Ouvido absoluto é um fenômeno auditivo, geralmente considerado raro, que se caracteriza pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo sem ter um tom de referência. PDF Document
Portanto, uma pessoa com ouvido absoluto tem a capacidade de formar uma imagem auditiva interna de qualquer tom musical marcado por um símbolo apropriado (nota, letra). Assim, pode naturalmente identificar qualquer tom acusticamente apresentado (ouvido absoluto passivo) e, mais raramente, cantar qualquer tom de memória, sem referências externas (ouvido absoluto ativo). A distinção entre os ouvidos passivo e ativo não parece ser muito importante. Não há evidências de que uma pessoa possa ter um bom ouvido absoluto ativo enquanto falhe no passivo ou vice-versa. As pessoas que têm um verdadeiro ouvido absoluto afirmam que reconhecem tons imediatamente e sem usar truques como o zumbido ou assobio.
Embora o ouvido absoluto em seres humanos normalmente seja dependente da classificação dos tons de acordo com as convenções de notação musical, não é simplesmente o nome da nota musical que pode ser identificado mas sim as próprias qualidades da nota, segundo os dotados dessa habilidade. As características de um tom são identificadas com maior exatidão do que mais ou menos uma tolerância de frequência de 70% predefinida pelo intervalo de semitons que forma a menor unidade na notação musical ocidental. O possuidor de tal ouvido pode dizer se um tom tocado acusticamente é mais agudo ou mais baixo em relação a uma entonação padrão interna a tal possuidor. Verifica-se que a entonação padrão de diferentes possuidores de ouvido absoluto pode ser diferente, dependendo do nível de entonação a que tenham sido expostos quando crianças. Isso se torna evidente quando possuidores de ouvido absoluto relatam achar difícil escutar ou tocar música em um nível de afinação que difere do seu padrão interno.
No idioma inglês, tal capacidade de ouvir e, imediatamente, reproduzir o som ouvido é chamada perfect pitch. A expressão sugere, porém, que possuidores de ouvido absoluto são abençoados com audição bem melhor do que a das outras pessoas ou que são, de certo modo, capazes de medir a frequência apenas por ouvir, com bastante exatidão, a nota. Isso não é bem verdade. Embora essas pessoas, assim como a maioria dos músicos, sejam capazes de avaliar sons mais precisamente que outros, isto está relacionado à sua devoção ao som e, em especial, ao treino. Em experimentos de percepção sonora, possuidores de ouvido absoluto produzem resultados que normalmente não são diferentes dos de outras pessoas. Em especial, nos ouvidos dos possuidores de ouvido absoluto ocorrem mudança de percepção e desvios de oitava, assim como em pessoas "normais". Possuidores de ouvido absoluto tendem a esticar a escala de tons. A capacidade de produzir música subjetiva (música interna do cérebro) é recorrente em alguns portadores da síndrome de Asperger.
Tipos de ouvido absoluto
Em seu artigo sobre ouvido absoluto no New Grove Dictionary of Music and Musicians, o músico Richard Parncutt e o psicólogo cognitivo Daniel Levitin, apresentaram os seguintes tipos de ouvido absoluto: passivo, ativo e muito fino.
Ouvido absoluto passivo
Uma pessoa com ouvido absoluto passivo é capaz de identificar as notas individuais que escuta, além da tonalidade de uma composição (assumindo que possui um certo nível de conhecimento musical), porém não é capaz de cantar as notas necessárias sem referência externa.
Entre os autistas e savants, a incidência de ouvido absoluto se encontra a 1/20 ou mais. O ouvido absoluto também é comum entre aqueles que possuem a Síndrome de Williams.
Ouvido absoluto ativo
As pessoas com ouvido absoluto ativo têm a capacidade de cantar qualquer nota que se lhe é solicitada, sem ter outra como referência. O número de possuidores de ouvido absoluto ativo nos Estados Unidos é de 1/10.000. Nem todas as pessoas com ouvido absoluto ativo são músicos, contudo a preparação musical é necessária para o completo desenvolvimento do potencial auditivo de uma pessoa com ouvido absoluto.
