Dumbo é um filme norte-americano de animação lançado no dia 23 de outubro de 1941. Produzido pela Walt Disney Productions e distribuído pela RKO Pictures, é o quarto longa-metragem de animação dos estúdios Disney e faz parte da sua lista de clássicos. O personagem principal é um elefante semi-antropomórfico chamado Jumbo Jr., que é cruelmente apelidado de Dumbo (um jogo de palavras com o termo em inglês dumb, que significa "estúpido"). Ele é ridicularizado por suas orelhas muito grandes, mas descobre que pode voar utilizando-as como asas. Durante a maior parte do filme, seu único amigo verdadeiro, além da mãe, é um rato chamado Timothy — o que parodia a crença popular de que elefantes têm medo de ratos.
A película é baseada na história infantil Dumbo, the Flying Elephant, escrita por Helen Aberson e Harold Pearl e ilustrada por Helen Durney. Acredita-se que essa obra tenha sido criada inicialmente para o protótipo de um brinquedo do tipo "livro interativo" e posteriormente adaptada para a forma de livro convencional. O longa-metragem foi dirigido por Ben Sharpsteen e o roteiro foi elaborado por Otto Englander, Joe Grant e Dick Huemer. A produção ocorreu em pleno advento da Segunda Guerra Mundial, que ocasionou o fracasso de bilheteria dos longas Pinocchio e Fantasia, produzidos a orçamentos muito elevados, levando a uma séria crise financeira na Disney e à deflagração de uma intensa greve de animadores.
Por se tratar de um filme feito para recuperar as perdas financeiras do estúdio, Walt Disney exigiu que Dumbo fosse produzido da forma mais simples e econômica possível e que tivesse potencial suficiente para se tornar um sucesso de bilheteria. Como resultado, o longa-metragem é um dos mais curtos da Disney, com apenas 64 minutos e não apresenta o mesmo aprimoramento técnico de seus antecessores. Apesar disso, obteve uma ótima arrecadação e conseguiu reerguer a Disney financeiramente, tornando-se um dos maiores sucessos do estúdio na década de 1940 e uma de suas produções mais celebradas até hoje.
Dumbo recebeu o Oscar de Melhor Trilha Sonora, foi aclamado pela crítica na época de sua estreia, teve vários relançamentos nos cinemas e em mídia doméstica ao longo das décadas, originou séries de televisão, histórias em quadrinhos, jogos eletrônicos, inspirou brinquedos em parques temáticos, entre outros produtos derivados. É objeto de estudos acadêmicos e discussões entre especialistas em cinema, particularmente no que diz respeito a uma controversa sequência, acusada de preconceito racial, envolvendo os corvos que aparecem em certo momento no filme. Em 2017, foi selecionado para preservação no National Film Registry dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso, sendo considerado "cultural, histórica ou esteticamente significativo". Uma adaptação em live-action foi dirigida por Tim Burton e lançada em 29 de março de 2019.
Enredo thumb|left|Após longa espera, a Sra. Jumbo é finalmente visitada pela cegonha, que anuncia a chegada de Dumbo. Certa noite, um grupo de cegonhas entrega filhotes aos animais de um circo itinerante, mas a Sra. Jumbo, uma elefanta, fica desapontada por não receber o seu. No dia seguinte, o circo está sendo transportado em um trem e, finalmente, uma das aves entrega o bebê da Sra. Jumbo. Feliz com seu filho, ela o chama de Jumbo Jr. Entretanto, suas colegas elefantas riem maliciosamente das grandes orelhas do bebê e o chamam de Dumbo.
O circo chega a uma nova cidade e lá a mãe protege o filho de um garoto humano perverso, que começa a puxar as orelhas de Dumbo. Ela afugenta o menino e tenta lutar contra o mestre do picadeiro e seus funcionários, os quais levam Dumbo para longe dela e a aprisionam em uma carroça. Abusado e ridicularizado por todos, Dumbo faz amizade com um pequeno rato chamado Timothy.
