thumb|Palácio do Monteiro-Mor, actual Museu Nacional do Traje. thumb|150px|Fonte barroca na entrada da Quinta do Monteiro-Mor thumb|150px|O jardim botânico, integrante da Quinta do Monteiro-Mor O Palácio do Monteiro-Mor é um palácio localizado na Quinta do Monteiro-Mor, na freguesia do Lumiar, em Lisboa, sendo um dos elementos que constitui o conjunto arquitetónico designado por Paço do Lumiar.Ficha na base de dados SIPA

Nele funciona actualmente o Museu Nacional do Teatro e da Dança. O palácio é rodeado por um jardim botânico, com onze hectares de área.

O seu nome remonta ao século XVIII quando D. Henrique de Noronha e D. Fernão Teles da Silva seus proprietários ocuparam o cargo de Monteiro-Mor.

O Palácio do Monteiro-Mor está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1978.Ficha na base de dados da DGPC

O Palácio do Monteiro-Mor, outrora inserido na antiga Quinta do Marquês de Angeja, consubstancia um solar de veraneio setecentista edificado na freguesia lisboeta do Lumiar. Actualmente classificado como Imóvel de Interesse Público e abrangido pela zona de protecção do Conjunto de Interesse Público do Paço do Lumiar, o edifício alberga nas suas dependências o Museu Nacional do Teatro. História Origens A propriedade onde se situa o paço tem origens na época subsequente à Reconquista de Lisboa (1147), quando os terrenos do Lumiar foram concedidos a ordens militares, religiosas e à nobreza em tributo do combate.

No terceiro quartel do século XIII, o monarca D. Afonso III elegeu esta paragem para instalar a sua residência campestre, avolumando o seu património fundiário até se tornar o principal proprietário da região, localidade que ascenderia a freguesia no ano de 1266. A primitiva Quinta do Lumiar, onde se situa o Palácio do Monteiro-Mor, foi cedida pelo rei aos freires de Évora em 1272.

Volvidos 40 anos, em 1312, D. Dinis entregou as construções régias ao seu filho ilegítimo, D. Afonso Sanches, complexo que adoptou a nomenclatura de Paços do Infante D. Afonso Sanches. Especula-se que, numa outra mercê celebrada a cinco de Outubro de 1318, D. Dinis possa ter transferido para a posse do Mosteiro de Odivelas padroados e rendimentos afectos à Igreja de São João do Lumiar.

Em 1320, o Mestre D. Frei Vasco Afonso legou a quinta a Estêvão da Guarda. A viúva de D. Afonso Sanches, D. Teresa Martins, decidiu alienar o paço e a igreja a favor do Mosteiro de São Dinis de Odivelas no ano de 1334, rogando pela salvação espiritual do seu consorte e do seu sogro. Em meados do século XIV, após a confiscação dos bens do infante decretada por D. Afonso IV, a estrutura nobre fixou o nome de Paço do Lumiar, designação que acabou por 'contaminar' a própria povoação limítrofe.

Séculos XVI e XVII Nos primórdios do século XVI, a estrada que separava o Paço do núcleo urbano do Lumiar albergava os freires de Avis. A memória material desta ocupação quinhentista perdura no marco chantado nas imediações do museu e numa ombreira chanfrada incorporada numa habitação contígua.

A parcela correspondente ao actual edifício museológico encontrava-se dominada pelo Mosteiro de Odivelas e pelas terras isentas de Isabel Machada, cuja linhagem detinha uma casa de menores dimensões ali anexa desde 1478. Em 1530, um aforamento estipulou a renda da quinta a Manuel Correia de Lacerda em 6000 reais brancos anuais. Num levantamento cadastral encomendado pelo convento a 13 de Maio de 1545, momento em que Isabel Machada assumia a condição de foreira, apurou-se que a delimitação abrangia aproximadamente 1,5 hectares e se situava "junto do Lumiar".

A referida extensão agrícola compreendia terras de lavoura, três reservatórios de água, um curso hídrico, um roseiral, um olival, um pomar e várias parreiras suportada por colunas de tijolo, com uma dimensão equivalente a "um jogo de bola". A par destas infra-estruturas, erguia-se uma habitação com 300 metros quadrados, provida de cozinha, três aposentos, uma torre de um piso e uma divisão forrada a carvalho.

