Os Enauenês-nauês (Enawenê-Nawê), antigamente também conhecidos como salumã, são um grupo indígena brasileiro cuja língua é da família Aruak. Os cerca de 560 indivíduos vivem em uma única aldeia às margens do rio Iquê, afluente do Juruena, no estado de Mato Grosso, mais precisamente na Terra Indígena Enawenê-Nawê, de 742 mil hectares e que é apenas parte de seu território original. Seu primeiro contato com não-indígenas ocorreu em 1974 e desde o início do século XXI têm seu território e seus costumes ameaçados pela poluição, pelo avanço da agropecuária e pela instalação de uma rede de centrais hidrelétricas nos rios da região. Todos os anos, realizam o ritual yaokwa, reconhecido em 2010 como patrimônio cultural nacional e em 2011 como patrimônio imaterial da humanidade que requer proteção urgente, recebendo apoio do IPHAN e da Unesco.
Localização
thumb|200px|direita|O rio Juruena é um dos limites da terra indígena dos enauenês-nauês A terra indígena dos Enawenê-nawê localiza-se entre os municípios de Juína, Comodoro e Sapezal, na região noroeste do estado de Mato Grosso, no vale do rio Juruena, um afluente do Tapajós. Juína é o centro urbano mais próximo. A partir de lá, chega-se à aldeia percorrendo-se 60 quilômetros de estrada de terra e 200 quilômetros de barco.
A partir da década de 1980, suas aldeias passaram a se concentrar nos arredores do rio Iquê, cujas nascentes chegam até a cidade de Vilhena, em Rondônia, e faz parte da bacia do Juruena. Os rios que fazem parte do território pertencem todos à bacia do Juruena, com exceção do rio Aripuanã, que nasce naquela terra indígena e compõe a bacia do Madeira. Seus limites estendem-se do rio Doze de Outubro e Camararé ao sudoeste, às nascentes da sub-bacia do Aripuanã ao noroeste, as nascentes do rio Preto e Juína Mirim ao norte e nordeste, e como limite sudeste o Papagaio e o próprio Alto Juruena em sua confluência com o rio Juína. Seus vizinhos mais próximos são os povos Menky, Nambikwara, Rikbaktsa, Iranxe e Cinta Larga. A região tem vegetação de transição entre cerrado e floresta equatorial. O clima é definido por duas estações muito bem delimitadas, uma chuvosa, que vai de outubro a março, e outra seca, de abril a setembro.
A ocupação do vale do Juruena foi definida principalmente por três fatores: a guerra, a agricultura e a pesca. As fugas e ataques, e a busca pelo melhor aproveitamento das terras e das águas motivaram os deslocamentos em seu território, cuja ocupação estima-se em mais de 150 anos.
Danakwa
Inicialmente, os enauenês-nauês habitaram a região conhecida como Serra do Norte, na confluência das cabeceiras dos rios Aripuanã, Preto e Arimena, onde construíram dezenas de aldeias, barragens e acampamentos. Deslocaram-se de lá nos anos 1940, em resposta aos frequentes ataques dos Rikbaktsa e principalmente dos Cinta-Larga, mas nunca deixaram de frequentar o local, principal fonte do jenipapo (dana) utilizado para pintura corporal no ritual yãkwa. Por isso, esta região é por eles denominada danakwa (jenipapal).
É também um local de importância religiosa, considerado morada dos espíritos subterrâneos (yakairiti), a quem a tribo dedica a maior parte de seu ciclo anual de ritos.
Migração
Fugindo de seus inimigos, deslocaram-se para o sul, mas não conseguiram estabelecer-se nas margens do Juruena, ocupadas pelos mesmos povos que os atacavam ao norte. Nos anos 1950, chegaram às margens do Iquê, de onde expulsaram os Nambikwara e de onde foram novamente expulsos, alguns anos depois, pelos conhecidos Cinta-Larga. Continuaram deslocando-se pelo rio Camararé, até se estabelecerem nas proximidades de um pequeno afluente, o rio Primavera, dentro do território nambikwara. Lá permaneceram até os anos 1980, quando migraram de volta para o Iquê, onde permanecem até 2012.
