"Never Again" é uma canção da cantora e norte-americana Kelly Clarkson, gravada para o seu terceiro álbum de estúdio, My December (2007). Composta pela intérprete em parceria com Jimmy Messer, a sua produção musical esteve a cargo de David Kahne. A obra foi lançada digitalmente e enviada para as emissoras de rádio dos Estados Unidos a 24 de abril de 2007 através da RCA Records, servindo como o primeiro lançamento promocional do disco, sendo posteriormente disponibilizada em suporte físico. Afastando-se da abordagem polida dos seus lançamentos precedentes, a composição enquadra-se nas linguagens do rock alternativo, hard rock e pop rock, impulsionada por acordes de guitarra elétrica, baixo, bateria e texturas discretas de teclados. No plano lírico, a narrativa articula uma confissão crua e amarga sobre as feridas deixadas por uma traição conjugal, na qual a narradora expressa revolta perante a hipocrisia do antigo companheiro e assume uma determinação inabalável em nunca mais permitir a sua subjugação emocional.

A receção crítica concedida à faixa foi predominantemente favorável: diversos avaliadores elogiaram a visceralidade da interpretação e a coragem artística de Clarkson ao afastar-se das fórmulas comerciais convencionais, classificando a gravação como uma contraparte mais sombria e agressiva de "Since U Been Gone" e comparando a sua autoridade vocal aos repertórios de Alanis Morissette e Pat Benatar. O lançamento ficou igualmente marcado por tensões contratuais de mediatização pública entre a cantora e a sua editora discográfica, cujos executivos manifestaram relutância inicial em apoiar o tema e o direcionamento estético do disco. Em termos comerciais, o tema estreou-se na 8.ª posição da tabela norte-americana Billboard Hot 100 impulsionado por mais de 100 mil cópias digitais vendidas na primeira semana. Com mais de 1,21 milhão de unidades comercializadas nos Estados Unidos, o tema recebeu certificação de disco de ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA). No plano internacional, alcançou o 5.º lugar na Austrália e foi certificada com ouro pela Australian Recording Industry Association (ARIA), a 8.ª posição na Canadian Hot 100, sendo agraciada com igual galardão de ouro pela Music Canada.

O teledisco correspondente, realizado por Joseph Kahn, estreou a 11 de maio de 2007 e retrata a cantora como um espírito vingativo que atormenta a consciência do ex-parceiro após este ter tentado afogá-la numa banheira. A divulgação incluiu atuações ao vivo como parte da sua inclusão no alinhamento de quatro digressões mundiais da intérprete, entre as quais a My December Tour e a Stronger Tour.

Antecedentes e lançamento A génese concetual do registo remonta ao período de composição de "Since U Been Gone" e "Behind These Hazel Eyes", ambas integradas com repercussão comercial no segundo álbum de estúdio de Kelly, Breakaway (2004). Embora a peça não tenha sido inicialmente concebida com o intuito de estabelecer uma réplica temática àquelas gravações, a cantora ajustou a sua sonoridade para proporcionar um contraste mais cru e sombrio com os registos anteriores. A fase de produção do terceiro álbum de estúdio da artista, My December, ficou marcada por diferendos criativos entre Clarkson e os responsáveis da sua editora discográfica, a RCA Records, liderada pelo produtor executivo Clive Davis. Perante a resistência da empresa, que considerava o reportório excessivamente pesado para os padrões radiofónicos e sugeriu a exclusão do tema do alinhamento final, a vocalista insistiu categoricamente na sua inclusão como faixa de abertura do disco:

A 24 de abril de 2007, a RCA enviou formalmente a composição para as estações de rádio de música contemporânea dos Estados Unidos na qualidade de primeiro single do disco, disponibilizando-a em simultâneo nas lojas digitais. A 17 de maio de 2007, foi editada digitalmente em diversas plataformas internacionais, incluindo a iTunes Store de Portugal, Austrália, Brasil, França e Itália. No Reino Unido e na Alemanha, a faixa beneficiou de lançamentos físicos em formato de CD single a 11 e 22 de junho de 2007, contendo a gravação original acompanhada por uma remistura assinada pelo produtor Dave Audé. A campanha de divulgação integrou apresentações ao vivo em palcos mundiais, com a canção a figurar no alinhamento das digressões My December Tour (2007–2008), 2 Worlds 2 Voices Tour, All I Ever Wanted Tour (2009–2010) e Stronger Tour (2012).

Estrutura musical e composição

"Never Again" é uma composição de tempo moderadamente acelerado enquadrada nas linguagens do rock alternativo, hard rock e pop rock, com uma duração temporal de 3 minutos e 36 segundos. A produção esteve a cargo do norte-americano David Kahne, tendo sido gravada ao longo de 2007 nos estúdios Mower e The Village Recorder, situados na Califórnia. A instrumentação demarca-se pelas linhas rítmicas de guitarra elétrica tocadas por Jimmy Messer, pela percussão incisiva de bateria executada por Shawn Pelton — cujo andamento foi aproximado pelos analistas à estética dos Queens of the Stone Age —, pelo baixo de Billy Mohler e pelos arranjos de teclados assegurados por Kahne e Jason Halbert. A fase de mistura foi finalizada por Andy Wallace, assistido por Mike Schielzi. Em entrevista à MTV News, Clarkson apontou "You Oughta Know", de Alanis Morissette, e as gravações de Pat Benatar como influências estilísticas centrais para o projeto, relatando com agrado a rejeição inicial de alguns responsáveis da editora que consideravam a melodia demasiado parecida com o repertório de Benatar:

A letra foi escrita pela intérprete em colaboração com Jimmy Messer. De acordo com a partitura musical publicada pela Alfred Publishing Company, a peça foi composta no compasso de tempo comum (4/4), estabelecendo um andamento vivo de 138 batidas por minuto na tonalidade de sol menor. O alcance vocal despendido pela cantora abrange o intervalo compreendido entre a nota grave de sol na terceira oitava (G3) e a nota aguda de mi bemol na quinta oitava (E♭5). No plano temático, a lírica articula o ressentimento visceral perante a deslealdade amorosa, canalizando a dor através de versos amargos dirigidos ao antigo parceiro e à sua nova companheira: "Espero que o anel que lhe deste torne o dedo dela verde / Espero que quando estiveres na cama com ela penses em mim". Sal Cinquemani, na publicação Slant Magazine, caracterizou a sua estrutura como uma vertente mais áspera e menos imediata do reportório de Breakaway.

