O sistema verbal do crioulo cabo-verdiano é notoriamente diferente do sistema verbal do português, e em contrapartida apresenta similaridades com o sistema verbal de outras linguas africanas (oeste atlanticas) que estão no substrato do caboverdiano e de outros crioulos, quer sejam de origem lexical portuguesa ou não (ver Syntactic similarities of creoles — em inglês).

Para o resto da gramática:. Para o ortografia que será usada neste artigo:.

Descrição Os verbos não apresentam flexão. Têm a mesma forma para todas as pessoas, e as noções de tempo, modo e aspecto são expressas através da presença (ou ausência) de morfemas (chamados actualizadores verbais por VeigaVeiga, Manuel — 2000), como na maioria dos crioulos.

Os verbos encontram-se geralmente reduzidos a duas formas de base, uma para o presente, outra para o passado. A forma para o presente é quase sempre igual à forma do infinito (excepção: verbo sêr «ser»), que por sua vez deriva, na maioria dos verbos, do infinito em português, mas sem o r final. Por ex.: cantâ /kɐ̃ˈtɐ/ (do português «cantar»), mexê /meˈʃe/ (do português «mexer»), partí /pɐɾˈti/ (do português «partir»), compô /kõˈpo/ (do português «compor»), *lumbú /lũˈbu/ (de «pôr no lombo»). A forma para o passado é formada a partir da forma para o infinito à qual se liga a partícula para o passado ~ba, que quase todos os académicos dizem derivar da terminação ~va do pretérito imperfeito dos verbos da 1.ª conjugação em português. Por ex.: cantába /kɐ̃ˈtabɐ/, mexêba /meˈʃebɐ/, partíba /pɐɾˈtibɐ/, compôba /kõˈpobɐ/, *lumbúba /lũˈbubɐ/ (nas variantes de Barlavento, a partícula para o passado ~va (ou ~ba) liga-se ao actualizador imperfectivo, e não ao verbo). É notório o facto de os crioulos da Alta-Guiné colocarem a partícula do passado depois do verbo e não antes dos outros actualizadores verbais, como na maioria dos crioulos (ver Syntactic similarities of creoles — em inglês).

É importante referir que, na variante de Santiago, o acento recua para a penúltima sílaba nas formas de base para o presente. Assim temos: cánta /ˈkãtɐ/ em vez de cantâ /kɐ̃ˈtɐ/, mêxe /ˈmeʃe/ ou mêxi /ˈmeʃi/ em vez de mexê /meˈʃe/, pârti /ˈpɐɾti/ em vez de partí /pɐɾˈti/, cômpo /ˈkõpo/ ou cômpu /ˈkõpu/ em vez de compô /kõˈpo/, búmbu /ˈbũbu/ em vez de bumbú /bũˈbu/. Nas formas pronominais, no entanto, o acento mantém-se na última sílaba. Assim temos: cantâ-m’ /kɐ̃ˈtɐ̃/, mexê-bu /meˈʃebu/, partí-’l /pɐɾˈtil/, compô-nu /kõˈponu/, bumbú-’s /bũˈbuz/.

Verbos regulares Conforme foi dito anteriormente, os verbos regulares encontram-se reduzidos a uma forma para o presente e uma forma para o passado, e as noções de modo e aspecto fazem-se através de actualizadores verbais.

Modo anunciativo (ou indicativo) O modo anunciativo (ou indicativo) é usado para exprimir acções reais, quer aconteçam ou não.

Tempo presente Aspecto perfectivo O aspecto perfectivo do presente é usado quando o discurso refere-se a situações presentes, mas que já terminaram, que já estão acabadas. Para tal usa-se apenas a forma base para o presente do verbo: suj. + V. Ex.:

Êl cantâ. /el kɐ̃ˈtɐ/ «Ele cantou.»

Corresponde aproximadamente ao pretérito perfeito do indicativo em português.

Aspecto imperfectivo O aspecto imperfectivo do presente é usado quando o discurso refere-se a situações presentes, mas que ainda não terminaram, que ainda estão a decorrer. Para tal usa-se o actualizador imperfectivo tâ /tɐ/ seguido da forma base para o presente do verbo: suj. + tâ + V. Ex.:

Ês tâ bái. /ez tɐ baj/ «Eles vão.»

Corresponde aproximadamente ao presente do indicativo em português.

Aspecto progressivo O aspecto progressivo do presente é usado quando o discurso refere-se a situações presentes, que estão a acontecer de uma forma contínua, ininterrupta. Para tal usar-se-ia o actualizador progressivo stâ /stɐ/, seguido do actualizador imperfectivo tâ /tɐ/, seguido da forma base para o presente do verbo: suj. + stâ + tâ + V.

No entanto, o modelo apresentado já não existe. Evoluiu para quatro modelos distintos. Nas variantes de Brava, Fogo e Maio o modelo é: suj. + stâ + V. Ex.:

M’ stâ cumê. /ƞ stɐ kuˈme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.»