Ouvido absoluto muito fino
As pessoas com ouvido absoluto muito fino não só são capazes de reconhecer uma nota pelo seu nome, como também saber quando uma nota está ligeiramente mais aguda ou mais baixa com respeito ao padrão de afinação comum (440 Hertz). Esta habilidade é extremamente rara.
Alguns músicos com ouvido absoluto muito fino são capazes de reconhecer se uma obra está desafinada com respeito à afinação comum à uma distância de poucos savarts. Um savart é a unidade de afinação, ou seja, a quantidade de desafinação que pode ser percebida por um ouvido. Equivale a 4 cents. Um cent é a centésima parte de um semitom. Estima-se que apenas uma a cada 650 pessoas no mundo possuam tal capacidade.
Estudos científicos
Fisicamente e funcionalmente, o sistema auditivo de um ouvinte absoluto não parece ser mensuravelmente diferente de um não-absoluto. Pelo contrário, "A percepção do ouvido absoluto não é dependente de um tipo especial de ouvido; reflete uma habilidade especial para analisar informações de frequência, presumivelmente envolvendo processamento cortical de alto nível. "Ouvido absoluto é um ato de cognição, necessitando memória da frequência, um símbolo para a frequência (como "Si bemol"), e da exposição para o alcance do som envolvidos por esse símbolo categórico. Ouvido absoluto pode ser diretamente análogo ao reconhecer cores, fonemas (sons da fala) ou outra percepção de estímulos sensoriais categórica. Mesmo que a maioria das pessoas já aprenderam a reconhecer e nomear a cor azul pela sua frequência, é possível que aqueles que tiveram (por volta das idades de 3 e 6) uma significativa exposição aos nomes dos tons musicais identifiquem, por exemplo, um C3 (Dó central). No entanto, pode ser genético, possivelmente traço genético autossômico dominante, ainda que "poderia ser nada mais que uma capacidade humana geral cuja expressão é fortemente distorcida pelo nível e tipo de exposição à música que as pessoas experimentam em uma determinada cultura".
Segundo algumas estatísticas, somente 0,01% da população tem essa habilidade (1 em cada ). Tais estatísticas porém se baseiam em testes realizados somente com músicos; os resultados foram então extrapolados para toda a população, assumindo, portanto, a discutível hipótese de que quem não conhece música não possa ter ouvido absoluto. Pesquisas sobre o assunto realizadas em 2008 pela Eastman School of Music juntamente com o Department of Brain and Cognitive Sciences da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, prepararam testes aplicáveis a qualquer indivíduo (mesmo não sendo músico), e esses testes indicaram que o ouvido absoluto é na verdade muito mais frequente do que se esperava.Elizabeth West Marvin; Elissa Newport. 2008. "Statistical Learning in Language and Music: Absolute Pitch without Labeling." International Conference on Music Perception and Cognition (ICMPC10), Sapporo, Japan. O pesquisador Gaby Lanyi defende que, potencialmente, toda pessoa nasce com ouvido absoluto mas a a maior parte da população perde essa capacidade depois do primeiro ano de vida porque não é dada suficiente importância ao desenvolvimento da linguagem musical.
Influência da experiência musical
O sentido do ouvido absoluto parece ser influenciado pela exposição cultural à música, especialmente na familiarização da igual-temperada escala de Dó maior. A maioria dos ouvintes absolutos que foram testados a este respeito, identificou os principais tons da escala de Dó maior mais fiavelmente e, com exceção do Si, mais rapidamente do que os cinco tons sustenidos, o que corresponde à maior prevalência destes tons em simples experiências musicais. Um estudo alemão de não-músicos também demonstrou um viés por usar os tons da escala de Dó maior em um discurso comum, especialmente em sílabas relacionadas com a ênfase.
