As Forças Populares 25 de Abril (FP-25) foram uma organização de luta armada de extrema-esquerda que operou em Portugal entre 1980 e 1987, tendo sido alegadamente lideradas por Otelo Saraiva de Carvalho. No final do processo judicial conhecido por "FUP/FP-25", Otelo e os outros acusados foram amnistiados da autoria moral e inocentados da autoria material.Noronha do Nascimento (2021). «Símbolo mítico do 25 de Abril» (PDF). O Referencial: 109
Entre 1980 e 1987, as FP-25 foram diretamente responsáveis por entre 12 e 14 mortes, inclusive uma criança — às quais acrescem ainda as mortes de 6 dos seus operacionais — dezenas de baleamentos, atentados com explosivos, assaltos a bancos, empresas e viaturas de transporte de valores. A violência praticada pelas FP-25 era mais cirúrgica do que as mais de 500 ações violentas do MDLP.
A operação Orion levou à detenção provisória de mais de 70 pessoas, no que ficou conhecido como o processo FUP/FP-25 de Abril. As figuras mais conhecidas eram Otelo Saraiva de Carvalho, José Mouta Liz e Pedro Goulart, os quais sempre afirmaram pertencer apenas ao partido político FUP., Público Os réus seriam mais tarde acusados e condenados em tribunal, pelo crime de pertencerem a uma organização terrorista, mas a sentença provisória seria parcialmente anulada por inconstitucionalidade em 1989 e novamente em 1996, chegando a um impasse.
A maioria parlamentar, composta pelo PS e pelo PCP, veio a aprovar uma amnistia para todos os envolvidos no eventual crime de associação terrorista (autoria moral), devido à “complexidade jurídica (…) que não prenunciam a possibilidade de uma solução de justiça em tempo razoável.” A amnistia também acaba por envolver as organizações de direita (MDLP, etc) e de esquerda, aprovada em 1996 com o apoio do Presidente da República, Mário Soares. Tal segue experiência anterior de amnistia em 1979 ou o indulto assinado com o primeiro-ministro Cavaco Silva ao fugitivo Ramiro Moreira em 1991, operacional de extrema direita do MDLP condenado a 20 anos de prisão por crimes de sangue.
Para os crimes de sangue (autoria material), depois de duas sentenças de inocentes em 2001 e 2003, o Ministério Público não recorreu da sentença dos crimes de sangue, levando à prescrição dos mesmos. O veredito final foi, assim, de inocentes.
thumb|300px|Bandeira da FP25.
Contexto
No mundo No final da década de 1960 e na década de 1970, os movimentos de luta armada multiplicam-se com variações nas motivações e modus operandi. No ocidente, na extrema esquerda destacam-se movimentos em diferentes países: Alemanha (Fração do Exército Vermelho — RAF); Bélgica (Células Comunistas Combatentes - década de 1980); Espanha (Euskadi Ta Askatasuna - ETA); EUA (Weather Underground); França (Ação Direta - década de 1970 e 1980), Irlanda do Norte (Exército Republicano Irlandês — IRA); Itália (Brigadas Vermelhas), entre outros.
No outro espectro político, na extrema direita houve frequentemente movimentos opositores como: Espanha (Guerrilheiros de Cristo Rey - década de 1970; GAL - década de 1980); França (Groupe Charles-Martel - década de 1970 - década de 1990); Irlanda do Norte (Força de Voluntários do Ulster - UVF; Associação de Defesa do Ulster - UDA). Nos EUA, um estudo do Cato Institute publicado na TIME quantifica o número de assassinatos com motivação política desde 1975 em 391 vítimas pela direita e em 65 mortes pela esquerda,Bruno Cardoso Reis (2026) Jornal de Domingo, SIC Notícias, 26 de Abril de 2026. contrastando com as afirmações do vice-presidente JD Vance após a morte de Charlie Kirk.
