A Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Escola Politécnica da UFRJ, também abreviada como Poli-UFRJ ou Poli) é uma unidade acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dedicada ao ensino, à pesquisa e à extensão nas áreas de engenharia e tecnologia. A Escola considera como sua origem histórica a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, instituída no Rio de Janeiro em 17 de dezembro de 1792. A instituição civil denominada Escola Polytechnica foi organizada em 1874, quando a antiga Escola Central foi transferida da administração militar para a esfera civil do Império e reorganizada pelo Decreto nº 5.600, de 25 de abril daquele ano.
A trajetória da Escola atravessa os períodos colonial, imperial e republicano e está ligada à institucionalização da engenharia no Brasil, à formação de engenheiros civis e à constituição de quadros técnicos empregados em obras públicas, ferrovias, saneamento, energia, indústria, ciência e administração pública.
A Escola está sediada no Centro de Tecnologia (CT), na Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. Segundo dados institucionais, possui 5.139 alunos, 210 professores e forma cerca de 550 estudantes por ano.
História
Antecedentes coloniais
thumb|direita|250px|José Luís de Castro, 2.º Conde de Resende e vice-rei do Brasil. Em 17 de dezembro de 1792, durante seu governo, foram aprovados os estatutos da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho.
O ensino técnico relacionado à engenharia no Brasil colonial antecedeu a organização de uma academia. No Rio de Janeiro existiam, desde o final do século XVII, aulas destinadas sobretudo ao ensino de fortificação, desenho, matemática e artilharia. A história institucional da Escola Politécnica identifica uma Aula de Fortificação, criada em 1699, como antecedente do ensino sistemático posteriormente organizado em forma acadêmica.
Em 17 de dezembro de 1792, durante o governo do vice-rei José Luís de Castro, 2.º Conde de Resende, foi instituída a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho. Seus estatutos previam uma formação que combinava matérias militares com conteúdos hoje associados à engenharia civil. O sexto ano incluía arquitetura civil, conhecimento e emprego de materiais de construção, caminhos, calçadas, hidráulica, pontes, canais, portos, diques e comportas.
A Academia de 1792 é considerada pela Escola Politécnica a origem de uma linha histórica de ensino de engenharia que prosseguiu por meio das instituições que a sucederam. A mesma raiz histórica é também reivindicada pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), em razão da origem comum da formação de engenheiros civis e militares antes da separação institucional ocorrida no século XIX.
Academia Real Militar e transformações no Império miniaturadaimagem|250x250px|A Casa do Trem da Ponta do Calabouço, erguida em 1764, foi a primeira sede da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho e da Academia Real Militar, abrigando as atividades acadêmicas entre 1792 e 1812. O edifício integra atualmente o conjunto do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Em 4 de dezembro de 1810, o príncipe regente D. João, futuro D. João VI, promulgou a Carta de Lei que criou a Academia Real Militar, sucedendo a academia de 1792. A criação legal ocorreu, portanto, em 1810; as primeiras aulas foram ministradas em 23 de abril de 1811, na Casa do Trem. A distinção entre as duas datas é relevante: 1810 corresponde ao ato de criação, enquanto 1811 marca o início efetivo das atividades acadêmicas. A instituição destinava-se a oferecer um curso amplo de matemática, física, química, mineralogia, metalurgia, história natural e ciências militares, formando oficiais de artilharia e engenharia, engenheiros geógrafos e topógrafos e profissionais habilitados a dirigir obras de minas, estradas, portos, canais e pontes.
A Academia funcionou inicialmente na Casa do Trem e, segundo a história institucional da Escola, em 1812 foi transferida para o Largo de São Francisco de Paula, onde se consolidaria um dos principais espaços do ensino de engenharia no país.
Após a Independência do Brasil, a instituição passou a ser conhecida como Academia Imperial Militar. Em 1832 ocorreu uma breve reunião com a Academia dos Guardas-Marinhas, sob a denominação de Academia Militar e de Marinha; a união foi desfeita no ano seguinte. Em 1839 foi aprovado novo regulamento que lhe deu a denominação de Escola Militar.
Ao longo do período, a coexistência numa mesma estrutura de uma formação destinada aos oficiais combatentes e de outra de caráter científico e técnico, progressivamente voltada à engenharia civil, tornou-se objeto de debates. A expansão de estradas, pontes, telégrafos, obras portuárias e demais infraestruturas do Império aumentava a demanda por engenheiros não necessariamente vinculados à carreira militar.
Escola Central, Escola de Aplicação e a coexistência das duas vertentes
A separação entre ensino científico/civil e formação militar não surgiu repentinamente em 1874. Ela foi preparada por um processo de desdobramento institucional iniciado antes. Em 1855 passou a funcionar uma Escola de Aplicação, destinada à parte técnico-profissional da formação militar. A antiga Escola Militar permaneceu no Largo de São Francisco de Paula, encarregada das matemáticas, das ciências e das engenharias; a Escola de Aplicação funcionou inicialmente na Fortaleza de São João e, a partir de 1857, na Praia Vermelha. Esse modelo de duas escolas coexistentes permaneceu, com reformas, até 1874.
thumb|esquerda|O edifício do Largo de São Francisco de Paula que abrigou sucessivamente a Academia Real Militar, a Escola Militar, a Escola Central, a Escola Politécnica e a Escola Nacional de Engenharia. Atualmente é ocupado por unidades de ciências humanas da UFRJ.
