Resumo do Grande Prêmio da Itália de Fórmula 1 realizado em Monza em 5 de setembro de 1971. Nona etapa do campeonato, entrou para a história como palco da chegada mais apertada da história, num dia onde o britânico Peter Gethin, da BRM, obteve sua única vitória na categoria, tendo Ronnie Peterson em segundo pela March-Ford e François Cevert em terceiro pela Tyrrell-Ford. Graças a este resultado, a Tyrrell conquistou seu único mundial de construtores.

Resumo World Wide Racing na Itália Investigado por homicídio culposo após a morte de Jochen Rindt nos treinos para o Grande Prêmio da Itália de 1970, Colin Chapman fez a Lotus retornar ao país como World Wide Racing de modo a atenuar as implicações legais do caso e quando Emerson Fittipaldi foi à pista, seu carro ostentava as cores preta e dourada e o motor turbina de avião a gás da Pratt & Whitney. Note-se que a equipe britânica inscreveu somente um carro para a disputa, assim como a Matra, por causa da suspensão de Jean-Pierre Beltoise, e a McLaren, pois Denny Hulme viajou para os Estados Unidos a fim de disputar as 500 Milhas da Califórnia no calendário do United States Auto Club, onde estava Mario Andretti. Quanto ao neozelandês, ele cancelou sua participação para disputar as etapas da Can-Am em Road America (Elkhart Lake) e Donnybrooke.

Enquanto a Lotus inscreveu o seu modelo 56B sob um nome fantasia, a Surtees reforça o grid ao entregar um terceiro carro para Mike Hailwood, ausente da Fórmula 1 desde o Grande Prêmio de Mônaco de 1965, sendo que, em 22 de agosto, a equipe venceu a International Gold Cup de 1971 em Oulton Park com John Surtees ao volante. Bem mais discreto foi o retorno de Andrea de Adamich para a March, afinal o italiano não esteve no Grande Prêmio da Áustria.

Monza e a força dos motores Tomando por base a relação dos melhores colocados no grid de largada em Monza, vê-se o quão fortes os motores V12 empurraram seus usuários, pois Chris Amon fez a pole position tendo Jacky Ickx ao seu lado, enquanto Jo Siffert e Howden Ganley capturaram a segunda fila para a BRM, enquanto o melhor dentre os motores V8 foi a Tyrrell de François Cevert, quinto colocado entre os habilitados a correr no domingo. A seguir vieram a March de Ronnie Peterson, a Tyrrell de Jackie Stewart e a Ferrari de Clay Regazzoni, sendo que o time vermelho precisa descontar pelo menos dois pontos dos carros azuis de Ken Tyrrell para, ao menos, adiar o desfecho do mundial de construtores.Jackie Stewart marcou as primeiras poles da Matra na Fórmula 1 em 1969, no Grande Prêmio de Mônaco e no Grande Prêmio da França. Na época o construtor francês fornecia chassis à Tyrrell Racing Organisation, em nome de quem os carros eram inscritos para correr, mas nas estatísticas aparece o nome da Matra, que no Grande Prêmio da Itália de 1971 obteve sua primeira pole como equipe e terceira como construtor.

Vencedores do Grande Prêmio da Itália em anos anteriores, Graham Hill e John Surtees ficaram longe das primeiras posições, assim como Emerson Fittipaldi terminou em décimo oitavo lugar com a Lotus da World Wide Racing, equipe cuja proprietário formal é Peter Warr. Cinco britânicos enfileiraram-se adiante do brasileiro e atrás deste ficaram os italianos Nanni Galli e Andrea de Adamich, enquanto o estreante Jean-Pierre Jarier obteve o último lugar no treino, com uma March 701 alugada pelo empresário francês Marcel Arnold e dentre os que não participaram dos treinos estava o brasileiro José Carlos Pace, inscrito pela Frank Williams Racing Cars. Sem vencer o Grande Prêmio da Itália desde o primeiro título de Jim Clark em 1963, a Lotus apostava na força extra de sua turbina Pratt & Whitney para buscar a vitória nesta que foi a última corrida em Monza sem as chicanes. O brasileiro, porém, terminou em oitavo lugar e o pesado carro movido a turbina e tração nas quatro rodas jamais seria utilizado novamente, pois consumia muito combustível e não tinha freios compatíveis. Em penúltimo lugar ficou a Bellasi do suíço Silvio Moser, nesta que foi a última corrida para ambos.

