Ibne Jubair (; Valência ou Xátiva, – Alexandria, ) foi um viajante, erudito e poeta andalusino, conhecido sobretudo pelo relato de sua primeira peregrinação a Meca. De origem quinanaíta, recebeu formação religiosa, especialmente na jurisprudência maliquita, e seguiu a profissão de seu pai como secretário a serviço dos almóadas. Ao longo da vida realizou três peregrinações ao Oriente islâmico, visitando, entre outras regiões, o Egito, o Hejaz, o Iraque, a Síria e a Palestina, além de percorrer extensamente o Mediterrâneo.

Sua primeira viagem, realizada entre 1183 e 1185, deu origem à obra pela qual se tornou célebre, posteriormente conhecida como Riḥlat al-Kinānī. Nela, Ibne Jubair registrou detalhadamente o itinerário e as sociedades que encontrou, descrevendo cidades, monumentos, portos, rotas marítimas, práticas religiosas e condições sociais e econômicas. Particular atenção foi dedicada a Meca e aos ritos da peregrinação, mas seu relato também constitui uma importante fonte sobre o Oriente islâmico, os territórios da Cruzadas e a Sicília no final do .

A Rihlat exerceu considerável influência sobre a literatura de viagens árabe posterior, sendo utilizada por autores como , Almacari e Almacrizi e deixando marcas particularmente extensas no relato atribuído a Ibne Batuta. Além de sua atividade como viajante, Ibne Jubair dedicou-se ao ensino e à transmissão de hádice e escreveu poesia. Após sua terceira peregrinação, permaneceu no Oriente e estabeleceu-se em Alexandria, onde morreu em 614 A.H./1217.

Vida

Ibne Jubair, cujo nome completo era Abu Alhoceine Maomé ibne Amade ibne Jubair ibne Maomé ibne Jubair Alquinani Albalanci, nasceu em 10 de Rabi I de 540 A.H./31 de agosto de 1145, em Valência ou Xátiva, no Alandalus. Pertencia aos quinanaítas. Seu bisavô, Abede Açalame ibne Jubair, integrara um exército enviado pelo califa omíada Hixame ibne Abedal Maleque ao Magrebe e, em 124 A.H./742, passou à Península Ibérica, estabelecendo-se em Xaduna (atual Medina Sidônia). O pai de Ibne Jubair, Amade ibne Jubair, era um destacado secretário de Xátiva e foi seu primeiro professor. Posteriormente, Ibne Jubair estudou com diversos eruditos e, seguindo a profissão paterna, exerceu a função de secretário a serviço dos almóadas. Sua formação era predominantemente religiosa, fundamentada na jurisprudência maliquita, embora também se interessasse por assuntos seculares. Além de secretário, cultivou a poesia, mas alcançou fama sobretudo como viajante. Uma tradição posterior relaciona sua primeira peregrinação a um episódio ocorrido quando servia como secretário de , governador de Granada em nome de seu pai, o califa Abede Almumine . Segundo esse relato, Abuçaíde teria obrigado Ibne Jubair, conhecido por sua religiosidade, a beber vinho; arrependido, teria decidido realizar a peregrinação a Meca (haje). Karaarslan ressalta, contudo, que sua viagem não deve ser explicada apenas por essa tradição, pois as relações intelectuais entre o Oriente islâmico, o Alandalus e o Magrebe eram antigas, e a própria obra de Ibne Jubair indica que pretendia encontrar estudiosos no Egito, Hejaz e Iraque, ampliar sua formação e conhecer o Oriente islâmico.

Acompanhado de seu amigo Abu Jafar Amade ibne Haçane, Ibne Jubair deixou Granada em 8 de Xaual de 578 A.H./4 de fevereiro de 1183. Seguiu por Tarifa até Ceuta, onde embarcou num navio genovês que o levou, passando pela Sardenha, Sicília e Creta, a Alexandria. Depois de visitar Alexandria e Cairo, subiu o Nilo até , atravessou o deserto até Aidabe e, dali, cruzou o mar Vermelho até Gidá. Chegou a Meca em 20 de Rabi I de 579 A.H./13 de julho de 1183. Permaneceu em Meca por mais de oito meses e realizou a peregrinação. Em 3 de Murram de 580 A.H./16 de abril de 1184, partiu para Medina, onde permaneceu apenas cinco noites, antes de acompanhar uma caravana de peregrinos em direção ao Iraque. Passou por Baguedade, Samarra, Ticrite, Moçul, Nísibis, Harrã, Alepo, Hama e Hómece e chegou a Damasco em 24 de Rabi I/5 de julho, permanecendo ali até 5 de Jumada II/13 de setembro. De Damasco, seguiu pela Palestina sob domínio dos cruzados, passando por Tiro antes de chegar a Acre. Em 10 de Rajabe de 580 A.H./17 de outubro de 1184, embarcou novamente num navio genovês para regressar ao Alandalus. Próximo a Messina, a embarcação naufragou e Ibne Jubair correu risco de morrer afogado. Depois de permanecer algum tempo na Sicília, partiu de Trapani em 22 de Dulrija de 580 A.H./26 de março de 1185, passou novamente pela Sardenha e pelas Ilhas Baleares e desembarcou em Cartagena. Chegou a Córdova em 22 de Murram de 581 A.H./25 de abril de 1185, encerrando uma viagem de aproximadamente dois anos e três meses e meio.