Para ajudar o amigo, Timothy sussurra ao diretor do circo, enquanto este dorme, que Dumbo deveria ser o ponto alto de uma pirâmide de elefantes. Mais tarde, o mestre do circo apresenta tal número para uma animada plateia, mas Dumbo tropeça nas próprias orelhas e estraga o espetáculo. Como punição, o elefantinho é obrigado a se juntar ao número dos palhaços, que o forçam a saltar de uma alta fachada em chamas e cair numa banheira com gesso. O ratinho leva Dumbo até a Sra. Jumbo, ainda confinada. Após o encontro agridoce, Dumbo e Timothy acidentalmente se embriagam com o champanhe dos palhaços e começam a ter alucinações de elefantes cor-de-rosa desfilando.
Na manhã seguinte, os dois são acordados por um grupo de corvos brincalhões e descobrem que passaram a noite no galho de uma árvore. Timothy, então, conclui que Dumbo é capaz de voar e tenta convencê-lo disso. O ratinho e os corvos entregam-lhe uma pena, a qual o fazem acreditar que é mágica. Isso faz Dumbo criar coragem e saltar de um penhasco, conseguindo alçar voo. De volta ao circo, ele vai novamente realizar o número dos palhaços, mas perde sua pena mágica. Timothy o convence que ele pode voar de qualquer maneira. Com a autoconfiança restaurada, Dumbo voa sobre seus atormentadores e atira amendoim neles. Declarado um "elefante milagroso", Dumbo fica famoso em todo o mundo e, finalmente, reencontra sua querida mãe.
Elenco e personagens Vozes originais thumb|Edward Brophy dublou Timothy Q. Mouse, além de também ter servido como referência visual para o personagem. Imagem do filme The Thin Man Goes Home (1945). O personagem-título é Dumbo, apelido dado a Jumbo Jr., que não tem nenhum diálogo durante todo o filme. Ele é um filhote de elefante que tem orelhas enormes e é capaz de usá-las para voar, carregando o que ele pensa ser uma pena mágica. Contudo, Christoper Lucas afirma em seu livro Top Disney (2019) que o dublador Mel Blanc foi responsável por um soluço emitido pelo personagem em certa cena. Nenhum dos dubladores recebeu créditos na tela, assim como em Snow White and the Seven Dwarfs e Pinocchio.
Edward Brophy interpretou e também serviu como referência visual para Timothy Q. Mouse (conhecido no Brasil como Timóteo), um rato antropormófico que se torna o único amigo de Dumbo depois de a mãe deste ser aprisionada. Ele faz o que pode para tornar Dumbo feliz novamente e o ensina a voar, tornando-o a "nona maravilha do universo". O nome do personagem nunca é mencionado no filme, mas sua assinatura pode ser lida em uma fotografia que o mostra assinando um contrato. Brophy era um ator conhecido por interpretar bandidos e policiais atrapalhados e não chegou a fazer dublagem em outra animação conhecida.
Verna Felton dublou a elefanta matriarca (conhecida no Brasil como Matrona), a líder dos elefantes, que age inicialmente de maneira fria e maldosa em relação a Dumbo. A atriz também expressou o único diálogo falado da Sra. Jumbo, quando esta revela o nome de Dumbo. Felton também dublou a Fada Madrinha de Cinderella, Queen of Hearts em Alice in Wonderland e Flora, uma das três fadas boas em Sleeping Beauty. A atriz e cantora Betty Noyes gravou os vocais para a canção "Baby Mine", que a Sra. Jumbo canta, aprisionada em um vagão de trem, para embalar Dumbo quando ele a visita. Noyes ficou conhecida por dublar dois números de Debbie Reynolds no musical Singin' in the Rain (1952).
Cliff Edwards deu voz a Jim Crow, chamado de Dandy Crow em algumas versões, o líder de um grupo de corvos que interagem com Dumbo. Edwards ganhou notoriedade como cantor e ukulelista entre as décadas de 1920 e 1930 e ficou conhecido pela dublagem de Jiminy Cricket em Pinocchio. Sterling Holloway dublou Mr. Stork, a cegonha encarregada de entregar o bebê Dumbo à Sra. Jumbo. Halloway também interpretou Cheshire Cat em Alice in Wonderland e Winnie the Pooh. Noreen Gammill, Dorothy Scott e Sarah Selby dublaram, respectivamente, Catty, Giddy (ou Giggles) e Prissy, as três elefantas que, junto à matriarca, riem de Dumbo no início do filme.
