thumb|right|300px|Proposta de bandeira Federalista Ibérica de 1854. thumb|right|300px|Localização da Península Ibérica (em verde) na Europa, delineando os dois principais países da região, Espanha e Portugal. O Iberismo é um movimento político e cultural que defende a aliança das relações a todos os níveis entre Andorra, Espanha e Portugal.

Originalmente, o Iberismo, como projeto de construção de um Estado ibérico, pretendia ter uma só entidade política, ou seja, criar um único país que incorpore o atuais estados de Portugal e Espanha. Tal união levaria a que ambos os países, já unificados, se tornassem no 44.º maior país do Mundo, no 5.º maior país da União Europeia, e o 24.º mais populoso (em 2009). O fuso horário do país variaria entre UTC -1 (nos Açores) e UTC +1 (na atual Espanha), aumentando mais uma hora no período de Verão no Hemisfério Norte (sendo que seria possível que, à exceção dos Açores, o país passasse a ter todo ele o mesmo fuso horário UTC 0 ou UTC +1).

O Iberismo iniciou-se como tal no século XVIII, com o espanhol José Marchena, quem, em L'Avis aux espagnols, deu à doutrina um corte progressista, federal e republicano. Mas o seu auge deu-se durante o século XIX.

Estes ideais ibéricos eram promovidos principalmente pelos movimentos republicanos, socialistas, liberais e maçónicos em ambos os países, quando eles tiveram o maior dilema dos ideais nacionalistas de inclusão, como o da Risorgimento Italiano ou a da Unificação Alemã.

No triénio liberal, em Espanha (1820–1823) as organizações secretas liberais da Península Ibérica tentaram introduzir o iberismo em Portugal, para estabelecer sete repúblicas federadas, das quais cinco estariam na Espanha e duas em Portugal: a Lusitânia Ulterior e a Lusitânia Citerior. Posteriormente, durante todo o Sexênio Revolucionário espanhol, o movimento alcança o seu auge, Joan Prim i Prats ver-se-á inclinado a defender a união de Espanha e Portugal. Após o seu assassinato (1870), e especialmente com a Primeira República Espanhola (1873–1874), o movimento recobra importância, pelo modelo federal que se implanta na Espanha.

Na Espanha antes da guerra civil de 1936-39, as ideias iberistas chegaram a ser promovidas pelos nacionalistas galegosVer Castelão no livro Sempre em Galiza no que se propunha uma União Confederal Ibérica na que Portugal e a Galiza teriam que unirem-se e assim equilibrar o predomínio de Castela, conformando-se a confederação ibérica com a antiga coroa de Aragão e Navarra, como as outras nações ibéricas, Inspirando-se em ideais de caráter integrador.

Antecedentes Geográficos e culturais

thumb|250 px|Península Ibérica vista do espaço em janeiro de 2003

Portugal e Espanha partilham uma unidade geográfica que se revela na longa fronteira comum (1.214 km), no seu cruzamento por vários rios importantes, como o Minho, Douro, Tejo e Guadiana, pelo mesmo clima, base rural, etc., características estas de relevância especial para a Península Ibérica. Além disso, os dois países têm uma História — por vezes comum, por vezes paralela — desde as dominações romana, visigótica, árabe, até à consolidação dos reinos cristãos medievais, continuando pela era dos Descobrimentos, a união dinástica aeque principaliter das três coroas José María Jover Zamora, Marc Baldó i Lacomba y Pedro Ruiz Torres, Universitat de València (1997), página 77 da Península Ibérica sob o mesmo soberano da Casa de Áustria, a Guerra Peninsular (chamada em Espanha de Guerra da Independência), a Quádrupla Aliança (1834) frente às guerras carlista e miguelista, o Pacto Ibérico (1942), e terminando com a adesão de ambos os países à União Europeia.