Depois de regressar ao Alandalus, Ibne Jubair não retomou funções oficiais. Dedicou-se à redação de seu relato de viagem e ao ensino das disciplinas para as quais havia recebido durante a jornada, adquirindo crescente reputação como erudito. Entre seus discípulos estiveram Abu Maomé Almondir, Abu Alhuceine Ali Alcoraixi e Amade ibne Abedal Mumin Axarixi. Ao saber que Saladino havia reconquistado Jerusalém aos cruzados em 583 A.H./1187, decidiu realizar uma segunda peregrinação. Essa viagem decorreu entre 585 e 587 A.H./1189–1191, mas Ibne Jubair não deixou um relato dela. Após regressar, viveu sucessivamente em Málaga, Ceuta e Fez, onde se dedicou ao hádice e ao sufismo. Em 601 A.H./1204, após a morte de sua esposa, Ática Ume Almajide, filha do vizir , partiu para sua terceira peregrinação. Depois de realizar o haje, não regressou ao Alandalus: dirigiu-se primeiro a Jerusalém e depois ao Egito, estabelecendo-se em Alexandria, onde se dedicou à transmissão de hádices. Morreu nessa cidade em 27 de Xabã de 614 A.H./29 de novembro de 1217.

Obra

A fama de Ibne Jubair deve-se sobretudo ao relato de sua primeira peregrinação, posteriormente conhecido como Riḥlat al-Kinānī. A obra apresenta a viagem em ordem cronológica, frequentemente registrando os acontecimentos dia a dia e, por vezes, a hora em que ocorreram, o que indica que o autor tomou notas durante o percurso para utilizá-las posteriormente na redação. Além de relato geográfico, constitui fonte para a história e para aspectos sociais e culturais do . Ibne Jubair descreveu as viagens marítimas pelo Mediterrâneo, navios, marinheiros, portos e alfândegas, bem como as condições sociais, econômicas, culturais e religiosas das regiões visitadas, seus governantes, monumentos e características geográficas. Pellat considera a obra uma das melhores de seu gênero e destaca a capacidade do autor de observar costumes e lugares, assim como seu interesse pelas condições das populações muçulmanas encontradas durante a viagem. Entre os temas descritos com maior detalhe estão as dificuldades enfrentadas na alfândega de Alexandria, os monumentos do Cairo, o vale do Nilo, a travessia do deserto até Aidabe e as embarcações utilizadas entre esse porto e Gidá. Ibne Jubair registrou também o tratamento dispensado aos peregrinos, permaneceu longamente em Meca e descreveu a Caaba, os lugares sagrados e os ritos da peregrinação. Relatou ainda sua passagem por Medina e pelas cidades iraquianas e sírias, dedicando particular atenção a Damasco e à Mesquita dos Omíadas. Na Palestina sob domínio cruzado, observou as relações entre muçulmanos e cristãos, enquanto em Acre descreveu a atividade do porto e seu comércio; na Sicília, registrou a situação da população muçulmana.

A Rihlat exerceu influência sobre relatos de viagem posteriores. Autores como , Almacari e Almacrizi utilizaram passagens da obra, e sua influência é particularmente perceptível no relato atribuído a Ibne Batuta, que reproduziu ou resumiu descrições de Ibne Jubair relativas a Meca, Medina e numerosas cidades do Iraque, Síria e Palestina. A obra tornou-se conhecida na Europa em meados do e despertou interesse sobretudo pelas informações relativas às Cruzadas e à Sicília. Partes do texto foram publicadas e traduzidas antes que William Wright editasse sua versão integral em Leida, em 1852. Essa edição foi posteriormente revista por Wright, Reinhart Dozy, William Robertson Smith e Michael Jan de Goeje, sendo publicada novamente em Leida e Londres em 1907. Outras edições árabes e traduções para o italiano, inglês, francês e espanhol apareceram posteriormente. Ibne Jubair também escreveu poesia. As fontes mencionam a existência de um divã de dimensões comparáveis ao de Abu Tamame, embora apenas parte de seus poemas tenha sobrevivido. Esses textos foram reunidos e publicados modernamente. Sabe-se ainda que, durante sua atividade como secretário, escreveu cartas dirigidas a amigos, mas nenhuma delas chegou à atualidade.

Bibliografia

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