O Dérbi do Merseyside (em inglês: Merseyside derby) é o clássico de futebol entre Everton e Liverpool, ambos da cidade de Liverpool, Inglaterra. Nomeado em homenagem ao condado de Merseyside, no qual a cidade está localizada, é o dérbi local de primeira divisão mais longo da Inglaterra e tem sido jogado continuamente desde a temporada de 1962–63. Ambos os clubes chegaram a ser precisamente os dois maiores vencedores do Campeonato Inglês de Futebol até a década de 1990, e outro elemento peculiar da rivalidade se deve ao fato de suas sedes mais célebres serem separadas por menos de uma milha, com apenas o Stanley Park separando o estádio do Everton em Goodison Park do estádio do Liverpool em Anfield.GOBBET, Cassiano Ricardo (novembro de 2007). Uma cidade de duas cores. Trivela n. 21. São Paulo: Trivela Comunicações, pp. 50-53 Esta faceta durou mais de 130 anos, vindo a ser relativizada somente em 2025, com a mudança do time masculino do Everton para um novo estádio.

Inicialmente, o clube azul deteve a supremacia, chegando inclusive a ser a equipe mais rica da Inglaterra nos primeiros anos do século XX. Sua vantagem no dérbi só começou a ser revertida a partir de meados da década de 1960, a ponto de a torcida dos Reds passar a nutrir mais rivalidade com o Manchester United. Mas antes mesmo disso o Merseyside Derby, ainda considerado um dos maiores clássicos do mundo, já era uma rivalidade sui generis por outro fator: sempre foi marcado pelas torcidas tratarem-se bastante cordialmente, a ponto de o duelo ser chamado também de Friendly Derby ("clássico amistoso").

Dentre outros elementos peculiares da rivalidade, está os fatos de Anfield Road, visto como o "mítico" estádio do Liverpool, já ter sido a casa do Everton, e de inicialmente o Liverpool ter usado a cor azul como o rival e chamar-se de "Everton Athletic"; também é comum que alguns ídolos de um clube sejam ou tenham sido na intimidade torcedores do rival, incluindo quem mais jogou e mais marcou gols pelos Reds no clássico com os Toffees. A distância entre os estádios tradicionalmente associados à dupla chegou a ser a décima menor, a nível mundial, entre sedes de dois clubes rivais.

A fraternidade incomum, porém, não impede que os encontros sejam jogos bastante acirrados: lendário treinador do time vermelho, Bill Shankly teria cunhado sua célebre frase "futebol não é questão de vida ou morte, é mais importante que isso" para referir-se a esse clássico,HOFMAN, Gustavo (outubro de 2008). Te odeio, logo existo. Trivela n. 32. São Paulo: Trivela Comunicações, pp. 34-45 que é precisamente a partida que mais reúne expulsões na história da Premier League - em 2016, constatou-se que desde 1992 haviam sido aplicados 25 cartões vermelhos em 48 jogos, quantidade cinco vezes acima da média de confrontos alheios. Ao longo da rivalidade, apenas dois treinadores trabalharam nos dois rivais, em experiências também separadas por cerca de 130 anos.

Introdução thumb|right|300px|Estádio de Anfield Road visto no Stanley Park. O Everton utilizou ambos em seus primórdios antes de mudar-se a Goodison Park, adjacente a outra extremidade do Stanley, motivando assim a criação do Liverpool para ocupar Anfield.

Criado em 1878 para fiéis de igreja metodista situada no distrito de Everton, na zona norte de Liverpool, o Everton Football Club originalmente veio a instalar-se ainda nos primórdios no Stanley Park. Com a proibição municipal do uso do espaço público pelo clube, ele passou em meados da década de 1880 a alugar o estádio de Anfield, em terreno vizinho. O estádio era propriedade de John Houlding, empresário cervejeiro com proeminência local na maçonaria e na política, chegando a ser prefeito da cidade. Houlding também era desde 1881 o presidente do próprio Everton.presidente desde 1881 do próprio Everton. O clube veio a vencer pela primeira vez o campeonato inglês já na terceira edição da competição, a de 1890–91.Uma disputa centenária e equilibrada (2004). Anuário Placar 2003. São Paulo: Editora Abril, pp. 498-499 No ano seguinte, contudo, a quintuplicação do preço do aluguel de Anfield fez o Everton deixar esse estádio.