Peter Gethin faz história Como era usual naqueles tempos, o diretor de prova não esperou que todos os carros estivessem parados no grid e quando largaram, a Ferrari de Regazzoni estava em movimento e graças a esse impulso inicial, o suíço valeu-se da potência do motor e de uma boa tração para ultrapassar Siffert, assumir a liderança e pontear a corrida por três voltas, enquanto Peterson e Stewart dividiam roda pela terceira posição, afinal obtida pelo sueco da March, enquanto Ickx e Ganley caíam para o quinto e sexto lugares, respectivamente. Neste momento, convém lembrar as longas retas e poucas curvas de baixa velocidade em Monza, fatores cruciais para o desenrolar da corrida, pois a todo momento um competidor era favorecido pelo vácuo do carro à sua frente, motivo pelo qual Peterson liderou entre as voltas quatro e sete com Stewart a persegui-lo, tomando a liderança no oitavo giro e com Regazzoni fazendo o mesmo na volta seguinte, com o sueco da March reassumindo a ponta na décima passagem, quando cinco pilotos já estavam fora de combate. Nesse meio tempo, o francês Henri Pescarolo, da March, assinalou a volta mais rápida de uma corrida pela única vez na carreira.

Ronnie Peterson liderou as cinco voltas seguintes, mas o destaque do pelotão frontal era François Cevert, que nesse espaço saiu da quinta posição para a vice-liderança e ponteou a corrida nas voltas quinze e dezesseis, mas o vai e vem frequente entre os pilotos tenha reposicionado o sueco da March novamente em primeiro lugar, adiante de Cevert e um surpreendente Hailwood. Em meio a essa confusão desportiva, a chance de um vencedor inédito aumentou quando a Ferrari abandonou ante as falhas mecânicas de Ickx e Regazzoni, com a Tyrrell de Stewart padecendo da mesma sina. Avarias à parte, o efeito da "guerra do vácuo" alegrou ao público, pois com os carros próximos entre si, quem ficasse atrás sofria menos resistência do ar e conseguia uma velocidade extra, ultrapassando os rivais com maior facilidade, algo potencializado pelas longas retas de Monza.

Na volta vinte e três, Cevert liderava seguido por Hailwood com Peterson em terceiro; no giro seguinte, Peterson e Cevert deixaram Hailwood para trás, sempre com Siffert em quarto. Na volta vinte e cinco, Hailwood liderava adiante de Cevert, Siffert e Peterson, que reassumiria a ponta na volta vinte e seis ao superar Cevert e Hailwood, mas o velho Mike "The Bike" Hailwood assumiu a liderança na volta vinte e sete, enquanto Cevert, Peterson e Siffert o perseguiam numa luta encerrada brevemente quando Siffert liderou as três voltas seguintes antes de cair várias posições por um defeito no câmbio da BRM. Com isso, François Cevert liderou quatro das seis voltas seguintes, pois em duas Ronnie Peterson e Mike Hailwood o superaram.

Discretamente posicionado em quarto lugar enquanto Cevert, Peterson e Hailwood brigavam entre si, Chris Amon largou na pole position mas teve que esperar até a volta trinta e sete para assumir a liderança da prova, graças ao motor V12 de sua Matra. Superado por Hailwood na Parabólica, o neozelandês reassumiu a ponta no giro seguinte, trazendo Cevert na vice-liderança, mas ao remover uma mancha de óleo de sua viseira na quadragésima sétima passagem, acabou removendo o equipamento, expondo seu rosto aos fortes ventos da reta de Monza, obrigando-o a diminuir o ritmo, abdicando da vitória. Melhor para Ronnie Peterson, que reassumiu a liderança, trazendo François Cevert e Mike Hailwood atrás de si, com dois carros da BRM, pilotados por Howden Ganley e Peter Gethin, empurrando Amon para o sexto lugar.

