A Fazenda Resgate é uma antiga fazenda de Café do século XIX, que fica no município de Bananal, estado de São Paulo. Faz parte do chamado Vale do Paraíba Paulista. É tombada como Patrimônio Histórico, pelo CONDEPHAAT.

Economia do café O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).

Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.

Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.

No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].

História Em 1776, o local denominado “o Resgate”, na Província de São Paulo, quase divisa com a então Província do Rio de Janeiro, deu origem ao que anos mais tarde seria a Fazenda Resgate, no atual município de Bananal, no Vale do Paraíba paulista. Esse local pertencia à Fazenda Três Barras, cabeça de sesmaria do padre Antônio Fernandes da Cruz. Tornou-se uma fazenda em 1828, como dote de casamento de Alda Rumana de Oliveira com o coronel Inácio Gabriel Monteiro de Barros. Nessa época, a propriedade produzia toucinho, milho, feijão, farinha, café em pouca quantidade e possuía apenas 77 escravos.

Em 1833, a Fazenda Resgate (onde trabalhavam 80 pessoas escravizadas)Sterman, Gabriel González. As finanças da cafeicultura escravista brasileira na era do tráfico ilegal, 1831 – 1850. São Paulo, 2025. foi comprada pelo senhor José de Aguiar Toledo, comerciante açoriano (português, portanto) que chegou ao Brasil em meados do século XVIII (cerca de 1750). Toledo chega a Bananal no início do século XIX, trazendo consigo, de Minas Gerais, a solução arquitetônica implantada na fazenda e o pioneirismo no plantio do café em larga escala na região. A Fazenda Resgate foi vendidapelo preço e quantia de oitenta contos de reis, para cuja conta receberam à vista vinte contos de reis e assim mais outros vinte contos de reis, de que passaram recibo de mão à vinte e cinco de abril de mil oito centos e trinta e quatro, [...] assim como recebem ao fazer desta outros vinte contos de reis, a saber a quantia de doze contos trezentos e cinquenta e dois mil e oito centos reis em moeda corrente, e outros sete contos e quatrocentos e quarenta e sete mil e duzentos reis em uma ordem sacada sobre Antônio Tertuliano dos Santos, no Rio de Janeiro.Tertuliano era o comissário de Toledo e transferiu a quantia por meio de ordem de pagamento. Sabe-se que metade do valor negociado era referente às pessoas escravizadas que já trabalhavam no local.

Em 1838, por ocasião do falecimento de José de Aguiar Toledo, seu complexo produtivo encabeçado pela Fazenda Resgate (com 137,5 mil pés de café e 134 escravos) é deixado como herança para seus oito filhos (Maria, Eufrazia, Ignacia, Maria, Antonio, Manoel, Aguida, Monica). Em pouco tempo, Manuel de Aguiar Valim, um dos oito irmãos, comprou dos irmãos suas partes da fazenda Resgate e estabelece moradia na propriedade.Moura, Carlos Eugênio Marcondes de. (Org.) Fazendas de café do Vale do Paraíba: o que os inventários revelam, 1817-1915. São Paulo: Condephaat, 2014.

Em 1844, o Comendador Manuel de Aguiar Valim casou-se com Domiciana Maria de Almeida, filha do também comendador Luciano José de Almeida, dono da Fazenda Boa Vista. Luciano possuía uma das maiores fortunas nacionais.