Destituído por seus pares Evertonians da presidência, Houlding então criou um novo clube para ocupar Anfield. Vendo sua criação não como um novo time propriamente e sim como verdadeira continuação dos antigos inquilinos, buscou usar o nome Everton Athletic Club. Porém, a tentativa de registra-lo assim foi negada pela Football League, que tinha nos Toffees um dos membros-fundadores. Houlding então optou pelo nome Liverpool Football Club, mas inicialmente manteve a mesma cor azul do vizinho. Somente dois anos depois, em 1894, o vermelho foi adotado pelo Liverpool. Com o tempo, Houlding acabaria visto como "o homem que criou o futebol do Merseyside" e "pai fundador" de ambos os clubes; quando faleceu, em 1902, Houlding teve seu caixão carregado por três jogadores do Liverpool e outros três do Everton, sendo seu corpo enterrado no cemitério do distrito de Everton.

O Everton mudara-se para Goodison Park, em ponta do Stanley Park oposta à de onde se situa Anfield. Por conta disso, a expressão "atravessar o Stanley Park" passaria a ser utilizada como sinônimo de quem deixa um dos clubes para atuar no rival. O primeiro a fazê-lo era daqueles primórdios: Duncan McLean, um dos primeiros jogadores alinhados pelo clube novo, era do Everton e permaneceu em Anfield. No mesmo ano de 1892, Tom Wyllie tornou-se outro Evertonian a se incorporar aos novatos. Também data daquela época o treinador William Edward Carclay, técnico do Everton em 1888 e do Liverpool em 1892. Carclay foi por cerca de 130 anos o único a treinar os dois rivais, até a contratação de Rafa Benítez pelos azuis em 2021. thumb|right|200px|Item do museu do Liverpool (no estádio de Anfield) é uma das primeiras camisas do clube, ainda nas mesmas cores do Everton. No mesmo ano em que o Liverpool trocou o azul pelo vermelho, ocorreu o primeiro clássico, com vitória do Everton por 3-0 no Goodison Park.http://www.evertonresults.com/ A proximidade desse local com Anfield vinha fazendo as casas tradicionais da dupla se situarem entre as dez mais próximas do mundo entre dois rivais; a distância de 1.100 metros é justamente a décima menor, sendo a menor da elite inglesa; a segunda menor entre os estádios ingleses (abaixo dos 700 metros entre as casas de Nottingham Forest e Notts County); a terceira menor no Reino Unido (abaixo também dos cem metros que separam os clubes escoceses Dundee e Dundee United, dos estádios mais próximos do mundo); e a quarta menor na Europa, abaixo de 700 metros entre os sérvios Partizan e Estrela Vermelha. Além destes, apenas Remo e Paysandu (250 metros, segunda menor), Racing e Independiente (350 metros, terceira menor), Santos e Portuguesa Santista (400 metros, quarta menor), Al-Merrikh Sporting Club e Al-Hilal Omdurman (550 metros, quinta menor), Estudiantes e Gimnasia y Esgrima (650 metros, sexta menor) e Guarani e Ponte Preta (800 metros, nona menor) têm estádios mais próximos que os Merseysiders.

Em 2025, essa proximidade sofreu alterações. Com a construção do novo Hill Dickinson Stadium, em outra região, inicialmente divulgou-se que o Goodison Park seria demolido ao término da Premier League de 2024–25. Lar do Everton por cerca de 130 anos, o Goodison era justamente o estádio que mais partidas havia recebido válidas pela primeira divisão inglesa. Ao fim da temporada, contudo, o clube azul optou por manter sua casa histórica, ainda que voltando-a exclusivamente para seu departamento de futebol feminino. A mudança fez das mulheres do Everton as primeiras a terem um estádio próprio para si na Inglaterra, bem como fará do Goodison o maior estádio inglês voltado somente a essa modalidade. Mesmo antes do ajuste, o estádio já era carinhosamente chamado pela torcida como The Grand Old Lady, traduzível como "A Venerável Senhora".

