A língua conga ou quiconga () é uma língua falada pelo povo congo no norte da República de Angola, nas províncias de Cabinda, do Uíge, do Zaire e em parte do Cuanza-Norte, onde possui o estatuto de língua nacional; e na região do baixo Congo, na República Democrática do Congo e nas regiões limítrofes da República do Congo. Também é falada por alguns povos do Gabão.

Existem, nos dias atuais, aproximadamente 8,8 milhões de falantes nativos, em adição a dois milhões de pessoas que a usam como segunda língua, totalizando cerca de 10 a 11 milhões de pessoas. Pelo seus contextos de dispersão, ela possui cerca de vinte variantes espalhadas por três países. Ademais, é uma língua tonal, ou seja, a entonação pode mudar o significado das palavras.

A língua teve a sua origem como língua oficial no antigo Reino do Congo. Historicamente, era falada por muitos dos africanos que foram levados como escravizados para as Américas. Por essa razão, formas crioulas da língua são adotadas por todo o território americano. Podem também ser vistas na linguagem ritual de religiões afro-americanas, especialmente no Brasil, em Cuba, em Porto Rico, na Republica Dominicana, no Haiti e no Suriname. Algumas de suas influências foram na formação da língua gullah nos Estados Unidos, do palenquero na Colômbia e do quituba na própria África.

Há controvérsias sobre a organização da família banta. Segundo a classificação linguística de Greenberg (1982), a língua conga inclui-se no grupo banto, da divisão bantoide, pertencente ao subgrupo benue-congo, que faz parte da ramificação nigero-congolesa da grande família Níger-Kordofaniana. Apesar da classificação de Greenberg ser amplamente aceita, ela é controversa em relação à proposta de Guthrie (1967), a qual propõe que as inúmeras semelhanças encontradas entre o banto e outras línguas nigero-congolesas resultam de influências bantas sobre um grupo de línguas fundamentalmente diferentes. Nesse caso, a classificação do congo como banto não se encaixaria, apesar dos outros subgrupos não estarem em discussão.

Etimologia Kikongo é a palavra usada pelo grupo étnico dos congos, provenientes da região antes ocupada pelo Reino do Congo, para se referir a sua língua. A palavra tem origem banta e surgiu especificamente para se referir a essa língua e aos seus falantes. A variação em sua escrita se deve ao local em que é usada. Enquanto o "k" é usado na grafia atual em quicongo, o "q" e o "c" são usados no português.

Além disso, "congo" e "bacongo" (kongo, bakongo) são usados para se referir ao próprio povo. O prefixo ki- é o artigo da palavra e "congo" se refere ao país Congo, então a tradução de sentido seria "do Congo" ou “a língua usada no Congo". O outro prefixo utilizado é o ba-, que é um indicativo de plural, e quando utilizado com "congo" significa "povos congos".

A partir daí, o nome Congo, não é apenas o nome de dois países, mas também e o nome do rio que divide a República democrática do Congo e a República do Congo, tem duas possibilidades de origem. A primeira é que esse nome deriva do termo banto para "montanhas". E a segunda é que talvez o nome tenha vindo da palavra n`kongo, que significa "caçador".

Distribuição A região em que o congo é falado se restringe a países da África Central, incluindo Angola, onde o uso da língua está concentrado nas províncias do norte (aproximadamente 6,8% da população é falante nativa), a República Democrática do Congo (cerca de 2,6% da população é falante), a República do Congo (mais de 50% da população é falante) e partes do Gabão (alguns milhares de falantes).

Distribuição do congo e de seus dialetos pelos países centro-africanos: Sul da República do Congo: Dialetos Yombe, Vili, Ladi, Sundi e outros: Kouilou; Niari; Bouenza; Lékoumou; Brazavile; Dialetos Ladi, Kongo Boko e outros: Pool. Sul da República Democrática do Congo: Dialetos Yombe, Ntandu, Ndibu, Manyanga e outros: Congo Central; Norte de Angola: Dialetos Kisikongo, Zombo, Ibinda e outros: Cabinda; Uíge; Zaire; Norte de Bengo e de Cuanza Norte. Sudoeste do Gabão. Dialeto Vili: Nyanga; Ngounié.

Dialetos

O congo, na classificação de Malcolm Guthrie (1967), é colocado no grupo linguístico H10 com o código H16. Tal grupo pertence às línguas Congo, um dos grupos filogenéticos das línguas bantas. Algumas línguas do grupo Congo são reconhecidas como dialetos do congo. São elas: o congo meridional (falado em Angola e República Democrática do Congo), o congo central (falado na República Democrática do Congo), o yombe (falado na República Democrática do Congo), o congo ocidental ou fiote (falado em Cabinda e República Democrática do Congo), o buende (falado na República do Congo e República Democrática do Congo), o ladi (falado em Pool), o congo oriental (falado na República Democrática do Congo) e o congo sudeste (falado em Angola e República Democrática do Congo).

Ainda existem outras línguas relacionadas ao congo que pertencem ao grupo mais abrangente H10. Entre elas, estão o bembe (falada na República do Congo), o vili (falado na República do Congo), o kunyi (falado na República do Congo), o ndingi (falado em Cabinda), o mboka (falado em Cabinda) e o dondo (falado no sul da República do Congo).

