miniaturadaimagem|USS Forrestal em 1962 A operação Brother Sam foi a utilização da Marinha e Força Aérea dos Estados Unidos em apoio ao golpe de Estado no Brasil em 1964. Com a deterioração nas relações com o governo de João Goulart e a atitude favorável aos grupos em conspiração contra ele, surgiu a ideia de uma operação para garantir o sucesso de uma sublevação. A questão foi discutida entre o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, e oficiais em Washington ao longo do governo do presidente John F. Kennedy e seu sucessor Lyndon B. Johnson. Pensaram em apoio logístico, o posicionamento de uma esquadra no litoral brasileiro para "mostrar a bandeira" e mesmo, numa situação extrema, num plano para uma gigantesca operação terrestre, que não chegou a ser usado. A operação foi planejada mantendo contato com conspiradores brasileiros como o general Castelo Branco, e tinha como pressuposto a formação de um governo provisório que solicitasse ajuda externa.

Com a deflagração do golpe de Estado, a operação foi acionada para transferir pelo mar combustíveis como gasolina aos militares insurretos, deixar uma esquadra perto do Brasil e levar suprimentos bélicos por via aérea. O componente naval consistia no porta-aviões USS Forrestal, um porta-helicópteros e seis destróieres da Segunda Frota, além de quatro petroleiros. O porta-aviões partiu da Virgínia, enquanto os petroleiros deveriam carregar no Caribe. O componente aéreo eram sete aviões , oito aviões de abastecimento, um de apoio e socorro aéreo, oito caças, um avião de comunicações, um posto de comando aerotransportado, armas e munição. O general da Força Aérea recebeu o comando da missão, que foi coordenada pelo Comando Sul, no Panamá.

Enquanto carregamentos aguardavam nas bases aéreas, os navios começaram a deixar seus portos. Entretanto, os militares oposicionistas no Brasil rapidamente derrubaram o governo de Goulart, e Castelo Branco informou que o apoio logístico não seria necessário. A operação foi, assim, desativada antes de ter efeito físico no Brasil, mas demonstrou a disposição intervencionista do governo americano. Com a desclassificação de documentos, ela veio à público em 1976–1977.

Contexto

Após a Revolução Cubana em 1959, a atitude do governo americano com líderes de esquerda na América Latina endurecia. Entre eles estava o governo de João Goulart no Brasil. Jango, como era conhecido, preocupou os Estados Unidos com suas políticas internas e externas, e as relações bilaterais deterioraram. A Aliança para o Progresso, que seria forma moderada de influenciá-lo, não atingiu seus objetivos, e Washington passou a enfraquecer o governo brasileiro com medidas como o financiamento das campanhas eleitorais oposicionistas em 1962 e o redirecionamento da assistência econômica a governadores oposicionistas.

A partir de um determinado período, disputado na literatura, Washington tornou-se favorável à destituição de Goulart. Desde 1961 alguns grupos de militares brasileiros conspiravam contra o governo, e a Embaixada estava ciente desses movimentos. Em 1963, o governo americano já procurava um grupo nas Forças Armadas capaz de destituir Goulart. Enquanto isso, ao final desse ano desenvolvia planos de contingência e trabalhava em cima do que fazer no caso de uma rebelião. Surgiu a preocupação dela precisar de apoio americano para ter sucesso; em 7 de outubro, Kennedy perguntou a Gordon sobre a possibilidade de ser necessária uma intervenção. Um documento do Departamento de Estado de novembro menciona um novo plano de contingência com "ênfase pesada na intervenção armada dos EUA". A Brother Sam nasceu a partir de um plano de contingência, que, porém, tinha escopo mais amplo.