Na América Latina, a resposta às ditaduras, a democracias imperfeitas ou à guerra fria vai gerar vários movimentos de luta armada como na Argentina (Montoneros; Exército Revolucionário do Povo - ERP), no Brasil (Ação Libertadora Nacional - ALN de Carlos Marighella; Movimento Revolucionário 8 de Outubro - MR-8 de Carlos Lamarca; VAR-Palmares alegadamente com Dilma Roussef), na Colômbia (FARC de Manuel Marulanda Vélez; Movimento 19 de Abril - M-19 com Gustavo Petro), ou no Uruguai (Tupamaros, de Raúl Sendic com José Mujica).
A ditadura Argentina (1976-1983) vai ser julgada em abril de 1985 com os vários generais como arguidos, como o Tenente-General Jorge Rafael Videla. Parte das Forças Armadas Argentinas sequestraram, torturaram ou mataram oposicionistas ou suspeitos de o serem. A acusação foi de apenas 709 homicídios, face aos entre 9.000 ou 30.000 desaparecidos durante a ditadura argentina, conforme as fontes. Estimativas apontam ainda 500 bebés ou crianças roubadas e apropriadas por apoiantes da ditadura, sendo que só 140 foram encontrados. Nesta busca pelos familiares desaparecidos, surgem as mães da Praça de Maio e as avós da Praça de Maio.
Em Portugal Guerra fria, guerra colonial e ditadura marcam um período inicial. A oposição em Portugal radicaliza-se em face de um regime opressivo que não acaba, alinhado com o Bloco ocidental/capitalista, e de múltiplas influências ideológicas internacionais. Após o 25 de Abril de 1974, visões diferentes para o novo regime confrontam-se.
Após o 11 de março de 1975 e a tentativa falhada do golpe de extrema direita por Spínola, ocorrendo o chamado Verão quente. Os desejos revolucionários de parte da população com bastante peso na rua é confrontada pelo 25 de Novembro de 1975 e os ataques da extrema direita (quatro organizações incluem MDLP, Exército de Libertação de Portugal - ELP, Movimento Maria da Fonte, CODECO) com 566 ações violentas a partir de maio de 1975, incluindo 310 bombas, 136 assaltos, 58 incêndios, 36 espancamentos, 16 atentados a tiro e 10 apedrejamentos, culminando em várias mortes.Machado, Delfim (2026) Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max. Jornal de Notícias. 29 março, 2026 Entretanto, as eleições legislativas de 1976 viram ao centro.
Os assassinatos de sindicalistas e ativistas de esquerda pelo MDLP e movimentos similares continuaram até 1979, enquanto há relatos de trabalhadores rurais ou manifestantes mortos e feridos pela polícia para "repor a legalidade". Os despedimentos de trabalhadores, as crises petrolíferas (1973 e 1978) e os programas de austeridade associados com a entrada do FMI (1979, 1983) em Portugal são mal aceites. "A luta armada seria necessária para uma revolução socialista" (p.145).
Origem e atividades
Origem e estrutura O seu nascimento é o resultado de uma cisão das Brigadas Revolucionárias, motivada pela tentativa destas em radicalizar a luta armada. A cisão aconteceu, após a prisão da maioria dos dirigentes do PRP/BR, em 1978. Para a nova organização transferem-se a maioria dos seus militantes, armas e uma parte significativa das sedes partidárias.Expresso, 15 de novembro de 1986, página 25-R
Surgidas já fora do período pós revolucionário e cerca de 6 anos após o golpe de estado de 25 de abril de 1974, as FP-25 aglutinaram os sectores mais radicais do socialismo revolucionário, derrotados do 25 de novembro de 1975 e portadores de um profundo descontentamento com a evolução política do país, nomeadamente, com a instauração de um sistema de representação parlamentar de base partidária e a reposição do sistema económico-social capitalista. São aliás claras no documento de apresentação pública da organização "Manifesto ao Povo Trabalhador" datado de abril de 1980, as alusões àquilo que a organização considerava serem desvios graves à constituição de 1976, nomeadamente o abandono do socialismo, o retrocesso da Reforma Agrária ou a perda de expressão e peso decisório da vontade popular.
