Ataulfo (; ), também mencionado como Atavulfo (), Atiulfo (), Adaulfo () ou Adolfo (), foi rei visigótico entre 410 e 415. Membro da dinastia dos Baltos através do casamento de uma irmã sua de nome desconhecido com o rei visigótico , com a morte de seu cunhado em 410 foi nomeado rei. Sob seu reinado, os visigodos deram continuidade à sua migração, partindo da Itália à Gália, onde se instalaram permanentemente e criariam o embrião do posterior Reino Visigótico.
Ataulfo talvez aparece pela primeira vez ca. 401, quando migrou com um contingente gótico à Panônia e expandiu sua autoridade ao matar um rei gótico local. Em 408, era comandante de um exército misto de godos e hunos na Panônia e no ano seguinte foi chamado por seu cunhado Alarico para auxiliá-lo na expedição dele no interior na Itália. Em 409, atravessou o Vêneto e dirigiu-se a Pisa, onde encontrou pequeno destacamento huno sob comando de Olímpio e foi derrotado. Em 410, continuou ajudando Alarico na sua expedição e sucedeu-o como rei dos visigodos após sua morte naquele ano.
Ataulfo tentou atravessar os visigodos à Sicília, mas falhou. Ele permaneceu perambulando pela Itália até alguma data antes de março de 413, quando marchou com seu povo através dos Alpes em direção ao sul da Gália. Ali contactou o usurpador Jovino , a quem ofereceu seus serviços. Desentendeu-se com Jovino e por isso decidiu virar-se às tropas lealistas de Honório que prometeram assentar os visigodos na Aquitânia. Ataulfo auxiliou na captura dos rebeldes, mas também acabou se desentendendo com Honório pelo não cumprimento do acordo. Várias cidades foram capturadas e Ataulfo desposou Gala Placídia, irmã de Honório que era cativa desde 410.
Durante um ataque realizado no final de 413 contra Marselha, Ataulfo foi gravemente ferido por Bonifácio e quase perdeu sua vida. Ao longo de 414, o general Constâncio tomou medidas ofensivas contra os visigodos, bloqueando seus portos e impedindo que fossem abastecidos com suprimentos. O bloqueio obrigou Ataulfo a migrar com seu povo para Barcino, na Hispânia, onde seu filho com Gala nasceu. Seria assassinado por um membro de seu séquito em 415 nos estábulos de seu palácio.
Biografia
Família
Era possivelmente filho de Alateu, um dos nobres góticos que participaram na Batalha de Adrianópolis de 378 na qual o imperador romano Valente pereceu, ou Modares, outro nobre gótico que serviu os romanos durante a Guerra Gótica de 376–382. Segundo Garcia Moreno e Herwig Wolfram, era membro da dinastia dos Baltos através do casamento de com uma irmã sua e também por nascimento, implicando que seu pai também fosse membro. Ele foi casado duas vezes, primeiro com uma dama sármata que lhe deu seis filhos e então com Gala Placídia, irmã do imperador romano ocidental Honório que havia sido capturada pelos visigodos durante o Saque de Roma de 410, e com quem teve seu herdeiro chamado Teodósio. Seu casamento com Gala ocorreu em janeiro de 414 em Narbo (atual Narbona) sob instigação de Candidiano na residência de Ingênuo. Segundo Olimpiodoro de Tebas:
Origens
thumb|upright=1.05|esquerda|Soldo de Honório
A primeira aparição de Ataulfo ocorreu em 401, no rescaldo da retirada dos vândalos, quando ele comandou um destacamento gótico dos Bálcãs em direção a região da Panônia. Ali expandiu sua autoridade e matou um rei gótico de nome desconhecido que dominava os godos do país. Em 408, Ataulfo aparece como comandante na Panônia (Prima e Sávia) de um exército misto de germanos e hunos; Thomas Burns acha que era tribuno da gente (tribunus gentis) ou prepósito do limite (praepositus limitis). Em 409, cruzou os Alpes e atravessou a região do Vêneto com o objetivo de prestar apoio militar a Alarico, que à época estava negociando com o imperador Honório em Ravena (então capital do Império Romano do Ocidente); é possível que sua travessia tenha sido acelerada com a nomeação de Generido como conde da Ilíria.