Desenvolvimento da operação Discussões na cúpula americana A versão do plano de contingência de 11 de dezembro de 1963, provavelmente em desenvolvimento desde os meses anteriores, elencava quatro possibilidades. A terceira, o afastamento de Goulart, era semelhante ao ocorrido de fato. A segunda era:

Os conspiradores militares eram chamados de "forças democráticas". A seu pedido,

O documento salienta que sua descoberta prematura seria prejuízo político. Da mesma forma, uma intervenção aberta seguida da vitória de Goulart contra seus opositores seria um constrangimento. A ideia de uma força-tarefa naval não estava presente no início, mas havia espaço para ela na possibilidade de "intervir com força apenas se houvesse intervenção soviética ou cubana", o que poderia aludir até mesmo a uma operação terrestre.

Em meados de março de 1964, a Embaixada podia constatar o acirramento da crise política, a união dos conspiradores militares na figura do general Castelo Branco, que poderia dar um golpe de Estado, e a adesão dos governadores à conspiração. Uma reunião na Casa Branca em 20 de março e outra na Embaixada, pouco depois, estabeleceram o envio de um porta-aviões e navios petroleiros para apoiar a oposição. A primeira tinha o pressuposto de que, mesmo com os partidários de Castelo Branco tomando a maior parte do país, poderia haver resistência no Rio Grande do Sul e Pernambuco, e uma presença naval no litoral seria demonstração de força em favor dos rebeldes, "mostrando a bandeira". Lincoln Gordon posteriormente declarou que um dos objetivos da força-tarefa seria evacuar os cidadãos americanos em território brasileiro. Isso é possível, mas não é mencionado na sua correspondência com o secretário de Estado em 1964.

A ideia foi criticada por alguns especialistas numa reunião na Casa Branca. Para , conselheiro de Segurança Nacional, "a punição não parece combinar com o crime". O general não entendeu como a esquadra poderia ajudar os oposicionistas. Lincoln Gordon teve que enfrentar oposição de seus superiores para fazer valer suas ideias, destacando-se como figura central de todo o apoio aos conspiradores militares brasileiros.

O abastecimento de combustível evitaria que partidários de Goulart na Petrobras cortassem o suprimento. Essa preocupação havia sido transmitida à Central Intelligence Agency (CIA) pelo empresário paulista Alberto Byington. Por outro lado, o plano de dezembro de 1963 já mencionava o combustível e estabelecia que suas providências deveriam ser garantidas, evidenciando que a ideia não nasceu na última hora. Além do combustível, havia a preocupação com os armamentos. Gordon já havia registrado no plano de defesa interna do Brasil, de 20 de março, a pobreza de equipamento das forças de segurança brasileiras.

Governo provisório e estado de beligerância O plano de contingência de dezembro de 1963 estabelecia uma condição para o apoio logístico:

Da mesma forma, no momento do golpe o Departamento de Estado especificou que o fornecimento de combustível e munição só poderia vir após "o ponto no qual algum grupo tendo razoável reivindicação de legitimidade consiga formalmente pedir reconhecimento e ajuda de nós e se possível de outras repúblicas americanas". A situação de insurgência ou beligerância regularizaria a oposição no plano legal. A constituição desse novo governo, porém, dependeria dela, sugerindo o contato de conspiradores brasileiros com os planos americanos. O elo entre essa ideia e a conspiração brasileira era o senador Afonso Arinos de Melo Franco.

Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, lançou seu estado em rebelião em conjunto com a guarnição local do Exército, na abertura do golpe de Estado. Na véspera, nomeou um secretariado suprapartidário "de união hermética", incluindo uma Secretaria sem Pasta reservada a Afonso Arinos. Chamado a Belo Horizonte no dia 31, sua função seria de "chanceler da revolução", "o primeiro chanceler da República fora do Itamarati", encarregado justamente de conseguir no exterior o reconhecimento da beligerância. Segundo ele, Magalhães estendeu esse convite pela primeira vez em novembro de 1963, quando mencionou a possibilidade de uma resistência prolongada de Minas Gerais; sua atuação permitiria, por exemplo, a compra de armas no exterior. Em suas palavras,