Margaret Wright dublou Casey Junior, a locomotiva 2-4-0 senciente que transporta o trem do circo. Herman Bing interpretou Ringmaster, o diretor do circo e mestre de cerimônias. Malcolm Hutton dublou Skinny, garoto que atormenta Dumbo quando o circo chega à cidade. Alguns palhaços foram dublados por Billy Sheets, Eddie Holden e Billy Bletcher, um dos primeiros dubladores de Peg-Leg Pete. O grupo Hall Johnson Choir cantou o coro dos corvos ("When I See an Elephant Fly"), enquanto o coral The King's Men realizou o número musical dos trabalhadores que erguem o circo ("Song Of The Roustabouts"). John McLeish foi narrador do filme.
Versão brasileira thumb|180px|Grande Otelo, dublador do pássaro Jim Crow na primeira versão brasileira de Dumbo. No Brasil foram feitas três dublagens para o filme. A primeira foi realizada em 1941 no estúdio Sonofilmes, no Rio de Janeiro. Como a adaptação de longas-metragens estrangeiros para o português era então uma novidade no país, a mixagem e o processamento da cópia da versão brasileira foram feitos em Hollywood. Da mesma forma, os diálogos foram traduzidos nos Estados Unidos por Gilberto Souto, ex-correspondente da revista Cinearte. Vários artistas do rádio populares na época fizeram parte do elenco de vozes. O processo de gravação foi dirigido pelo compositor João de Barro, que também interpretou Timothy.
O ator e músico Grande Otelo dublou Jim Crow, tendo sido elogiado na época pela revista A Cena Muda, a qual ressaltou que "nem mesmo no original Jim Crow foi tão divertido e pitoresco". A publicação também afirmou que "Walt Disney, quando aqui esteve, inspirou-se em Grande Otelo para outros personagens, que, certamente, hão de aparecer em desenhos futuros". A atriz Sarah Nobre e sua filha Olga Nobre interpretaram, respectivamente, as elefantas Matrona (Matriarca) e Manhosa (Catty). Iara Jordão e Mary May dublaram as outras duas elefantas maldosas. O músico Almirante, que deu voz à Cegonha, participou consecutivamente de outras adaptações de produções da Disney, de Snow White and the Seven Dwarfs a Bambi. Xavier de Souza dublou o diretor do circo, e Gastão do Rego Monteiro fez a narração inicial do filme. Miguel Orrico, Sônia Barreto, Dorival Caymmi e Nuno Roland também participaram desta versão.
A segunda dublagem foi gravada em 1973 no estúdio Tecnisom e dirigida por Telmo de Avelar, e a terceira em 1998 na Double Sound, sob a condução de Isaac Bardavid. O comediante Orlando Drummond esteve presente nas duas versões, dublando personagens diferentes. Na dublagem de 1973, ele interpretou um dos corvos e participou, junto com os dubladores Antônio Patiño, Francisco Milani e Mário Monjardim, do coral de duas canções: "Oh, Eu Vou Pedir Mais Grana pro Patrão" e "Quando Eu Vi um Elefante Voar". Na versão de 1998, Drummond deu voz ao diretor do circo, com uma interpretação que lembrava um pouco o Sargento Garcia do universo de Zorro, porém, com um tom "mais viril", "forte" e "furioso", como na cena em que seu personagem chicoteia a mãe de Dumbo. Entre os outros artistas que participaram dessas versões, está o ator Ênio Santos, que dublou Timothy.
Exibição em Portugal Dumbo foi exibido originalmente em Portugal, bem como em suas colônias à época, com a primeira dublagem brasileira, tendo o mesmo ocorrido quando dos lançamentos originais de The Reluctant Dragon e Bambi em território português. A respeito disso, João de Barro declarou em 1942 na publicação de A Cena Muda: "É interessante assinalar que fora do território brasileiro também nossas gravações têm agradado. O público português, a acreditar ao que nos informou a crítica local, embora tivesse de início estranhado um pouco o linguajar brasileiro, bem depressa a ele se aclimatou, pelo pitoresco de que se reveste".
Produção Dificuldades financeiras e baixo orçamento