Na Itália dirigiu-se a Pisa, onde encontrou um exército de hunos comandado por Olímpio e foi derrotado. Apesar disso, seu contingente foi capaz de unir-se ao de Alarico. No mesmo ano, após não conseguir a paz com Honório, Alarico reuniu suas tropas e tentou tomar Roma pela segunda vez. O usurpador Prisco Átalo , escolhido pelo senado após o ataque de Alarico e talvez sob sua instigação, nomeou Ataulfo conde dos domésticos equestres, posição que reteria até o ano seguinte. Ainda em 409, Ataulfo e Alarico foram convidados pelo general Jóvio a participarem das discussões de paz presididas em Arímino e Ataulfo liderou um grande exército contra seu inimigo pessoal Saro e seus 300 homens em Piceno; Wolfram, considerando que Ataulfo comandou hunos na Panônia, acha que essa rixa se originou no ataque de Saro à guarda huna de Estilicão em 408.
Rei dos visigodos
thumb|upright=1.05|esquerda|Soldo de Prisco Átalo (r. 409; 414—415) thumb|esquerda|upright=1.05|Soldo de Gala Placídia thumb|upright=1.05|esquerda|Soldo de Jovino
A paz entre visigodos e romanos não foi alcançada e Alarico liderou um último cerco a Roma que culminou, em 24 de agosto de 410, no saque da cidade durante três dias. Muitas pessoas de prestígio foram capturadas, dentre elas Gala Placídia, irmã dos imperadores Honório e Arcádio e filha de , que ficou sob custódia de Ataulfo. Após o saque, os godos se dirigiram para o sul através da Campânia com objetivo de invadir a Sicília, mas foram impedidos pelo naufrágio de sua frota. No caminho de volta, Alarico adoeceu e veio a falecer em Consência (atual Cosença), em Brútio. Com sua morte sem descendentes varões, Ataulfo foi nomeado como seu sucessor, porém provavelmente sob concorrências de outros pretendentes.
Apesar dos poucos registros desse período se sabe que pelo tempo de sua nomeação, os visigodos ainda perambulavam pela Itália onde se dedicaram a arrasar a região. As fontes ignoram o avanço dos godos, mas lembram de forma eloquente da miséria que acompanhou sua passagem. Ao longo de 411 e 412, muitos refugiados fugiram da Itália em direção ao norte da África e inclusive Jerusalém, onde São Jerônimo escreveu sobre a chegada deles. Ataulfo, preocupado com os problemas na África, lentamente moveu-se para o norte. Marchando pela costa oeste através da via Aurélia, seus homens saquearam cidades, vilas e o campo na Campânia, Lácio, Etrúria e Ligúria e não foram impedidos pelos soldados romanos. Mesmo almejando chegar a um acordo com a corte em Ravena, não impediu a devastação pois necessitava de recursos para alimentar seu povo.
Nos primeiros meses de 412, Ataulfo alcançou a planície Padana e assentou momentaneamente próximo de Augusta dos Taurinos (atual Turim), onde se preparou para partir da Itália. No fim de fevereiro ou começo de março, organizou seu povo e arriscou cruzar os Alpes pelo passo de Montgenèvre, ao longo do rio Dora Riparia, que alimenta o rio Pó. Dali, seguiu o curso do Durença até próximo de Arelate (atual Arles), a capital romana local. Talvez sob influência de Prisco Átalo, que ainda viajava com os visigodos, Ataulfo contactou o usurpador Jovino em Arelate e ofereceu-lhe seus serviços, porém o acordo foi quebrando quando Jovino aclamou seu irmão Sebastiano como coimperador; os autores da PIRT sugerem que o fim do acordo ocorreu no começo de 413 sob influência do prefeito pretoriano da Gália Dardano.
