thumb|left|upright|Relógio na estação de Lisboa - Santa Apolónia. thumb|left|upright|Lavagem das janelas de locomotiva de longo curso em Lisboa - Santa Apolónia.
A Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, gerida pela Infraestruturas de Portugal, é uma interface da Linha do Norte, que serve a cidade de Lisboa, em Portugal. Originalmente planeada como uma gare ferroviária e fluvial, entrou ao serviço apenas como uma gare provisória em 28 de Outubro de 1856, quando foi inaugurado o primeiro lanço de via férrea em Portugal, até ao Carregado. Só em Outubro de 1862 é que se iniciaram as obras da estação definitiva, que foi inaugurada em 1 de Maio de 1865.SANTOS, 1989:328 A estação de Santa Apolónia perdeu muito do seu protagonismo com a abertura da Gare do Rossio em 1891, que passou a reunir todo o tráfego de passageiros de longa distância. Foi alvo de importantes obras de ampliação nas décadas de 1930 e 1940 Nos anos 50, os serviços de longo curso voltaram a Santa Apolónia, levando a grandes obras de modificação na estação para acolher comboios de maior comprimento.
Descrição Localização e acessos Situa-se na freguesia de São Vicente em Lisboa, com acessos pela Avenida Infante Dom Henrique (sul), Rua dos Caminhos de Ferro (norte), e Largo do Museu de Artilharia (poente).
Infraestrutura
Enquadramento A estação de Santa Apolónia é o terminal sul da Linha do Norte, tendo Braço de Prata como estação seguinte, onde também se entronca a Linha de Cintura; Santa Apolónia é também o terminal sul da Concordância de Xabregas, que a liga à Linha de Cintura no enfiamento oposto, tendo Roma-Areeiro como estação seguinte, desde o encerramento do Apeadeiro de Chelas.Diretório da Rede 2024. I.P.: 2022.12.09
left|thumb|Vista geral da estação de Santa Apolónia, em 2009. Edifício A fachada principal, simétrica, apresenta-se do estilo neoclássico, como pode ser comprovado pela decoração das sacadas, pelo frontão e arquitrave, os arcos de volta perfeita e a saliência no módulo principal. A nave da estação tem 117 m de comprimento, 24,60 m de largura e uma altura máxima de 13 m. Os materiais utilizados na sua construção foram alvenaria de tijolo, cantaria de calcário, ferro forjado, madeira (pinho) e vidro.
Vias e plataformas Em dados de 2012, a estação de Santa Apolónia conta com seis vias de circulação, com comprimentos entre os 250 e 335 m; as plataformas tinham entre 172 e 348 m de comprimento, e uma altura de 60 a 70 cm, numeradas de 1 a 7: Linha 1 (topo norte do lado da cidade): partidas e chegadas Alfa Pendular; Linha 2 (topo norte do lado da cidade): partidas e chegadas Intercidades e dos Regionais Oeste; Linha 3 (via central do lado da cidade): partidas e chegadas dos serviços Intercidades e internacionais; Linha 4 (via central): é uma via de resguardo, sem acesso direto às plataformas, não efetuando serviço comercial. Linha 5 (via central do lado do rio): partidas e chegadas Intercidades, Inter-Regional e regional Beira Baixa; Linha 6 (topo norte do lado do rio): partidas e chegadas regional; Linha 7 (topo norte do lado do rio): partidas e chegadas urbanos. thumb|left|Chegada de um comboio suburbano à linha 7 na estação ferroviária de Santa Apolónia.
