Vale do Rio Doce é uma região geográfica do estado brasileiro de Minas Gerais, na Região Sudeste do país, correspondente ao leste mineiro. Abrange uma área de aproximadamente e uma população de mais de 1,7 milhão de habitantes, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Geograficamente, é constituída de um vale composto por duas depressões por onde corre o rio Doce, sendo uma interplanáltica e outra periférica.
A exploração da região teve início no século XVI, sob o contexto da busca por metais preciosos em Minas Gerais. No entanto, o desbravamento se intensificou somente no século XIX, após a publicação de Cartas Régias que incentivaram colonizadores, imigrantes e soldados a explorarem as terras e exterminarem os botocudos, nativos conhecidos por sua ferocidade. No século XX, a industrialização e a forte expansão da atividade agropecuária contribuíram com o abrupto crescimento populacional e a severa supressão da Mata Atlântica nativa, até então praticamente intocada.
História Primórdios Em 1572, o Brasil despertava interesse do governo português devido a relatos de pedras preciosas. A primeira exploração no Vale do Rio Doce, feita por Sebastião Fernandes Tourinho, conseguiu apresentar esmeraldas e safiras como resultado, mas a dificuldade de acesso levou ao desincentivo de outros forasteiros. No entanto, a descoberta de ouro em outras áreas de Minas Gerais foi o suficiente para atrair levas de exploradores para o estado entre 1693 e 1695. Por consequência, o povoamento e a abertura de novas trilhas pelo Vale do Rio Doce chegaram a ser proibidos no século XVII, a fim de evitar o contrabando de ouro extraído na região central mineira. Além da proibição e da floresta fechada, o relevo montanhoso e a ferocidade dos índios botocudos também foram impedimentos para a colonização.
No final do século XVIII, com a decadência do ciclo do ouro, foi realizada uma exploração mais detalhada da região do rio Doce, que caracterizou o rio como uma importante via comercial. Na segunda metade do século XVIII, foi aberta uma estrada ligando Vila Rica (atual Ouro Preto, então capital da Província de Minas Gerais) a Cuieté, visando ao transporte do ouro extraído na região do atual município de Conselheiro Pena, cujo metal viria a se esgotar após 1780. Como não foi encontrado ouro em abundância, o caminho então passou a ser utilizado como ligação entre Ouro Preto e um presídio em Cuité e por isso ficou conhecido como Estrada do Degredo. A partir da existência dessa estrada, que também passava pelo colar metropolitano do Vale do Aço, surgiram novos focos de colonizações em municípios como Dionísio, Marliéria, Caratinga e Inhapim.
No século XIX foi intensificado o desbravamento das margens do rio Doce e de seus afluentes, o que levou ao surgimento dos primeiros núcleos urbanos. Atrelado aos incentivos governamentais ao processo de colonização, a publicação de Cartas Régias autorizou a exploração das terras e o extermínio dos indígenas em 1808. Prosseguiu-se então uma guerra contra os botocudos por meio de colonizadores, imigrantes e soldados. Em 1831, a publicação de uma Carta Régia proibiu ataques aos índios, mas a essa altura já se encontravam praticamente extintos.
Desenvolvimento Da Proclamação da República até a primeira década do século XX, a região do Vale do Rio Doce permaneceu, por meio do Porto de Figueira, como um lugar de trocas de produtos agropecuários da região por produtos industrializados de origem do litoral brasileiro. No começo do século XX a locação da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) pela região acelerou a colonização. Em 1907, a EFVM chegou a região de Governador Valadares, colaborando para o desenvolvimento da região onde atualmente se localiza o município.
A implantação de estações ferroviárias deu origem a diversos núcleos urbanos ao longo da primeira metade do século. Esse processo foi intensificado a partir da década de 1930, quando vastas extensões de Mata Atlântica nativa da bacia começaram a ser desmatadas para a extração de madeira e produção de carvão destinadas a abastecer o complexo industrial da Belgo-Mineira, localizado em João Monlevade. A exploração era gerenciada no Calado, atual Coronel Fabriciano, situado às margens do rio Piracicaba.
O povoamento acelerou-se a partir da década de 1930, com o desenvolvimento econômico. A disponibilidade de ferrovia, cursos hídricos e matas para a extração de madeira foram fatores decisivos para a implantação da Acesita em Timóteo em 1944 e da Usiminas em Ipatinga em 1956, vizinhas a Coronel Fabriciano. A construção das usinas siderúrgicas acarretou um súbito crescimento urbano e populacional que deu origem à chamada Região Metropolitana do Vale do Aço. Com a implantação das indústrias seguiu-se a construção de vilas operárias nas cidades das empresas, infraestrutura e intensificação do desmatamento.
Nos anos seguintes, a EFVM foi reformada e, ao mesmo tempo, a malária foi erradicada pelo Serviço Especial de Saúde Pública. Também foi de grande importância a pavimentação da BR-381 e da BR-116. Os investimentos em infraestrutura e saneamento explicam o incremento de atividades econômicas, como a exploração de minerais e a chegada das primeiras indústrias na região.
História recente Em 1974, houve a formação da primeira comissão a favor do reconhecimento do Vale do Aço como uma aglomeração urbana, conquistando uma audiência com o então governador Rondon Pacheco em Belo Horizonte e a liberação de verbas para a execução do projeto. Neste ano foi criada a Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Aço (AMVA).
Dias seguidos de chuvas intensas em toda a bacia do rio Doce elevaram o nível do leito em 5,18 metros acima do normal na cidade de Governador Valadares durante a histórica enchente de fevereiro de 1979, gerando situação de calamidade com repercussão internacional.
