thumb|200px|Ítalo-americanos

De acordo com a pesquisa nacional de 2016, quase 17 milhões de norte-americanos autodeclararam-se como sendo de origem italiana, compondo mais de 5% da população dos Estados Unidos. Os italianos e seus descendentes formam a sétima maior ancestralidade do país, atrás somente dos alemães, irlandeses, ingleses, "americanos", africanos de várias origens e mexicanos.Italian American Heritage and Culture Month

Os Estados Unidos foram o país que mais recebeu imigrantes italianos na História. Cerca de 5,5 milhões de italianos imigraram para os Estados Unidos, de 1820 a 2004. A década de 1870 foi seguida pela maior onda de imigração, que ocorreu entre 1880 e 1914, e trouxe mais de 4 milhões de italianos para os Estados Unidos, a grande maioria sendo do sul da Itália e da Sicília, com a maioria tendo origens agrárias. Esse período de imigração em larga escala terminou abruptamente com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914 e, com exceção de um ano (1922), nunca foi totalmente retomado. Ademais, a imigração foi bastante limitada por várias leis aprovadas pelo Congresso americano, na década de 1920.

Aproximadamente 84% dos imigrantes italianos vieram do antigo Reino das Duas Sicílias.Dennis Wepman, Immigration (2002) p.171 Essa era a parte mais pobre e menos desenvolvida da Itália, ainda em grande parte rural e agrícola, onde grande parte da população estava empobrecida por séculos de desgoverno estrangeiro, e por um sistema de tributação opressivo, imposto após a unificação italiana em 1861.Mangione, Jerre and Ben Morreale, La Storia: Five Centuries of the Italian American Experience, Harper Perennial, 1992 Nos Estados Unidos, a maioria dos italianos começou suas novas vidas como trabalhadores manuais nas cidades do leste, campos de mineração e na agricultura.Humbert S. Nelli, "Italians", in Stephan Thernstrom, ed. Harvard Encyclopedia of American Ethnic Groups (1980) pp 545–560 Os descendentes dos imigrantes italianos subiram gradualmente de uma classe econômica mais baixa, na primeira geração, para um nível comparável à média nacional, em 1970. A comunidade italiana tem sido frequentemente caracterizada por fortes laços com a família, a Igreja Católica Romana, organizações fraternais e partidos políticos.Vecoli (1978)

Histórico thumb|242px|Imigrantes italianos entrando nos Estados Unidos por Ellis Island, em 1905.

Logo após a Unificação Italiana, em 1861, a Itália entrou em um gigantesco processo de emigração. Milhões de pessoas abandonaram a Itália e partiram, principalmente, para as Américas: Brasil, Argentina e, sobretudo, os Estados Unidos.

A unificação italiana em 1861 fez com que as condições econômicas piorassem consideravelmente para muitos no antigo Reino das Duas Sicílias. Os principais fatores que contribuíram para o grande êxodo do sul da Itália e da Sicília após a unificação, incluíram: agitação política e social; a alocação do governo de muito mais de seus recursos para a industrialização do Norte do que para a do Sul; uma carga fiscal desigual no Sul; tarifas sobre os produtos do Sul; exaustão do solo e erosão; e recrutamento militar com duração de sete anos. De 1880 a 1915, cerca de 13 milhões de italianos emigraram da Itália, tornando a Itália o local da maior emigração voluntária registrada na história mundial.Choate, Mark. 2008. Emigrant Nation: The making of Italy abroad. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Os Estados Unidos como destino thumb|200px|Uma imigrante italiana fotografada após ter chegado aos Estados Unidos (1906). Os Estados Unidos começaram a dominar a emigração italiana a partir da década de 1890. Antes disso, a maior parte dos italianos tinha como destino o Brasil ou a Argentina ou outros países da Europa.http://pinoulivi.com/verpor/emigra2_08.htm