Na variante de Santiago o modelo é: suj. + sâ + tâ + V. Ex.:

M’ sâ tâ cúme. /ƞ sɐ tɐ ˈkume/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.»

Nas variantes de Boa Vista, Sal e São Nicolau o modelo é: suj. + tâ + tâ + V. Ex.:

M’ tâ tâ c’mê. /m tɐ tɐ kme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.»

Nas variantes de São Vicente e Santo Antão o modelo é: suj. + tí + tâ + V. Ex.:

M’ tí tâ c’mê. /m ti tɐ kme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.»

Obs.: Alguns autoresSilva, Baltasar Lopes da — 1957 não consideram como um aspecto, mas sim, como uma perífrase verbal formada com o verbo auxiliar stâ.

Corresponde aproximadamente à perífrase durativa do presente do indicativo em português.

Futuro do presente Não existe em crioulo nenhuma forma específica para o futuro. O futuro do presente pode ser expresso de três formas:

1 – Através do imperfectivo do presente com a função de futuro. Ex.: M’ tâ tchigâ manhã. /m tɐ ʧiˈɡɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegarei amanhã.» 2 – Através do verbo auxiliar «ir». Ex.: M’ tâ bái tchigâ. /m tɐ baj ʧiˈɡɐ/ «Eu vou chegar.» 3 – Através de uma perífrase a indicar uma eventualidade. Ex.: M’ ál tchigâ. /m al ʧiˈɡɐ/ «Eu hei de chegar.»

Corresponde aproximadamente ao futuro do indicativo em português.

Tempo passado Aspecto perfectivo O aspecto perfectivo do passado é usado quando o discurso refere-se a situações passadas, mas que já tinham terminado, que já estavam acabadas. Para tal usa-se apenas a forma base para o passado do verbo: suj. + V+ba. Ex.:

M’ mexêba. /m meˈʃebɐ/ «Eu mexera. / Eu tinha mexido.»

Esta forma não existe nas variantes de Barlavento. Para suprir essa falta, as variantes de Barlavento utilizam uma construção apoiada no português. Ex.:

M’ tínha mixíd’. /m ˈtiɲɐ miˈʃid/ «Eu mexera. / Eu tinha mexido.»

Corresponde aproximadamente ao pretérito mais que perfeito do indicativo em português.

Aspecto imperfectivo O aspecto imperfectivo do passado é usado quando o discurso refere-se a situações passadas, mas que ainda não tinham terminado, que ainda estavam a decorrer. Para tal usa-se o actualizador imperfectivo tâ /tɐ/ seguido da forma base para o passado do verbo: suj. + tâ + V+ba. Ex.:

M’ tâ corrêba. /n tɐ koˈʀebɐ/ «Eu corria.»

Nas variantes de Barlavento a partícula para o passado vem ligada ao actualizador imperfectivo, e não ao verbo: suj. + tâ+va + V. Ex.:

M’ táva corrê. /m ˈtavɐ koˈʀe/ «Eu corria.»

Obs.: Em São Nicolau subsiste, paralelamente à forma descrita acima, a forma mais antiga suj. + tá + V+ba. Ex.: M’ tá corrêba. /m ta koˈʀebɐ/ «Eu corria.»

Corresponde aproximadamente ao pretérito imperfeito do indicativo em português. é nois

Aspecto progressivo O aspecto progressivo do passado é usado quando o discurso refere-se a situações passadas, que estavam a acontecer de uma forma contínua, ininterrupta. Para tal usar-se-ia o actualizador progressivo stâ /stɐ/, ligado à partícula para o passado ~ba /bɐ/, seguido do actualizador imperfectivo tâ /tɐ/, seguido da forma base para o presente do verbo: suj. + stâ+ba + tâ + V. No entanto, este modelo só se encontra presentemente nas variantes de Brava e Fogo. Ex.:

M’ stába tâ compô. /ƞ ˈstabɐ tɐ kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. / Eu estava arranjando.»

Nas variantes de Santiago e Maio o modelo é: suj. + sâ + tâ + V+ba. Ex.:

M’ sâ tâ compôba. /ƞ sɐ tɐ kõˈpobɐ/ «Eu estava a arranjar. / Eu estava arranjando.»

Nas variantes de Barlavento o modelo é: suj. + tâ+va + tâ + V. Ex.:

M’ táva tâ compô. /m ˈtavɐ tɐ kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. / Eu estava arranjando.»

Obs.: Alguns autores não consideram como um aspecto, mas sim, como uma perífrase verbal formada com o verbo auxiliar stâ. Corresponde aproximadamente à perífrase durativa do pretérito imperfeito do indicativo em português.