Em 1858, a Escola Militar do Largo de São Francisco passou a denominar-se Escola Central. O regulamento definiu a Escola Central para o ensino das matemáticas, das ciências físicas e naturais e das doutrinas próprias da engenharia civil; paralelamente, a Escola Militar e de Aplicação da Praia Vermelha ficou especialmente destinada ao ensino teórico e prático das doutrinas militares.
A separação ainda não era completa. Os dois estabelecimentos continuavam dentro do sistema do Ministério da Guerra e os percursos acadêmicos podiam atravessar as duas escolas. Na reforma de 1863, por exemplo, a escola da Praia Vermelha passou a ser a escola-base da formação militar, enquanto os alunos destinados ao Estado-Maior e à Engenharia Militar completavam parte dos estudos científicos na Escola Central. Assim, Escola Central e Escola Militar da Praia Vermelha já coexistiam antes de 1874; a reforma de 1873–1874 não criou a escola militar a partir da Central, mas encerrou a dependência recíproca e definiu de modo mais nítido as jurisdições civil e militar.
A historiografia sobre o período relaciona essa diferenciação à transformação do Estado imperial e à crescente importância das obras públicas. A engenharia civil constituía-se gradualmente como um campo profissional distinto, ligado à expansão ferroviária, aos portos, ao saneamento, às obras urbanas e à administração técnica do território.
A separação jurisdicional de 1873–1874 e a Escola Polytechnica
thumb|direita|220px|Visconde do Rio Branco, professor das instituições predecessoras e primeiro diretor da Escola Polytechnica. A separação da formação civil e militar esteve entre as reformas defendidas por ele.
O marco decisivo ocorreu em 1873. A Lei nº 2.261, de 24 de maio, autorizou o governo imperial a reformar os regulamentos das escolas Militar e Central, completar na primeira os estudos necessários à engenharia militar e transferir a Escola Central para o Ministério do Império.
A reorganização foi completada em 1874. O Decreto nº 5.600, de 25 de abril, determinou que a então Escola Central passasse a denominar-se Escola Polytechnica. Seus estatutos estabeleceram um curso geral e cursos especiais de ciências físicas e naturais, ciências físicas e matemáticas, engenharia geográfica, engenharia civil, minas e artes e manufaturas.
A partir dessa reforma, a instituição do Largo de São Francisco assumiu caráter plenamente civil. A formação militar, que já possuía estabelecimento próprio na Praia Vermelha, passou a ficar integralmente concentrada na Escola Militar da Praia Vermelha. O ano de 1874 representa, portanto, a separação jurisdicional definitiva entre as duas vertentes, e não o nascimento da escola militar a partir da Escola Central.
A continuidade entre Escola Central e Escola Polytechnica é particularmente explícita nas fontes legais: a Lei nº 2.261 determinou a transferência da própria Escola Central para a pasta do Império e, no ano seguinte, o Decreto nº 5.600 reorganizou esse estabelecimento sob a denominação de Escola Polytechnica.
Estudos historiográficos recentes interpretam a criação da Escola também como parte do processo de institucionalização da engenharia civil como profissão. A expansão ferroviária, as obras portuárias, o saneamento e a modernização urbana produziram demanda crescente por quadros técnicos e contribuíram para a formação de redes de engenheiros que atuavam simultaneamente na Escola, em órgãos públicos e em associações profissionais.
thumb|esquerda|Diploma emitido pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1886.
O Visconde do Rio Branco, professor da antiga Escola Militar e da Escola Central, tornou-se o primeiro diretor da nova instituição, exercendo a direção entre 1875 e 1879. A reorganização curricular e a contratação de professores de diferentes áreas científicas foram elementos da consolidação da Escola Polytechnica.
Final do Império e Primeira República
Nas décadas seguintes, a Escola tornou-se um dos principais centros de formação de engenheiros do país. Parte de seus professores e alunos participou diretamente da administração pública, de projetos ferroviários, saneamento, abastecimento de água, portos e intervenções urbanas.
thumb|direita|220px|André Rebouças, engenheiro, professor e abolicionista. Sua atuação política teve repercussão entre os estudantes da Escola.
A comunidade da Escola participou também de debates políticos e científicos. André Rebouças, professor e engenheiro ligado à instituição, exerceu influência sobre a participação de estudantes na campanha abolicionista. A Biblioteca Nacional registra que, após a abolição da escravidão, Rebouças foi homenageado pelos alunos no edifício do Largo de São Francisco.
No início do século XX, antigos alunos e professores tiveram participação em grandes intervenções urbanas no Rio de Janeiro. Pereira Passos, como prefeito, e Paulo de Frontin, engenheiro e professor, estiveram ligados à modernização da capital federal e às grandes obras de infraestrutura do período.
A vida intelectual da Escola foi marcada pelo debate entre diferentes concepções sobre ciência, engenharia e modernização. O positivismo exerceu influência sobre parte do corpo docente e discente, sobretudo entre o final do século XIX e o início do XX.
Na República, sucessivas reformas nacionais do ensino superior alteraram a organização administrativa e curricular. Em 1911, a chamada Reforma Rivadávia Corrêa, instituída pelo Decreto nº 8.659, concedeu autonomia didática e administrativa aos institutos federais; o texto legal atribuiu à Escola Polytechnica do Rio de Janeiro o ensino de "mathematica superior e engenharia, com todas as suas modalidades".
Universidade do Rio de Janeiro
Em 7 de setembro de 1920, o Decreto nº 14.343 instituiu a Universidade do Rio de Janeiro, reunindo três instituições então existentes: a Escola Polytechnica, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
O decreto assegurou às três unidades autonomia didática e administrativa. A Escola, portanto, não foi criada pela universidade de 1920: foi uma das instituições preexistentes que participaram de sua constituição.