O pica-pau-bico-de-marfim ou pica-pau-de-bico-marfim (nome científico: Campephilus principalis) é uma espécie de pica-pau possivelmente extinto, nativo dos pântanos norte-americanos e das florestas temperadas de coníferas do sul dos Estados Unidos e de Cuba. A destruição de seu habitat e a caça reduziram as populações de forma tão devastadora que a espécie está listada como Criticamente Ameaçada na Lista Vermelha da IUCN, e como "definitivamente ou provavelmente extinta" pela American Birding Association. O último avistamento universalmente aceito de um pica-pau-bico-de-marfim americano ocorreu na Luisiana em 1944, e o último avistamento universalmente aceito de um pica-pau-bico-de-marfim cubano ocorreu em 1987; relatos esporádicos de avistamentos e outras evidências da persistência da espécie continuaram desde então. No século XXI, relatos de avistamentos e análises de gravações de áudio e vídeo foram publicados em revistas científicas revisadas por pares como evidência de que a espécie persiste em Arkansas, Luisiana e Flórida. Vários investimentos em terras e a restauração de seu habitat foram iniciados em áreas onde avistamentos e outras evidências sugeriram uma probabilidade relativamente alta da existência da espécie, para proteger quaisquer indivíduos sobreviventes. Em setembro de 2021, a espécie foi declarada extinta pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos. A IUCN não mudou sua avaliação sobre a espécie.

Taxonomia

O pica-pau-bico-de-marfim foi descrito pela primeira vez como Picus maximus rostra albo (latim para "o maior pica-pau de bico branco") na publicação de 1731; Natural History of Carolina, Florida, and the Bahamas, do naturalista inglês Mark Catesby. Observando seu relatório, Linnaeus mais tarde o descreveu na décima edição de seu Systema Naturae de 1758, onde recebeu o nome binomial de Picus principalis. O género Campephilus foi introduzido pelo zoólogista inglês George Robert Gray em 1840 com o pica-pau-bico-de-marfim como o espécie-tipo.

Ornitólogos atualmente reconhecem duas subespécies desta ave:

Pica-pau-bico-de-marfim americano (C. p. principalis), nativo do sudeste dos Estados Unidos Pica-pau-bico-de-marfim cubano (C. p. bairdii), nativo de Cuba, incluindo a Ilha da Juventude

thumbtime=0:00|left|thumb|Vídeo reviravolta de exemplar fêmea taxidermizado de pica-pau-bico-de-marfim cubano (C. p. bairdii), pele RMNH 110097, Naturalis Biodiversity Center

left|thumb|Vídeo reviravolta de exemplar macho taxidermizado de pica-pau-bico-de-marfim americano (C. p. principalis), Naturalis Biodiversity Center

Ambos são semelhantes, com a subespécie cubana um pouco menor e algumas variações na plumagem, com as faixas dorsais brancas estendendo-se até o bico, e as penas da crista vermelha do macho mais longas do que as penas da crista negra da fêmea, enquanto os dois são do mesmo comprimento na subespécie americana.

Existem controvérsias sobre se o pica-pau-bico-de-marfim cubano deveria ser ou não mais apropriadamente reconhecido como uma espécie separada. Um estudo de 2006 comparou amostras de DNA retiradas de espécimes de ambas subespéscies de pica-pau-bico-de-marfim, junto com o pica-pau-imperial (Campephilus imperialis), uma espécie maior, porém muito semelhante. Concluiu-se não apenas que os pica-paus-de-bico-de-marfim cubano e americano são geneticamente distintos, mas também que eles e o pica-pau-imperial formam um clado norte-americano dentro do género Campephilus que surgiu em meados do Pleistoceno. O estudo não tenta definir uma linhagem ligando os três pássaros, embora implique que a subespécie cubana seja mais intimamente relacionado ao pica-pau-imperial. A American Ornithologists' Union Committee afirmou que ainda não estão prontos para listar as subespécies como espécies separadas. Lovette, membro do comitê, disse que mais testes são necessários para apoiar essa mudança, mas concluiu que: "Esses resultados provavelmente iniciarão um debate interessante sobre como devemos classificar essas aves."

