Arqueologia bíblica,http://www.custodia.org/SBF-In-Memoriam-Father-Michele.html?lang=it é a escola de arqueologia que se ocupa do mundo bíblico. No contexto académico, funciona como complemento dos estudos bíblicos, fornecendo o contexto histórico, cultural e linguístico das Escrituras.
Se a disciplina moderna tivesse um fundador, seria William F. Albright, um americano com raízes na tradição evangélica. Na década de 1950, Albright e os seus alunos, nomeadamente Nelson Glueck, E. A. Speiser, G. Ernest Wright e Cyrus Gordon, afirmavam ter encontrado provas físicas dos acontecimentos históricos subjacentes a muitas narrativas do Antigo Testamento.
Do século XVIII ao início do século XX
Adriaan Reland, professor de filosofia na Universidade de Harderwijk, foi um dos primeiros orientalistas, ensinando antiguidades hebraicas a partir de 1713.Power And Religion in Baroque Rome: Barberini Cultural Policies, P. J. A. N. Rietbergen, p.321Adriaan Reland (1676-1718) Embora nunca tenha ultrapassado as fronteiras dos Países Baixos, também foi aclamado como cartógrafoMapas de Reland e publicou a primeira obra moderna de arqueologia bíblica, Palaestina ex monumentis veteribus illustrata, um estudo geográfico pormenorizado da Palestina em 1696, escrito em latim e publicado por Willem Broedelet, Utrecht, em 1714.
As bases da arqueologia bíblica foram estabelecidas no século XIX com o trabalho de antiquários como Johann Jahn, cujo manual de antiguidades bíblicas, Biblische Archäologie, (1802, traduzido para inglês em 1839) foi extremamente influente durante os anos centrais do século XIX. Pouco depois, Edward Robinson, conhecido como o fundador da moderna palestinologia, publicou o best-seller Biblical Researches in Palestine, the Sinai, Petrae and Adjacent Regions (1841), que levou um grupo de clérigos e estudiosos ingleses a fundar o Palestine Exploration Fund para «promover a investigação da arqueologia e história, dos usos e costumes e da cultura, da topografia, geologia e ciências naturais da Palestina bíblica e do Levante» em 1865. Seguiram-se o Deutscher Palästina-Verein (1877) e a École Biblique (1890). A American School of Oriental Research foi fundada em 1900, e a British School of Archaeology em 1919. A investigação patrocinada por estas instituições, pelo menos nos seus primeiros tempos, era principalmente geográfica, e só na década de 1890 Sir Flinders Petrie introduziu na arqueologia palestiniana os princípios básicos da escavação científica, incluindo a estratigrafia e a tipologia cerâmica.
William F. Albright e a escola de arqueologia bíblica
A figura dominante da arqueologia bíblica do século XX, que definiu o seu âmbito e moldou o consenso de meados do século sobre a relação entre a arqueologia, a Bíblia e a história do antigo Israel, foi William F. Albright (1891–1971). Americano com raízes na tradição evangélica americana (os seus pais eram missionários metodistas no Chile), Director da American Schools of Oriental Research (ASOR), (actualmente o W. F. Albright Institute of Archaeological Research) durante as décadas de 1920 e 1930, editor do Bulletin da ASOR até 1968 e autor de mais de mil livros e artigos, Albright trouxe a arqueologia bíblica para os debates contemporâneos sobre as origens e a fiabilidade da Bíblia. Nas primeiras décadas do século XX, grande parte do debate centrou-se na hipótese documental. Esta explicava o Antigo Testamento como o produto composto de autores que trabalharam entre os séculos X e V a.C. e levantava a questão de saber se os livros da Bíblia poderiam ser considerados uma fonte fiável de informação sobre o período de Salomão ou anterior.» Estudiosos europeus como Hermann Gunkel (1862–1932), Albrecht Alt (1883–1956) e Martin Noth (1902–1968) sugeriram que os livros do Antigo Testamento assentavam num corpo de tradição oral que reflectia acontecimentos históricos, mas que não podiam, por si próprios, ser considerados historicamente exactos. Albright via a arqueologia como um meio prático de testar estas ideias. Para ele, a arqueologia bíblica abrangia, portanto, todas as terras e quaisquer achados que pudessem «lançar alguma luz, directa ou indirectamente, sobre a Bíblia».Peter Moorey, A Century of Biblical Archaeology, p.54ff
