A arara-vermelha ou arara-vermelha-grande (nome científico: Ara chloropterus) é uma espécie de ave psitaciforme, do gênero Ara. É uma espécie monotípica de grande porte, medindo entre 90 e 95 centímetros de comprimento e pesando entre 1,05 e 1,71 quilogramas. Muito semelhante à araracanga (Ara macao), distingue-se principalmente pela ampla faixa verde nas asas, pelas finas linhas de penas vermelhas na face, pelas penas de voo azul-claras e pelo bico mais robusto. Distribui-se amplamente desde o leste do Panamá até Bolívia, Peru, Equador, Paraguai e Brasil, tendo ocorrido também no norte da Argentina. Em território brasileiro, está presente nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, ocupando uma ampla rede de bacias hidrográficas e habitando principalmente florestas tropicais úmidas, embora também utilize matas de galeria, savanas, lhanos, florestas decíduas e áreas preservadas de caatinga.
A espécie é essencialmente florestal, vivendo principalmente no dossel, onde ocorre em pares ou pequenos grupos familiares. Alimenta-se de sementes, frutos, arilos, endospermas e folhas de numerosas espécies vegetais, utilizando os pés zigodáctilos para manipular alimentos e o bico como apoio durante a escalada. Forma pares monogâmicos duradouros, que realizam limpeza mútua da plumagem e permanecem associados durante todo o ano. Os ninhos são instalados sobretudo em cavidades de árvores altas, mas também podem ocorrer em paredões rochosos, penhascos e barrancos. A postura normalmente contém dois ou três ovos, incubados pela fêmea por cerca de quatro semanas, enquanto ambos os pais participam da criação dos filhotes, que permanecem no ninho por três a quatro meses e podem continuar acompanhando os pais por até três anos.
Embora permaneça classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como pouco preocupante (LC) e esteja incluída no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), a arara-vermelha apresenta tendência populacional de declínio em grande parte de sua distribuição. As principais ameaças são a perda e degradação de habitat e a captura para o comércio de animais de estimação, fatores que provocaram desaparecimentos locais e reduções populacionais significativas. No Brasil, as populações apresentam estrutura de metapopulações e dependem da manutenção de corredores ecológicos para garantir o fluxo gênico. Projeções indicam declínio populacional próximo de 30% ao longo de três gerações, especialmente em decorrência da perda de habitat no Cerrado e na Amazônia. Na Argentina, onde a espécie foi considerada extinta por várias décadas, programas de reintrodução e manejo conservacionista permitiram seu retorno a áreas como o Parque Nacional do Iguaçu e a Reserva Provincial Iberá, demonstrando a eficácia de estratégias integradas de conservação, incluindo solturas monitoradas, instalação de ninhos artificiais e criação assistida de filhotes.
Etimologia
O nome popular arara deriva do tupi a'rara, vocábulo empregado como nome comum para diversas aves de grande porte da família dos psitacídeos. Segundo interpretação reproduzida por Antônio Geraldo da Cunha a partir de comentário de José de Alencar, o termo ará significaria originalmente "periquito", sendo que os povos indígenas formariam aumentativos por meio da repetição da última sílaba ou da palavra inteira; assim, arará corresponderia ao aumentativo de ará, designando as maiores espécies do grupo. Os registros históricos mais antigos conhecidos do vocábulo remontam ao , aparecendo na forma aráras em 1576 e como arara por volta de 1584. O nome genérico Ara tem a mesma origem no tupi. Por sua vez, o epíteto específico chloropterus deriva do grego khlōrós (), "verde", "amarelo-esverdeado" ou "de coloração verde-clara", e pterón (), "asa" ou "pena". O nome significa, portanto, "de asas verdes" ou "com asas verde-amareladas", em referência à coloração das asas apresentada pela espécie.
Taxonomia e sistemática
A arara-vermelha é monotípica. Seu nome científico suscitou discussões, em decorrência da dúvida a respeito do gênero gramatical do gênero Ara, o que explica a existência das grafias Ara chloroptera e Ara chloropterus. Considera-se que Ara seja masculino e, assim, a forma correta do nome é Ara chloropterus. O primeiro registro da espécie pode ser rastreado até a obra do ornitólogo francês Louis Pierre Vieillot em 1816, na qual ele a nomeou como , tratando-a, no entanto, como a mesma espécie da araracanga. Posteriormente, diversos ornitólogos, como Heinrich Kuhl e Johann Georg Wagler, separaram as duas espécies, mas ainda assim mantiveram o nome para esta arara, o que levou à duplicação nomenclatural com a araracanga. O próprio George Robert Gray, autor da nomenclatura atualmente aceita, chegou a considerar anteriormente que ambas pertenciam à mesma espécie. A primeira designação binomial não baseada em só surgiu em 1859, em uma lista de aves britânicas na qual Gray participou da compilação. Como área de distribuição, Gray indicou a Guiana Britânica e a América do Sul. Já em 1799, Bernard Germain Lacépède havia estabelecido o gênero Ara. Alfred Laubmann considerou, além de dois espécimes coletados durante a "2.ª Expedição ao Grão-Chaco" por Eugen Josef Robert Schuhmacher e Michael Mathias Kiefer , apenas o sinônimo Ara chloroptera major , proveniente do departamento do Alto Paraná, como o único outro registro da presença da espécie no Paraguai.