Receção pela crítica

Após o seu lançamento, a faixa acolheu apreciações predominantemente positivas da imprensa especializada. Bill Lamb, no portal About.com, atribuiu quatro estrelas de cinco possíveis à faixa, elogiando a produção de Kahne por colocar a voz da artista no epicentro da mistura sonora com "um aviso sério sem soar à beira do colapso", observando que o registo ostenta força e autoridade, embora tenha apontado que o texto poético se revela menos ameaçador do que "Before He Cheats", interpretada por Carrie Underwood. Chuck Taylor, na revista norte-americana Billboard, considerou que a obra "marca o seu regresso antecipado e áspero", asseverando que a gravação se posiciona na linhagem de "Since U Been Gone" como "um dos melhores regressos, mas com uma falta de humor desarmante". Nick Levine, em texto para o sítio britânico Digital Spy, sublinhou que a faixa representava "um indicador útil de onde Clarkson estava com a cabeça quando a escreveu", destacando a agressividade dos acordes frenéticos de guitarra.

Sarah Rodman, no diário The Boston Globe, assinalou que o desempenho interpretativo "chega perto, agradável na mesma, dos poderes vocais de Alanis Morissette e Pat Benatar", aproximando a tensão da gravação a momentos de "Gimme Shelter" e "Nebraska". Stephen Thomas Erlewine, na base de dados musical AllMusic, selecionou a obra como um dos pontos mais altos de My December. Chris Willman, na revista Entertainment Weekly, reparou que "era uma diversão subversiva testemunhar a querida da América usando 'Never Again', o primeiro lançamento ele-fez-me-mal, para se reinventar como uma banshee (desejando gangrena ao inimigo, não menos [que isso])". Spence D., na plataforma IGN, elogiou a rotura estética promovida pela canção, asseverando que a cantora "solta os verbos com entusiasmo". Numa perspetiva discordante, J. Freedom du Lac, no jornal The Washington Post, lamentou a ausência de uma melodia tão marcante quanto as criações concebidas por Max Martin em trabalhos anteriores. Susan Frances, na publicação Hybrid Magazine, descreveu a faixa como uma impulsão vigorosa de pop rock, Tony Heywood, no sítio musicOMH, classificou-a como "uma inteligente explosão de metal mini-pop de angústia e raiva", e Brendan Butler, no portal Cinema Blend, considerou-a a criação mais apelativa do disco para as emissoras de rádio. A revista Rolling Stone posicionou a composição no 99.º lugar da sua lista das 100 melhores canções de 2007 e, a 14 de maio de 2014, a Billboard classificou a música em 26.º lugar na sua lista dos 100 maiores êxitos de sempre do American Idol.

Vídeo musical thumb|esquerda|240px|alt=Captura de ecrã do teledisco com Kelly Clarkson a observar friamente o ex-namorado.|No teledisco, Clarkson surge como uma manifestação sobrenatural que persegue o antigo companheiro após a rutura. O vídeo musical foi filmado em Los Angeles entre 11 e 13 de abril de 2007 sob a direção do realizador norte-americano Joseph Kahn, marcando a segunda colaboração deste com a cantora após "Walk Away". A sua estreia ocorreu a 1 de maio de 2007 na plataforma digital iTunes Store nos Estados Unidos e na Austrália.

O enredo audiovisual inicia-se de forma dramática com o antigo companheiro da protagonista (interpretado pelo ator Dominic Figlio) a afogá-la numa banheira. O homem desloca-se de seguida para um aeroporto com o intuito de se encontrar com a sua amante, mas começa a ser consumido pela culpa e pelo pânico ao testemunhar aparições constantes do espírito de Clarkson: a cantora surge no banco de trás do automóvel, materializa-se nos corredores do terminal e confronta-o visualmente. Clarkson traçou paralelismos entre a atmosfera de suspense do projeto e o enredo do filme What Lies Beneath (2000):

Em planos alternados, a intérprete aparece a cantar acompanhada pela sua banda numa sala inteiramente branca, trajando vestuário da mesma cor; Clarkson esclareceu que o cenário despojado visava transmitir a sensação de frieza emocional provocada pela desilusão amorosa. No desfecho da metragem, a protagonista ressurge incólume da banheira, revelando que a agressão fora um pesadelo vivido pelo homem no carro, terminando com a cantora a abandonar a residência e a conduzir em direção ao horizonte. Anna Pickard, no jornal britânico The Guardian, elogiou a narrativa como "um vídeo complexo, com tantas voltas e reviravoltas inteligentes", analisando as diferentes leituras psicológicas facultadas pela montagem.

Faixas e formatos A versão digital padrão de "Never Again" compreende apenas a gravação original da faixa com a duração de três minutos e trinta e seis segundos. Na Europa foi comercializada igualmente uma edição física em CD single congregando a gravação original e a remistura oficial concebida por Dave Audé.

Desempenho comercial