Futuro do passado Não existe em crioulo nenhuma forma específica para o futuro. O futuro do passado pode ser expresso de três formas:

1 – Através do imperfectivo do passado com a função de futuro. Ex.: M’ tâ tchigába manhã. /m tɐ ʧiˈɡabɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegaria amanhã.» 2 – Através do verbo auxiliar «ir». Ex.: M’ tâ bába tchigâ. /m tɐ ˈbabɐ ʧiˈɡɐ/ «Eu ia chegar.» 3 – Através de uma perífrase a indicar uma eventualidade. Ex.: M’ ál tchigába. /m al ʧiˈɡabɐ/ «Eu havia de chegar.»

Corresponde aproximadamente ao condicional (nas gramáticas portuguesas) ou ao futuro do pretérito (nas gramáticas brasileiras).

Modo subjuntivo (ou conjuntivo) O modo subjuntivo (ou conjuntivo) é usado para ações irreais, dependentes de uma outra acção real. É geralmente usado para acções dependentes de desejos, pedidos ou ordens.

Obs.: Alguns autores dizem não se tratar de um modo subjuntivo, mas de um infinito precedido de uma preposição.

Tempo presente Para o presente do subjuntivo usa-se apenas a forma do infinito: suj. + V. Ex.:

n’ crê pâ bú flâ. /m kɾe pɐ flɐ/ «Eu quero que tu fales.»

Corresponde aproximadamente ao presente do subjuntivo (conjuntivo) do português.

Tempo passado Para o passado do subjuntivo usa-se apenas a forma base para o passado: suj. + V+ba. Ex.:

n’ cría pâ bú flába. /ŋ ˈkɾiɐ pɐ bu ˈflabɐ/ «Eu queria que tu falasses.»

Nas variantes de Barlavento (excepto Santo Antão) usa-se a forma base para o presente: suj. + V. Ex.:

n’ cría pâ bô flâ. /m ˈkɾiɐ pɐ bo flɐ/ «Eu queria que tu falasses.»

Em Santo Antão o modelo é: suj. + V+ss’. Ex.:

n’ cría pâ bô dzêss’. /m ˈkɾiɐ pɐ bo dzes/ «Eu queria que tu dissesses.»

Corresponde aproximadamente ao pretérito imperfeito do subjuntivo (conjuntivo) do português.

Modo condicional O modo condicional no crioulo cabo-verdiano não é o mesmo que «condicional» nas gramáticas portuguesas. O modo condicional no crioulo cabo-verdiano é o modo que exprime uma condição, e não o modo expresso por uma condição. É geralmente usado em orações subordinadas condicionais ou temporais.

Tempo presente Para o presente do condicional usa-se apenas a forma do infinito: suj. + V. Ex.:

Sí bú bái pâ cása… /si bu baj pɐ ˈkazɐ/ «Se tu fores para casa…»

Corresponde aproximadamente ao futuro do subjuntivo (conjuntivo) do português.

Tempo passado Para o passado do condicional usa-se apenas a forma base para o passado: suj. + V+ba. Ex.:

Sí bu bába pâ cása… /si bu ˈbabɐ pɐ ˈkazɐ/ «Se tu fosses para casa…»

O modelo apresentado acima é apenas para as variantes de Sotavento. Nas variantes de Barlavento, para o passado do condicional usa-se o imperfectivo do passado do modo anunciativo: suj. + tâ+va + V. Ex.:

S’ bô táva bái pâ cása… /s bo ˈtavɐ baj pɐ ˈkazɐ/ «Se tu fosses para casa…»

Corresponde aproximadamente ao pretérito imperfeito do subjuntivo (conjuntivo) do português.

Modo eventual O modo eventual é usado para exprimir uma acção que pode eventualmente ocorrer, uma acção que não temos a certeza que vai acontecer ou que desejamos que aconteça. Esse modo é marcado por um actualizador verbal (com uma forma para o passado e uma forma para o presente) colocado antes do verbo.

Obs.: Alguns autores não consideram como sendo um modo verbal. Uns dizem tratar-se de uma perífrase verbal, outros dizem tratar-se de um aspecto verbal.

Tempo presente Existem dois modelos conforme as variantes. Nas variantes de Sotavento o modelo é: suj. + ál + V. Ex.:

Ál tchobê. /al ʧoˈbe/ «Há de chover.»

Nas variantes de Barlavento o modelo é: suj. + á + V. Ex.:

Á tchovê. /a ʧoˈve/ «Há de chover.»

Tempo passado Existem três modelos conforme as variantes. Nas variantes de Sotavento o modelo é: suj. + ál + V+ba. Ex.:

Ál tchobêba. /al ʧoˈbebɐ/ «Havia de chover.»

Nas variantes de Boa Vista, Sal e São Nicolau o modelo é: suj. + bé + V. Ex.:

Bé tchovê. /bɛ ʧoˈve/ «Havia de chover.»

Nas variantes de São Vicente e Santo Antão o modelo é: suj. + aví + V. Ex.:

Aví tchovê. /aˈvi ʧoˈve/ «Havia de chover.»

Modo injuntivo (ou imperativo)