+ Comparativo de numerais entre os dialetos Numeral/dialeto Beembe Doondo Vili Kikongo 1 mósi mɔsi mèsì mosi 2 óólo ɔɔle wàlì yole 3 tátu tatu tàtù tatu 4 ná ya nà n'ya/ya 5 táánu taanu tàːnù tanu 6 sáámúnu saamanu sàmùnù sambanu 7 ntsáámu nsambwaadi sâːmbwàːlì nsambwadi 8 póomó naana náːnə̀ nana 9 wá vwa vwá vwa 10 kúúmi kuumi kúːmí kumi

Línguas relacionadas De acordo com Nurse e Philippson (2003), no subgrupo Congo da classificação das línguas bantas podem ser encontradas as línguas semelhantes ao congo. Fazem parte desse subgrupo o buende (buende, sonde), o cataract, o congo central (canyanga, mazinga), o congo oriental (ntandu, santu), o nzamba (dzamba), o congo sudeste (nkanu, pende, zoombo), o congo sul e o congo ocidental (fiote, fioti). Além disso, outras línguas são consideradas crioulas, como o habla congo, a língua litúrgica da religião afro-cubana palo, e o quituba, falado como língua franca em parte da África Ocidental.

Muitos escravos africanos transportados para a América falavam congo, e sua influência pode ser vista em muitas línguas crioulas na diáspora africana, como no palenquero (falado por descendentes de escravos negros fugidos na Colômbia), na língua crioula haitiana, e na língua gullah nos Estados Unidos. A semelhança entre as línguas pode ser vista em algumas palavras do inglês americano que são derivadas do congo, comoː goober, do quicongo nguba (amendoim); zombie, do quicongo nzombie (zumbi); e funk (que veio de "funky", utilizado em comunidades negras para se referir ao odor corporal forte), do quicongo lu-fuki (mal odor corporal).Farris Thompson, in his work Flash Of The Spirit: African & Afro-American Art & PhilosophyEnglish language and usage. Disponível em https://english.stackexchange.com/questions/17228/where-does-funk-and-or-funky-come-from-and-why-the-musical-reference. Acesso em 15 de novembro de 2017. Além disso, o nome da dança cubana mambo deriva da palavra crioula haitiana para "sacerdotisa vodu".

História Origem e formação da língua No Congo existem histórias de como o seu estado foi formado, segundo Thornton (1998) a fundação mitológica é a seguinte: Lukeni lua Nimi (Nimi a Lukeni) nasceu entre 1401 e 1424 em Vungo (Bungo), território ao norte do rio Zaire (ou rio Congo), filho de Nimi a Zima, soberano deste potentado. Apesar de suas qualidades para administrar o território, Lukeni era o quarto irmão na sucessão do poder do cargo de chefe político ocupado por seu pai. Lukeni então, decidiu cobrar impostos e sua própria mãe grávida, em nome de seu pai. Quando ela se recusa a pagar (provavelmente por causa de sua ilegitimidade como sucessor político), Lukeni esfaqueia seu ventre, assassinando mutuamente sua mãe e o irmão em gestação. Este gesto marcou a ruptura de Lukeni com a tradição política vigente.

Após isso, ele migrou em direção ao sul e após cruzar o grande rio Zaire, subjugou os povos agricultores que ali viviam, fundando assim um novo estado, chamado Congo. A partir desta fundação, Lukeni passou a expandir seu território dominando pequenas chefaturas, através de um sistema de poder altamente centralizado sediado na capital intitulada Mbanza Congo (Cidade do Congo). Ao se tornar soberano deste novo estado, Lukeni teria passado a ser chamado de “ntinu”, inaugurando este novo título, o mais alto título político do então recém-fundado Congo. A partir de então, apenas os descendentes de Lukeni poderiam ocupar o cargo de chefe político do Congo (Mani Congo) e gozar deste título: ntinu.

Cristianização

A partir do século XIV, quando os europeus lançaram-se a uma longa jornada pelo Oceano Atlântico, o continente africano esteve cada vez mais incluído nos trajetos marítimos principalmente dos portugueses. Entre os anos de 1340 e 1470, a expansão europeia pela costa africana aconteceu de maneira bastante lenta se comparada aos avanços obtidos posteriormente. A partir disso, os colonizadores seguiram infiltrando-se desde logo nos circuitos comerciais africanos, principalmente no comércio do ouro e no tráfico de escravos que começaria a atingir cada vez maiores proporções já a partir do início do século XVI.

Para além dos interesses comerciais, a propagação da fé católica entre os “infiéis” esteve desde o início entre os objetivos destes contatos. De modo geral, as experiências de conversão católica dos africanos nessa região ocorreram a partir do consentimento e da adesão dos próprios líderes locais, motivados por fatores e interesses diversos.

Em 1482 uma embaixada foi enviada para o Reino do Congo, liderada por Diogo Cão, enviado pela coroa portuguesa. Segundo identificaram os europeus que lá estavam, o Reino do Congo abrangia a capital Mbanza Congo (que mais tarde recebeu o nome de São Salvador) e algumas províncias com chefes locais, também conhecidos como manicongos. O manicongo foi logo reconhecido pelos europeus como soberano sobre todo o território. Dessa forma, o fato do catolicismo ter sido adotado no Congo por meio da autoridade maior - o manicongo - facilitou de maneira decisiva a permanência da religião durante um período tão grande.

No Reino do Congo, desde logo a escrita foi adotada como forma de comunicação com os portugueses. Os esforços no aprendizado da leitura e escrita, principalmente pelos filhos da aristocracia, garantiram um domínio gradual dessa linguagem. A maior dificuldade era se comunicar em um alfabeto que era desconhecido pelos nativos. Felizmente, essa barreira foi ultrapassada, ao menos pelos reis e pessoas da alta hierarquia, que acabaram produzindo um número bastante elevado de documentos, destacando-se o célebre conjunto de cartas do rei Afonso I (c.1509-c.1542), ou pela correspondência mantida por vários reis congos do início do século XVII com o Vaticano.