thumb|Fachada do edifício A Casa Batlló é um edifício modernista, mais precisamente modernista catalão, concebido pelo arquiteto Antoni Gaudí, auxiliado pelos arquitetos Josep Maria Jujol e Joan Rubió i Bellversituado, e que se situa no n.º 43 do Passeig de Grácia, na chamada Ilha da Discórdia, um bairro modernista da cidade de Barcelona. O imóvel foi encomendado por Josep Batlló Casanovas, industrial do setor têxtil. O edifício figura na lista do património mundial da UNESCO, e é visitável pelo público.
Contexto
Economia e Burguesia Na virada do século XIX para o XX, a situação econômica da Espanha esteve marcada pela perda das suas colônias, particularmente pela perda de Cuba, em 1898, o que implicou, em um primeiro tempo num encolhimento da economia, sobretudo na economia catalã. Entretanto, em um segundo momento, são repatriados fundos de investimentos previamente em Cuba para Barcelona, provocando uma nova onda de crescimento econômico e industrial da Catalunha, desenvolvendo-se notavelmente as indústrias químicas, metalúrgicas, elétricas e automobilísticas.
Esta nova revolução industrial foi apoiada pela monarquia, e a nova burguesia que surge no processo enriquece consideravelmente, bem mais do que muitos aristocratas. Para manter sua ascensão política o rei concede títulos de nobreza a alguns industriais. Barcelona, polo industrial maior, e sede do movimento de independência catalã, foi a primeira cidade à notar estes efeitos, com a nomeação do Conde de Godó, do barão de Quadras e do barão de Sert.
O arquiteto catalão Antoni Gaudí recebe então do industrial José Batlló Casanovas um pedido para reformar um edifício construído em 1875 por Emili Sala Cortés situado na chamada 'ilha da discórdia', na região central de Barcelona. Para a remodelação, Gaudí se centrou na fachada, no piso principal, no pátio de luzes e no telhado, e levantou um quinto piso para a equipe de serviço. Gaudí contou com a colaboração de seus ajudantes Domènec Sugrañes, Josep Canaleta e Joan Rubió; dos costrutores Jaume e Josep Bayó i Font; os ferros eram dos irmãos Lluís y Josep Badia i Miarnau; os azulejos de Pujol & Baucis (Esplugues de Llobregat); a vidraçaria de Sebastià Ribó; e a carpintaria de Casas & Bardés. Mais tarde algumas portas do primeiro piso tiveram que ser mudadas, sendo realizadas as reproduções do marceneiro Juan Martínez Gómez, seguindo o modelo original.
A Ilha da Discórdia left|thumb|Aspecto do Passeio de Grácia em 1902, com a estação ferroviária. Em pleno centro de Barcelona, o Passeig de Gràcia (Passeio de Grácia) era, nos anos 1860-1890, uma avenida de baixa densidade urbana, margeada por casas particulares ajardinadas e alguns casarões (Palácio Robert, Mariano). O setor atrai nos anos 1890 um afluxo de estabelecimentos comerciais, evolução que culmina com a instalação de uma estação ferroviária em 1902. Entre 1905 e 1906, as transformações seguem com a chegada do bonde. A nova classe burguesa em ascensão substitui pouco a pouco os casarões por casas de vários pavimentos. A avenida torna-se entre 1900 e 1914 o principal centro residencial da alta burguesia e da moda barcelonesa. thumb|Aspecto da "Ilha da Discórdia" no início do século. Nota-se a casa Lleó Morera, e a casa Batlló ainda em sua forma original. A ilha de casas indo do número 35 ao 45 do Passeig de Gràcia, entre a rua conseil des Cent à rua d'Aragon foi outrora ocupado por construções convencionais entre 1864 e 1875. Os edifícios 43 (Casa Batlló) e 45 foram construídos conjuntamente em 1875, e à imagem do resto da vizinhança, eram prédios convencionais da segunda metade do século XIX. Entretanto, nessa mesma "ilha de casas", o arquiteto Josep Puig i Cadafalch concebeu a Casa Amatller (número 41) em 1900 e o arquiteto Lluís Domènech i Montaner transformou em 1902 a Casa Lleó Morera. Sendo assim, a ilha de casas passa a ser composta por uma mistura de casas convencionais com outros imóveis modernistas fortemente destacados das outras edificações. Essa heterogeneidade valeu à vizinhança o apelido de "Ilha da Discórdia"Joan Bassegoda i Nonell (2001), La Casa Batlló, Barcelone, Publicaciones de la Real Cátedra Gaudí, p. 55 (em espanhol, Manzana de la Discordia, que também significa "Maçã da Discórdia").
