O Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB) é um museu localizado em Belo Horizonte, que integra a Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte. Situado na Avenida Prudente de Morais, no bairro Cidade Jardim, o museu é sediado em um antigo casarão de fazenda que sobreviveu à construção da capital mineira. A instituição se consolidou, atualmente, como o Museu da Cidade e, além de realizar exposições de curta, média e longa duração, promove eventos culturais e educativos.

História O Casarão de Fazenda

O casarão, construção que abriga o museu desde sua fundação, foi um dos poucos fragmentos materiais que restaram do arraial do Curral del-Rei. Localizado às margens da avenida do Contorno, anteriormente zona suburbana da cidade, a antiga sede de fazenda permaneceu intacta devido ao fato de que a região em que ele se localizava só foi urbanizada na década de 1940. Até essa data, que coincide com a criação do museu histórico, o prédio havia tido os mais diversos usos, a exemplo de uma estação agronômica que foi criada na década de 1890.

Construído 14 anos antes da inauguração da nova capital, a casa pertencia à Fazenda do Leitão, que recebia esse nome em função do antigo proprietário Domingos Gomes Leitão. Adquirida pelo capitão Francisco Luís de Carvalho em 1864, a terra foi posteriormente dividida entre seus familiares, dentre os quais seu genro, Cândido Lúcio da Silveira, que construiu o casarão em 1883. Cerca de 10 anos depois, a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) começou suas atividades, que incluíram a desapropriação dos moradores do antigo Arraial do Curral del-Rei. Dentre as propriedades atingidas, estava a Fazenda do Leitão, que foi desocupada em 1894.

Como mencionado, o bairro atualmente conhecido como Cidade Jardim não foi urbanizado logo após a inauguração da nova capital. Situado fora da avenida do Contorno, não integrava o plano da nova capital como área urbana da cidade, sendo classificada como colônia agrícola. Passada para o estado, entre 1886 e 1889, a propriedade integrou a Colônia Afonso Pena, cujo intuito era estimular a agricultura de imigrantes. Depois disso, a área da antiga sede da Fazenda do Leitão chegou a servir para o plantio de piteiras e como enfermaria do Posto Zootécnico Federal.

O casarão e o museu histórico Em 1938, a casa de fazenda e suas imediações, antes pertencentes ao Governo Federal, foram doadas para o Estado de Minas Gerais e adquiridas pela Prefeitura de Belo Horizonte. Era nesse mesmo período que Abílio Barreto, historiador de Belo Horizonte, trabalhava como organizador do Arquivo Geral da Prefeitura. Ali, após reunir e expor documentos sobre a cidade, elaborou a proposta de criação de um Museu que contasse a história de Belo Horizonte. Em um relatório de 1940, Abílio Barreto mencionava um “Projeto de Museu”, que seria instaurado na Fazenda do Leitão. Foi com o Decreto 91 de 26/05/1941, que a ideia tomou forma legalmente: estava criada a “Seção de História, núcleo do museu da cidade, vinculada à Inspetoria do Expediente, anexa ao Arquivo”. Nesse mesmo ano, uma visita ao Museu Histórico Nacional serviu de inspiração para a composição do novo espaço museal belo-horizontino.

Criada a Seção de História e escolhido o espaço para organização do Museu Histórico, mostrou-se necessária a restauração do Casarão – agora convertido em monumento histórico. O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), além de responsável pelas obras de reparação, também opinava sobre o acervo e a organização do Museu. Para o órgão, a documentação deveria se concentrar na trajetória do arraial do Curral del-Rei e ir até a fundação de Belo Horizonte, sem que fosse contada a história da nova cidade. A visão de Abílio Barreto era diferente. Para o funcionário do Arquivo, os objetos da instituição deveriam contar, principalmente, a história da Nova Capital.