Plataformas e destinos
Plataforma 1 - Braga / Campanhã Plataforma 2 - Braga / Campanhã / Guarda Plataforma 3 - Caldas da Rainha / Braga / Guimarães / Valença Plataforma 5 - Caldas da Rainha / Castelo Branco / Castelo Branco / Guarda Plataforma 6 - Entroncamento / Tomar Plataforma 7 - Azambuja
História
Século XIX Antecedentes e primeiros projectos Em meados do século XIX, as comunicações de Lisboa com o resto do país e o estrangeiro eram muito deficientes. Por exemplo, uma viagem de Lisboa ao Porto era feita inicialmente de navio, que percorria o Rio Tejo até ao Carregado, onde se apanhava a Mala-posta. Porém, as embarcações utilizadas até ao Carregado avariavam constantemente, e estavam dependentes das marés, perdendo frequentemente a ligação com a mala posta, que por seu turno era muito lenta, demorando cerca de 33 horas até ao Porto. Em Dezembro de 1844, por iniciativa de José Bernardo da Costa Cabral, foi fundada a Companhia das Obras Públicas, sendo uma dos principais finalidades a construção de um caminho de ferro entre Lisboa e Espanha, e de uma interface ferroviária e marítima na capital portuguesa. Previa-se que esta estação, que seria denominada de Cais da América ou Cais da Europa, permitiria que os passageiros, vindos de toda a Europa por comboio, fizessem transbordo para um navio de cruzeiro com destino à América.MARTINS et al, 1996:11
Planeamento
O plano inicial para a construção do Cais da América preconizava a sua instalação no Cais dos Soldados, mas em Dezembro de 1852 o engenheiro Thomaz Rumball propôs duas alternativas: junto à Fundição de Lisboa, ou nas proximidades do Largo do Intendente, no vale que foi posteriormente ocupado pela Avenida Almirante Reis. Outro engenheiro, Harcourt White, também comentou em Janeiro de 1853 que o Cais dos Soldados não era um local adequado para a estação, alegando falta de espaço, tendo sugerido que fosse construída junto ao rio, após a Igreja dos Anjos em Xabregas, onde existia muito espaço livre. Foi nomeada uma comissão executiva para planear a construção da estação de Lisboa, que aconselhou a instalação de duas estações principais, uma delas perto da Rocha do Conde de Óbidos, para passageiros e mercadorias, e outra junto à alfândega de Lisboa, no Terreiro do Paço.MARTINS et al, 1996:26 As obras de construção da ligação ferroviária até Espanha iniciaram-se nesse ano, por ordem de Fontes Pereira de Melo.
thumb|right|upright=1.5|Planta da Gare, c. 1856. Em 7 de Maio de 1853, foram inauguradas as obras do Caminho de Ferro do Leste, no reinado de D. Maria II, numa cerimónia que teve lugar junto com ao Convento do Beato António, em Xabregas.
Em 8 de Março de 1854 foi aprovado o projecto definitivo para a estação no Cais dos Soldados, que apresentava gares distintas para os passageiros e mercadorias, oficinas para reparação, cocheiras para albergar o material circulante, e várias vias de serviço. Para o edifício dos passageiros, já havia sido obtido em 1852 o antigo Convento de Santa Apolónia e deveria ser necessário demolir o Arsenal do Exército. O terreno necessário para a construção do cais marginal e da via férrea até Alcântara, para o transporte de mercadorias, deveria ser conquistado ao Rio Tejo.MARTINS et al, 1996:27
Inauguração da estação provisória No entanto, quando se inaugurou o primeiro troço do Caminho de Ferro do Leste, entre o Carregado e Lisboa, em 28 de Setembro de 1856, ainda não se tinham iniciado as obras de construção do edifício definitivo, tendo a estação provisória de Santa Apolónia sido instalada junto ao Palácio de Coimbra.MARTINS et al, 1996:15 Na manhã desse dia, o povo começou a chegar à estação, para ver os convidados do comboio inaugural, incluindo o rei D. Pedro V e restantes membros da família real, o cardeal patriarca, o corpo diplomático, e vários membros das forças armadas e do governo. Após a cerimónia da benção, o comboio partiu de Santa Apolónia, o que foi festejado com salvas dos navios, lançamento de foguetes e uma salva de palmas por parte da multidão. No entanto, a viagem de regresso encontrou vários problemas, tendo uma das locomotivas sofrido uma avaria, pelo que foi enviada uma de Lisboa para a substituir. Este processo atrasou a viagem de regresso durante várias horas, e contribuiu para que a inauguração tenha sido considerada um fracasso pelos oponentes dos caminhos de ferro em Portugal.MÓNICA, 20011:117
As instalações da estação situavam-se nas dependências do antigo convento de Santa Apolónia, num local que seria posteriormente ocupado por um armazém de víveres para o pessoal. Originalmente, as vias no interior da estação tinham uma largura de 1,4435 m, mas após a formação da Companhia Real, as linhas já construídas foram adaptadas à Bitola ibérica.
