miniatura|250px|direita| Placa em memória da curda Hatun Sürücü em Berlim, Alemanha. Ela foi assassinada aos 23 anos por seus irmãos num crime de honra. Tinha-se divorciado do primo com quem foi forçada a casar aos 16 anos, e estava numa relação com um homem alemão. Um crime de honra consiste no assassinato de um (ou vários) membros duma família, por se considerar a sua conduta imoral e nociva para a alegada honra familiar ou para os princípios duma comunidade ou religião. As razões invocadas podem ser a recusa dum casamento forçado, uma relação desaprovada pela família ou comunidade, relações sexuais fora do casamento, ser vítima de violação, vestir-se de modo considerado inapropriado, ter relações homossexuais, procurar um divórcio, cometer adultério ou renunciar a uma fé.
Definições A organização Human Rights Watch define crime de honra da seguinte forma: Crimes de honra são atos de vingança, geralmente morte, cometidos por membros da família do sexo masculino contra membros da família do sexo feminino, que são considerados como tendo trazido desonra para a família. Uma mulher pode ser alvo de (indivíduos dentro de) sua família por uma variedade de razões, incluindo: recusar-se a entrar em um casamento arranjado, ser vítima de agressão sexual, procurar um divórcio — mesmo de um marido abusivo — ou (alegadamente) cometer adultério. A mera percepção de que uma mulher se comportou de uma maneira que "desonra" sua família é suficiente para desencadear um ataque à sua vida. Embora raramente, contudo, os homens também podem ser objecto de crimes de honra. Estes crimes são mais frequentes no Oriente Médio, Ásia Meridional e Norte da África.
Cherise Charleswell insurge-se contra o uso do termo "crime de honra". Ela sustenta não existir nada de honroso num crime brutal e premeditado. Ela sugere os termos "assassínio dirigido por famílias" ou ainda "assassínio patriarcal". Ela comenta: "O problema mais crítico dos crimes de "honra" (sic) é o fato de todo o conceito de honra ser baseado na propriedade dos corpos das mulheres".
Na História Matthew A. Goldstein observou que as mortes por honra foram encorajadas na Roma antiga, onde os membros masculinos da família que não agissem contra as mulheres adúlteras das suas famílias eram ativamente perseguidos".
A origem dos crimes de honra e o controle das mulheres são evidenciados ao longo da história nas culturas e tradições de muitas regiões. A lei romana de pater familias dava controle total aos homens da família tanto sobre seus filhos quanto sobre suas esposas. Sob essas leis, as vidas das crianças e esposas ficavam a critério dos homens de suas famílias. A lei romana antiga também justificava assassinatos de honra afirmando que as mulheres que fossem consideradas culpadas de adultério poderiam ser mortas por seus maridos; obviamente o contrário não se permitia. Durante a dinastia Qing na China, pais e maridos tinham o direito de matar as filhas que fossem consideradas "desonradas" pelas famílias.
Entre os aztecas e incas, o adultério era punido com a morte. Durante o governo de João Calvino em Genebra, as mulheres consideradas culpadas de adultério eram afogadas no rio Ródano.
Os assassinatos de honra têm uma longa tradição em alguns países da Europa Mediterrânea.
Em épocas um pouco mais recentes, ficaram conhecidos os casos de Tursunoy Saidazimova e Nurkhon Yuldasheva. Tursunoy S., nascida em 1911 em Tashkent, foi a primeira atriz uzbeque da ex-URSS a tornar-se conhecida por remover o véu em palco. Foi assassinada pelo marido, pressionado pela família, fanáticos religiosos, em 10 de maio de 1928. Nurkhon Y. nascida em 1913, em Marguilã, foi também uma das primeiras mulheres uzbeques a dançar no palco sem o tradicional véu islâmico e por isso foi assassinada por um irmão em 1929. Uma estátua de Nurkhon existiu em Marguilã, mas, julgada inconveniente, foi retirada após o desmantelamento da URSS em 1991.
Características únicas do crime de honra Os crimes de honra diferenciam-se claramente da simples violência doméstica, ou dos chamados "crimes passionais", pela sua natureza colectiva e planeamento prévio. A sua motivação é completamente diversa, e baseia-se em códigos de moralidade e comportamento típicos de algumas culturas, geralmente reforçadas por imposições religiosas fundamentalistas. Os crimes de honra são geralmente um assunto familiar, com as vítimas a ser mortas pela sua própria família, (ou também por multidões) e geralmente com múltiplos autores. Também a sua grande crueldade os distingue ; mais de metade das vítimas são torturadas, com a finalidade de uma morte lenta e dolorosa. As torturas incluem violações colectivas, estrangulamentos, esfaqueamentos repetidos, lapidação, corte da garganta, ataques com ácidos, decapitação, queima e mais recentemente, a electrocussão.
Os assassinatos são por vezes realizados em público, e com crianças assistindo, como um aviso para os outros indivíduos, dentro da comunidade, de possíveis conseqüências de se engajar no que é visto como comportamento ilícito.
Uma característica importante é a conexão dos crimes de honra ao controle do comportamento do indivíduo — essencialmente a mulher — em particular no que diz respeito à sexualidade e casamento, pela família como um coletivo. Outro aspecto-chave é a importância da reputação da família na comunidade e o estigma associado à perda de estatuto social, particularmente em comunidades fechadas. Os perpetradores muitas vezes não enfrentam estigma negativo dentro de suas comunidades, porque seu comportamento é visto como inteiramente justificado, sendo na maior parte dos casos admirados como verdadeiros heróis.
Algumas mulheres que se envolvem publicamente com outras comunidades ou adotam alguns dos costumes ou a religião de um grupo externo podem ser atacadas. Nos países que recebem imigrantes, alguns destes têm assassinado membros da família que participaram da vida pública, por exemplo, em políticas feministas e de integração.
