O Reino Lombardo, (), foi um Estado que existiu na península Itálica a partir de 568, como resultado da conquista de grande parte da península pelos lombardos comandados por Alboíno, e durou até a conquista franca em 774. A conquista lombarda trouxe como consequência a divisão política da península Itálica, que permaneceria por três séculos com uma parte bizantina e uma parte lombarda.

Os lombardos foram uma das tribos que formavam os suevos e, durante o , viveram no norte da atual Alemanha e no baixo rio Elba. Ocasionalmente travaram batalhas com os romanos, mas parece que eram principalmente pastores e fazendeiros até o . A situação mudou ao iniciar-se o período das grandes migrações de povos procedentes do leste. No final do , estabeleceram-se na região que hoje é a Áustria, no território anteriormente ocupado pelos rúgios. No começo do , se estabeleceram na Panônia (hoje o oeste da Hungria), como federados autorizados pelo imperador Justiniano . Nesta época, tinham começado a mudar sua organização tribal para outra forma liderada por duques e condes que comandavam bandos de guerreiros reunidos em um reino.

O contexto social e político na península Itálica no século VI

Em 568, a península Itálica gozava catorze anos de paz após a terrível Guerra Gótica. Em 554, o imperador bizantino Justiniano tinha estendido à Itália a validade do Corpus Juris Civilis, anulando com isso os decretos dos últimos reis ostrogodos, durante a guerra, a favor das classes mais humildes para dar vigor à resistência anti-bizantina.

Justiniano tinha criado circunscrições com um iudex e um duque, a cargo, respectivamente, dos assuntos civis e da organização militar. A sede do governo bizantino estava inicialmente em Roma e depois em Ravena. Fora da jurisdição daquela que se tornou a Prefeitura pretoriana da Itália, estavam as províncias África, Sicília, Sardenha e Córsega e a Ilíria.

Junto com as tropas bizantinas, haviam chegado também os funcionários da eficiente burocracia justiniana, os quais junto com a paz e a ordem trouxeram a capacidade de cobrar impostos. A paz bizantina tinha um preço alto para a população: o poder dos grandes proprietários e pesados impostos. Assim se explica como os lombardos não encontraram uma grande resistência.

A invasão da península Itálica

Em 560, o novo e enérgico lombardo rei Alboíno derrotou os vizinhos gépidas, os fez seus súditos e, em 566, casou-se com Rosamunda, filha do derrotado rei Cunimundo . Na primavera de 568, Alboíno liderou os lombardos para invadir o norte da península Itálica. Os invasores não contavam com autorização de nenhuma espécie do imperador bizantino.

A 3 de abril de 568, dois dias após a Páscoa, Alboíno começou a cruzar os Alpes Julianos seguido de uma multidão. Junto aos lombardos havia também muitos de seus aliados saxões (vinte mil, segundo Paulo, o Diácono). Seguiam junto também pessoas de outras etnias anteriormente submetidas aos lombardos: gépidas, búlgaros, sármatas, panônicos, suevos, nóricos. Devem-se considerar também os rúgios e hérulos já assimilados aos lombardos. Havia também godos já residentes na Itália que decidiram apoiar o líder lombardo. Não eram apenas guerreiros: seguiam-nos mulheres e filhos numa massiva migração, que se estima em cerca de cento e cinquenta mil pessoas, número surpreendente para a época, considerando-se que a invasão dos ostrogodos no século anterior reuniu cerca de cem mil pessoas.

A primeira cidade importante a cair foi Fórum Júlio (atual Cividale del Friuli), no nordeste da península. Então Alboíno criou o primeiro ducado lombardo, o Ducado do Friul, onde ele entronizou seu sobrinho Gisulfo I do Friul. Logo Verona, uma das cidades mais caras a Teodorico, o Grande e Bréscia, que haviam sido sede das últimas resistências dos ostrogodos aos bizantinos, caíram em mãos lombardas. Verona torna-se o quartel-general dos lombardos ao sul dos Alpes. Cividale constituía um ponto estratégico de defesa para eventuais ataques vindos do leste e para uma eventual retirada rumo à Panônia.

