-48
Entre 1996 e 1998, na gestão de Wrana Maria Panizzi (1996-2004), a universidade realizou um levantamento do seu patrimônio, constatando o avançado estado de deterioração de diversos prédios históricos, já havendo nesta época dois interditados por medida de segurança. Na ocasião foram listados os danos a serem recuperados, e no fim de 1998 foi lançado um livro sobre o conjunto, Os Prédios Históricos da UFRGS: Atualidade e Memória, com versões em português e inglês, a fim de chamar a atenção do público para o valor dos edifícios. No mesmo ano foi encaminhada solicitação para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombar todo o conjunto. O pedido recebeu parecer favorável do superintendente regional, mas o tombamento efetivo em 1999 só contemplou os prédios da Faculdade de Direito e do Observatório Astronômico. Todo o conjunto da "Primeira Geração" foi incluído pela Prefeitura no Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural e de Expressiva Tradição, e foi declarado Patrimônio Cultural do Estado em 15 de setembro de 2000.<ref>[http://www.al.rs.gov.br/filerepository/repLegis/arquivos/11.525.pdf Lei nº 11.525 de 15 de setembro de 2000]. Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul </ref> thumb|left|Vista lateral do Observatório Astronômico
Ainda em 1999 foi lançado o Projeto Resgate do Patrimônio Histórico e Cultural, objetivando conservar o seu valioso patrimônio arquitetônico e requalificar sua vasta área construída, na tentativa de amenizar a crônica carência de espaço físico que a universidade enfrenta em razão da sua constante expansão. Também esteve entre os objetivos do projeto oferecer novos recursos educativos e culturais para a comunidade. No ano seguinte a universidade criou a Secretaria de Patrimônio Histórico (hoje Setor de Patrimônio Histórico) para coordenar as ações, e para depois manter um projeto permanente de conservação das estruturas e desenvolvimento de atividades culturais e educativas, como cursos, apresentações artísticas e visitas guiadas.Devincenzi, Diego Speggiorin. "Ações de educação patrimonial na Ufrgs: a visita guiada". In: Semina — Revista dos Pós-Graduandos em História da UPF, 2015; 14 (2) — Dossiê: História, Política e Relações de Poder
O projeto foi aprovado no Programa Nacional de Apoio à Cultura, sendo obtido financiamento do Ministério da Cultura para um restauro do complexo através da Lei Rouanet. Para captação de recursos foi instituído o Dia da Doação, que teve uma resposta notável. No primeiro Dia da Doação um único doador destinou 128,6 mil reais, na época suficientes para o restauro de todo o Observatório Astronômico, e mais que o dobro deste valor foi doado por outros benfeitores. Até 2003 a universidade captou 19,4 milhões de reais, mais da metade via Lei Rouanet.Rodrigues, Noemia Fatima; Bem, Judite Sanson; Bernd, Zila. "O projeto Resgate do Patrimônio Histórico e Cultural da UFRGS - contribuições da Lei Rouanet". In: Colóquio – Revista do Desenvolvimento Regional - Faccat, 2017; 14 (1)
Até 2013 a universidade tinha entregue o restauro da Faculdade de Direito, do Museu da Universidade, da Rádio da Universidade, do Observatório Astronômico, do Castelinho, da Agronomia e do Château, estando avançadas as obras nos demais. Além de recuperar as valiosas estruturas e o seu pleno uso, o projeto de restauro teve uma repercussão crítica muito positiva, recebendo o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade do IPHAN em 2000, 2001, 2002 e 2006; o Prêmio Joaquim Felizardo da Secretaria Municipal de Cultura em 2010, e em 2011 a Menção Honrosa do Prêmio Internacional Rainha Sofia de Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural, oferecido pelo governo da Espanha. A administração e conservação dos edifícios é compartilhada entre o Setor de Patrimônio Histórico e a Superintendência de Infraestrutura. Embora os edifícios tenham passado anos mal cuidados, segundo Luís Artur Siviero, depois da criação do Setor as diretrizes adotadas para conservação e intervenções são embasadas na legislação vigente e nas cartas patrimoniais adotadas por organismos internacionais como a Unesco.Siviero, p. 43
Segundo Diego Devincenzi, "tais edificações compõem um dos mais antigos e expressivos conjuntos arquitetônicos construídos no Brasil com finalidade de servir à educação superior. [...] A UFRGS possui um conjunto edificado de reconhecido valor histórico e cultural". Para Rodrigues et alii, "essas edificações são obras de inestimável valor arquitetônico e histórico, importantes para a preservação da memória da universidade e da história sociocultural de Porto Alegre. [...] São referência para a memória coletiva de milhares de indivíduos - alunos, ex-alunos, servidores públicos, sociedade porto-alegrense, dentre outros. [...] Este patrimônio cultural edificado é permeado e envolto de significados simbólicos, fazendo reviver memórias e despertando sentimentos de identidade e de pertencimento".
Escola de Engenharia
thumb|Escola de Engenharia