Após a aprovação da Lei Eusébio de Queirós (Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850), que buscava acabar com a entrada de africanos no Brasil para serem escravizados, pelas terras do município de Bananal correu uma denúncia de desembarque ilegal e de envolvimento dos fazendeiros locais. O Ministro da Justiça, José Ildefonso de Souza Ramos, enviou agentes repressores para investigar o acontecimento e,Marco Aurélio dos Santos. Geografia da escravidão na crise do Império: Bananal, 1850-1888. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em História Social, Departamento de História, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.no dia 16 de janeiro de 1853, 10 africanos boçais e um escravo ladino foram apreendidos em Bananal, em terras da Fazenda do Resgate, então pertencentes ao delegado de polícia Manoel de Aguiar Vallim – que seria demitido do seu cargo pelo chefe de polícia interino, o sr. Joaquim Fernandes da Fonseca, no início de fevereiro.Em poucos anos, Manuel de Aguiar Valim aumentou substancialmente sua fortuna e, em 1855, resolve fazer uma reforma na casa de vivenda da Resgate. Assim, o Senhor Brusce principia as obras no sobrado, adaptando-o ao estilo neoclássico, tão em voga em Paris. A partir de 1858, as paredes da casa sede e da capela foram decoradas pelo pintor José María Villaronga, famoso pintor espanhol da época.ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S.Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976. 237 p. ( Biblioteca histórica paulista, 2 )A sala de visitas, toda de branco, com frisos e ornatos dourados, tem o teto de muito bom gosto, e nos painéis das portas delicadas pinturas representando os pássaros mais bonitos e conhecidos do Brasil pousados nos ramos das árvores ou arbustos de sua predileção, de cujos troncos se vêem pender deliciosos e matizados frutos. A sala de jantar e a capela, que é um trabalho de muito preço, não merecem menos elogio.A fazenda continuava a crescer:Conforme inventário desse escravista, essa última fazenda possuía 285.200 pés de café em uma área de aproximadamente 197 alqueires de matas virgens, capoeiras e cafezais.Em meados de 1850, no auge da produção cafeeira da província de São Paulo, a Resgate já contava com mais de 400 escravos. Desses, 49 eram destinados ao serviço direto do senhor, sendo: cinco caseiros, 13 cozinheiras, cinco pajens, sete costureiros, um alfaiate, duas amas, oito mucamas, um copeiro, um sapateiro, um barbeiro, duas lavadeiras, uma rendeira, um seleiro e um hortelão. Agora, o primeiro pavimento da casa de vivenda abrigava a senzala das mucamas e, à frente da casa, erguia-se um enorme complexo com 36 lanços de senzalas em quadra para os demais escravizados.

Vallim mantinha a relação de escravos anotada em um livro. A Fazenda Resgate encabeçava um complexo produtivo, em formato contíguo a ela, onde, nos anos 1870, trabalhavam cerca de 600 pessoas escravizadas.Sterman, Gabriel González. As finanças da cafeicultura escravista brasileira na era do tráfico ilegal, 1831 – 1850. São Paulo, 2025. No ano de 1878, um total de 238 estavam alocadas especificamente na Fazenda Resgate.

Em 1878, ao falecer, o comendador Manuel de Aguiar Valim era uma das maiores fortunas do Brasil Imperial e maior produtor de café da província de São Paulo. Em seu inventário constavam as fazendas Resgate, Três Barras, Independência, Bocaina, além de diversos outros sítios. Somando todas as suas propriedades, tinha quase 400 escravos, além de um palacete de “dezesseis janelas”, casas e o Teatro Santa Cecília com seus acessórios, na cidade de Bananal. Valim era titular de uma fortuna correspondente a 1% de todo o papel moeda circulante no Brasil, composta por inúmeros títulos da dívida pública (inclusive dos Estados Unidos), bens em ouro, prata e brilhantes. A Fazenda Resgate tinha 194 alqueires com 304.000 pés de café.

Contudo, o legado mais importante deixado pelo Comendador Manoel de Aguiar Vallim foi a sede da Fazenda Resgate, tombada como Patrimônio Histórico Nacional pelo IPHAN em 1969 e restaurada a partir de 1970, às custas de seus proprietários.

Arquitetura O acesso à Fazenda Resgate é realizado por caminho serpenteado por um renque de palmeiras. E o muro em pedra ao redor da sede é do tipo canjiçado.A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.O terreiro era uma superficie plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central no conjunto arquitetônico. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.

O casarão foi construído em meados do século XVIII, por volta de 1820,Marina Morena Sperandeo Mamberti. PLANEJAMENTO REGIONAL DO TURISMO NO VALE DO PARAÍBA: ESTUDO DE CASO NA MICRO-REGIÃO DE BANANAL - SP. Dissertação (Mestrado - Organização do Espaço) Pós-Graduação em Geografia, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, UNESP, Rio Claro/SP, 2006. com vinte cômodos e baseada no estilo senhorial português (com apenas um pavimento) e adaptada à solução mineira de produção de café da primeira metade do século XIX (já com dois pavimentos, porém sem nenhum requinte), ganhou fachada neoclássica com uma escada central em cantaria. A residência senhorial está assentada em terreno com alguma declividade, embasada por muros de contenção e paredes de alvenaria de pedra e pau-a-pique. Sobre eles, paredes com estrutura em gaiola (esteios, baldrames e frechais), preenchida por vedação de adobe.CARRILHO, Marcos Jose. As Fazendas de Café do Caminho Novo da Piedade. São Paulo: FAU-USP, 1994.