Projeto
Origem left|thumb|330x330px|Vista do edifício em 1904, antes do início das transformações realizadas por Antoni gaudi thumb|O prédio durante os trabalhos de transformações, em 1906 Josep Batlló i Casanovas era um rico industrial do setor textil, casado com Amàlia Godó Belaunzarán, filha do conde de Godó, igualmente um rico industrial, recentemente condecorado com um título de nobreza, deputado do partido liberal espanhol e fundador do jornal La Vanguardia.
Em 1900, a futura Casa Batlló ainda era um edifício intermediário da ilha da discórdia, no número 43 do Passeig de Gràcia, quando foi então adquirido por Josep Batlló.
Todos os irmãos de Josep Batlló haviam encarregado o arquiteto Josep Vilaseca i Casanovas da construção de seus diversos edifícios particulares: a Casa Pia Batlló, a Casa Àngel Batlló, e a Casa Enric Batlló. Todos haviam sido realizados em estilo modernista, então na moda. Mas Josep Batlló queria se destacar da família, e para tal contratou o arquiteto Antoni Gaudí, que acabara de ganhar o concurso anual de construções artísticas, com a Casa Calvet em 1907.Joan Bassegoda Nonell (26 de agosto de 1981), La Vanguardia
Batlló em um primeiro momento pediu à Gaudí para destruir o edifício e reconstruí-lo inteiramente. Mas Gaudí o convenceu de realizar apenas uma transformação na fachada do prédio. Entretanto a intervenção do arquiteto remodelou em profundidade o edifício. Ele reorganizou os espaços, desenvolveu a iluminação e a ventilação natural, adicionou dois andares, e remodelou o terraço. Estas transformações mudaram as dimensões do edifício, passando a altura do prédio de 21 m para 32 m e a área construída de 3100 m2 para 4300 m2 com média de 450 m2 por andar.Alberto Rodríguez, Lionel Sosa, Soedade Noya Álvarez, Virginia López Sáenzet Xavier;Blasco Piñol, Barcelone, Dos de Arte Ediciones, 2008
Quando o edifício estava prestes a ser terminado, Batlló recebeu a visita do patriarca Milà, de quem ele era sócio em uma fábrica de fios. Como ele projetava a construção de um edifício particular, após esta visita, confiou à Gaudi a construção da Casa Milà.
Proprietários O edifício foi concebido como um exemplo típico de imóvel de renda, construído para que os proprietários vivessem nos primeiros andares, e que locatários ocupassem outros andares superiores. Esta formula se aplicava amplamente à nova concepção de vida urbana, usual ao final do século XIX, como era costume em Paris, por exemplo. Com a morte de Amàlia Godó (viúva de Josep Batlló), em 1940, as filhas Mercedes e Carmen herdaram o edifício. Elas venderiam o prédio em 1954 à Sociedad Iberia de Seguros. A companhia serviu-se do prédio como sede social, quando realizou restaurações menores.
Em 1989, o banco japonês Sumitomo fez uma oferta de compra no valor de 10 bilhões de pesetas, sem sucesso. Em 1991, o presidente da companhia de seguros, Enric Bernat, confiou à casa de leilões Sotheby's a operação de venda do imóvel a um preço de 10000 milhões de pesetas, mesmo que estivesse avaliado em 13700 milhões. Anos mais tarde, por falta de comprador, a famille Bernat adquiriu o prédio por 3,6 bilhões de pesetas, sendo os proprietários até o presente (2002).