Extensão Estatísticas precisas são bastante difíceis de obter devido à natureza de tais crimes e ao facto de que muito poucos são relatados ou colectados. Muitos destes assassinatos são apresentados pelas famílias como suicídios ou acidentes, e registados como tal. O United Nations Population Fund estima que cerca de 5.000 mulheres são assassinadas dessa maneira a cada ano em todo o mundo, provavelmente uma estimativa baixa. Adicionemos à lista Alemanha, Suécia, outras partes da Europa, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, e é claro que as mulheres muçulmanas jovens no Ocidente estão se tornando cada vez mais vulneráveis. Segundo a BBC, "grupos de defesa das mulheres, no entanto, suspeitam que mais de 20.000 mulheres são mortas em todo o mundo por ano".
Embora os sikhs e os hindus às vezes cometam estes crimes, os assassinos, tanto no mundo como no Ocidente, são principalmente muçulmanos, contra muçulmanos. Em todo o mundo, 91 por cento dos perpetradores eram muçulmanos. Na América do Norte, a maioria dos assassinos (84%) eram muçulmanos, com apenas alguns sikhs e ainda menos hindus perpetrando homicídios de honra; na Europa, os muçulmanos constituíam uma maioria ainda maior, com 96%, enquanto os sikhs eram uma pequena percentagem. Nos países muçulmanos, obviamente quase todos os perpetradores eram muçulmanos. Os irmãos menores das vítimas são frequentemente ordenados a cometer o crime, porque, como menores, estarão sujeitos a sentenças consideravelmente mais leves se chegar a haver ação legal.
Um suicídio forçado, ou forjado, pode ser um substituto para um crime de honra. Neste caso, os membros da família não matam diretamente a própria vítima, mas forçam-na a matar-se, a fim de evitar a punição; ou apresentam a morte como suicídio.
Os crimes de honra entre os hindus diferençam-se em alguns importantes aspectos dos cometidos nos países de maioria muçulmana ou nas comunidades muçulmanas no Ocidente. Aponta Phyllis Chesler que eles atingem também uma maior percentagem de homens, e são cometidos principalmente por razões de pureza de casta. Ao contrário, por exemplo, dos muçulmanos paquistaneses, que trazem essa prática para o Ocidente, os hindus nessa ocasião abandonam-na, por razões não muito claras.
Tahira Shahid Khan, uma professora da Universidade de Aga Khan, no Paquistão, escreveu no livro "Chained to Custom" (Acorrentadas aos Costumes), uma revisão dos crimes de honra, publicado em 1999: "As mulheres são consideradas a propriedade dos homens em sua família, independentemente de seu grupo de classe, étnica ou religiosa. O proprietário do imóvel tem o direito de decidir seu destino. O conceito de propriedade transformou as mulheres numa mercadoria que pode ser trocada, comprada e vendida."
Causas
Misoginia Os crimes de honra são frequentemente resultado de opiniões fortemente misóginas em relação às mulheres e à posição das mulheres na sociedade. Nestas sociedades tradicionalmente dominadas pelos homens, as mulheres dependem primeiro do pai e depois do marido, a quem se espera que obedeçam. As mulheres são vistas como propriedade e não como indivíduos com ações próprias. Elas devem submeter-se a figuras de autoridade masculinas na família - e não o fazer pode resultar em extrema violência como castigo. A violência é uma maneira de garantir o cumprimento e prevenir a rebelião. Em tais culturas, as mulheres não têm permissão para assumir o controle sobre seus corpos e sua sexualidade: são propriedade dos homens da família, do pai (e de outros parentes do sexo masculino) que devem garantir a virgindade até o casamento; e após isso, o marido, a quem a sexualidade de sua esposa é subordinada - uma mulher não deve minar os direitos de propriedade de seu guardião ao se envolver em sexo antes do casamento ou adultério.
O conceito de honra familiar é extremamente importante em muitas comunidades muçulmanas. As Nações Unidas em 2000 estimavam 5.000 assassinatos em todo o mundo por ano, a maioria deles em regiões islâmicas do sul da Ásia, norte da África e Médio Oriente. Atos de familiares que podem ser considerados inadequados são vistos como trazendo vergonha para a família aos olhos da comunidade. Tais atos geralmente incluem comportamentos femininos relacionados ao sexo fora do casamento ou à maneira de se vestir, mas também podem incluir a homossexualidade masculina . A família "perde a face" na comunidade e pode ser marginalizada por parentes. A única maneira pela qual a vergonha pode ser apagada é através de um assassinato. As culturas em que ocorrem as mortes por honra são geralmente consideradas "culturas coletivistas", onde a família é mais importante que o indivíduo, e a autonomia individualista é vista como uma ameaça à família coletiva e à sua honra.
A sociedade indiana, em geral, não é menos misógena do que, por exemplo, a paquistanesa. Rapazes são preferidos; as meninas são vistas como um fardo. Os abortos selectivos são em grande quantidade; o referendo de 2011 encontrou o número de 914 meninas para cada 1000 rapazes entre as crianças até aos seis anos de idade. Além dos crimes de honra a sociedade indiana enfrenta também uma sua variante, os crimes por dote, em que as vítimas são mortas ou feridas por insuficiência ou inexistência de dote.
Tradição e Religião
Os crimes de honra são actualmente praticados na maioria por muçulmanos, e também em menor grau por sikhs e por hindus, embora neste último grupo a motivação seja quase sempre questões de casta. O sistema de castas está oficialmente abolido na Índia pelo artigo 15 da sua Constituição, todavia, o preconceito de casta atravessa ainda toda a sociedade indiana, mais acentuado nas regiões rurais; casar fora da casta é desaprovado.