Rongorongo em Rapa Nui é um sistema bustrofédico de glifos descoberto no na Ilha de Páscoa, que parece ser uma escrita ou proto-escrita. Não é inteligível apesar das inúmeras tentativas de decifração. Ainda que algumas informações sobre genealogia tenham sido identificadas, nem mesmo esses glifos puderam ser lidos. Se for provado que o rongorongo é uma escrita, poderia ser uma das por volta de três ou quatro escritas independentes na história humana.

Encontraram-se duas dúzias de objetos de madeira contendo rongorongo, alguns dos quais significativamente queimados ou danificados de outra forma, no final do século XIX, sendo que hoje se encontram dispersas por museus e coleções privadas. Nenhuma delas permaneceu na Ilha de Páscoa. Os objetos consistiam essencialmente em: tabuletas feitas de pedaços irregulares de madeira, por vezes encontrados junto à costa, incluindo ainda a clava de um chefe, uma estatueta de um homem pássaro, e dois ornamentos reimiro. Havia também uns poucos petróglifos que às vezes continham pequenas inscrições em rongorongo. A história oral sugere que apenas uma pequena elite era letrada e que a escrita era sagrada.

Os textos em rongorongo autênticos estão escritos em direções alternadas, ou seja, seguem um sistema bustrofédico invertido. Um terço das tábuas conta com as linhas de texto inscritas em caneluras rasas cravadas na madeira. Os glifos em si eram contornos de formas humanas, animais, vegetais, geométricas e de artefatos. Muitas das figuras humanas e animais, como 15px|Rongorongo glyph 200 e 15px|Rongorongo glyph 280, tinham protuberâncias características em cada lado da cabeça, possivelmente representando olhos ou orelhas.

Textos individuais são por convenção conhecidos por uma letra simples e um nome, como a tabuleta C, a Tabuleta Mamari. Os nomes um tanto variáveis podem ser descritivos ou indicar onde o objeto está mantido, como o Remo, o Snuffbox, a pequena tabuleta de Santiago, e a Clava de Santiago.

Etimologia e variantes do nome Rongorongo é o nome moderno para as inscrições, sendo que na língua rapanui, esta palavra significa "recitar, declamar, cantar".

O nome original — ou talvez a descrição — do escrito teria sido kohau motu mo rongorongo, "linhas escritas para serem cantadas", reduzida para kohau rongorongo ou "linhas para se cantar".Englert 1993 Também se acredita que teriam existido mais nomes específicos para o textos baseados em seus tópicos. Por exemplo, os kohau ta‘u ("linhas dos anos") eram anais, os kohau îka ("linhas dos peixes") eram listas de pessoas mortas em guerras (îka, "peixe", era homófono ao termo assim usado simbolicamente como "causa por guerra"), e os kohau ranga "linhas de fugitivos" eram listas de refugiados de guerras.

Alguns autores entenderam que o ta‘u e o kohau ta‘u seriam formas de escrita independentes do rongorongo. Barthel escreveu que, "Os ilhéus tinham outras escritas (a chamada 'escrita ta‘u') que recordava seus anais e outras matérias seculares, mas esta desapareceu."Barthel 1958:66 Contudo, Fischer afirma que "o ta‘u foi originalmente um tipo de inscrição rongorongo. Na década de 1880, um grupo de anciões inventou uma 'escrita' derivada [também] chamada ta‘u para decorar objetos, aumentando seu valor. É uma imitação primitiva do rongorongo. "Fischer 1997:667 Uma suposta terceira escrita, a mama ou va‘eva‘e, descrita em algumas publicações de meados do século XX, era uma "invenção geométrica [decorativa] do começo do século XX".Fischer 1997:ix

Forma e construção

As formas dos glifos são contornos padronizados de organismos vivos e formas geométricas de mais ou menos um centímetro. Os tabletes de madeira são irregulares em forma e, em diversos casos, apresentam caneluras (tabletes B, E, G, H, O, Q e T), com os grifos cravados em canais rasos na extensão das tabuletas, como se pode ver na imagem da tabuleta G à direita. Acredita-se que pedaços irregulares ou mesmo manchados de madeira foram usados em sua totalidade em vez de pedaços quadrados devido à escassez de madeira na ilha.Fischer 1997:382