Demarcação
A demarcação da terra indígena Enawenê Nawê excluiu áreas como a das cabeceiras do rio Preto, antes que estudos mais detalhados revelassem sua importância para aquele povo, e baseou-se nas informações disponíveis nos primeiros contatos, quando o povo encontrava-se em migração, ocupando território nambiquara, e sua utilização territorial encontrava-se bastante reduzida em função da ameaça inimiga. Somente após o fim dos ataques, os enauenês-nauês retomou suas atividades e ritos tradicionais, e buscou reocupar os territórios originais. Por isso, a terra indígena demarcada encontra-se em processo de estudo para revisão de seus limites.
Contato
Os primeiros não-indígenas a mencionarem a existência dos enauenês-nauês foram seringueiros que trabalhavam na região, e que reportaram a missionários jesuítas em 1962. Diziam eles que aquele povo tinha temperamento pacífico, pois não hostilizavam os trabalhadores, embora bloqueassem os córregos para impedir a passagem dos não-indígenas às suas moradias.
Em setembro de 1973, o grupo de missionários da Missão Anchieta da Operação Amazônia Nativa (OPAN) realizou um sobrevoo nas margens do alto rio Juruena, em território dos Nambikwara, onde observaram a existência de uma aldeia. No ano seguinte, os missionários retornaram acompanhados de índios Nambikwara para tentar estabelecer contato. No entanto, ao chegarem a uma pequena aldeia de caça, identificaram elementos que os distinguiam daquele povo: o hábito de dormirem em redes e a amarração de penas das flechas, bem ao estilo dos Rikbaktsa. Uma nova expedição foi planejada, desta vez com a companhia de índios Rikbaktsa. A equipe, coordenada pelos jesuítas Vicente Cañas e Tomáz de Aquino Lisboa, chegou à aldeia, de onde os índios fugiram para a floresta. Um único índio, com deficiência física, não conseguiu fugir. Os missionários e índios da expedição deitaram seus facões e machados aos pés do único índio no pátio da aldeia, em sinal de amizade. Identificaram que se tratava de um povo da família Aruaque, pelo estilo das malocas, pela presença de uma casa das flautas e por seu sotaque.
O grupo deixou a aldeia e decidiu passar a noite nas proximidades e retornar à aldeia no dia seguinte. Entretanto, foram três índios locais, armados com arcos e flechas, que visitaram o acampamento pela manhã, e levaram os visitantes até a aldeia vazia, enquanto o restante do povo escondia-se na floresta. Ofereceram-lhes alimento e trouxeram alguns outros índios locais para estabelecer contato, dando início à aproximação com os não-indígenas.
Naquela época, a Missão Anchieta revia seu tradicional método de atrair e civilizar populações indígenas a partir da educação. A aproximação com os enauenês-nauês seguiu uma nova abordagem, conhecida como "Intervenção Mínima", com o objetivo de mantê-los isolados da sociedade e realizar aproximações mais lentas, com um mínimo de interferência e concentrando suas atividades no atendimento à saúde e na proteção de seu território. As enfermeiras que mais tarde viriam a trabalhar na aldeia chegaram a se instalar em casas comunais e a aprender a língua local. Alguns poucos instrumentos de ferro foram introduzidos, como o facão, o anzol e o machado, mas procurou-se reduzir ao máximo a dependência de bens industrializados.
Essa nova postura evitou o surgimento das epidemias comuns entre grupos indígenas após o contato, bem como seus efeitos deletérios. O que ocorreu foi um notável crescimento demográfico, aliado à manutenção do modo de vida tradicional, incluindo seus ritos e seu idioma.
Durante os anos 1990, os contatos com os não-indígenas se intensificaram, especialmente em virtude das tentativas de construção de estradas em seu território. Posteriormente, a instalação de hidroelétricas também impulsionou os contatos e pode ter influenciado sua recente decisão pela alfabetização em língua portuguesa.