O "Clássico Amistoso" thumb|right|300px|Steven Gerrard comemorando gol no clássico em 2012. É o segundo maior artilheiro do Liverpool no Dérbi do Merseyside, mas curiosamente já foi fotografado com o uniforme rival, na infância.

thumb|right|300px|Ian Rush em jogo de veteranos do Liverpool em 2008. Embora torcedor dos azuis, tornou-se o maior artilheiro vermelho no clássico, decidindo inclusive final de Copa da Inglaterra diante do Everton um mês após chegar a vestir a camisa toffee em brincadeira do Dia da Mentira.

thumb|right|150px|Jamie Carragher em 2011. Apesar de defender somente o Liverpool em toda a sua carreira (1996-2013), sempre declarou-se torcedor do rival a ponto de marcar um gol contra intencional em amistoso dos dois clubes que o homenageou.

thumb|right|150px|Robbie Fowler no jogo festivo de despedida de Steven Gerrard, em 2013. Embora torcedor dos azuis, contra eles desabafou sua mais famosa comemoração de gol, simulando consumo de cocaína após encerrar jejum de cinco anos sem vitórias dos Reds no dérbi.

O clássico é marcado pelo grande respeito mútuo entre as torcidas. A aproximação teria começado a partir da morte precoce de John Houlding, apenas dez anos depois de ele ter sido separado do Everton e, em resposta, fundado o Liverpool. O pesar inesperado fez com que laços fossem reatados, a ponto de três jogadores de cada serem os responsáveis por carregar o caixão de Houlding, considerado "pai fundador" da dupla.

Nesse contexto, uma curiosa estatística está nos dois maiores artilheiros dos Reds no clássico. Eles são, em primeiro lugar, Ian Rush (25), e depois Steven Gerrard (dez). Ambos também estão entre os seis únicos jogadores do Liverpool, e os dois únicos desde a década de 1930, a conseguirem o chamado três gols em um só duelo - Rush na realidade, conseguiu quatro, e é também o jogador do Liverpool com mais partidas no duelo (36). No curioso contexto do clássico, porém, Rush é um dos ídolos da torcida vermelha que torcem ou torciam pelo rival, já tendo confessado que era frequentador assíduo do Goodison Park junto com o irmão. Embora tenha Gerrard sempre se declarado torcedor Red, na infância foi fotografado trajando o uniforme completo do Everton em uma armação de um tio.

Outros exemplos de Evertonians que defenderam os Reds são Michael Owen (que sonhava na infância em ser como o artilheiro azul Gary Lineker), Robbie Fowler, Steve McManaman, Jamie Carragher e Adam Lallana. Carragher ocasionalmente chegava a treinamentos trajando vestimentas Toffees. Quando completou 16 anos como profissional do Liverpool, foi contemplado com um amistoso das duas equipes, alinhadas com amigos. Ele fez um dos gols da vitória vermelha por 4-1, mas também marcou o único gol azul, em circunstância curiosa: ele cometeu um pênalti e, antes que o cobrador rival chutasse-o, correu para cobrar a penalidade, explicando que "como torcedor do Everton quando criança, eu sempre sonhei em marcar um gol contra o Liverpool. Por isso, resolvi fazer isso". O gol contra insolitamente intencional terminou aplaudido por todos.

Apesar do passado como torcedor azul, Fowler protagonizou em clássico travado em 2 de abril de 1999 uma das comemorações de gol mais polêmicas do futebol, "cheirando" a linha de fundo em resposta às acusações rivais de que seria usuário de cocaína. O Liverpool venceu por 3-2, encerrando jejum de vitórias que perdurava no clássico desde a temporada 1993-94. Fowler, porém, recebeu quatro jogos de suspensão e multa equivalente a 44 mil euros pela atitude.