Meios de escrita

Exceto alguns poucos glifos feitos em pedra (ver petróglifos), todos os textos sobreviventes estão inscritos em madeira. De acordo com a tradição, os tabletes eram feitos de madeira toromiro. Entretanto, Orliac (2005) examinou sete objetos (tabletes B, C, G, H, K, Q e reimiro L) com microscópios ópticos e microscópios eletrônicos e determinou que em vez disso eram todos feitos de pau-rosa do Pacífico (Thespesia populnea); a mesma identificação fora feita para a tabuleta M em 1934. Essa árvore de 15 metros, conhecida como "madeira rosa do Pacífico" por sua cor e mako‘i em rapanui, é usada para a criação de bosques sagrados e em inscrições na Polinésia oriental e evidentemente trazida para a Ilha de Páscoa pelos seus primeiros moradores.Skjølsvold 1994, como citado em Orliac 2005 No entanto, nem toda a madeira era nativa: Orliac (2007) afirmou que os tabletes N, P e S foram feitos de madeira amarela sul-africana (Podocarpus latifolius) e portanto aquela madeira veio de contatos com o ocidente. Fischer descreve P como "um tronco europeu ou americano danificado", assim como o são A (que é Cinza europeia, Fraxinus excelsior) e V; este seria feito da carcaça de um barco ocidental usado em diversos tabletes; e tanto P como S teriam sido reciclados de uma canoa de madeira de Rapanui.Fischer 1997:483 Alguns textos, incluindo O, são gravados em madeira retorcida.Fischer 1997:497 O fato de que os ilhéus foram reduzidos a escrever nesse tipo de madeira, e eram extremamente econômicos no uso da madeira, pode ter tido influências na estrutura da escrita, como a abundância de ligaduras e potencialmente um estilo telegráfico de escrita que complicaria a análise textual.Fischer 1997:382–383; ver também decifração do rongorongo

A tradição oral defende que, devido ao grande valor da madeira, só escribas experientes a usavam, enquanto pupilos escreviam em folhas de bananeira. O etnologista alemão Thomas Barthel acreditava que escrever em madeira era um segundo desenvolvimento de uma escrita baseada na inscrição de folhas de banana ou pedaços de tronco de bananeira com ossos, e que essas folhas eram usadas não só para lições mas também para planejar e compor os textos das tabuletas de madeira.Barthel 1971:1168 Ele concluiu experimentalmente que os glifos eram razoavelmente visíveis nas folhas de banana por causa da seiva que surgia com os cortes e aderia à superfície. Entretanto, quando as folhas secam, elas ficam quebradiças e não sobrevivem por muito tempo.Fischer 1997:386

Barthel especulou que a folha de bananeira poderia servir de protótipo dos tabletes, sendo a superfície dos tabletes uma emulação da estrutura da folha:

thumb|left|Um close das inscrições da tabuleta Pequeno de Santiago, mostrando partes das linhas 3 (embaixo) a 7 (acima). Os glifos das linhas 3, 5 e 7 estão de cabeça para cima, enquanto os das linhas 4 e 6 seguem de cabeça para baixo.

Direção de escrita Os glifos rongorongo eram escritos em bustrofédon invertido, isto é, da esquerda para direita e de baixo para cima. Ou seja, o leitor começa no canto inferior esquerdo de uma tabuleta, lê uma linha da esquerda para a direita, então roda a tabuleta em 180 graus para continuar à próxima linha. Quando lendo uma linha, as linhas de cima e baixo aparecem ao contrário, como se pode ver na imagem da esquerda.

Contudo, a escrita continua na segunda linha de um tablete no ponto em que se termina a primeira, então se o primeiro lado tem um número ímpar de linhas, como no caso das tabuletas K, N, P e Q, a segunda começa no canto superior esquerdo, e a direção passa de cima para baixo.