À realidade política da época, as FP-25 contrapunham um modelo de democracia popular, assente em assembleias e conselhos de base — o chamado basismo ou conselhismo — um pouco à semelhança dos modelos de inspiração Líbia ou cubana, pugnando assumidamente pelo não alinhamento com os dois grandes blocos político militares protagonistas da Guerra Fria como condição fundamental à implantação do comunismo em Portugal.
A DINFO não tinha tantas certezas. Em relatório secreto de 4 de março de 1985, Pedro Serradas Duarte reconhece que após sete anos de investigação “A Secreta Militar Portuguesa assumia algum desconhecimento sobre as FP-25. Não tinha a situação esclarecida quanto aos seus dirigentes, militantes e funcionamento interno.”Mouta Liz, J. e R. Francês (2023) Otelo Saraiva de Carvalho. Acusação e Absolvição. O Projecto Global e as FP-25 de Abril. Âncora Editora.
Atividades Tal como as Brigadas Vermelhas ou a ETA, as FP-25 nunca realizaram atentados de carácter indiscriminado, nomeadamente de ataques à bomba em locais públicos orientados para a produção de grande número de vítimas directas.
A defesa da violência armada consubstanciada nos atentados à bomba e baleamentos, por vezes com intenção de matar, espelhavam igualmente uma dispersão em torno de diversas causas — económico-sociais, políticas, solidariedade internacional ou até na mera vingança, em questões directamente relacionadas com militantes (atentado contra o administrador da SAPEC ou a morte a tiro do empresário Alexandre Souto). No plano financeiro assistiu-se ao recurso à "expropriação" ou "recuperações de fundos" — designação dada pela organização aos assaltos a bancos, empresas e viaturas de transporte de valores, sendo esta a principal forma de financiamento. O Ministério Público alegou em 1987 que os montantes roubados, serviriam para financiamento a componente político militar, FP-25 bem como a Força de Unidade Popular (FUP) e prosseguir o esforço de intimidação da população condicionamento das decisões políticas, com o objectivo último de provocar uma insurreição e simultaneamente a criação de um exército popular. No entanto, o manifesto isolamento político, ainda que não mediático, as FP-25 rapidamente criaram para si, junto da generalidade da opinião pública, a imagem de uma organização entregue à prática de delinquência comum.
Ao contrário do que havia sucedido com outras organizações similares europeias, nomeadamente no caso das Brigadas Vermelhas em Itália, as FP-25 cedo assumiram os assassinatos selectivos e a utilização de violência extrema nas suas acções como práticas inevitáveis no contexto da luta armada. Pese embora ,no período de charneira entre o fim público das Brigadas Revolucionárias e o surgimento das Forças Populares 25 de Abril verificou-se o envolvimento de militantes de ambas as organizações (BR e FP-25) primeiro na morte de um agente da Polícia Judiciária em 1978, depois no assassinato na Marinha Grande do "arrependido" do José Plácido, ligado ao caso PRP, em 1979 ou ainda na morte de um agente da Polícia de Segurança Pública no início de 1980 durante um assalto em Sintra.
A violência contra os alvos humanos foi crescente, quer na quantidade, quer no grau de violência. No que respeita a atentados com explosivos, também aqui houve uma mudança significativa de estratégia inicial do PRP/BR que se focava em atacar apenas instalações do estado ou do exército. Os alvos das FP-25 foram maioritariamente civis, empresas ou indivíduos, com a excepção de alguns ataques selectivos a postos da GNR, normalmente em retaliação à prisão de um militante ou à troca de tiros no decorrer de assaltos e operações policiais. Mesmo quando se deu o atentado com explosivos na Base de Beja, este foi perpetrado no Bairro Residencial Alemão, onde viviam trabalhadores civis e militares e não contra as instalações militares propriamente ditas.