Canções é uma colectânea de poemas do autor português António Botto, que foi sendo editada e aumentada pelo próprio autor no período de 1921 a 1932. O carácter abertamente homossexual de alguns dos poemas causou enorme polémica nos meios conservadores e religiosos da época. Canções foi traduzido para inglês por Fernando Pessoa.

A poesia de Canções Em Canções, António Botto escreveu sobre as emoções humanas mais fortes: as fortes pulsões eróticas e sexuais, a vertigem do desejo e da tentação, mas soube genialmente rodeá-los de uma aura simpática e calorosa, numa linguagem simples mas fortemente expressiva, como em Venham ver a maravilha: Venham ver a maravilha Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz, E o mar, de rojos, tem rasgos De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo Mais de perto… A luz é tanta Que tudo em volta cintila Num clarão largo e difuso…

Anda nu - saltando e rindo, sobre a areia da praia Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos, Amedrontados, recusam, Fixar os meus… - Entristeço…

Mas nesse lugar fugidio - Pude ver a eternidade Do beijo que eu não mereço…ou ainda, manifestando um intenso dilema interno, querendo sem querer, tentando resistir à paixão sem o conseguir, em Meus olhos que por alguém:

Meus olhos que por alguém Deram lágrimas sem fim Já não choram por ninguém - Basta que chorem por mim Arrependidos e olhando A vida como ela é, Meus olhos vão conquistando Mais fadiga e menos fé. Mas se as coisas são assim, Chorar alguém - que loucura! - Basta que eu chore por mim.

ou desfalecendo de prazer, como em Ouve, meu anjo: Ouve, meu anjo: Se eu beijasse a tua pele? Se eu beijasse a tua bôca Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se Num sorriso desdenhoso; Mas aí!, A carne do assasssino É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante, Misterioso, gentil, Deu-me o seu corpo doirado Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela, A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando Os olhos para sonhar - E eu lentamente morria Como um perfume no ar!

mas também soube ser directo e provocante como em Anda vem…, porque te negas: Anda vem…, porque te negas, Carne morena, toda perfume? Porque te calas, Porque esmoreces, Boca vermelha - rosa de lume? Se a luz do dia Te cobre de pejo, Esperemos a noite presos num, beijo. Dá-me o infinito gozo De contigo adormecer Devagarinho, sentindo O aroma e o calor Da tua carne, meu amor! E ouve, mancebo alado: Entrega-te, sê contente! - Nem todo o prazer Tem vileza ou tem pecado! Anda, vem!… Dá-me o teu corpo Em troca dos meus desejos… Tenho saudade da vida! Tenho sede dos teus beijos!

Polémica em torno de Canções Em artigo publicado no n.º 3 da revista "Contemporânea" em Julho de 1922 a propósito de Canções, Fernando Pessoa, numa defesa indirecta e algo "envergonhada", teoriza sobre o ideal esteta relacionando-o com a Grécia antiga e defende que António Botto é o único esteta de Portugal: "Artistas tem havido muitos em Portugal; estetas só o autor das Canções".Fernando Pessoa, Revista Contemporânea, nº 3, artigo

Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, arrasa no n.º 4 da "Contemporânea", em Outubro de 1922, os argumentos de Pessoa (!) por demasiado rebuscados e desnecessários e defende que Botto é integralmente imoral e indecente, mas é nisso que está a sua qualidade: "O Botto tem isto de forte e de firme: é que não dá desculpas. E eu acho, e deverei talvez sempre achar, que não dar desculpas é melhor que ter razão".Fernando Pessoa, Revista Contemporânea, n.º 4, artigo escrito com o pseudónimo Álvaro de Campos

No mesmo n.º 4 da revista "Contemporânea" Álvaro Maia, um jornalista, assina um artigo em resposta a Fernando Pessoa onde se indigna por um ilustre intelectual como Pessoa se associar a tão repugnante, indecente e escandolosa e putrescente obra.Álvaro Maia, Revista Contemporânea, n.º 4, artigo

Raul Leal, descontente com a ausência de resposta de Fernando Pessoa, publica em 1923 o opúsculo "Sodoma Divinizada" na editora Olissipo (também de Fernando Pessoa) onde ataca ferozmente Álvaro Maia e defende Botto teorizando acerca da divinização da imoralidade e do pecado que assim passaria a moral e aceitável: "Sodoma não foi condenada às chamas por ser viciosa mas por não ser misticamente viciosa. (…) Ora, sem dúvida, António Botto não satisfaz o meu ideal do luxurioso e pederasta místico; mas isso depende principalmente do meio em que vivemos, meio perverso em que se não sente Deus que assim se mantém alheado de nós. (…) Criem-se templos de Luxúria em que esta tome uma feição litúrgica e só então surgirá o verdadeiro sensualismo místico que há-de exprimir a divinização do Mundo, a divinização de Sodoma estabelecida exaltadamente pelo Verbo e pelo Espírito Santo de Deus!".Raul Leal, "Sodoma Divinizada", 1923, editora Olissipo

A tempestade desencadeada por Canções e por "Sodoma Divinizada", bem como por outras obras e artigos que apareciam nas livrarias e jornais da época de que importa destacar "Decadência" de Judite Teixeira, foi tremenda, e a Federação Académica de Lisboa, tendo como porta-voz Pedro Teotónio Pereira, denuncia no jornal "A Época", em Fevereiro de 1923, a "vergonhosíssima desmoralização, que sob os mais repugnantes aspectos, alastra constantemente".Pedro Teotónio Pereira, jornal "A Época", Fevereiro de 1923, artigo

A Federação Académica de Lisboa estaria com grande probabilidade apenas a servir de face pública das vontades do poder instituído da época porque pouco depois, em Março, é ordenada pelo Governo Civil de Lisboa a apreensão dos já mencionados livros de Botto, Raul Leal e Judite Teixeira.

Fernando Pessoa e Álvaro de Campos protestam contra o ataque dos estudantes a Raul Leal: "Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (…) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Mas com pouco efeito. O impulso censório ganha força com o regime do Estado Novo e a revista "Ordem Nova" declara-se "antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antibolchevista e antiburguesa; contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da informação". António Botto acaba por se ver forçado a emigrar para o Brasil e Raul Leal será vítima de espancamentos e deixará de escrever para jornais durante 23 anos.

Bibliografia Régio, José (pseud.); António Botto e o amor; Críticos e criticados (ensaio); Porto: Brasília Editora; 1978; 189 p. Amaro, Luís; António Botto, 1897-1959 (concepção, recolha e notas de Luís Amaro); 1.ª ed. Lisboa: BN, 1999. 112 p.; ISBN 972-565-267-3 Sales, António Augusto; António Botto: real e imaginário; Lisboa: Livros do Brasil, 1997. 248 p.; ISBN 972-38-1611-3 Fernandes, Maria da Conceição; António Botto: um poeta de Lisboa; Lisboa: Minerva, 1998. 138 p.; ISBN 972-591-349-3 Sena, Jorge; Líricas Portuguesas (selecção, prefácio e notas); Lisboa: Portugália, 1958 Pitta, Eduardo, Poesia'', Lisboa: Assírio & Alvim, 2018. Inclui toda a poesia publicada pelo autor entre 1921 e 1959. ISBN 978-972-37-2067-9

Ligações externas

Página da Hemeroteca Municipal de Lisboa sobre a obra

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