"Pica-pau-bico-de-marfim" é o nome oficial dado à espécie pela International Ornithologists' Union. Nomes comuns anglofónos mais antigos utilizados nos Estados Unidos incluíam: Log Cock, Log God, Good Lord, Indian Hen, Kent, Kate, Poule de Bois (Galinha de madeira em francês cajun), e Tit-ka (Galo de madeira em Seminole).Hoose (2004), pagina 92 Alguns autores modernos se referem a ele como o "pássaro do Santo Graal" ou "Pássaro do Graal" por causa de sua extrema raridade e evasão para os observadores de pássaros.

Descrição thumb|upright|O contraste na plumagem do macho (acima) e da fêmea (abaixo)

O pica-pau-bico-de-marfim é um dos maiores pica-paus do mundo, com aproximadamente 51 cm de comprimento e 76 cm de envergadura;  é o maior pica-pau em sua distribuição. O seu relativo próximo, o pica-pau-imperial (C. imperialis) do oeste do México é o maior pica-pau do mundo. O pica-pau-bico-de-marfim tem um comprimento total de 48 a 53 cm, e baseado em informações escassas, pesa por volta de 450 a 570g. As medidas padrão obtidas incluem um comprimento de corda máxima de , a cauda com comprimento de , o bico com comprimento de , e o tarso com de comprimento.

thumb|upright|left|Ilustração do pé esquerdo, mostrando zigodactilia típica de pica-paus

A plumagem do pica-pau-bico-de-marfim é predominada por uma tonalidade preta ou azul-escuro brilhante. Existem linhas brancas que se estendem das bochechas até o pescoço, encontrando-se nas costas. As extremidades das penas primárias internas são brancas, assim como todas as penas secundárias externas. Isso cria um branco extenso na borda posterior das asas superior e inferior. A parte debaixo das asas também é branco ao longo de sua borda dianteira, resultando em uma linha preta contínua ao longo das asas debaixo, expandindo para um preto mais extenso na ponta da asa. Algumas aves foram registradas com quantidades mais extensas de branco nas penas primárias.

Pica-paus-bico-de-marfim possuem uma crista proeminente, embora em jovens seja irregular. É uma espécie sexualmente dimórfica, como pode ser visto na imagem à direita, já que a crista é preta ao longo de sua borda dianteira, mudando abruptamente para vermelho nas laterais e na parte traseira nos machos, mas continua preto sólido nas fêmeas e nos machos juvenis. Quando empoleirados com as asas fechadas, ambos os sexos apresentam uma grande mancha branca na parte inferior das costas, de formato aproximadamente triangular. Como todos os pica-paus, o pica-pau-bico-de-marfim tem um bico forte e reto e uma língua longa, móvel, de ponta dura e farpada. Nos adultos, o bico é da cor marfim, enquanto é branco como giz nos juvenis. Entre os pica-paus norte-americanos, o pica-pau-bico-de-marfim é o único a ter um bico cuja ponta é bastante achatada lateralmente, em forma de cinzel de madeira chanfrada. Seu voo é forte e direto, e pode ser comparado ao de um pato de pequeno porte.

Essas características distinguem o pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis) do pica-pau-orelhudo (Dryocopus pileatus), sendo espécies similares, porém o D. pileatus é menor e de bico mais escuro. Além disso, o D. pileatus normalmente é preto-acastanhado, esfumaçado ou de cor preta acinzentada. Também tem uma listra branca no pescoço, mas as costas normalmente são pretas. Os juvenis e adultos do D. pileatus possuem crista vermelha e queixo branco. Os D. pileatus normalmente não possuem branco nas bordas traseiras de suas asas e, quando empoleirados, mostram apenas uma pequena mancha branca em cada lado do corpo perto da borda da asa. No entanto, no D. pileatus, indivíduos aparentemente aberrantes, foram relatados com bordas de fuga brancas nas asas, formando uma mancha triangular branca na parte inferior das costas quando empoleirados.