No ano de 1556, a 8 de Fevereiro, a concessão foi trespassada, com o aval do mosteiro, ao fidalgo da Casa Real Lourenço Vieira, que logo peticionou nova escritura de aforamento em três vidas para implementar benfeitorias na propriedade. A estirpe do referido nobre, que mais tarde se fundiria com a Casa das Galveias, conservou a quinta durante 273 anos, registando-se proprietários como D. Mariana Antunes de Torres, Manuel Correia Mancelos, D. Maria Clara de Mancelos Côrte-Real, D. António Luís de Beja Noronha, D. Teresa Antónia de Castro e Beja e, subsequentemente, o quinto, sexto e sétimo Condes das Galveias.

O paço do marquês de Angeja A transição para o século XVIII marcou a chegada do segundo Marquês de Angeja, D. António Beja Noronha e Almeida, que arrecadou o senhorio por via hereditária do avô materno, o supra citado D. António Luís. No decurso deste século, o palácio foi mandado erguer por D. Pedro de Noronha, 3.º Marquês de Angeja. O palacete passou a acolher D. Henrique de Noronha, descendente do Marquês de Angeja, elevado a Monteiro-Mor no ano de 1717, mercê do seu enlace matrimonial com D. Maria Josefa de Melo, filha do antecessor no cargo, Francisco de Melo.

Embora a presença desta magistratura cinegética tenha perdurado apenas oitenta e sete anos na posse do domínio útil, tal lapso temporal bastou para cristalizar a designação do lugar até à contemporaneidade. Após a viuvez, D. Josefa desposou D. Fernando Teles da Silva, terceiro filho do Conde de Tarouca, que alcançou o ofício de Monteiro-Mor em 1728 e que, no ano de 1741, adquiriu o espaço ao Conde das Galveias, financiando várias remodelações nas fachadas. Na década de 1750, é plantado e iniciado o parque botânico, sob orientação atribuída a Domenico Vandelli, encomendado pelo 3.º Marquês de Angeja — um jardim que possuía importantes espécies tropicais e aves exóticas e veio a ser, em 1793, citado como um dos melhores de Lisboa.

O jardim botânico que prolonga a construção foi projectado provavelmente por Domingos Vandelli e possuía espécies tropicais e aves exóticas, bem ao gosto naturalista e coleccionador do seu primeiro proprietário.

A linhagem continuou a habitar as casas e a solver os foros à Casa das Galveias, recaindo a tutela, sucessivamente, em D. Francisco de Melo e D. Fernando José de Melo. Em 1788, casou D. Francisco José Luís de Melo, perecendo tragicamente no ano seguinte sem deixar sucessão directa. Em face deste vazio, o património transferiu-se para o seu tio, o Bispo do Algarve e Inquisidor-Mor D. José Maria de Melo. A vinte de Julho de 1815, o prelado decretou que, findos os seus dias, o produto da hasta pública da sua quinta revertesse integralmente para o Seminário do Algarve.

Apesar da disposição póstuma do Inquisidor-Mor, as contestações jurídicas ou as recompras familiares asseguraram a retenção do espaço na órbita consanguínea. No ano de 1822, os impostos da Décima eram suportados pelo primo do bispo, o Patriarca D. Carlos da Cunha. A morfologia do imóvel por esta altura, dotada de uma planta em U e conhecida por Palácio do Marquês de Olhão, ficou perenizada num levantamento cartográfico de 1827 dirigido pelo brigadeiro Maximiano José da Serra.

Dois anos volvidos, em 1829, os Marqueses de Olhão alienaram as fracções a favor do primeiro Conde da Póvoa e Barão de Teixeira, D. Henrique Teixeira de Sampaio, o qual redimiu a totalidade dos foros perante o sétimo Conde das Galveias. Os edifícios permaneceram devolutos até à morte do Conde em 27 de Março de 1833, altura em que o seu filho, D. João Maria de Noronha Sampaio, recolheu a herança, detendo-a até ao seu óbito em 1837.