Em 1995, foi proposta a criação da Região Metropolitana do Vale do Aço através de um projeto de lei estadual, que em 1998 foi transformado em lei complementar.
Em dezembro de 2013, a região foi atingida por chuvas que provocaram quedas de barreiras, inundações em estradas e zonas urbanas, deslizamento de terrenos, interdição de pontes e interrupção dos trens de passageiros da EFVM. Dos cinco distritos de Conselheiro Pena, três ficaram ilhados. Em 2015, a região passou a sofrer com a seca na Bacia do rio Doce. Em Governador Valadares, o rio Doce estava 20 centímetros abaixo do nível normal em fevereiro de 2015, provocando o início do racionamento de água. O transporte por meio de balsas em Governador Valadares foi atingido, gerando a suspensão das atividades de duas das quatro balsas que fornecem o sistema de transporte hidroviário. A captação de água em Governador Valadares e Belo Oriente foi drasticamente reduzida em 2016, devido a estiagem. Em 2017, a sequência de anos de estiagem severa fez com que o aquífero aluvionar que abastece à Região Metropolitana do Vale do Aço, começasse a apresentar sinais de redução de sua capacidade, como a seca de nascentes e lagoas. Diversas lagoas do médio rio Doce, onde está localizado um complexo de cerca de 100 lagoas, apresentavam níveis muito baixos ou estavam secas.
Geografia Até a década de 1920, as regiões hoje conhecidas chamadas de Vale do Rio Doce e Vale do Mucuri eram conhecidas como a "zona de mata" de Minas Gerais, devido à ocupação tardia em relação a outras áreas de Minas Gerais. No entanto, a delimitação dessa região tendo o rio Doce como marco referencial já ocorria desde o final do século XIX. No início do século XX outra denominação utilizada era "matas do rio Doce", que foi incorporada no decorrer do tempo à origem histórica, contexto sociocultural e aspectos geográficos. Posteriormente esse topônimo foi adotado pelas divisões regionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do IBGE sempre ter levado em consideração o topônimo apenas para o estado mineiro, alguns municípios do Espírito Santo também se consideram informalmente como parte da região, como Colatina por exemplo. Em 1960, na divisão do Brasil pelo IBGE em "zonas fisiográficas", foi reconhecida a zona fisiográfica do Vale do Rio Doce.
Na divisão regional brasileira de 1968, foi instituída a mesorregião homogênea da Zona da Mata e Rio Doce Mineiro, que veio a ser fragmentada em onze microrregiões homogêneas com a revisão do quadro regional do país em 1976. Essa composição prevaleceu até a atualização das divisões regionais em 1989, quando foi extinta e sucedida pela "mesorregião do Vale do Rio Doce", composta pelas microrregiões de Aimorés, Caratinga, Governador Valadares, Guanhães, Ipatinga, Mantena e Peçanha. No entanto, o IBGE extinguiu as mesorregiões e microrregiões em 2017, criando um novo quadro regional brasileiro, com novas divisões geográficas denominadas, respectivamente, regiões geográficas intermediárias e imediatas. Segundo a nova divisão, o Vale do Rio Doce corresponde parcialmente às regiões geográficas intermediárias de Governador Valadares e Ipatinga.
Relevo e hidrografia thumb|esquerda|Foz do rio Piracicaba (à direita) no rio Doce, nas proximidades da zona urbana de Ipatinga. Geograficamente, a região conhecida como Vale do Rio Doce consiste em um vale formado por duas depressões por onde corre o rio Doce, sendo uma interplanáltica e outra periférica. De modo geral essa área é delimitada pela região serrana do Espírito Santo e serras do Caparaó, Mantiqueira, Espinhaço, Negra, da Nogueira e dos Aimorés. O interior do vale apresenta um relevo predominantemente ondulado, com planaltos estreitos e diminuição da altitude na proximidade dos cursos hídricos. A altitude média varia de 600 a metros, sendo que a depressão formada entre as cidades de Ipatinga e Aimorés concentra as menores elevações, variando de 76 a 220 metros. Já as bordas do vale, nas proximidades de suas limitações, apresentam as maiores altitudes e um relevo relativamente mais acidentado.
A região é drenada pela bacia do rio Doce, cujo curso principal é formado pelo encontro dos rios Piranga e do Carmo. O primeiro nasce na Serra da Mantiqueira, em território do município de Ressaquinha, na Zona da Mata, enquanto que o outro tem sua nascente na Serra do Espinhaço, em Ouro Preto. O curso percorre então até sua foz no Oceano Atlântico, apresentando uma área de drenagem de , dos quais 86% em Minas Gerais e o restante no Espírito Santo. Ao todo existe um total de 377 mil nascentes na bacia, sendo notável também a presença de pântanos e lagoas.
As principais sub-bacias que abrangem o Vale do Rio Doce são as dos rios Piranga, Piracicaba, Santo Antônio, Suaçuí Grande, Suaçuí Pequeno, Caratinga e Manhuaçu. Diferentemente do rio Doce, a maioria de seus afluentes possui um leito sinuoso, por conta do relevo acidentado e/ou ondulado. A bacia possui relevância no que se refere à geração de energia hidrelétrica. Em 2016 havia quatro usinas hidrelétricas operantes no rio Doce (Risoleta Neves, Baguari, Aimorés e Mascarenhas) e seis em seus afluentes, além de 29 centrais hidrelétricas (PCHs) e 148 pontos de aproveitamentos hidrelétricos.
Clima thumb|direita|Bancos de areia no rio Santo Antônio, entre Belo Oriente e Naque, ao fim de uma estação seca.