Percepção
Embora o ouvido absoluto se radica na capacidade de perceber e identificar a cor do tom - onde a cor é uma interpretação psicológica de uma frequência vibratória fundamental - ouvido absoluto não é uma capacidade aumentada para perceber e discriminar gradações de frequências sonoras, mas sim a capacidade de categorizar mentalmente sons em áreas de altura predefinidas. O senso de audição de um ouvinte absoluto é mais preparado do que a de um não absoluto (normal); além disso, as tarefas de identificação (reconhecer e nomear uma nota) e de discriminação (detectar mudanças ou diferenças nas taxas de vibração) são realizados com diferentes mecanismos cerebrais.
Problemas potenciais
Pessoas com ouvido absoluto se sentem irritados quando uma peça musical é transposta para outro tom ou tocada em um padrão diferente. Músicos com ouvido absoluto podem falhar com relação a desenvolver as habilidades de um ouvido relativo quando seguindo os currículos de padrão persistindo em vez de um hábito de música conceptualizadora como uma sequência de tons absolutos. Assim, acham difícil transpor ou tocar um instrumento transpositor. Possuidores de ouvido absoluto também são conhecidos por acharem difícil tocar com uma orquestra que esteja afinada fora do padrão original (A4=440 hertz.)
Principais habilidades
Pessoas dotadas de ouvido absoluto teriam, portanto, habilidades tais como: Nomear notas e acordes apenas por ouvi-los Cantar qualquer tom usando a memória (sem nenhum tom de referência) Cantar canções pelo ouvido (após apenas escutá-las) Compor música usando a própria memória Identificar tons de canções apenas por ouvi-las Ler folhas de música mentalmente Saber se um tom está ligeiramente mais alto ou mais baixo, sem usar uma referência externa
Artistas com ouvido absoluto
miniaturadaimagem|248x248px|Heitor Villa-Lobos, compositor brasileiro reconhecido com essa capacidade. Ao longo do tempo, muitos artistas, entre cantores, pianistas, maestros, guitarristas, violinistas e personalidades, têm sido reconhecido por tais habilidade.
Artistas reconhecidos com essa capacidade: Juliana D'Agostini - Pianista Brasileira. Cleberson Horsth - Integrante do Grupo Roupa Nova. Fabio Lima - Violonista e YouTuber Brasileiro. Robson Miguel - Violonista Brasileiro. Heitor Villa-Lobos - Compositor Brasileiro. Algumas de suas composições, se deve a essa capacidade. Guilherme de Sá - Ex-Vocalista do Grupo Rosa de Saron. Fontes dizem que ele consegue cantar e identificar um acorde sem nenhum tom de referência. Joao Gilberto - Cantor, Compositor e Violonista Brasileiro Whindersson Nunes - YouTuber, Humorista e Cantor Brasileiro. Christine Anderson - "Coisas fora de sintonia fazem-me sentir meio intoxicada... mas no bom sentido. Como se eu estivesse num carnaval em um sonho. Não sei se faz muito sentido, mas eu tenho um ótimo reconhecimento de notas. Eu vejo cores para diferentes tons, notas, etc." [Christine Anderson, pianista e cantora dos EUA] Yngwie Malmsteen Julie Andrews Jill Scott Celine Dion Claudio Arrau - "O garoto Arrau", com 6 anos de idade, desceu do piano para comer alguns doces e, entre um e outro tratamento, os músicos tocaram acordes para ele, umas dez notas de cada vez. De costas para o piano, ele identificou os acordes perfeitamente, nota por nota, como se estivesse identificando objetos domésticos.[Claudio Arrau, pianista chileno. Trecho retirado de Arrau on Music and Performance, Dover, 1999] Ritchie Blackmore - "Assim, na prática, posso ouvir diversos tons. Eu era obcecado com o G (Sol) por algum tempo. G é muito brilhante, e muito óbvio. F# menor é muito sutil. E (Mi) é muito pouco forte. Então você tem D (Ré), que lembra muito a primavera. D é um acorde muito antigo, como se fosse renascentista . A (Lá) menor é provavelmente meu tom favorito neste momento. Com E, penso que é um pouco básico algumas vezes." (Ritchie Blackmore, guitarrista. Trecho retirado de Interview on Guitar, de dezembro de 1996)thumb|left|Hayley Westenra