Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreuz (título original: Die Chymische Hochzeit Christiani Rosencreutz. Anno 1459) é o terceiro dos manifestos que deram publicidade à Ordem Rosacruz no início do século XVII.

Manifestos Rosacruzes: 1614 - Fama Fraternitatis 1615 - Confessio Fraternitatis 1616 - Núpcias Alquímicas de Christian Rozenkreuz

Trata-se de um manifesto rosacruciano publicado em 1616 na cidade alemã de Estrasburgo (anexada à França em 1681). Sua autoria é originalmente desconhecida, tendo sido publicado por Lazarus Zetzner sem menção ao nome do autor. Mais tarde, em sua autobiografia, Johannes Valentinus Andreae (1586–1654) reivindicou tê-lo escrito em 1604. Sua versão em inglês foi publicada em 1690 pela editora Foxcroft, datando a tradução francesa somente de 1928. As traduções para a língua portuguesa começaram com Jan van Rijckenborgh, apresentando sua análise dos aspectos simbólicos presentes na obra. Outra tradução mais moderna para o português surgiu em 2016, por Tereno Telúrio Tertuliano (provavelmente pseudônimo), obtida diretamente do texto original em alemão.

A ação se situa em 1459, “em uma noite antes do dia da Páscoa”, durante os preparativos e meditações do autor/protagonista, Christian Rosenkreuz (CRC), que inusitadamente recebe, por um anjo, o convite para comparecer à festa de núpcias do Rei e da Rainha. O texto é alegórico, poético e satírico, seguindo a tradição dos grandes textos alquímicos, narrando em primeira pessoa as experiências de CRC nos sete dias que se seguem ao convite, culminando com sua instalação como Cavaleiro da Pedra Dourada. Curiosamente, foi na Páscoa de 1459 que a Constituição dos Francomaçons de Estraburgo foi primeiramente assinada, em Regensburg, com uma segunda assinatura pouco depois em Estrasburgo. Essa data se aproxima também da data de impressão da Bíblia de Gutemberg, que começou a ser impressa em Mainz, Alemanha, em 1455, e da primeira Bíblia em alemão, a Bíblia de Mentel, concluída em Estrasburgo em 1466. A obra foi majoritariamente escrita em alemão, contendo ainda trechos em latim e termos latinizados. Nas marginálias ainda se encontram vez ou outra termos em grego e símbolos alquímicos.

A folha de rosto original indica seu conteúdo codificado e esotérico pela inscrição:

"Arcanos publicados de valor; e em favor dos profanos perdidos. Logo: não atira Pérolas a porcos, ou deita rosas a um Burro."

(Arcana publicata vileſcunt; & gratiam prophanata amittunt. Ergo: ne Margaritas obijce porcis, ſeu Aſino ſubſterne roſas.)

De uma grande qualidade literária, esta obra se presta a numerosas interpretações. Ali se revelam aspectos alquímicos, teológicos, astrológicos, alegóricos, psicológicos, espirituais, numerológicos, herméticos e cabalísticos que revelam interesse pela matemática, mecânica, magia e pansofia, de sorte que este manifesto tem sido fonte de inspiração para poetas e alquimistas (os quais têm por objetivo o "Casamento Sagrado") através da força de seu ritual de iniciação envolvendo procissões, enigmas, purificações, morte, ressurreição e ascensão, bem como por causa de seu simbolismo, encontrado desde o início do texto, com no convite para assistir às Bodas Reais. Este convite contém a Mônada Hieroglífica (ou Monas Hieroglyphica), associada a John Dee.