Em seu ponto de vista, o Museu que estava sendo criado deveria mostrar os laços entre passado e presente de Belo Horizonte, inserindo a cidade na trajetória da nação. Barreto era membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG)  e , incentivado pela Escola Metódica, visava a escrita de uma história científica, com atenção aos marcos originais, à cronologia e à análise rigorosa de fontes oficiais. Não poderia ser diferente com o Museu que vinha organizando. Enviado a Juscelino Kubitschek cinco meses antes da abertura, o regulamento que iria reger o Museu Histórico de Belo Horizonte (MHBH) colocava como critérios para seleção de acervo a preciosidade histórica e a autenticidade dos documentos. O Museu deveria ser um “depósito de provas” que expunha objetos com valor de época, valor artístico e valor histórico, de forma cronológica. Apesar de algumas discrepâncias com os objetivos do SPHAN, que se voltavam mais a uma arqueologia e etnologia da cidade, foi sob essas bases que o MHBH foi inaugurado:Ainda em 1943, Raul Tassini foi contratado como funcionário do Museu, e a formação do acervo e das práticas museológicas também foram influenciadas por ele. Sua visão de história era diferente daquela de Abílio Barreto, em sua concepção era importante ampliar o acervo com antigos objetos do cotidiano e fragmentos arqueológicos. Apesar de ainda não existirem cargos específicos para os funcionários do MHBH, Tassini atuava como conservador, pesquisador e dava pareceres sobre a relevância ou não de certos itens para a composição do acervo. Assim, sua perspectiva também foi essencial para a formação do Museu Histórico de Belo Horizonte, ainda que ele tenha permanecido na instituição apenas por cinco meses.

Por ter sido criado para uma cidade ainda jovem, o Museu Histórico “rompeu com a tradição museológica brasileira”, já que grande parte dos museus então existentes se voltavam a um passado distante.Apud MACHADO. In: ALVES, Célia Regina Araújo. Preciosas Memórias, belos fragmentos: Abílio Barreto e Raul Tassini – a ordenação do passado na formação do acervo do Museu Histórico de Belo Horizonte (1935-1956). 2008. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008, p. 96.

Exemplo disso é que o instituto responsável pela guarda do patrimônio no Brasil considerava que as exposições do museu deveriam ser voltadas à história do antigo arraial. É preciso realçar, por outro lado, que ele representava a continuidade da tradição em outro sentido. O acervo era composto por objetos vindos das elites, a história contada pela instituição visava se inserir na tradição da nação. Pensando nisso, não é coincidência que sua sede seja uma casa de fazenda, que, propositalmente ou não, carrega a memória e a história dos grandes latifúndios, da colonização, da escravidão.  Ao pensar sobre o Casarão do Leitão e a construção do MHAB, é importante ressaltar que, diferentemente do que pensava Abílio Barreto, a casa pode não ser a única edificação sobrevivente do arraial do Curral del-Rei. O Casarão da Barragem, próximo ao atual Museu Histórico, é especulado como uma outra construção remanescente. Além disso, deve-se ter em mente que o edifício não reflete a realidade do Arraial. Enquanto o Casarão conta a história de uma família de elite, antiga proprietária de escravos, o Curral del-Rei era povoado majoritariamente por pessoas negras há pouco tempo libertas do regime de escravidão.

A vontade de preservar uma tradição cristalizada no Casarão, era identificada não apenas na perspectiva de Abílio Barreto, mas explicava também o interesse do SPHAN na restauração da casa. Ao contrário do historiador, porém, o diretor da instituição, Rodrigo Melo Franco, queria preservar “primitivos tipos de habitação existentes no país”. Em sua perspectiva, o Casarão, como exemplo da arquitetura colonial, era expressão da arquitetura inaugural do Brasil e deveria ser preservado visando uma nação que valorizasse a obra de civilização dos portugueses.