Os Estados Unidos ofereciam empregos que os camponeses italianos não qualificados e sem instrução poderiam ocupar. Os EUA estavam crescendo rapidamente durante o século XIX e muitas vezes havia uma escassez de trabalhadores. Imigrantes de todas as nações preencheram essa demanda, empregando-se na construção de ferrovias e de edifícios, enquanto outros empregavam-se em fábricas que exigiam pouca ou nenhuma habilidade especial. Esse tipo de trabalho era ideal para atender às necessidades dos imigrantes e, apesar de serem mal remunerados, ainda era muito mais do que eles podiam ganhar na Itália.Burgan, Michael. Immigration to the United States: Italian Immigrants. Ed. Robert Asher, Ph.D., General Editor. New York: Facts On File, Inc., 2005.

Durante este período de emigração em massa, 4 milhões de italianos chegaram aos Estados Unidos, e 3 milhões dos imigrantes italianos chegaram apenas entre 1900 e 1915. Uma vez na América, os imigrantes enfrentaram grandes desafios. Muitas vezes, sem nenhum conhecimento do idioma inglês e com pouca educação formal, muitos dos imigrantes eram obrigados a aceitar empregos com baixos salários e eram frequentemente explorados por pessoas que atuavam como intermediárias entre eles e os possíveis empregadores.Luciano J. Iorizzo, Italian immigration and the impact of the padrone system (1980) p. 160

A emigração em massa thumb|200px|Uma imigrante italiana e sua filha, fotografadas em Ellis Island, logo após terem chegado aos Estados Unidos (1905). Entre 1880 e 1978, emigraram para os Estados Unidos 5,3 milhões de italianos. Apenas os alemães e irlandeses chegaram em maior número. A maior parte dos imigrantes eram camponeses oriundos do Sul da Itália, especialmente da Sicília e de Campânia e se instalaram, na sua maioria, no Nordeste do país, sendo a cidade de Nova Iorque o destino preferido. Dominaram bairros específicos (chamados "Little Italy") onde podiam se interagir e encontrar comida típica. Esses bairros eram tipicamente favelas construídas com habitações coletivas, com péssimo ou praticamente inexistência de saneamento básico. Os imigrantes italianos chegaram com muito pouco dinheiro e capital, todavia os EUA procuravam a mão-de-obra italiana. Aproximadamente 78% dos emigrados italianos eram do sexo masculino e cerca de 30% retornou para a Itália.

Os imigrantes do sexo masculino nas "Little Italies" eram mais empregados em trabalhos manuais e estavam fortemente envolvidos em obras públicas, como a construção de estradas, trilhos de trem, esgotos, metrôs, pontes e os primeiros arranha-céus no nordeste dos Estados Unidos. Em 1890, 90% dos trabalhadores nas obras públicas de Nova York eram italianos.

Redução da emigração

A Primeira Guerra Mundial, juntamente com medidas adotadas pelo Congresso americano, como a lei restritiva de 1921, a Lei de Imigração de 1924 e a implementação da Fórmula Nacional de Origem, restringiram fortemente a imigração italiana. A cota alocada para os italianos era 1/13 daquela alocada para os alemães e, em geral, a imigração anglo-saxônica e do norte da Europa foi fortemente favorecida. Apesar da implementação da quota, o fluxo de imigrantes italianos permaneceu entre 6 ou 7% de todos os imigrantes.U.S. Department of Commerce, Statistical Abstract of the United States: 1930 (1930) pp 99-100.

Regiões de origem

Dos italianos que foram para os Estados Unidos entre 1876 e 1915, 80% eram do Sul da Itália. As primeiras levas de imigrantes vieram de Campânia, mas depois foram superadas pela imigração em larga escala oriunda da Sicília. Os sicilianos se mantiveram como os italianos que mais imigraram para a América do Norte. Abruzo, Molise, Calábria e a Puglia foram as outras regiões da Itália que contribuíram significativamente com a imigração para os Estados Unidos e, juntas com a Sicília e Campânia, constituíram 74,5% da imigração italiana para esse país. A imigração italiana para os Estados Unidos foi, portanto, concentrada no Sul da Itália, sendo que algumas poucas regiões constituíram a maioria do fluxo migratório. Nenhuma região do Norte da Itália contribuiu com mais de 5% da imigração para esse país, ficando nítida a preferência meridional desse fluxo.BAILY, Samuel L. Immigrants in the Lands of Promise: Italians in Buenos Aires and New York City: 1870 to 1914. thumb|upright=1.05|Uma menina italiana de catorze anos, trabalhando em uma fábrica de caixas de papel, nos Estados Unidos, em 1913.

