Este artigo é sobre a empresa de serviços de pagamento. Para o documento necessário para entrar em território estrangeiro, veja Visto. Para outros significados, veja Visa (desambiguação).
Visa Inc. (pronúncia em inglês: /ˈviːzə, ˈviːsə/) é uma empresa multinacional norte-americana de serviços de cartões de pagamento, com sede em São Francisco, na Califórnia. A empresa facilita transferências eletrônicas de fundos em todo o mundo, principalmente por meio de cartões de crédito, cartões de débito e cartões pré-pagos com a marca Visa.
A Visa não emite cartões, não concede crédito e não define taxas de juros ou tarifas cobradas dos consumidores. Em vez disso, fornece a instituições financeiras produtos de pagamento com sua marca, usados por essas instituições para oferecer aos clientes programas de crédito, débito, pré-pagos e de acesso a dinheiro. Em 2025, a rede mundial da empresa, conhecida como VisaNet, processou 257,5 bilhões de transações no valor total de US$ 14,2 trilhões.
A origem da Visa remonta a 1958, quando o Bank of America (BofA) criou o programa de cartão de crédito BankAmericard. Em resposta à concorrência do Master Charge, atual Mastercard, o BofA começou a licenciar o programa BankAmericard para outras instituições financeiras em 1966. O rápido crescimento do sistema e os atritos provocados pela gestão centralizada no BofA levaram Dee Hock, que havia ingressado em 1968 para administrar a implantação do cartão no noroeste do Pacífico, a defender a transformação do BankAmericard em uma operação independente. Em 1970, o banco transferiu o controle do programa às instituições emissoras, que criaram a National BankAmericard, presidida por Hock. Em 1976, a organização adotou o nome Visa.
Quase todas as transações Visa no mundo são processadas diretamente pela VisaNet em quatro centros de dados seguros, localizados em Ashburn, na Virgínia, e Highlands Ranch, no Colorado, nos Estados Unidos; Londres, no Reino Unido; e Singapura. As instalações contam com fortes medidas de proteção contra desastres naturais, crimes e terrorismo, podem funcionar de forma independente umas das outras e dos serviços públicos externos quando necessário e têm capacidade para processar até 30 mil transações simultâneas e 100 bilhões de operações computacionais por segundo.
A Visa é a segunda maior organização de pagamentos por cartão do mundo, considerando conjuntamente cartões de débito e de crédito. Foi superada pela UnionPay em 2015 em valor anual de pagamentos efetuados e em número de cartões emitidos. Como o porte da UnionPay decorre principalmente do tamanho do mercado doméstico chinês, a Visa continua sendo considerada a principal rede de cartões bancários no restante do mundo, onde detém cerca de 50% do valor total dos pagamentos por cartão.
História thumb|Antiga placa com os dizeres "Your BankAmericard Welcome Here".
Em 18 de setembro de 1958, o Bank of America lançou oficialmente seu programa de cartão de crédito BankAmericard em Fresno, na Califórnia. Nas semanas anteriores ao lançamento, o banco inundou as caixas de correio da cidade com uma remessa inicial de 65 mil cartões de crédito não solicitados, prática que ficou conhecida no setor como drop. O BankAmericard foi concebido pelo grupo interno de desenvolvimento de produtos do BofA, o Customer Services Research Group, liderado por Joseph P. Williams. Em 1956, Williams convenceu os executivos do banco a autorizar o que se tornaria a primeira distribuição em massa bem-sucedida de cartões de crédito não solicitados efetivamente utilizáveis, em vez de meros formulários de solicitação, para uma população numerosa.
A inovação de Williams esteve na implementação bem-sucedida do cartão de crédito de uso geral, e não na criação do conceito em si. Em meados da década de 1950, era comum que consumidores norte-americanos de classe média mantivessem contas de crédito rotativo em diversos estabelecimentos, o que os obrigava a carregar vários cartões e pagar várias contas separadas todos os meses. A necessidade de um instrumento financeiro unificado já era evidente para o setor, mas ainda não havia um modelo viável. Existiam cartões de pagamento como o Diners Club, cuja fatura precisava ser integralmente quitada ao final de cada ciclo, e pelo menos uma dúzia de tentativas de criação de cartões de crédito de uso geral havia ocorrido até meados daquela década. A maioria fora promovida por bancos pequenos, sem recursos suficientes para sustentar a operação.
Williams e sua equipe estudaram essas experiências malsucedidas e também as operações de crédito rotativo da Sears e da Mobil Oil, procurando compreender por que estas funcionavam. Fresno foi escolhida para o teste por ter cerca de 250 mil habitantes, uma população suficientemente grande para sustentar o cartão e suficientemente pequena para limitar os custos iniciais, por o BofA controlar cerca de 45% do mercado bancário local e pelo relativo isolamento da cidade, que reduziria o impacto de relações públicas caso o experimento fracassasse. Segundo Williams, a Florsheim Shoes foi a primeira grande rede varejista a aceitar o BankAmericard em suas lojas.
O teste de 1958 transcorreu inicialmente sem grandes problemas, mas o BofA acelerou a expansão ao confirmar rumores de que outro banco estava prestes a fazer uma distribuição semelhante em São Francisco, seu principal mercado. Em março de 1959, as remessas chegaram a São Francisco e Sacramento; em junho, a Los Angeles; e em outubro mais de 2 milhões de cartões já haviam sido enviados em toda a Califórnia, com 20 mil estabelecimentos aceitando o BankAmericard.