Estabelecimentos comerciais À sociedade cinematográfica Pathé se instalou em 1905 no Passeig de Gràcia, assim como outras empresas (à época) de novas tecnologias, como empresas fotográficas. A firma escolhe o térreo da Casa Batlló.Josep Maria Huertas Claveria (1999), dans Carles Flores (dir.),, Barcelone, Fundació Caixa de Catalunya, pp. 187-224. left|thumb|Durante a Guerra Civíl espanhola a família Batlló mudou-se para a Itália A partir de 1922 o térreo foi ocupado por um mercado de alimentos, propriedade de um casal franco-catalão: Émile et Margarita Martignole. Eles forneciam licores, queijos e medicamentos ao bairro. Para aproveitar-se do esnobismo dos clientes da vizinhança eles adotaram um nome francês: « Maison d'alimentation Martignole ». Este comércio terminou um pouco antes da Guerra Civíl Espanhola.
Após a Guerra Civil, durante a qual a propriedade foi abandonada (tendo a família Batlló mudado para a Itália) o térreo foi ocupado por uma galeria de arte chamada Syra que fecharia as portas apenas após a morte de seu proprietário Montserrat Isern, em 1986. Os laboratórios Roca de Viñals, especializados em análises clínicas se instalaram no quarto andar de 1930 até quase o final da década de 1980.
Em 1942, a sociedade Producciones y distribuciones Chamartin instalou-se no andar principal, de onde produziu desenhos animados até se mudarem em 1958.
Restaurações thumb|Portas modernistas no primeiro andar Com o final da onda do modernismo, o surgimento do novecentismo e a aparição dos avant-gardistes, que preconizavam o funcionalismo, ocorreu uma diminuição no interesse pela obra de Gaudí, até a década de 1980, quando seu estilo volta a despertar interesse. Ao longo dos anos o prédio sofre diversas restaurações menores, ou outras de maior envergadura, como a realizada em 1981, na celebração do 75 aniversário da sua inauguraçãoJoan Bassegoda Nonell (26 de agosto de 1981), La Vanguardia. Entretanto, a partir de 2000, em preparação às celebrações do ano internacional Gaudí 2002, a fachada foi inteiramente refeita. O interior recebeu um tratamento fungicida. Os balcões, as peças de carpintaria, e os discos de cerâmica quebrados foram reparados. Os pátios internos foram revitalizados e as peças quebradas trocadas. As portas de entrada dos apartamentos foram igualmente reparadas.
Utilização Atual left|thumb|240x240px|Projeção luminosa na fachada da casa Batlló, em comemoração aos 10 anos de sua abertura ao público. Em 1995 uma reforma transforma 1839 m2 do edifício (sub-solo, térreo e primeiro andar) em um espaço aberto ao público. Além da disponibilidade de um espaço para a organização de eventos para empresas e particulares, a casa também foi aberta ao grande público em 2002, na ocasião do Ano Gaudí. As visitas estão disponíveis durante todo o ano e dão amplos detalhes sobre o processo de construção e interpretação artística da obra de Gaudi. À medida que novos espaços vão sendo restaurados, novas áreas vão sendo incorporadas à visitação, o que permite ao público de percorrer a quase totalidade do edifício, exceto pelos andares superiores que são ocupados pela sociedade gestora do imóvel, assim como o térreo e o sub solo que não são abertos à visitação, mas são espaços reservados à organização de eventos. Em 2011 o prédio recebeu 600.000 visitas.
No primeiro andar, com a cafeteria e a boutique, existe um espaço consagrado à exposição do mobiliário de Gaudi, principalmente das reproduções fiéis das peças da Casa Batlló e da Casa Calvet, levando a uma melhor compreensão da vida quotidiana da casa enquanto ela foi habitada. Desde junho de 2000, a Casa Batlló foi incluída na rota do modernismo, iniciativa da prefeitura para valorizar o patrimônio arquitetural de Barcelona.2010, 25 anys de "Barcelona posa't guapa!, Ajuntament de Barcelona
Descrição do Edifício
Visão do Conjunto thumb|Aspecto naturalista da fachada Independente das diferentes interpretações de cada parte ou detalhe específico, a Casa Batlló se inscreve dentro da visão naturalista de Gaudí que se inspira do ambiente marinho. A variedade de cores, a predominância do azul marinho e do ocre das rochas apoiam esta tese. O azul marinho está presente na decoração das cerâmicas, na fachada, no vestíbulo e nos pátios interiores.M. Victoria Aroca (julho–agosto de 1991), AD: Architectural Digest, pp. 86-95