Na volta cinquenta de cinquenta e cinco previstas, Peterson liderava à frente de Hailwood, Gethin e Cevert, enquanto Ganley e Amon completavam a zona de pontuação. Hailwood tomou a liderança no giro seguinte, mas foi na volta cinquenta e dois que a corrida atingiu seu ápice, com Gethin ultrapassando Peterson antes de tomar o revide na curva de Lesmo, mas o britânico da BRM superou o sueco da March em frente às arquibancadas. Resoluto, Peterson suplantou Gethin na quinquagésima terceira volta, mas uma manobra ousada de seu rival britânico na parte externa da Parabólica devolveu a liderança ao piloto da BRM, com Peterson em segundo adiante de Cevert, que tomara o terceiro lugar de Hailwood, com Ganley vindo a seguir, com mais de trinta segundos de vantagem sobre Amon.

Peter Gethin, Ronnie Peterson e François Cevert dividiram cada centímetro de asfalto nas duas voltas finais. Na primeira reta, o sueco da March prevaleceu sobre o francês da Tyrrell quase empurrando Cevert para fora da pista, mas este assumiu a liderança na primeira de Lesmo, enquanto Peterson deu o troco na reta central de Monza, num duelo que bloqueou o avanço de Hailwood, ora à frente de Gethin e Ganley. No início da última volta, Cevert ultrapassou Peterson mais uma vez, enquanto Gethin deixou Hailwood para trás. Confiante, Cevert manobrou para que Peterson o ultrapasse afim de aproveitar o vácuo resultante e reassumir a liderança da prova. Peterson, de fato, ultrapassou Cevert, mas como o sueco ocupou o lado externo da pista, um mergulho por dentro e uma freada tardia de Gethin fizeram o britânico da BRM assumir a liderança nos metros finais da prova. Atônito, Peterson acelerou tudo o que pôde, mas Gethin venceu a corrida por um centésimo de segundo, a menor diferença já registrada em favor de um vencedor na história da Fórmula 1.

Entretanto, o caráter histórico desta corrida não ficou restrito ao pódio formado por Peter Gethin, Ronnie Peterson e François Cevert, pois a diferença entre o vencedor e o quinto colocado foi de apenas sessenta e um centésimos de segundo. Neste Grande Prêmio da Itália, a zona de pontuação foi completada por Mike Hailwood, Howden Ganley e Chris Amon, este a quase trinta e três segundos do vencedor. Na classificação do mundial de pilotos, Jackie Stewart manteve-se com 51 pontos, mas a vice-liderança agora está com Ronnie Peterson e seus 23 pontos, desbancando o inerte Jacky Ickx, terceiro colocado com 19 pontos, enquanto François Cevert subiu para 16 pontos, mesma contagem de Emerson Fittipaldi. No campo das efemérides, Peter Gethin vivenciou o único pódio de sua carreira, enquanto Mike Hailwood firmou um dos maiores intervalos entre duas pontuações consecutivas de um mesmo piloto, afinal ele foi o sexto colocado no Grande Prêmio de Mônaco de 1964.Os maiores intervalos entre duas pontuações consecutivas pertencem a Robert Kubica (entre o Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2010 e o Grande Prêmio da Alemanha de 2019), Lucien Bianchi (entre o Grande Prêmio da Bélgica de 1960 e o Grande Prêmio de Mônaco de 1968) e ao próprio Mike Hailwood (no intervalo descrito acima).

Vencedora do Grande Prêmio da Áustria de 1971 com Jo Siffert, a BRM obteve um resultado inédito desde as vitórias consecutivas de Graham Hill no Grande Prêmio da Alemanha e no Grande Prêmio da Itália em 1962, enquanto Peter Gethin manteve-se vinculado ao automobilismo, sendo que no Grande Prêmio de San Marino de 1981 estreou a Toleman, equipe fundada por Ted Toleman e chefiada por Alex Hawkridge. Nesta organização, Peter Gethin ocupou o cargo de diretor esportivo, o que o fez chefe imediato de Ayrton Senna ao longo de 1984, ano de estreia do brasileiro na categoria.

Tyrrell campeã de construtores