O programa, porém, enfrentou graves dificuldades. Williams, que nunca havia trabalhado no departamento de crédito de um banco, confiara excessivamente na disposição dos clientes de pagar suas dívidas e deixou o cargo em dezembro de 1959. A inadimplência atingiu 22% das contas, muito acima dos 4% esperados, enquanto delegacias de polícia de todo o estado começaram a lidar com numerosos casos do então novo crime de fraude com cartão de crédito. Políticos e jornalistas criticaram duramente o BofA, sobretudo depois de vir a público que o contrato responsabilizava o titular por todas as despesas, inclusive as fraudulentas. Oficialmente, o banco perdeu mais de US$ 8,8 milhões no lançamento. Incluindo publicidade e despesas gerais, a perda real provavelmente se aproximou de US$ 20 milhões.
Após a saída de Williams e de alguns de seus colaboradores mais próximos, a administração do BofA concluiu que o BankAmericard ainda poderia ser recuperado. O banco realizou uma ampla reorganização, implantou controles financeiros, enviou uma carta aberta a cerca de 3 milhões de domicílios californianos pedindo desculpas pelos casos de fraude e por outros problemas do programa e, por fim, conseguiu tornar o produto viável. Em maio de 1961, o BankAmericard tornou-se lucrativo pela primeira vez. O BofA manteve deliberadamente o resultado em segredo, permitindo que a má reputação do setor persistisse e desencorajasse novos concorrentes. A estratégia funcionou até 1966, quando a rentabilidade do BankAmericard já era difícil de ocultar.
A intenção inicial do BofA era oferecer o BankAmericard em toda a Califórnia. Em 1966, porém, passou a firmar contratos de licenciamento com bancos de outros estados, em resposta ao surgimento do Master Charge, atual Mastercard, criado por uma aliança de associações regionais de cartões bancários. O próprio BofA, assim como os demais bancos norte-americanos da época, não podia se expandir diretamente para outros estados devido a restrições federais ao sistema bancário interestadual, que só seriam amplamente eliminadas em 1994. Nos onze anos seguintes, diversas instituições licenciaram o sistema do Bank of America e formaram uma rede de bancos que sustentava o BankAmericard em todo o país. A distribuição de cartões não solicitados continuou por iniciativa do BofA, de seus licenciados e dos concorrentes até ser proibida em 1970,O Unsolicited Credit Card Act de 1970 alterou o Truth in Lending Act de 1968 para proibir o envio de cartões de crédito não solicitados. A regra encontra-se atualmente codificada em 15 U.S.C. § 1642. depois de mais de 100 milhões de cartões terem sido enviados à população dos Estados Unidos.NOCERA, Joseph. A Piece of the Action: How the Middle Class Joined the Money Class. p. 15.
No fim da década de 1960, o BofA também licenciou o programa BankAmericard para bancos de outros países, que passaram a emitir cartões com marcas locais. A expansão internacional deu origem a diferentes arranjos nacionais ligados ao sistema BankAmericard. No Canadá, uma aliança de bancos que incluía Toronto-Dominion Bank, Canadian Imperial Bank of Commerce, Royal Bank of Canada, Banque Canadienne Nationale e Bank of Nova Scotia emitiu cartões sob a marca Chargex de 1968 a 1977. Na França, a rede era conhecida como Carte Bleue ("Cartão Azul"). A marca permaneceu por décadas associada a cartões Visa emitidos no país. No Japão, o Sumitomo Bank emitiu BankAmericards por intermédio da Sumitomo Credit Service. No Reino Unido, o Barclaycard foi por alguns anos o único emissor do BankAmericard. A marca continuou a ser usada posteriormente em cartões de outras redes, incluindo Mastercard e American Express. Na Espanha, o Banco de Bilbao foi o único emissor até 1979.
Em 1968, Dee Hock, então gerente do National Bank of Commerce, mais tarde Rainier Bancorp, recebeu a tarefa de supervisionar o lançamento da versão licenciada do BankAmericard pelo banco no mercado do noroeste do Pacífico. Embora o BofA transmitisse a impressão pública de que os problemas iniciais do programa haviam ficado para trás, Hock constatou que a própria estrutura de licenciamento estava desorganizada, depois de crescer rapidamente de forma ad hoc. As transações de intercâmbio entre diferentes bancos, por exemplo, haviam se tornado um problema importante, algo inexistente quando o BofA era o único emissor. Hock propôs a outros licenciados a criação de um comitê para estudar os problemas do programa e acabou escolhido para presidi-lo.NOCERA, Joseph. A Piece of the Action: How the Middle Class Joined the Money Class. pp. 89–92.
Após extensas negociações, o comitê liderado por Hock convenceu o Bank of America de que o futuro do BankAmericard estaria fora do controle direto do próprio banco. Em junho de 1970, o BofA transferiu a administração do programa às instituições emissoras. Elas criaram a National BankAmericard Inc. (NBI), uma corporação independente constituída em Delaware, responsável por administrar, promover e desenvolver o sistema BankAmericard nos Estados Unidos. Na prática, o BankAmericard deixou de ser um sistema de franquias e tornou-se um consórcio controlado conjuntamente por seus membros, de modo semelhante ao concorrente Master Charge. Hock tornou-se o primeiro presidente e diretor executivo da NBI.NOCERA, Joseph. A Piece of the Action: How the Middle Class Joined the Money Class. pp. 90–93.
O Bank of America, contudo, conservou o direito de licenciar diretamente o BankAmericard a bancos de fora dos Estados Unidos. Em 1972, já havia licenças em quinze países. Os licenciados internacionais passaram a enfrentar dificuldades semelhantes às dos norte-americanos e contrataram Hock como consultor para reorganizar a relação com o BofA. Como resultado, em 1974 foi criada a International Bankcard Company (IBANCO), uma associação multinacional de membros destinada a administrar o programa BankAmericard internacional.