Regiões de origem dos italianos nos Estados Unidos (1876-1915) Porcentagem Sicília 23,4% Campânia 21,8% Abruzo/Molise 13,0% Calábria 10,5% Puglia 5,8%

Enclaves italianos: as "Little Italies"

Os imigrantes italianos que chegavam aos Estados Unidos tendiam a habitar bairros predominantemente compostos por italianos, denominados "Little Italies" (pequenas Itálias). Como a Itália era um Estado recém-unificado, os italianos geralmente se definiam por sua associação com suas aldeias nativas, e não com seu país de origem. As rivalidades intrarregionais, juntamente com dialetos e tradições díspares, afastavam os imigrantes italianos. Assim, os aldeões e pessoas da mesma região ou província acabaram se agrupando em bairros auto-segregados, dentro dos assentamentos italianos mais amplos, conforme observou Luigi Villari em 1912:

Como os imigrantes anteriores também ajudavam os recém-chegados a encontrar emprego, em geral onde eles mesmos estavam empregados, os italianos geralmente se agrupavam com outras pessoas vindas da mesma aldeia, e também se esquivavam de pessoas de outras origens regionais no local de trabalho. Todavia, essas subdivisões étnicas não se perpetuaram no tempo. A segunda geração ítalo-americana, com laços frouxos com a terra de seus pais, dificilmente poderia entender as divisões locais e as rivalidades que separaram seus pais e mães.

As condições de vida nesses bairros italianos podiam ser severas. Os italianos amontoaram-se em apartamentos denominados cortiços. A maioria dos cortiços eram favelas, áreas da cidade que careciam de saneamento público e onde a criminalidade tendia a ser alta. Uma família inteira ou até dez homens solteiros poderiam dividir um único quarto. Tais condições eram difíceis e o fraco saneamento básico muitas vezes facilitava a propagação de doenças. Assim, não surpreende que uma das coisas que muitos italianos que viviam nesses cortiços desejavam era sair dali o mais rápido possível.

Preconceito religioso e social thumb|150px|Al Capone, conhecido gângster ítalo-americano, dedicava-se ao contrabando e à venda de bebidas, durante a Lei Seca. Os imigrantes italianos na América do Norte, por serem católicos, sofreram diversos preconceitos por parte da população norte-americana.http://www.newadvent.org/cathen/08202a.htm Esse preconceito não vinha apenas dos protestantes, mas também de grupos católicos que chegaram aos Estados Unidos antes dos italianos. Em Nova York, onde os irlandeses estavam mais estabelecidos e controlavam a Igreja Católica e o aparato político, a discriminação contra os italianos foi codificada - formal e informalmente. Rosario Ingargiola lembrou que "os irlandeses eram preconceituosos contra os italianos e se consideravam superiores aos italianos porque conheciam a língua e controlavam a política".

Ademais, devido ao fenômeno da máfia ter-se espalhado por parte da população ítalo-americana e ter sido cultuada em filmes do país, muitos americanos ligavam os imigrantes italianos a facções criminosas. As mesmas qualidades que conferiram grande capacidade de sobrevivência aos italianos - lealdade à família, desconfiança de forasteiros, adesão estrita aos códigos de comportamento - também ajudaram a produzir alguns criminosos. A ascendência dos ítalo-americanos no submundo do crime coincidiu, por acidente histórico, com o advento da Lei Seca. Apenas uma parcela mínima de ítalo-americanos estavam envolvidos com a máfia, porém essa associação entre ser italiano e criminoso ainda persistiu por um tempo.