As propostas iberistas englobam, para além do território peninsular, as ilhas adjacentes que historicamente estão relacionadas com os Estados e habitantes da Península. No Mar Mediterrâneo situam-se as Ilhas Baleares, unidas historicamente à Coroa de Aragão e posteriormente a Espanha. No oceano Atlântico situam-se vários arquipélagos que partilham o espaço geográfico conhecido como a Macaronésia, sendo os Açores e a Madeira povoados pelos portugueses, e as ilhas Canárias anexadas à Coroa de Castela durante o século XV. A inclusão de outros territórios peninsulares, como Andorra e Gibraltar, ou do norte de África (Ceuta e Melilla) é geralmente aprovada, ainda que sujeita a discussão.

À exceção do idioma basco, as restantes línguas da península procedem do latim e pertencem ao Grupo Ibero-Romântico, as quais se foram configurando e definindo durante a época da Reconquista.

Históricos thumb|350px|Brasão dos reis da Casa de Áustria, quando também soberanos de Portugal, aquando a dinastia filipina da coroa portuguesa. É de destacar as armas de Portugal entre as de Castela e Aragão.

Durante o Antigo Regime, as tentativas de união ibérica surgiram a reboque de circunstâncias políticas internacionais. Estas tentativas fundamentavam-se na política matrimonial fomentada desde a Idade Média.

Durante o século XVI, como consequência da morte do rei de Portugal, D. Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir, o seu tio, D. Filipe II, rei de Espanha, filho de D. Isabel de Portugal e neto do rei D. Manuel, fez valer a sua pretensão ao trono português, e em Junho de 1580 enviou o Duque de Alba e o seu exército a Lisboa para assegurar a sua sucessão. Filipe II foi aclamado rei de Portugal, como D. Filipe I, nas Cortes de Tomar em Abril de 1581. O outro pretendente, D. António, Prior do Crato, foi derrotado em Alcântara (1580) acabando por se refugiar nos Açores, onde a armada filipina lhe infligiu a derrota final. Deste modo, desde 1580 a 1640, quando Portugal se rebelou sob a liderança de D. João, duque de Bragança, efetivou-se a união da Península sob uma única coroa; não obstante, manteve-se a distinção formal entre "as Espanhas" e Portugal, como exemplifica o título de Hispaniarum et Portugalliae Rex. D. João IV recebeu um apoio generalizado do povo português, e os espanhóis – que tinham de lutar contra rebeliões em muitos dos seus domínios, para além da guerra com França – foram incapazes de responder. Espanhóis e portugueses mantiveram-se num estado de paz de facto entre 1641 e 1657. Quando D. João IV morreu, os espanhóis tentaram lutar por Portugal contra o seu filho D. Afonso VI, mas foram derrotados na batalhas do Ameixial (1663), Castelo Rodrigo (1664) e Montes Claros (1665), o que levou Espanha a reconhecer a independência portuguesa em 1668 pelo Tratado de Lisboa.

História

O iberismo inicia-se como tal no século XVIII com José Marchena, que, em l'Avis aux espagnols, deu à doutrina um cariz progressista, federal e republicano. Porém o verdadeiro auge pró-iberista dá-se durante o século XIX.

Em Espanha, a dissolução do Antigo Regime e a formação do Estado liberal estiveram na origem da invasão da Península pelas tropas napoleónicas, demorando-se quase três décadas a consolidação do Liberalismo. A Guerra Peninsular (1807-1814) foi testemunha de outra tentativa de união entre Espanha e Portugal.

Tentativas de uniões dinásticas

O reinado de D. Fernando I, decorrido entre 1367 e 1383, ficou marcado pelo envolvimento em várias aventuras guerreiras, mal preparadas e mal executadas, bem como pela instabilidade de alianças e objetivos. Os últimos anos do reinado decorreram sob a obsessão de uma política de alianças e de casamentos na qual foi contemplada a hipótese de união ibérica ou, pelo menos, de união entre Portugal e Castela. Foi neste contexto que se desenrolaram os sucessivos projetos matrimoniais em que esteve envolvida a jovem D. Beatriz (nascida em 1372), herdeira da coroa portuguesa. D. Beatriz veio a casar aos 11 anos de idade com D. João I de Castela, que antes estivera para ser seu sogro, e que a desposou para herdar o trono de Portugal. Tanto as Cortes de Valladolid (1383) como as de Santarém (1383) deram o seu acordo às decisões tomadas. Nesse mesmo ano, após a morte de D. Fernando I, sua mãe D. Leonor Teles fê-la proclamar rainha de Portugal, assumindo ela a regência. A aclamação de D. Beatriz e do seu marido, como reis de Portugal, causou tumultos populares e abriu a crise da independência, que levou à guerra com Castela, inviabilizando o projeto de união dinástica.