Em seguida, outros ducados foram criados nas principais cidades do reino, solução em primeiro lugar militar: os duques lombardos eram em primeiro lugar comandantes, com o dever de completar o controle do território e protegê-lo de possíveis contra-ataques. Esta solução foi a semente da debilidade estrutural do poder monárquico lombardo.

No verão do ano seguinte (569), os lombardos conquistaram a principal cidade romana do norte da península, a ex-capital do império, Mediolano (atual Milão). A área estava então recuperando-se da Guerra Gótica, e o pequeno exército bizantino deixado para sua defesa não pôde fazer quase nada.

Após a conquista de Milão, a resistência bizantina começou a sentir-se: Ticino (atual Pavia) cairia somente em 572, após três anos de assédio, quando os lombardos já dominavam a Toscana e outros territórios ao norte da península.

Questiona-se hoje a razão da conquista ter-se efetuado tão rapidamente e com tão pouco resistência. A primeira teoria é que a Itália estava debilitada e os bizantinos, tendo a via de acesso terrestre pela Panônia impedida pelos ávaros, aliados dos lombardos, levaram algum tempo para reorganizar suas tropas. A segunda teoria pressupõe que os invasores teriam tido a preferência dos autóctones já cansados do mau governo dos prefeitos de Constantinopla. Em matéria religiosa, os lombardos eram mais tolerantes que os bizantinos. Em questão tributária, esperava-se dos lombardos apenas algumas taxas, diferente dos pesados tributos exigidos pelos governadores bizantinos. Deve-se recordar que após a Guerra Gótica, o ex-território ostrogodo estava muito empobrecido, especialmente o campo e esta situação era atribuída (quase sempre com razão) aos próprios bizantinos.

O prefeito pretoriano da Itália enviado pelo imperador Justino II , Longino, pôde defender somente as cidades costeiras abastecidas pela poderosa frota bizantina. Pavia caiu depois de um sítio de três anos, em 572, tornando-se a primeira capital do novo Reino Lombardo. Nos anos seguintes, os lombardos penetraram mais ao sul, conquistando a Toscana e estabelecendo os ducados de Espoleto e Benevento, sob Zoto, os quais breve se tornaram semi-independentes e duraram mais que o reino do norte, sobrevivendo até o . O Império Bizantino conseguiu manter o controle das áreas de Ravena e de Roma, ligadas por um fino corredor através de Perúgia.

A organização do novo reino thumb|upright=1.2|Os domínios lombardos após a morte de Alboíno (572) e as conquistas de Faroaldo e Zoto (ca. 575)

Todo o território lombardo era dividido em 35 ducados. Tinham grande variedade de extensões: os quatro maiores foram o de Friul, o de Trento, de Espoleto e de Benevento.

Também tiveram notável importância os de Bérgamo, Ivrea e de Cápua. Os duques se estabeleceram nos centros urbanos, mas a maioria dos lombardos distribui-se por todo o território por eles ocupado.

Porém o domínio lombardo não resultou na formação de um novo Estado unitário: isso aconteceu só num segundo momento e de forma muito limitada, pois o Reino Lombardo, mesmo em seu máximo esplendor, sempre teve particularidades, como a ausência de um eficiente poder central e o caráter eletivo da monarquia.

A península Itálica nunca foi totalmente lombarda, mas sim dividida em duas partes que foram indicadas com os nomes Lombardia (isto é, terra dos lombardos) e Romania (isto é, terra dos romanos, ou seja bizantinos), as quais ainda hoje designam duas regiões italianas, a Lombardia e a Emília-Romanha. Nenhuma das duas parte possuía uma homogeneidade.

A partir do reinado de Autário, a administração das terras passou a ser feita por meio de emissários chamados gastaldos ("gastaldi").

