Pronome relativo é um pronome que, no período composto, retoma um antepassado (palavra ou expressão anterior a ele), representando-o no início de uma nova oração. Normalmente vem depois de um adjunto adnominal, o termo acessório da oração que tem a função de caracterizar ou determinar um substantivo, o que pode ser feito através de verbos, adjetivos e outros elementos que desempenhem a função adjetiva - o antecedente o substitui.CUNHA, Celso Ferreira da; CINTRA, Luís Filipe Lindley, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 3a edição, 14a impressão, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001, ISBN 85-209-1137-4, pág. 342.

Formas e valores No português contemporâneo, as formas tradicionalmente listadas incluem que, quem, qual/o qual (e flexões), cujo (e flexões), quanto (e flexões, em construções partitivas) e onde (de valor locativo). Cada forma pode exercer diferentes funções sintáticas na relativa (sujeito, objeto, complemento regido por preposição, adjunto etc.), a depender da regência no interior da oração.

Que

É o relativizador mais frequente e polifuncional; pode ocorrer sem preposição (o livro que li) ou com preposição (o assunto de que tratamos). Em registros formais, alterna com o qual para evitar ambiguidades ou quando se exige preposição complexa.

Quem

Refere-se preferencialmente a antecedentes [+humanos] e tende a ocorrer com preposição (a pessoa a quem me dirigi), embora haja variação estilística.

O qual / a qual / os quais / as quais

Série variável que concorre com que, especialmente após preposição longa ou quando se deseja clareza referencial (as medidas sobre as quais discutimos).

Cujo / cuja / cujos / cujas

Marca relação genitiva entre antecedente e termo subsequente (a autora cujas obras…). Estudos de uso no português brasileiro apontam baixa produtividade fora do registro escolarizado.

Quanto / quantos / quanta / quantas

Aparece em construções partitivas, sobretudo após quantificadores como tudo (tudo quanto disse).

Onde (visão geral)

Forma invariável de valor locativo, equivalente a em que/no qual quando retoma um antecedente que denota lugar (a cidade onde nasci). Na tradição descritiva, também é classificado como advérbio relativo, em razão de seu comportamento híbrido.

O relativo onde em detalhe

Onde sem antecedente expresso e usos ampliados Descrições funcionalistas e variacionistas registram onde sem antecedente explícito (uso “indefinido/condensado”), quando a noção de lugar é inferida do contexto (O carro enguiçou onde não havia socorro). Pesquisas recentes apontam ainda extensões não locativas e processos de gramaticalização do item em variedades do PB, a depender de gênero textual, planejamento e monitoramento.

Perspectiva funcionalista sobre o relativo onde no português brasileiro Em abordagem funcionalista, onde é descrito como um item originalmente locativo que, no uso real do português brasileiro (PB), apresenta polifuncionalidade motivada por fatores discursivo-pragmáticos (coesão, acessibilidade referencial, economia de processamento) e por esquemas semânticos de âmbito/quadro (frame). Nessa perspectiva, além do valor canônico de localização (o bairro onde moro), registram-se extensões para domínios não estritamente espaciais, como tempo (o dia onde tudo mudou), razão (o motivo onde discordamos) e organização textual (o capítulo onde o autor explica), especialmente em fala espontânea e escrita menos monitorada.

Mudança e gramaticalização Os estudos apontam um processo de reanálise/gramaticalização orientada ao uso: de advérbio/relativo locativo, onde adquire traço mais abstrato de [+domínio], ampliando seu escopo referencial em contextos de alta frequência e baixa vigilância normativa. Essa mudança é compatível com princípios funcionalistas de economia e esquematicidade, sem eliminar a variante canônica locativa, que permanece preferida em registros formais.

Relação com a norma tradicional A gramática normativa descreve onde como relativo/advérbio de valor locativo, opondo-o a aonde (direção) e donde (proveniência). A pesquisa empírica, entretanto, mostra que falantes do PB expandem o uso de onde para além do espaço físico, gerando variação estável que a norma não reconhece plenamente; em contextos de maior formalidade, prevalecem em que e no qual para referentes não locativos.

Ligação com as estratégias de relativização do PB As extensões de onde dialogam com o quadro mais amplo das estratégias de relativas no PB — padrão (com movimento e pied-piping), cortadora e resumptiva — descritas desde Tarallo e desenvolvidas por Kato & Nunes, entre outros.

Referências adicionais

Ver também

Oração subordinada adjetiva Sintaxe do português Advérbio

Notas

Bibliografia

Categoria:Gramática Categoria:Pronomes