A propriedade resvalou então para a irmã do falecido, D. Maria Luísa de Sampaio Noronha, que avó materna da segunda duquesa de Palmela, consolidara matrimónio em Julho de 1836 com D. Domingos António Pedro de Sousa Holstein, figura que ostentava os títulos de primeiro Marquês de Faial, Conde de Calhariz e, ulteriormente, segundo Duque de Palmela. Em 6 de Outubro de 1840, volvidos três anos da aquisição, os marqueses estenderam os confins territoriais ao comprarem um leque de anexos e vivendas adjacentes à descendência do quarto e sexto Marqueses de Angeja. Desta amálgama predial nasceu a vasta Quinta do Lumiar, ou, segundo o linguajar popular, Quinta dos Senhores Duques de Palmela, num período em que não se descortinava facilmente o cenário primitivo do imóvel.

O paço romântico dos Palmelas Sob o signo romântico que imperava no século XIX, o segundo duque de Palmela, D. Domingos de Sousa Holstein Beck, que viveu entre 1818 e 1864, impulsionou um ciclo de obras profundas com significativas transformações. O palácio transformou-se num museu particular de belas-artes, a galeria foi adornada com a heráldica dos Palmelas e o primitivo pavilhão neogótico transmutou-se num viveiro de aves que hoje funciona como pavilhão de chá e restaurante.

A zona verde viu-se convertida num sumptuoso jardim paisagista britânico, onde foram construídas cascatas e introduzidas novas e raras espécies vegetais diretamente importadas de Inglaterra. A concretização destes hortos e os trabalhos de melhoria e conservação estiveram a cargo dos exímios botânicos Friedrich Welwitsch e Rosenfelder, apoiados entre 1844 e 1853 pelos jardineiros Jacob Weiss e Otto. Este último deixou como discípulo João Baptista Possidónio, que até ao ano de 1912 dirigiu os jardins e as estufas dos duques de Palmela.

As remodelações arquitectónicas ficaram ultimadas em 1841, pretexto para o eclodir de dois magnos eventos inaugurais abrilhantados por painéis alegóricos lavrados pelo pincel de António Manuel da Fonseca. Durante largas décadas, o paço assumiu-se como o recanto veraneante de eleição dos terceiros Duques de Palmela.

Já no século XX, uma gravura denotava fachadas aproximadas às feições vigentes, fruto da reconstrução imposta por um gravoso incêndio na alvorada da centúria. A Marquesa de Tancos, D. Maria José Sousa e Holstein Beck, foi a derradeira titular a habitar os salões antes de eleger o vizinho Palácio Angeja-Palmela para sua morada. Desocupado das lides aristocráticas, o edifício principal foi cedido, no término de 1958, ao Ministro Plenipotenciário da Irlanda e posteriormente ao Encarregado de Negócios da Embaixada de Marrocos.

Expropriação e criação do Museu Nacional do Teatro e da Dança O destino do solar viria a alterar-se drasticamente durante a vigência do contrato diplomático marroquino, quando um incêndio apocalíptico despoletado no mês de Março de 1970 (com raízes em 1969), calcinou as estruturas internas, preservando miraculosamente as alvenarias exteriores.

O esforço curativo, gizado pelo arquitecto Joaquim Cabeçada Padrão entre 1970 e Fevereiro de 1974, devolveu consistência às ruínas. Nesse ano de 1974, a estudiosa Natália Correia Guedes conjecturou a instalação de um museu organológico no local, pretensão rapidamente denegada pelo Conservatório.

A intervenção do Estado efectivou-se através do Decreto-Lei n.º 538/75 de 27 de Setembro, que licenciou a compra de 11 hectares da primitiva quinta à herdeira da Casa de Palmela, incluindo a casa barroca e o parque botânico. A escritura de aquisição lavrou-se a 4 de Fevereiro de 1976. As ruínas adquiridas pelo Estado em 1975 a D. Isabel Juliana de Sousa e Holstein Beck Campilho permaneceram nesse estado devoluto até 1979.

As avaliações e a recuperação dos jardins, que se encontravam muito degradados, ficaram entregues em 1976 ao engenheiro silvicultor Luís Filipe Sousa Lara, e o arvoredo passou a denominar-se Parque Botânico do Monteiro-Mor em Dezembro desse mesmo ano. O impulsionador da actual vocação do complexo foi o investigador Vítor Pavão dos Santos, que em 1978 defendeu a fundação de um museu teatral, contrariando abertamente as correntes que propugnavam a demolição integral dos vestígios edificados, o que se veio a concretizar.