O governo mineiro pretendia usar o Porto de Vitória para receber armamento estrangeiro, especialmente americano. Conseguiu o consentimento do governador do Espírito Santo e definiu que a Polícia Militar de Minas Gerais defenderia esse corredor logístico. No momento da rebelião, ela organizou próximo às fronteiras fluminense e capixaba o "Destacamento Leste", com o 6º e 11º Batalhões de Infantaria. Ainda assim, uma rebelião poderia ser esmagada logo no início, pois o abastecimento externo demoraria dias para chegar. No caso de uma guerra civil, Minas Gerais estaria em desvantagem mesmo se conseguisse armas para 50 mil voluntários. A CIA relatou que o Porto de Vitória seria necessário para receber combustível, e os rebeldes tinham como controlá-lo.

Gordon chegou a enviar uma mensagem a vários governadores sobre a necessidade da formação de um governo com legitimidade. A CIA relatou que, no caso de conflito aberto no Brasil, a Argentina solicitaria intervenção da OEA no Brasil.

Afonso Arinos teve relevância durante o golpe ao informar seu envolvimento planejado ao deputado San Tiago Dantas. Na manhã de 1º de abril, Dantas disse a Jango que o Departamento de Estado americano estaria disposto a reconhecer um governo paralelo dos rebeldes. Isso foi um dos motivos para a saída do presidente do Rio de Janeiro.

A hipótese de um desembarque Na sua conversa com Kennedy em outubro de 1963, Lincoln Gordon mencionou que:

Tal operação excederia em muito a escala da presença no Vietnã, onde no final de 1963 estavam militares americanos. Ela é comparável ao plano "Pot of Gold", elaborado em 1940, com a previsão do desembarque de 100 mil homens no Brasil. Esse plano ainda não foi desclassificado. Há divergência de opiniões sobre fazer parte ou ser distinto da Brother Sam. O plano de contingência vagamente aludia à possibilidade no caso de interferência comunista externa. A operação aeronaval desencadeada durante o golpe, porém, não incluía desembarque de tropas. Em 30 de março o secretário de Estado Dean Rusk notou que "num país de mais de 75 milhões de pessoas, maior que os Estados Unidos continentais, isso não é um trabalho para um punhado de fuzileiros navais."

Conforme Carlos Fico, a entrega de suprimentos nos portos brasileiros ainda exigiria uma pequena presença terrestre, e, no caso de um conflito interno no Brasil, seria possível encontrar alguma interferência comunista externa como pretexto para uma intervenção militar. Nesse caso, seria preciso consultar o Congresso americano e a Organização dos Estados Americanos, um "cenário realmente chocante". Jacob Gorender nota que os navios não traziam contingentes terrestres, e o crescente envolvimento no Vietnã dificultaria uma segunda frente no Brasil. Moniz Bandeira enfatiza a possibilidade de uma invasão. Elio Gaspari escreve que "não há registro documentado que previsse um imediato desembarque de tropa".

Reta final A operação foi planejada em cooperação com brasileiros, tendo o general José Pinheiro de Ulhoa Cintra como intermediário. Em 28 de março, Gordon registrou como as preocupações logísticas vinham dos conspiradores e, na semana seguinte, seriam especificadas através do contato entre o general Cintra e o adido militar Vernon Walters. Na interpretação de Marco Antonio Villa, a operação poderia ter em mente o golpe castelista programado para a primeira quinzena de abril, o que permitiria aos navios já estarem perto do Brasil no momento da deflagração. No dia 27, um memorando de Lincoln Gordon previu o clímax da crise política em poucos dias, com Castelo Branco como líder da "revolução".

Informes da CIA em Minas Gerais no dia 30 registraram o início iminente do movimento. e . Na madrugada do dia 31, o general Olímpio Mourão Filho, comandante do Exército em Minas Gerais, precipitou o golpe de Estado, à revelia de Castelo Branco e os outros conspiradores no Rio de Janeiro e São Paulo.

A força-tarefa em ação Acionamento