Tabletes maiores podem ser lidos sem serem girados, se o leitor for capaz de lê-los de ponta-cabeça.Fischer 1997:353

Instrumentos de escrita

Segundo a tradição oral, os escribas usavam fragmentos de obsidiana e dentes de tubarão, presumivelmente as ferramentas ainda utilizadas para fazer inscrições em madeira na Polinésia, para polir os tabletes e inscrever os caracteres.Métraux 1940:404 (See .) os glifos são comumente compostos por cortes profundos e suaves, ainda que cortes superficiais também tenham sido encontrados. Na imagem da direita, um glifo é composto de duas partes conectadas por uma linha; é uma convenção típica para essa forma. Alguns pesquisadores, incluindo Barthel, acreditam que esses cortes superficiais foram feitos por obsidiana, e os textos foram primeiramente esboçados com obsidiana e então inscritos com cortes mais fundos por dente de tubarão. As linhas remansescentes portanto eram erros, convenções de design (como à direita), ou adornos decorativos. Linhas verticais de divisas ou losangos, por exemplo, são tipicamente conectadas por linhas finas, como se pode ver repetidamente no final da tabuleta B abaixo. Contudo, Barthel também aponta que o último literato Rapanui, o Rei Nga‘ara, esboçava os glifos em fuligem com um osso de peixe e então utilizava o dente de tubarão.Barthel 1959:164

A tabuleta N, por outro lado, não mostra sinais de dentes de tubarão. Haberlandt percebeu que os glifos desse texto parecem ter sido feitos com um osso afiado, como evidenciado pela pouca profundidade e pela extensão dos entalhes.Haberlandt 1886:102 N também "apresenta trabalho secundário com fragmentos de obsidiana para elaborar detalhes sobre as já finalizadas linhas de contorno. Nenhuma outra inscrição rongorongo revela tamanha extravagância gráfica".Fischer 1997:501

Outras tabuletas parecem ter sido talhadas com uma lâmina de aço, ainda que normalmente de forma tosca. Apesar de facas de aço estarem disponíveis após a chegada dos espanhóis, isso realmente produz suspeitas acerca da autenticidade dos tabletes.

Glifos

Os glifos estão estilizados em formas humanas, animais, vegetais e geométricas, e frequentemente formam compostos. Quase todos os glifos com cabeças se orientam com a cabeça para cima e estão de frente ou de perfil para a direita, na direção da escrita. Não se sabe o significado de se apontar glifos para baixo ou para a esquerda. Cabeças normalmente possuem projeções características nos lados que podem ser olhos (como no glifo tartaruga marinha abaixo, e mais claramente em petróglifos de tartaruga marinha) mas comummente lembram orelhas (como no glifo antropomórfico na próxima sessão). Pássaros são comuns; muitos lembram fragatas (ver a imagem logo abaixo), que eram associadas ao deus supremo Makemake.Guy 2006 Outros glifos lembram peixes ou artrópodes. Poucos, bem poucos, são similares a petroóglifos achados pela ilha.

Imagem:Rongorongo-sample-en.png

Alguns dos glifos rongorongo mais icônicos. Acredita-se que o homem sentado é um composto. (Leituras de Barthel (1958). As legendas na coluna da direita são meramente descritivas.)

Origem A tradição oral sustenta que Hotu Matu‘a ou , o fundador lendário de Rapa Nui, trouxe 67 tabletes de sua terra natal.Fischer 1997:367 O mesmo fundador é também creditado por ter trazido plantas nativas como o toromiro. No entanto, não há terra-natal com tradição escrita na Polinésia ou mesmo na América do Sul, destarte, o rongorongo parece ter-se desenvolvido internamente. Dado que poucas seriam as pessoas de Rapanui, restantes na ilha, por volta de 1870, capazes de ler os caracteres, isto se alguma delas fosse efectivamente capaz de ler, uma vez que, muito provavelmente, só uma pequena minoria era letrada. Assim sendo, os primeiros visitantes relataram que a leitura era privilégio de famílias de governantes e sacerdotes, os quais foram todos raptados em ataques vindos do Peru, em busca de escravos, ou morreram posteriormente, mercê das epidemias resultantes.Cooke 1899:712, Englert 1970:149–153

Datando os tabletes Pouca datação direta foi feita. A tabuleta Q (Pequena São Petersburgo) é o único item que foi sujeito a datação a carbono, mas os resultados apenas apontam para pouco depois de 1680.