Ataulfo reabriu negociações com Honório e prometeu derrotar os usurpadores. Como resposta, tropas lealistas prometeram em nome de Honório que os godos seriam assentados na Gália Aquitânia (como federados) e abastecidos com cereais. Ataulfo reuniu então godos e derrotou seu rival Saro, que desertou Honório e havia reunido um exército para auxiliar Jovino, e marchou contra os rebeldes, primeiro derrotando Sebastiano e seu irmão Salústio, que foram mortos, e depois sitiando Jovino em Valência Júlia (atual Valença). Jovino foi capturado e levado para Narbo, onde foi decapitado. As cabeças dos rebeldes foram enviadas à Ravena e chegaram em agosto de 413.
thumb|Síliqua de Sebastiano thumb|Hispânia em 411
Apesar de ter chegado a termos com Honório, a relação com os romanos deteriorou na Gália e novos conflitos foram deflagados, pois a revolta de Heracliano na África impediu o imperador de cumprir a promessa de enviar suprimentos. Em 413, os visigodos tomam as cidades de Narbo, Tolosa e Burdígala (atual Bordéus) e no fim desse ano Ataulfo foi ferido durante o ataque romano liderado por Bonifácio em Marselha. No começo de 414, Ataulfo casou-se com Gala e Átalo fez um poema matrimonial (epitalâmio). No final do mesmo ano, Constâncio bloqueou-o a partir de sua sede em Arelate (atual Arles), levando Ataulfo a nomear Átalo como augusto em retaliação. O bloqueio, contudo, foi eficiente e os visigodos foram obrigados a se deslocar à Hispânia no final do verão ou começo do outono de 414 (ou mesmo já no começo de 415).
Ataulfo atravessou os Pireneus e seguiu a via Domícia ao longo da costa para o canto leste dos Pireneus, onde instalou sua corte em Barcino (atual Barcelona), na Tarraconense. A marcha à Hispânia, apesar de poder ser explicada pelas circunstâncias, também possivelmente pode ter ligação com algum tipo de acordo firmado entre Ataulfo e Constâncio. Sua entrada pacífica em Barcino, bem como a prisão de Átalo antes da marcha, podem ser reflexos desse acordo e sua intenção poderia ter sido o desejo do império em usar os godos para combater as demais tribos que anos antes haviam migrado para o interior da península, o que pouparia os então escassos recursos romanos. Sediados em Barcino, os visigodos deram prosseguimento a seu conflito com os vândalos da Hispânia que havia sido iniciado já em 413. A última campanha desse conflito, ocorrida ca. 415, provavelmente foi conduzida contra os asdingos, mais tarde assentados na Galécia, onde, segundo a Gética do escritor bizantino do Jordanes, Ataulfo repeliu os vândalos.
Barcino foi o local de nascimento de Teodósio, o filho de Ataulfo com Gala, assim nomeado em honra de seu avô como testemunho do interesse de vincular os visigodos na linhagem romana. A criança, entretanto, faleceu alguns meses depois e isto foi visto mais tarde como o cumprimento de uma profecia de Daniel que, segundo Idácio de Chaves, dizia: "a filha de um rei do Sul se juntou em casamento a um rei do Norte, e não resta nenhum filho de sua união."
Morte thumb|esquerda|upright=1.05|Ataulfo, rei godo por Vicente Carducho, 1634-1635 (Museu do Prado, Madri) thumb|upright=1.05|esquerda|Retrato de Ataulfo segundo o livro de 1782 Retratos dos Reis de Espanha desde Atanarico até nosso monarca católico Dom Carlos III
Vários notáveis aconselharam o rei a atravessar o estreito de Gibraltar à África, mas Ataulfo declinou enfatizando seu plano para chegar a um acordo com o imperador Honório; a insistência do rei piorou o mal-estar patente que existia entre a nobreza goda contrária a negociar ou cooperar com os romanos. Seguindo sua política de cooperação e aproximação com os romanos, Ataulfo foi assassinado em 14 de agosto de 415 (ou 416 segundo Isidoro de Sevilha) nos estábulos do palácio de Barcino, durante uma inspeção aos cavalos, vítima de uma conspiração provavelmente arquitetada por Sigerico. Sua morte foi anunciada em Constantinopla em 24 de setembro.
Talvez tenha sido assassinado por uma pessoa de seu próprio séquito chamado Dúbio ou Eberulfo que havia sido ridicularizado pelo monarca, mas não obstante este fato uma razão mais provável teria sido uma revanche pelo assassinato de Saro, possível irmão de Sigerico; para Isidoro o destino de Ataulfo foi decidido pela acusação de colaborar e buscar a paz com os romanos. Na verdade, Sigerico foi chefe do partido gótico anti-romano e era inimigo do monarca, bem como opositor da dinastia dos Baltos a qual Alarico e Ataulfo pertenciam.