No entanto, o facto da estação provisória estar longe do centro da cidade foi uma das principais causas para o insucesso inicial da Linha, que levou à dissolução do contracto com a Companhia Central Peninsular dos Caminhos de Ferro de Portugal em 1857 e à formação da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses em 1860.
Construção, inauguração e primeiros anos left|thumb|Estação de Santa Apolónia, no século XIX. Destaca-se o edifício original, só com dois pisos, e o pórtico a rematar a marquise, com o escudo da monarquia. Em Junho de 1862, voltou-se ao projecto original para a estação ferroviária, e as obras iniciaram-se em Outubro desse ano. O projecto foi realizado por Angel Arribas Ugarte, e a obra foi conduzida pelo engenheiro-director, João Evangelista de Abreu, e pelo engenheiro-chefe, Lecrenier. A obras foram executadas pela empresa de construção Oppermann, e a estrutura metálica foi montada pela firma de James Blair. A estação foi inaugurada em 1 de Maio de 1865, entrando ao serviço logo nesse dia.
A construção da estação de Santa Apolónia foi uma das maiores obras no sector dos caminhos de ferro em Portugal, devido às suas grandes dimensões e ao facto de ter sido instalada em terrenos conquistados ao Rio Tejo, destacando-se principalmente o edifício de passageiros e o feixe de vias.TAVARES e ESTEVES, 2000:107
Para a instalação das oficinas de Santa Apolónia, foi necessário recrutar um grande número de operários, que vieram especialmente das povoações ao longo do Tejo, transportados pelos comboios da Linha do Norte. Desta forma, tornou-se um fenómeno habitual a deslocação a pé de dezenas de trabalhadores durante a madrugada desde as suas aldeias até às estações mais próximas, como Vila Franca de Xira, Alhandra, Alverca e Póvoa, seguindo depois de comboio até Braço de Prata, onde apanhavam o comboio operário até Santa Apolónia. Este percurso depois repetia-se no sentido contrário, ao final do dia.LOURENÇO, 1995:49
Em 18 de Setembro de 1873, entrou ao serviço a primeira linha de carros americanos em Lisboa, ligando a Estação de Santa Apolónia ao Aterro da Boavista.SARAIVA e GUERRA, 1998:86
Em 28 de Dezembro de 1889, a Imperatriz Teresa Cristina do Brasil faleceu no Porto, tendo o seu corpo sido transportado de comboio até Santa Apolónia, e depois foi levado para a Igreja de São Vicente de Fora.
right|thumb|A estação à noite vista da cabina de comando de um comboio que chega. Em Setembro de 1891, a Gare do Rossio passou a acolher todos os comboios das linhas do Leste e Norte, que antes terminavam em Santa Apolónia.
Em 1895, ocorreu um incêndio nas oficinas de Santa Apolónia, onde foi destruída uma das carruagens do comboio real.REIS et al, 2006:24
Ligação à Linha de Cintura
Em 7 de Julho de 1886, um alvará autorizou a Companhia Real a construir um caminho de ferro de Santa Apolónia a Benfica, de forma a ligar a Linha do Leste às linhas do Oeste e Sintra. A Linha de Cintura entrou ao serviço em 1888.REIS et al, 2006:12 O segmento que liga Santa Apolónia a Chelas foi mais tarde renomeado Concordância de Xabregas.
Ligação ao Cais do Sodré
Um alvará de 9 de Abril de 1887 aprovou um projecto da Companhia Real para uma linha marginal de Santa Apolónia até Alcântara, que poderia depois ser prolongada até Cascais.REIS et al, 2006:38 No entanto, apenas foi construído o troço entre Cais do Sodré e Cascais.
Século XX
Décadas de 1910 e 1920