Albright e os seus seguidores acreditavam que a arqueologia podia e devia ser utilizada para lançar luz sobre a narrativa bíblica, particularmente sobre o Antigo Testamento. As posições académicas influentes ocupadas por Albright e pelos seus seguidores, e a sua enorme produção — só Albright escreveu mais de mil livros e artigos — tornaram o seu trabalho altamente influente, especialmente na América, e particularmente entre cristãos comuns que desejavam acreditar que a arqueologia tinha «provado que a Bíblia era verdadeira». Na realidade, os membros da escola não eram literalistas bíblicos, e a sua principal preocupação era distinguir entre as partes da história bíblica que eram verdadeiras e aquelas que constituíam embelezamentos.
Em meados do século XX, o trabalho de Albright e dos seus alunos, nomeadamente Nelson Glueck (1900–1971), E. A. Speiser (1902–1965), G. Ernest Wright (1909–1974) e Cyrus Gordon (1908–2001), tinha produzido um consenso de que a arqueologia bíblica fornecera provas físicas dos acontecimentos históricos originários subjacentes às narrativas do Antigo Testamento: nas palavras de Albright: «Descoberta após descoberta estabeleceu a exactidão de inúmeros pormenores da Bíblia como fonte de história.»W. F. Albright, The Archaeology of Palestine, edição de 1954, p. 128, citado em Walter F. Kaiser, "What Good is Biblical Archaeology to Bible Readers?", revista Contact, Inverno de 05/06, em gctuedu.com O consenso permitiu a elaboração de manuais de referência, como History of Israel (1959), de John Bright.John Bright, A History of Israel, 4.ª edição Bright não acreditava que as histórias de Abraão, Isaac, Jacob e José pudessem ser consideradas história fiável, nem que fosse possível reconstruir as origens de Israel apenas a partir do texto bíblico, mas acreditava que as histórias do Génesis reflectiam a realidade física dos séculos XX a XVII a.C. e que, por isso, era possível escrever uma história das origens de Israel comparando os relatos bíblicos com o que se conhecia da época a partir de outras fontes.G. W. Ahlstrom, Journal of the American Oriental Society, Vol. 95, n.º 2 (abr.–jun. de 1975), recensão de History of Israel (4.ª edição), de John Bright.
Arqueologia bíblica actualmente
As teorias albrightianas foram em grande medida derrubadas na segunda metade do século XX, especialmente no que diz respeito às suposições feitas pelos albrightianos relativamente à era pré-monárquica. A melhoria dos métodos arqueológicos, nomeadamente as escavações de Kathleen Kenyon em Jericó, não apoiou as conclusões a que os arqueólogos bíblicos tinham chegado, com o resultado de que as teorias centrais que conciliavam a narrativa bíblica com os achados arqueológicos, como a reconstrução de Albright de Abraão como um caravaneiro amorita de burros, foram rejeitadas pela comunidade arqueológica. O desafio atingiu o seu auge com a publicação de dois estudos importantes: em 1974, The Historicity of the Patriarchal Narratives, de Thomas L. Thompson, reexaminou o registo da arqueologia bíblica em relação às narrativas patriarcais do Génesis e concluiu que «não só a arqueologia não provou que um único acontecimento das narrativas patriarcais fosse histórico, como não demonstrou que alguma das tradições fosse provável».Thomas L. Thompson, "The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham", 1974, p.328, citado numa recensão de Dennis Pardee, Journal of Near Eastern Studies, 1977 e, em 1975, Abraham in History and Tradition, de John Van Seters, chegou a uma conclusão semelhante sobre a utilidade da história das tradições: «Uma vaga pressuposição sobre a antiguidade da tradição baseada na aprovação consensual de tais argumentos já não deve ser utilizada como fundamento para propor uma história da tradição relacionada com os primeiros tempos pré-monárquicos.»