Na viragem do século XV para o século XVI, a união dinástica das coroas ibéricas esteve muito próxima, primeiro por intermédio do Príncipe D. Afonso filho de D. João II, herdeiro da coroa e casado com D. Isabel de Aragão, filha mais velha dos Reis Católicos, então a herdeira mais provável das coroas de Castela e Aragão. No entanto, o Príncipe D. Afonso morreu em 1491 de uma queda de cavalo durante um passeio. Depois, D. Isabel voltou a casar, com o primo direito do sogro, o Rei D. Manuel I. Morreu de parto em Saragoça, ao dar à luz o Príncipe D. Miguel da Paz (como foi batizado, para selar a paz existente entre as três coroas peninsulares) que se tornou o herdeiro conjunto de Castela (onde foi de imediato reconhecido como Príncipe das Astúrias), de Aragão (e como tal jurado herdeiro nas Cortes reunidas em Saragoça) e de Portugal. Porém, em 1500, a morte precoce do príncipe aos dois anos de idade pôs fim ao sonho da união ibérica na sua pessoa.

thumb|200px|left|A rainha Dona Carlota Joaquina Teresa de Bourbon Nas Cortes de Cádis (1812) os partidários da união propuseram que a regência espanhola se outorgasse a D. Carlota Joaquina, filha de D. Carlos IV de Espanha e esposa do príncipe regente português D. João (futuro D. João VI). Se este projeto se tivesse levado a cabo, as regências dos dois Estados teriam recaído sobre ambos os cônjuges. Como esta formulação se baseava, não obstante, em interesses dinásticos tradicionais e não num ideal nacionalista, não conseguiu angariar grande influência, mas demonstra que a união ibérica plasmada na união dinástica teve um certo apoio.

Depois do regresso ao absolutismo, com o retorno de D. Fernando VII de Espanha, os liberais refugiados em Londres, necessitados de apoio, procuraram-no entre os seus companheiros de exílio portugueses, pedindo a sua solidariedade e cooperação. Em jornais da época, no El Constitucional Español, apareceram vários artigos que insistiam na unidade natural da Ibéria. Também em Londres, O Campeão Português publicou vários artigos a favor da união ibérica.

Ao triunfar a Revolução liberal em Espanha em Janeiro de 1820 e em Portugal em Setembro do mesmo ano, a instauração do triénio liberal (1820-1823) naquele país presumiu uma diminuição de proclamações visando a união ibérica, já que tanto os liberais espanhóis como os portugueses apenas se preocuparam em fundar o sistema liberal nos respetivos países, esquecendo-se do que se passava do outro lado da fronteira. Apesar disso, organizações secretas liberais da Península tentaram inculcar o iberismo para estabelecer sete repúblicas federadas, das quais cinco ficariam em Espanha e duas em Portugal: a Lusitânia Ulterior e a Lusitânia Citerior.

Mas após a invasão de Espanha pelos Cem Mil Filhos de São Luís, a intervenção militar francesa cujo objetivo era apoiar D. Fernando VII para restabelecer o absolutismo, apareceu um novo movimento que postulava a integração da Ibéria. Alguns liberais, que não esperavam nada do rei espanhol, depositaram as suas esperanças na figura de D. Pedro IV (D. Pedro I, imperador do Brasil), primogénito de D. João VI, para ser monarca constitucional liberal de toda a Ibéria. Em Agosto de 1826 os liberais exilados em Gibraltar enviaram uma carta a D. Pedro, na qual expressavam o seu desejo de que um dia cingisse "as três Coroas" (Espanha, Portugal e Brasil) e de que a Ibéria ficasse unificada sob a dinastia de Bragança, destronando os Bourbons.