Existem diversas semelhanças nesta alegoria alquímica com passagens bíblicas, como as que fazem referência ao convite para a festa no castelo:

"O reino dos céus é semelhante a um certo rei que celebrou as bodas de seu filho." (Mateus 22:2) Parágrafo Inicial A estória segue-se exatamente à Páscoa e aos sete dias de pães ázimos. As instruções para o ritual da Páscoa no livro de Êxodo (Êx.12:15) também podem ser encontradas em detalhes nos livros Levítico, Números e Deuteronômio. O abate e o preparo do cordeiro pascal ocorrem na noite anterior. Do mesmo modo, as Núpcias Alquímicas começam à véspera da Páscoa, com CRC sentado à mesa com seu cordeiro pascal e seu pão ázimo. Isso poderia indicar que CRC fosse judeu. Entretanto, as palavras "Pai das Luzes" são curiosamente empregadas no primeiro parágrafo, não sendo este um nome ou título de Deus tradicionalmente empregado pelos judeus. Na verdade, a expressão "Pai das Luzes" somente aparece uma vez na Bíblia, no Novo Testamento. Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das Luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. (Epístola de Tiago I, 17) Essa evidência ajuda a reforçar a ideia do viés cristão de seu autor, explicitado mesmo na escolha do nome do protagonista.

Segue um trecho do primeiro parágrafo, o qual é acompanhado por uma nota marginal contendo a palavra Meditatio (do latim, meditação):

"Em uma noite antes do Dia da Páscoa, eu me sentei a uma mesa e, tendo (como era de meu costume) em minha humilde oração suficientemente conversado com meu Criador e refletido sobre muitos grandes mistérios (os quais sua Majestade, o Pai das Luzes, tem me deixado ver não poucos), e estando agora pronto para preparar no meu coração, juntamente com meu amado Cordeiro Pascal, um pequeno e imaculado pão ázimo, muito subitamente surgiu uma horrível tempestade, de modo que eu não pensei outra coisa, senão que a colina sobre a qual minha pequena casa estava fundada devesse explodir com grande violência."

Resumo da Obra

Dia 1.

O Convite As "Núpcias" se iniciam à véspera da Páscoa, momento em que CRC recebe um convite de uma "belíssima menina, cujas vestes eram totalmente azuis com estrelas douradas, como se graciosamente deslocadas do Céu", e com "grandes e lindas asas repletas de olhos, em toda a extensão e mesmo através". Essa virgem lhe entrega uma pequena carta informando sobre o convite para as Bodas Reais, mas também advertindo para os riscos de se apresentar sem haver-se suficientemente preparado.

O Primeiro Sonho de CRC Depois de fervorosa prece e rogo pela aparição de seu bom anjo, CRC adormece e tem um sonho. Ao fundo de uma torre profunda e obscura, juntamente com outras pessoas acorrentadas e lutando umas contra as outras, ele descreve os vãos esforços da humanidade em sua ignorância e desespero. A cobertura da torre é elevada, mas o mínimo raio de luz que se infiltre só torna a realidade mais insuportável e caótica. Uma corda é lançada por sete vezes e todos se digladiam para serem libertados. CRC é erguido e liberado na sexta vez que a corda desce, mas é obrigado a ajudar a retirar o último grupo, apesar de suas graves feridas.

Seus salvadores lamentam não poderem salvar a todos e lhe presenteiam com uma insígnia dourada contendo a inscrição D.L.S (Deus Lux Solis, ou Deus Laus Semper: Deus Luz do Sol, ou Deus seja eternamente louvado).

Depois de desperto, CRC deixa sua choupana pleno de esperança e alegria e se coloca em caminho na direção da montanha onde deveriam ocorrer as Núpcias.

Dia 2.

Os Quatro Caminhos CRC avista três altos cedros e se dirige a eles para descansar a sua sombra. Sobre um deles estava afixada a tabuleta com orientações do Noivo sobre os quatro caminhos que levam às Núpcias. "O primeiro é curto, mas perigoso, e te conduzirá em vários penedos, através dos quais mal poderás passar." "O segundo é mais longo e ainda te conduz em círculos; não leva muito longe; ele é plano e fácil, se pela ajuda do Magneto tu não te desviares, nem para a direita, nem para a esquerda."  "O terceiro é um verdadeiro caminho Real, que, através de variadas delícias e espetáculos de nosso Rei, proporciona-te uma jucunda jornada; mas a esse até agora dificilmente um dentre mil se lançou."  "Pelo quarto, nenhum homem alcançará o Real, pois é uma via muito exigente, conveniente apenas aos corpos incorruptíveis."  Diz o texto que CRC deve escolher o caminho que deseja seguir e não mais retornar, sob risco de vida caso tente retroceder. Na tentativa de proteger uma pomba (símbolo da alma/anima) do ataque de um corvo, ele acaba entrando sem consideração em seu caminho predestinado, o segundo, de acordo com nota marginal. Na ocasião, ele deixa seu pão para trás.