Ao mesmo tempo, uma nova geração de arqueólogos, nomeadamente William G. Dever, criticou a arqueologia bíblica por não ter tido em conta a revolução na arqueologia conhecida como processualismo, que via a disciplina como uma ciência associada à antropologia, e não como parte do corpus das humanidades ligado à história e à teologia. A arqueologia bíblica, afirmou Dever, permanecia «demasiado estritamente dentro de um ângulo de visão teológico»,Joel Ng, "Introduction to Biblical Archaeology", 2003 (revisto em 2004), em Edwardtbabinski.com e deveria ser abandonada e substituída por uma arqueologia regional sírio-palestiniana que operasse dentro de um quadro processual.
Dever foi, de um modo geral, bem-sucedido: actualmente, a maioria dos arqueólogos que trabalham no mundo da Bíblia fá-lo dentro de um quadro processual ou de arqueologia pós-processual; contudo, poucos se descrevem a si próprios nesses termos. As razões para este apego à antiga nomenclatura são complexas, mas estão relacionadas com a ligação entre os escavadores (especialmente americanos) e as instituições confessionais e os benfeitores que os empregam e apoiam, e com a relutância dos estudiosos da Bíblia, tanto conservadores como liberais, em rejeitar a ligação entre a Bíblia e a arqueologia.Ziony Zevit, "Three Debates About Bible and Archaeology: The 'Biblical Archaeology' Debate", Biblica 83 (2002) pp.2–9 O resultado foi um esbatimento da distinção entre a arqueologia de base teológica que interpreta o registo arqueológico como «fundamentando, em geral, a mensagem teológica de um Deus que actua na história»,Especificamente esta era a perspectiva do aluno de Albright, G. E. Wright, e da sua escola de «Teologia Bíblica», que se tornou popular na América na década de 1950. Ver Andrew G. Vaughn, review of William G. Dever, "What Did the Biblical Writers Know and When Did They Know It?: What Archaeology Can Tell Us About the Reality of Ancient Israel" (2001), RBL 2003 e a visão de Dever da arqueologia sírio-palestiniana como uma «disciplina independente, secular ... praticada por historiadores culturais em função de si própria».William G. Dever, citado em Ziony Zevit, "The Future of Biblical Archaeology: Reassessing Methodologies and Assumptions", 2001
O estudioso evangélico Kenneth Kitchen, apesar de apoiar a historicidade da Bíblia, também criticou a arqueologia bíblica tal como foi concebida na primeira metade do século XX. No seu livro On the Reliability of the Old Testament, rejeita Albright e Gordon como representantes «locais (e muito provincianos)» da «falecida escola americana de Arqueologia/teologia Bíblica». No entanto, também critica as novas tendências que surgiram do desaparecimento da escola de Albright e Bright:
Parece haver aqui uma ressaca psicológica; nas décadas de 1950 e 1960, o movimento «American Biblical Archaeology» (mais teologia) de Albright e Dever, muito detestado, tinha acreditado nos patriarcas e no êxodo e, por isso (irracionalmente), ninguém agora (duas gerações mais tarde) deve ser autorizado a estudá-los seriamente e a produzir quaisquer dados (por mais genuínos ou pertinentes que sejam) que sugiram a sua possível realidade.
Ver também
Maximalismo bíblico Minimalismo bíblico Arqueologia levantina Conferências Schweich sobre Arqueologia Bíblica
Referências
Categoria:Arqueologia bíblica