Descrição
A arara-vermelha mede entre 90 e 95 centímetros de comprimento e pesa aproximadamente entre 1,05 e 1,71 quilogramas. Em algumas observações, 12 adultos apresentaram peso médio de gramas. Embora seu peso seja bastante semelhante ao da arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), o peso médio da arara-vermelha é ligeiramente inferior ao da arara-azul-grande, ao da arara-militar-grande (Ara ambiguus) e, entre todos os papagaios vivos, também ao do cácapo (Strigops habroptilus). Sua plumagem é predominantemente vermelha, passando para verde nas penas centrais das asas e, mais externamente, para azul-claro, tornando-se azul-escura nas rêmiges primárias mais distais. As retrizes possuem base azul-clara, que gradualmente se torna vermelha ao longo de cada pena, terminando em pontas azuladas. A face apresenta pele branca nua recoberta por finas linhas de penas vermelhas. A maxila é amarelo-pálida, com uma área negra na base, enquanto a mandíbula é inteiramente negra. A íris dos adultos é amarela, e machos e fêmeas possuem aparência semelhante. O comprimento da asa varia de 380 a 421 milímetros. É muito semelhante à araracanga (Ara macao), distinguindo-se principalmente pela ampla faixa verde nas asas, em substituição à faixa amarela característica daquela espécie, além das finas linhas de penas vermelhas sobre a pele nua da face. A arara-vermelha também apresenta porte geral maior e bico proporcionalmente mais robusto que o da araracanga. Os indivíduos imaturos possuem cauda relativamente mais curta, bico acinzentado ou com as áreas negras mais pálidas que nos adultos, além de íris castanha, em contraste com o bico predominantemente negro e a íris amarela observados nos indivíduos adultos.
Distribuição e habitat
A arara-vermelha distribui-se desde o leste do Panamá, pelas terras baixas da Colômbia, Venezuela, Guianas (Guiana, Suriname e Guiana Francesa) e Brasil, alcançando o sul do Paraguai e estendendo-se para oeste até Equador, Peru e nordeste da Bolívia; anteriormente também ocorria no norte da Argentina. No Brasil, a arara-vermelha ocorre nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima, São Paulo e Tocantins. Em sua área de ocorrência, distribui-se pelos biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, estando registrada nas sub-bacias hidrográficas dos litorais do Amapá, Bahia e Espírito Santo, do Araguaia, do Doce, da foz do Amazonas, do Grande, Gurupi, do Madeira, do Mearim, do Negro, do Paraguai, do Paranapanema, do Paranaíba, do Alto e Médio Parnaíba, do Paru, do Purus, do Solimões, do Alto e Médio São Francisco, do Tapajós, do Alto e Baixo Tocantins, do Trombetas e do Xingu. Habita principalmente florestas perenes úmidas de baixada, geralmente abaixo de 500 metros de altitude, embora também frequente florestas tropicais decíduas, matas de galeria em áreas de savana e lhanos, e até formações preservadas de caatinga. No Panamá, demonstra preferência por áreas montanhosas, podendo atingir cerca de metros de altitude.
Ecologia
Alimentação
A arara-vermelha é predominantemente granívora, alimentando-se principalmente de sementes e envoltórios seminais de numerosas espécies vegetais. Entre os gêneros consumidos estão Jacaranda, Tetragastris, Sclerolobium, Hymenaea, Copaifera, Caryocar, Hevea, Eschweilera, Guarea, Abuta, Euterpe, Maximiliana, Micropholis, Sterculia, Spondias, Terminalia, Sapium, Croton, Parkia, Quararibea, Rheedia, Eperua, Dipteryx, Schwartzia, Borismene, Sorocea, Mauritia, Endopleura e Bertholletia. Também consome a polpa de frutos de Inga, Quararibea, Rheedia, Eperua, Dipteryx, Schwartzia, Borismene, Sorocea e Mauritia, o endosperma de palmeiras do gênero Scheelea, os arilos de espécies de Virola, além de folhas de Erythrina, flores e cascas vegetais. Durante o forrageamento demonstra grande agilidade, utilizando os pés zigodáctilos para manipular alimentos e o bico como apoio para escalar troncos e galhos. Apesar da plumagem vistosa, pode ser difícil de observar na floresta, onde permanece discretamente entre as copas das árvores. Em cativeiro, sua dieta inclui frutas, hortaliças, rações peletizadas para grandes aves e misturas de sementes, geralmente com menor teor de gordura do que aquele encontrado na alimentação natural, em razão do menor gasto energético. As araras-vermelhas consomem argila principalmente porque ela contém elevados níveis de sódio e auxilia na neutralização de substâncias tóxicas presentes nas sementes. A argila é capaz de se ligar a alcaloides tóxicos, permitindo que estes atravessem o trato digestivo sem serem absorvidos pela corrente sanguínea. Além disso, forma uma camada protetora no intestino das aves, reduzindo os efeitos de taninos e de outros compostos potencialmente nocivos presentes na dieta.
Predação
miniatura|300px|Indivíduo alimentando-se de maracujá em Lagoa Santa, em Minas Gerais, no Brasil
Embora disponha de bico e garras robustos capazes de auxiliar na defesa, a arara-vermelha normalmente evita confrontos diretos e reage a ameaças fugindo e emitindo vocalizações de alarme para alertar outros psitacídeos presentes na área. Quando uma ave de rapina é detectada, indivíduos podem emitir chamados de advertência que atraem outras araras, as quais perseguem o intruso em voo até que ele se afaste. Os ovos são particularmente vulneráveis à predação por tucanos e iraras (Eira barbara), enquanto os adultos possuem poucos predadores naturais além de grandes aves de rapina. Entre os predadores confirmados encontram-se espécies como o gavião-carijó (Rupornis magnirostris) e a onça-pintada (Panthera onca). Outros animais, incluindo a própria irara, tucanos e águias do gênero Spizaetus, foram observados atacando ninhos, penetrando cavidades de reprodução ou realizando voos de investida contra indivíduos da espécie, embora nem todos esses registros tenham sido confirmados como eventos efetivos de predação.
Comportamento
miniatura|300px|Indivíduos aglomerados em um barreiro no Peru