No Castelo das Núpcias Depois de atravessar dois portais, comprando de seus guardiões duas insígnias por sal e água, CRC finalmente chega ao castelo e descobre uma grande quantidade de convidados, os quais em sua maioria, ridicularizam e zombam de sua piedade. A grande decepção de CRC é interrompida pela entrada da uma "belíssima Virgem, trazida em um glorioso e triunfante trono dourado que se movia por si mesmo". A Virgem anuncia que no dia seguinte haverá a aferição dos pesos dos Artistas (palavra usada no sentido de alquimistas, no caso, os convidados). Aqueles que não passassem pelo teste da balança seriam expulsos com humilhação, mas aqueles que espontaneamente se reconhecessem indignos seriam liberados sem culpa.

O Segundo Sonho de CRC Tendo se reconhecido indigno, CRC é amarrado com outros voluntários e deixado para pernoitar em um canto do salão, enquanto aqueles que se submeteriam ao teste foram recolhidos em câmaras confortáveis. Durante o sono, CRC sonhou com uma multidão de pessoas presas ao céu por pequenos fios, vindo voando um velho senhor com uma tesoura a cortar-lhes os fios. Quem muito se elevou teve uma queda mais sofrida.

Dia 3.

A Preparação do Julgamento CRC e seus companheiros se preparam para observar a prova. Todos são confrontados com 7 pesos de tamanhos diferentes sobre uma balança de ouro colocada no meio do salão. Sete companhias de guardas são formadas para receber aqueles que fracassassem na prova, de acordo com o peso que não suportassem.

A Balança dos Artistas Primeiramente foram submetidos à balança os imperadores e nobres, que resistiram a algum peso em particular, ou a vários, mas raros foram os que chegaram ao termo da prova resistindo a todos os pesos. Depois vieram os sábios, os falsificadores, os fabricantes de pedras filosofais e todos que abusaram da ignorância do povo. Todos os reprovados foram expulsos da balança sob pontapés, vaias e zombaria, sendo conduzidos como prisioneiros para a companhia respectiva.

Ao final, foi proposto que os voluntários que espontaneamente se reconheceram indignos também fossem provados, sem risco de vida, apenas por diversão. CRC triunfa sobre todos os pesos, suportando adicionalmente o peso de mais três guardas que se penduraram na balança. Com isso, ele foi liberado e teve ainda o direito de libertar mais um prisioneiro a sua escolha.

Jantar Os aprovados formam uma comissão, tendo a Virgem por presidente, para definir a forma de execução dos réprobos. Depois das deliberações, estes são exaltados em um jantar solene, durante o qual recebem diversos presentes por parte do Noivo.

Execução dos Réprobos Os numerosos reprovados são conduzidos para o jardim onde cada um é tratado de acordo com seu demérito. O espetáculo sangrento é encerrado com a entrada de um Unicórnio que reverencia o Leão.

Passeio pelo Castelo Os legítimos convidados são conduzidos por pajens para diversas partes do castelo, segundo o desejo de cada um. CRC visita primeiramente o sepulcro e a biblioteca, onde encontra sinais de grande conhecimento. No entanto, deve guardar segredo de tudo, pois é posteriormente advertido de que aqueles locais eram interditos à visitação pelo Rei. Por fim, CRC se dirige ao Globo terrestre, onde verifica que sua aprovação já fora prevista pelo velho Atlas, o astrônomo do Rei.

Banquete Ao final deste longo dia, é preparado um banquete em homenagem aos convidados. A Virgem conduz as conversas por meio de intrincados enigmas sobre amor e fidelidade, culminando com o Enigma do Nome, provado pela pergunta de CRC, ao que a Virgem responde: