O curmânji () ou curdo setentrional é o dialeto curdo mais comumente falado na Turquia, Síria e em partes do Irã e do Curdistão Iraquiano,IRANICA: La lingua curda, all’origine di un popolo (em italiano) East Jounal. Pesquisa em 30/03/17 assim como em comunidades nos países que já fizeram parte da União Soviética, tais como a Armênia, a Geórgia, o Azerbaijão, o Turcomenistão e a própria Rússia, e pela comunidade curda do Líbano.

É a língua da religião nacional curda iazidi. É o único dos dialetos curdos falado nas quatro regiões do Curdistão.

A língua está em situação ativa e possui cerca de 23,335 milhões de falantes, representando 65% dos falantes de curdo (35 milhões espalhados pelos países Irã, Iraque, Síria e Turquia e uma diáspora de 900 mil vivendo na Europa).

O curdo faz parte da família linguística indo-europeia, pertencendo ao grupo iraniano. O curdo é formado por uma estrutura polidialética, incluindo os dialetos curmânji, sorâni, gorâni e dimili. O dialeto curmânji, o mais falado, possui características um pouco mais distantes em relação aos outros em sua fonética e morfologia. No começo, o alfabeto árabe era utilizado para escrevê-lo com leves modificações, adaptando-se posteriormente aos alfabetos utilizados nos Estados que não o reconheciam. Atualmente, é utilizado o alfabeto latino na Turquia e Síria, o alfabeto árabe no Irã e Iraque e o alfabeto cirílico nos países que fizeram parte da União Soviética.

Os curdos em geral também chamam kurmanji aos curdos que falam esse dialeto especificamente. Esse termo diferencia-os de outros curdos que falam outros dialetos, bem como dos "Gorani" e os "Dimili" (também chamados "Zazas"), que são povos do noroeste do Irã, que se identificam como falantes de línguas ditas “Zaza-Gorani”.

Etimologia

A principal teoria a respeito da etimologia do termo curmânji é que esse nome, conforme o intelectual curdo que introduziu o alfabeto latino na língua, o príncipe Jaladet Bedirkhan, vem de kurd+man+cî que significa “aquele curdos que ficaram em seus locais de origem (que não se moveram como os demais)”. Nas antigas publicações do século XXI, o termo kurmanji era transliterado com “d” (“kurdmanji”), mas a pronúncia padrão é curmânji em português ou inglês, kurmancî (/kurmanʤi/) em curdo. O nome "curdo setentrional" é utilizado pois o curmânji é o dialeto curdo falado principalmente no norte do Curdistão.Ludwig, Paul (1994). Kurdisch - Wort für Wort, p. 17. ISBN 978-3-8317-6436-5 (em alemão)

Há outra teoria etimológica pela qual a palavra kurmanji, conforme alguns estudiosos, significa povo curdo meda.E.B. Soane, Grammar of the Kurmanji or Kurdish Language, Part I, p 5, London 1913 Alguns estudiosos dizem também que a antiga forma de “kurmanji” era khormenj ou y hormenj, cujo significado era “lugar ou pátria dos khormens” em curdo. Os curdos historicamente viveram em territórios que, segundo os autores gregos clássicos, se chamavam Arménia; assim o termo grego k armen poderiam significar um local dos khormen.

Teoria dos Magos Mesture Erdelan|miniaturadaimagem|190px|Estátua da poetisa curda Mastoureh Ardalan em Sine, Irão

Outros especialistas dizem que quaisquer das teorias acima são falsas. Esses dizem que o termo kurmanji vem de duas palavras curdas: kur (“menino” ou “criança”) e mago. Magos se refere a uma das antigos povos do antigo império meda, dentre cujos sacerdotes estariam os três reis magos da Bíblia, do Evangelho de São Mateus.The Magi - A short history

A tradução direta e literal aplicada ao termo kurên magî seria “filhos dos magos”. Os estudiosos veem a palavra manji como uma simples forma distorcida do termo original “magi”. Esses estudiosos também citam a tribo magi como seguidores dos sacerdotes, tribo essa da qual devem ter sido os primeiros falantes de uma língua “proto-curda”.Who Were the Magi?Malte-Brun, Conrad (1853). La Geografía universal, ó, Descripción de todas las partes del mundo según un nuevo plan: precedida de una historia general de la geografía de todos los pueblos antiguos y modernos, y de una teoría general matemática, física y política, p. 429. ISBN 978-0428754495 (em espanhol)

É certo que há documentos pré-modernos que apresentam escrita a forma kurmanj em vez de kurmaj. Mastoureh Ardalan, poetisa curda, escreveu: ... o terceiro grupo dos kurmaj são os “baban” . Também, os curdos tenderiam a adicionar um n antes do j (ex. do persa taj, emprestado ao curdo como tanj).

Distribuição geográfica No Curdistão Iraquiano, é falado no norte do país, principalmente nas cidades de Duhok, Zaco, Acre, Amádia, Xeicã e Xangal. Nas áreas norte do Curdistão do Irã, é falado nas cidades de Úrmia, Macu, Coi e ainda entre os curdos exilados na província iraniana do Coração. Na Anatólia medial (Turquia), é ouvido nas cidades de Ancara, Cônia, Querxequir e em algumas outras. Pode-se encontrar falantes de curmânji no oeste da Armênia, Azerbaijão e Geórgia. É falado também em torno de Cabul, capital do Afeganistão, e ainda no Paquistão.

O curmânji é tido como língua oficial do Curdistão Iraquiano, sendo ensinado nas escolas e utilizado nos empregos e na administração. Os falantes de curdo, em sua maioria, são multilíngues, frequentemente tendo a língua dos países vizinhos como segunda língua, a exemplo do turco, do árabe e do persa.

O curmânji é o dialeto curdo que abrange a maior área de falantes, espalhando-se por toda a região do Curdistão. O sorâni é falado principalmente nas regiões do norte do Iraque e oeste do Irã, o gorâni é falado no sul do Curdistão Iraquiano. Já o dimili é falado na porção centro-leste da Turquia.

O curmânji falado no Iraque chama-se "badînî", em função dos curdos curmânji que vivem na região Bahdinan.

Chama-se "shikaki" no Irã, por virtude de a maior tribo curmânji nesse território ser a shikak, a tribo do lendário líder curdo Ismail Agha Shikak.C. Dahlman, "The Political Geography of Kurdistan", Eurasian Geography and Economics, pp. 271-299, No.4, Vol.43, 2002. p.283B. O'Leary, J. McGarry,The Future of Kurdistan in Iraq, University of Pennsylvania Press, 355 pp., ISBN 0-8122-1973-2

História e sociopolítica O curmânji é derivado da mesma língua iraniana que deu origem ao persa médio, o proto-iraniano. Há hipóteses de que ele tenha sido influenciado pela língua meda, ou língua dos medos, antigo povo que entre 800 a.C. e 300 a.C conquistou toda a área do atual Curdistão. A língua meda compartilha da mesma família linguística do curmânji, a indo-iraniana, do ramo ocidental do noroeste. O curmânji, juntamente com os demais dialetos, evoluíram paralelamente pela região do Curdistão, formando atualmente uma espécie de macrolíngua curda.

Iazidis of Mount Sinjar|miniaturadaimagem|120px|Grupo de iazidis em Jabal of Sinjar.

Entretanto, não há registros escritos do curmânji antes da islamização da região, no século VII. O Meshaf Resh, texto sagrado do iazidismo, uma ancestral religião curda que tem o curmânji como língua oficial, escrito em uma forma ancestral de curdo setentrional, representa o texto mais antigo em curdo encontrado.

O curmânji passou a ser falado por assírios de Tur Abdim após o fim do Império Otomano.Gaunt, David (2006). Massacres, Resistance, Protectors: Muslim-Christian Relations in Eastern Anatolia During World War I. Gorgias Press. p. 4. ISBN 978-1-59333-301-0. Também há registros de que haviam cerca de 110 aldeias armênias que falavam curmânji em e Silvane, sendo que algumas foram dizimadas no genocídio armênio.Galip, Özlem Belçim (2020). New Social Movements and the Armenian Question in Turkey: Civil Society vs. p. 161. ISBN 9783030594008.

