Rogério Bertani é um aracnólogo brasileiro, reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais em Theraphosidae (aranhas-caranguejeiras ou tarântulas). Atualmente é pesquisador científico do Instituto Butantan, onde atua no Laboratório Especial de Ecologia e Evolução.
Biografia e formação
Bertani desenvolveu interesse por zoologia desde cedo. Aos 11 anos, deslocava-se da Zona Leste de São Paulo até o Instituto Butantan para consultar a biblioteca e fazer contatos com pesquisadores. Levava aranhas para serem identificadas pela pesquisadora Vera Regina Von Eickstedt, então chefe do Laboratório de Artrópodes, e coletava escorpiões-marrons para entregar à instituição. Aos 14 anos foi picado por um escorpião durante uma coleta e atendido no Hospital Vital Brazil do Instituto.
Iniciou sua carreira científica como estagiário no Instituto Butantan em 1988, primeiro no Laboratório de Herpetologia e depois no Laboratório de Artrópodes. Ingressou como pesquisador científico em dezembro de 1994. Obteve o título de mestre em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1998 e o doutorado também em Zoologia pela mesma instituição em 2002.
Carreira e pesquisa
Como pesquisador do Instituto Butantan, Bertani dedica-se há mais de três décadas ao estudo de aranhas e escorpiões, com foco especial na sistemática e taxonomia de aranhas migalomorfas, particularmente da família Theraphosidae. Seu trabalho é considerado fundamental para o conhecimento da fauna aracnológica brasileira e mundial.
Segundo dados do Google Scholar, Bertani possui mais de 2.350 citações em trabalhos científicos, enquanto o ResearchGate registra 219 publicações científicas. Sua pesquisa abrange não apenas a descrição de novas espécies, mas também revisões taxonômicas, análises cladísticas e estudos sobre a biologia e ecologia de aracnídeos.
Projetos apoiados pela FAPESP
Bertani coordenou diversos projetos de pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), incluindo revisões taxonômicas e análises cladísticas de grupos importantes de aranhas migalomorfas, como as subfamílias Theraphosinae e Aviculariinae, e a família Barychelidae na região Neotropical.
Principais contribuições científicas
Descrição de novas espécies
Uma das contribuições mais notáveis de Bertani foi a descoberta e descrição de nove espécies de tarântulas arborícolas coloridas em 2012, publicada na revista ZooKeys. O trabalho de 94 páginas, desenvolvido ao longo de uma década, descreveu espécies dos gêneros Typhochlaena, Pachistopelma e Iridopelma, incluindo quatro das menores tarântulas arborícolas já registradas no mundo. Muitas dessas espécies vivem exclusivamente em bromélias, representando um importante exemplo de especialização ecológica.
Em 2011, Bertani descreveu a espécie Pterinopelma sazimai, uma tarântula azul que integrou a lista Top 10 das novas espécies do Instituto Internacional de Exploração das Espécies da Universidade do Estado do Arizona. O nome homenageou o zoólogo Ivan Sazima, que coletou o primeiro exemplar em 1971 na Serra do Cipó, Minas Gerais.
Em colaboração com outros pesquisadores, Bertani descreveu o gênero Yanomamius em 2020, homenageando o povo indígena ianomâmi. O gênero inclui três espécies encontradas no planalto das Guianas: Yanomamius raonii (em homenagem ao cacique Raoni Metuktire), Yanomamius franciscoi e Yanomamius neblina. Os primeiros espécimes conhecidos foram coletados pelos próprios ianomâmis, que utilizam essas aranhas como alimento.
Revisão do gênero Avicularia
Em 2017, Bertani e Caroline Sayuri Fukushima publicaram uma extensa revisão taxonômica e análise cladística do gênero Avicularia, descrito originalmente por Carl Linnaeus em 1758. O trabalho, publicado na revista ZooKeys, resolveu uma confusão taxonômica de mais de 250 anos e propôs três novos gêneros: Caribena e Antillena (para espécies caribenhas) e Ybirapora (palavra em tupi que significa "aquelas que vivem em árvore", para espécies da Mata Atlântica).
Primeira tarântula troglóbia
Em 2013, Bertani descreveu a primeira espécie de tarântula troglóbia (adaptada exclusivamente a cavernas) do Brasil, Tmesiphantes hypogeus, em colaboração com Maria Elina Bichuette.
Atuação em divulgação científica e defesa da ciência
Bertani é ativo na divulgação científica, tendo participado de entrevistas e materiais educativos sobre aracnídeos. Segundo ele, o conhecimento sobre aracnídeos ajuda a diminuir o medo dessas criaturas, pois "quando aprendemos que os aracnídeos não têm boa visão, não atacam sem motivo e que boa parte deles tem medo de nós, passamos a respeitá-los".
Em 2025, manifestou preocupação com o futuro da pesquisa científica pública no Brasil, alertando sobre o risco de extinção de linhas históricas de pesquisa, como o estudo de animais peçonhentos no Instituto Butantan, área iniciada por Vital Brazil há mais de um século. Bertani destacou que o escorpionismo é um problema emergente que causa milhares de acidentes e mortes anualmente, principalmente de crianças, mas que a área enfrenta falta de concursos para novos pesquisadores.
Reconhecimento
Seu trabalho é amplamente citado na literatura científica internacional e suas descobertas têm sido destaque em veículos de comunicação como National Geographic, Ciência Hoje e publicações científicas especializadas. É considerado uma referência mundial em sistemática de Theraphosidae e taxonomia de aracnídeos neotropicais.
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