O tamborilado é uma batida simples ou dupla. Quatro chamadas bastante distintas são relatadas na literatura e duas foram registradas na década de 1930. O mais comum, um kent ou hant, soa como um trompete de brinquedo, frequentemente repetido em uma série. Quando o pássaro é perturbado, o tom da nota de kent aumenta, é repetido com mais frequência e muitas vezes é duplicado. Um chamado de comunicação, também gravado, é dada entre indivíduos no ninho e foi descrita como kent-kent-kent. Uma gravação da ave, feita por Arthur A. Allen, pode ser encontrada aqui.

Habitat e dieta thumb|Casal sob árvore com ninho, abril de 1935

Ambos os autores reconstruíram a extensão original da ave a partir de registros históricos que consideraram confiáveis, em muitos casos de espécimes com registros históricos de onde foram coletados. Os dois autores produziram estimativas de distribuição amplamente semelhantes, descobrindo que antes do desmatamento e da caça da espécie começarem a diminuir seu alcance, o pica-pau-bico-de-marfim ocorria do leste do Texas até a Carolina do Norte, e do sul de Illinois para a Flórida e Cuba, tipicamente do litoral para o interior até onde a altitude de aproximadamente 30 m.

Existem algumas diferenças significativas em suas reconstruções. O mapa de distribuição de Hasbrouck estendeu-se até o Rio Missouri até Kansas City com base nos relatórios de Wells Woodbridge Cooke de Kansas City e Fayette, que Tanner rejeitou, considerando como um possível relatório acidental ou não comprovado.Tanner (1942), page 3 Da mesma forma, a estimativa de distribuição de Hasbrouck estendeu-se pelo vale do rio Ohio até condado de Franklin, Indiana com base em um registro de E. T. Cox, que Tanner novamente rejeitou, considerando como não comprovado ou acidental. A estimativa de distribuição de Tanner estendeu-se mais acima no Rio Arkansas e Rio Canadian, com base nos relatórios das aves de SW Woodhouse a oeste de Fort Smith, Arkansas, e um avistamento feito por Edwin James nas cachoeiras do Rio Canadian,Tanner (1942), pagina 12 de qual não foram mencionados e possivelmente desconhecidos por Hasbrouck. O mapa de Tanner é atualmente aceito como o alcance original do pássaro, mas existem vários registros fora do alcance de ambos os mapas, que foram ignorados ou rejeitados por Tanner, ou que surgiram após sua análise. A sudoeste da estimativa de alcance de Tanner, a ave foi relatada ao longo do Rio San Marcos e no Rio Guadalupe, bem como próximo a New Braunfels, por volta de 1900.

Mais adiante do vale do Rio Ohio, William Fleming relatou atirar em um pica-pau-bico-de-marfim em Logan's Fort, Kentucky em 1780. Restos de pica-paus-de-bico-de-marfim foram encontrados em montículos em Condado de Scioto, Ohio, que se inferiu serem de uma ave caçada localmente, e inferências semelhantes foram tiradas de outros restos encontrados perto de Wheeling, Virgínia Ocidental. Também existe um relato de um exemplar abatido e comido em Doddridge county, Virgínia Ocidental por volta de 1900.Jackson (2004), page 264 Ao longo da costa do Atlântico, Hasbrouck definiu o limite norte da distribuição em torno de Fort Macon, Carolina do Norte com base em relatórios que não incluíam espécimes, que foi rejeitado como não provado por Tanner, que usou o registro de um indivíduo que foi abatido a 12 milhas ao norte de Wilmington, Carolina do Norte por Alexander Wilson para definir o limite norte da distribuição.

Existem registros da ave mais longe ao longo da costa atlântica;  Thomas Jefferson incluiu-o como uma espécie existente no estado da Virgínia em Notes on the State of Virginia, Audubon relatou que o pica-pau-bico-de-marfim pode ocasionalmente ser encontrado tão ao norte quanto Maryland, e Pehr Kalm relatou que era uma ave presente sazonalmente em Swedesboro, Nova Jersey em meados do século XVIII. Mais para o interior, Wilson relatou ter atirado em um bico de marfim a oeste de Winchester, Virginia. Ossos recuperados em Etowah Mounds na Geórgia acredita-se que venha de aves caçadas localmente.