População 280px|thumb|A população apresenta crescimento acelerado
Na época dos primeiros contatos com os não-indígenas, os enauenês-nauês totalizavam 97 indivíduos (ou 130, segundo outras estimativas). A população cresceu bastante de 1974 até a primeira década dos anos 2000, e nos últimos anos, o ritmo desse crescimento tem-se intensificado. Em 1984, eram mais de 150 pessoas, e em 1993, eram 229. Em meados de 1996, passados 22 anos dos primeiros contatos com os missionários, os enauenês-nauês haviam dobrado sua população, reunindo 260 indivíduos. De 1992 a 2006, passaram de 216 para 435 indivíduos. Ou seja, a população dobrou em 22 anos e depois dobrou novamente em apenas 14 anos.
Em 2010, a população totalizava 566 indivíduos, o que representa uma taxa média anual de 5%. O resultado é que o contingente populacional enauenê-nauê em 2010 é bem mais jovem que nos anos 1970. As crianças (dinwá) já representam quase dois terços da população, o que pode trazer reflexos na capacidade reprodutiva desse povo.
Cultura Denominação
Desde que, nos primeiros contatos, identificou-se que se tratavam de um povo diferente dos já registrados, e até o início da década de 1980, eles foram designados como Salumã, que era a forma pela qual eram denominados pelos povos vizinhos. Somente em 1983, o missionário jesuíta Vicente Cañas, por meio de várias experiências de contato, compreendeu que eles se auto-denominavam enauenês-nauês, e a partir de então, esta passou a ser a forma predominante para designá-los.
Língua
Os enauenês-nauês falam a língua de mesmo nome, da família aruaque e similar à língua falada pelo povo Paresi. Na língua enauenê-nauê, não há encontros consonantais e a estrutura silábica básica é formada por apenas vogal, ou consoante-vogal. Não há sílaba travada, do tipo consoante-vogal-consoante. A interrogação é marcada pela entonação e pela partícula la no fim da palavra. Um substantivo feminino é indicado pelo sufixo -lo, enquanto os substantivos masculinos são indicados pelo sufixo -re.
Por meio da Operação Amazônia Nativa (OPAN), eles chegaram a ser alfabetizados em sua língua materna, até que em 2009, solicitaram a alfabetização em língua portuguesa e a formação de agentes de saúde.
Cultura material
Na ocasião de seu primeiro contato, o padre jesuíta Tomáz de Aquino Lisbôa retratou a aparência daquele povo, também registrada anos depois em pesquisas de Virgínia Valadão. Homens e mulheres têm cabelos compridos caindo nas costas, com franjas e aparados na região temporal, e usam brincos em forma de argolas pretas, feitos de tucum, nos quais se prendem conchas brancas triangulares. Nos braços, todos usam tiras finas de algodão apertando o bíceps. Os homens, de boa estatura e pele clara, também usam tiras semelhantes na barriga da perna e fitas mais largas no tornozelo, além de estojo peniano, que é uma palha feita de fibra de buriti amarrada no pênis, usada a partir do início da adolescência. No peito, usam colares de adorno, feitos com dentes de animais, frutos vegetais e penas de pássaros, em especial da arara vermelha, papagaios, mutum e gavião, embutidas em coco de tucum. As mulheres vestem mini-saias vermelhas de algodão tingido de urucum e colares pretos de tucum na cintura, e na panturrilha usam argolas de borracha. Têm duas meia-luas tatuadas nas laterais do umbigo.
Os enauenês-nauês cultivam o algodão, do qual fazem redes, saias e pulseiras ou fitas. Extraem do urucum o pigmento vermelho que usam em saias e no corpo, e do jenipapo tiram o pigmento preto usado em ocasiões especiais. Criam araras e papagaios que fornecem as penas para os colares, sem que seja necessário matar os animais. Usam uma secreção extraída de pererecas para modificar as cores de algumas penas verdes do rabo destas aves, que se tornam amarelo-ouro.
Durante o ritual yãkwa, usam flautas e chocalhos feitos de bambus e cabaças de diversos tipos e tamanhos. Cada grupo ritual toca um instrumento diferente, relacionada a um grupo de espíritos. Os instrumentos são tocados simultaneamente, no pátio central da aldeia.
Mito de origem