A subdivisão do reino, porém, junto com a indocilidade dos duques, privou o Estado de unidade, fazendo-o fraco mesmo em comparação aos bizantinos, especialmente depois que estes últimos começaram a se recuperar da invasão inicial. Esta fraqueza tornou-se mais evidente quando os lombardos tiveram que enfrentar o crescente poder dos francos. Em resposta a este problema, os reis tentaram centralizar o poder ao longo do tempo, mas eles perderam definitivamente o controle sobre os ducados de Espoleto e Benevento durante a tentativa.

O rei Autário e a consolidação do Estado

Alboíno foi assassinado em 572 em Verona por um golpe liderado por sua esposa, que depois fugiu para os domínio bizantinos em Ravena.

O sucessor de Alboíno, Clefo, foi também assassinado, depois de um reinado de 18 meses. Após sua morte, começou um período de dez anos (Domínio dos Duques), durante os quais os duques não elegeram nenhum rei, e que foi um período de violência e desordem.

Em 584, ameaçados por uma invasão dos francos, os duques elegeram o filho de Clefo, Autário, como rei. Enquanto isso, Autário iniciou uma política de reconciliação interna e tentou reorganizar a administração real. Os duques reservaram metade de suas propriedades para a manutenção do rei e sua corte em Pavia, criando assim uma base econômica para o reino. Autário desenvolveu uma política interna para que seu povo deixasse de ser formado por bandos armados para transformar-se numa gens de forma a dar vida a um Estado. Outorgou-se o título Flávio inserindo-se assim na tradição que já incluía Odoacro e Teodorico, o Grande. Desta forma, os dominadores germânicos reivindicavam parentesco com a estirpe imperial dos Flávios para legitimar-se junto aos seus súditos romanos.

Na política externa, Autário trabalhou para desfazer a perigosa aliança entre os bizantinos e os francos.

Em 589, Autário desposou Teodolinda, filha do duque dos bávaros, Garibaldo I da Bavária. A católica Teodolinda foi amiga do papa Gregório I e trabalhou pela cristianização do reino.

Autário morreu em 590, provavelmente envenenado num complô palaciano, conforme relatado por Paulo, o Diácono. A sucessão ao trono foi decidida de maneira romântica: Foi a jovem rainha viúva Teoldolinda, bávara mas portadora de sangue dos letíngios, a escolher o herdeiro do trono e seu novo marido: o duque de Turim, Agilolfo. No ano seguinte (591), Agilofo recebeu a investidura pela assembleia dos lombardos reunida em Milão. A influência da rainha sobre a política de Agilolfo foi notável e as principais decisões são atribuídas a ambos.

Agilofo combateu com sucesso os duques rebeldes do norte da península, conquistando Pádua (601), Cremona, e Mântua (603), e forçando o exarca de Ravena a pagar um tributo. Teodolinda reinou sozinha de 616 até 628, e foi sucedida por Adaloaldo. Este foi sucedido por Arioaldo, que tinha desposado a filha de Teodolinda, Gundeberga, cabeça da oposição ariana.

Rotário e seus sucessores thumb|upright=1.2|Os domínios lombardos quando morreu Rotário (652).

Seu sucessor foi o duque de Bréscia, Rotário, considerado por muitos como o mais enérgico de todos os reis lombardos. Rotário estendeu os domínios lombardos, conquistou a Ligúria com sua capital Gênova bem como a cidade romana de Opitérgio (atual Oderzo), até então sob domínio bizantino. Obteve ainda uma grande vitória sobre os bizantinos no rio Panaro, na qual, segundo Paulo, o Diácono, teriam morrido oito mil "romanos" (o exército bizantino do Exarcado de Ravena). Porém Rotário não chegou a conquistar o exarcado, o que levanta dúvidas sobre a cifra.

Ele também publicou o famoso Édito de Rotário (643), que estabeleceu as leis e costumes de seu povo em latim, ainda que com barbarismos e imprecisões. É o mais antigo documento escrito pelos lombardos que chegou até nossos dias. Representou uma importante etapa no processo de abandono de sua língua em favor do latim, seja o culto, seja o vulgar.

Com a morte de Rotário, seu filho Rodoaldo o sucedeu em 652, ainda muito jovem, e foi morto pelo partido católico.