A exposição inaugural foi organizada majoritariamente em ordem cronológica, cada sala expunha uma temática, que eram: Ouro Preto, Arraial do Curral del Rei, Arraial de BH, Comissão Construtora da Nova Capital, Cidade de Belo Horizonte. Em 1946, Abílio Barreto se afasta da direção do MHBH e indica o próximo diretor, deixando um acervo de 657 peças.

Foi Mário Lúcio Brandão, próximo diretor do Museu, que aumentou exponencialmente o acervo. Ao fim de sua gestão, em 1959, o número de peças havia passado para 3.235. Nesse período, outras mudanças importantes foram feitas na organização da instituição. O diálogo com novas museografias foi ampliado, assim como o contato com outras instituições. Além disso, foram criadas exposições temporárias que duravam apenas dois meses e tinham como objetivo atrair maior número de visitantes. Exemplo dessa tendência foi a inauguração, em 1958, da primeira exposição itinerante do Museu Histórico de Belo Horizonte, sobre Bueno Brandão.

Dentre os objetos adquiridos nesse período, muitos eram móveis de antigas fazendas, que foram expostos a partir de 1957 no Casarão. A mudança na expografia buscava recuperar uma ambientação rural e reproduzir a estética do antigo arraial do Curral del-Rei. Durante muitos anos essa permaneceu sendo a organização das salas de exposição, se tornando um marco para os visitantes.

Entre os anos de 1960 e 1970, momento em que era construída a avenida Prudente de Morais, a área do museu foi arborizada, ajardinada e cercada com passeios. Dentre as gestões do Museu nessa fase, pode-se destacar a de Maria Shirley Campolina de Sá (1973-1976), que ampliou significativamente o acervo (de 3.152 itens para 7.745) e a de Márcia Magalhães (1976-1982), que buscou dialogar com outras instituições culturais, e partiu de conceitos museológicos contemporâneos, diferentes daqueles propostos por Abílio Barreto e Mário Lúcio Brandão. A diretora propunha maior dinamização das políticas e dos espaços do MHAB.

Elza Beatriz von Döllinger de Araújo (1984-1989) também foi essencial para a reestruturação museológica da instituição, por ter realizado um novo inventário das peças e uma reorganização da pesquisa e organização do acervo. Em sua gestão, Araújo também facilitou o diálogo com outros profissionais e entidades culturais, aumentando a área e as possibilidades de atuação do MHAB. Outra reorganização ocorreu pouco tempo depois, na gestão de José Márcio Barros (1993-1995). Dessa vez, a mudança emergiu de um Fórum de Discussão que buscou discutir caminhos para a revitalização do Museu. O espaço físico, o acervo e a própria concepção de museu foram discutidos. A partir daí, o MHAB se declarava uma instituição que procurava abarcar uma memória plural, além da história oficial, abandonando a ideia de que o museu é o espaço de guarda dos tesouros e preciosidades. Já em 1996, durante a primeira gestão de Letícia Julião, que um novo edifício sede começou a ser construído.

O novo edifício sede esquerda|miniaturadaimagem|Edifício Sede do Museu Histórico Abílio Barreto, 2017. Foto Ricardo Laf A criação de um edifício sede ou de um prédio anexo, apesar de concretizado apenas na década de 1990, foi uma ideia que acompanhou diversos diretores do MHAB ao longo dos anos. Abílio Barreto, organizador e diretor do Museu, foi o primeiro que julgou necessária a construção de um pavilhão que abrigasse o acervo da cidade, ainda em 1941. A nova seção foi projetada por Raul Tassini, mas a ideia não saiu do papel.

A ideia voltou com a diretora Márcia Magalhães, em 1974, que contratou o arquiteto Ivo Porto de Menezes para a produção do desenho do edifício sede. Elza von Döllinger de Araújo, a próxima gestora do MHAB, dedicou-se à elaboração de um projeto para a nova sede e fez diversas denúncias sobre a necessidade de construção de um anexo, que foi finalmente aprovado pelo IPHAN (antigo SPHAN), em 1985. O prédio, contudo, não foi construído devido à falta de recursos.