1946 Kurdistan et groupements Kurdes isolés (detail of Kurdistan)|miniaturadaimagem|180px|Mapa do Curdistão - 1946

A situação da língua é um reflexo direto da situação sociopolítica dos curdos. Os curdos representam a maior etnia sem Estado do mundo, vivendo em países cujos povos são culturalmente distintos, e o que mantém a identidade sociopolítica dessa nação são elementos como a língua. A região onde os povos curdos habitam é chamada de Curdistão e é uma região separatista autônoma que extrapola a fronteira de alguns países, o que gera conflitos com seus governos, como a Turquia. No Iraque, o curdo é tido como língua oficial na região do Curdistão Iraquiano, sendo utilizado no dia-a-dia, nas escolas, nos locais de trabalho e na administração, por isso a língua se encontra em uma situação estável. No Irã e na Síria, o curdo não possui entidade política ou institucional, sendo tolerado o uso da fala e escrita. Na Turquia, entretanto, o curdo tem sofrido com repressões políticas por parte das autoridades em relação ao seu uso.

O nacionalismo curdo é um fenômeno de relevância mundial que vem ganhando atenção recentemente, com a invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos (2003) e do fortalecimento do Estado Islâmico. Nesse contexto, os curdos conquistaram algumas de suas reivindicações com a conformação de regiões autônomas no Iraque e na Síria. A literatura curda permite caracterizar e exemplificar as relações de poder entre os curdos e os países que têm soberania sobre seu território, mediante a análise de obras como os romances Memed, meu falcão (1997), de Yasar Kemal, romancista turco; As penas (1992), do poeta e romancista sírio Salim Barakat; Na região limítrofe (2001), de Sherko Fatah, escritor alemão de origem curdo-iraquiana; e o livro de contos O louco da praça da liberdade (2016), de Hassan Blasim, cineasta e escritor iraquiano. A relação de poder entre os curdos e os Estados onde moram é formulada e desenvolvida em três categorias analíticas: cultura curda (na qual envolve a língua curmânji), relação entre os curdos e os Estados que cruzam o Curdistão e a subversão como tentativa de independência.VELASQUEZ BARON, FREDY ALBERTO e GARCIA PERILLA, JUAN CARLOS. Relações de poder em quatro obras da literatura curda contemporânea. Hallazgos [online]. 2020, vol.17, n.34, pp.79-120.  Epub Sep 01, 2020. ISSN 1794-3841. Consultado em 25 de março de 2023.

Após as manifestações da Primavera Árabe e o estopim da Guerra Civil na Síria, os curdos viram uma oportunidade para reivindicar seu patrimônio (entre eles a língua) e se tornarem independentes. O Partido da União Democrática (PYD) assumiu o controle da região norte da Síria e iniciou um processo revolucionário, socialista, ecológico e feminista. A situação militar passou para os braços armados YPG e YPJ, o segundo sendo exclusivamente formado por mulheres. Entretanto, a revolução curda foi um dos principais alvos do Estado Islâmico. Em tentativa de ataque, cercaram a cidade de Kobane. Milícias árabes e de outras etnias se juntaram aos curdos, dando origem às Forças Democráticas da Síria (FDS), sendo apoiadas pelos Estados Unidos. Atualmente, diante do fortalecimento da revolução curda e a reivindicação de parte do Curdistão próximas à fronteira entre Turquia e Síria, o governo turco começou a aumentar a repressão à população curda dentro do próprio país, e também a preparar o exército para atacar a região revolucionária na Síria, o que influenciou o corte dos investimentos dos Estados Unidos na revolução curda. O governo sírio pretende usar a ameaça militar turca para forçar o povo curdo a abandonar a revolução e voltar a se submeter ao antigo regime e, por hora, o Curdistão Sírio não vê outra opção diante do risco de genocídio. Tudo indica que pode estar sendo construído um grande acordo internacional entre países como a Turquia e a Síria, que desejam o fim da autonomia curda, e os outros governos do mundo (principalmente os EUA, a Rússia e a União Europeia) e todos estão dispostos a abençoar esse acordo.CASTRO, Arthur. Rojava, revolução ameaçada no Oriente Médio. SOS Corpo, 2020. Consultado em 25 de março de 2023.

Fonologia

O sistema fonológico do curmânji é formado por nove vogais e vinte e quatro consoantes, como representado nas tabelas a seguir: Consoantes