Te Pego pela Palavra é um álbum ao vivo da cantora brasileira Marlene, lançado pela Odeon Records em 1974. O disco registra o espetáculo homônimo escrito e dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, apresentado inicialmente na boate Number One, no Rio de Janeiro. O repertório reunia canções de diferentes períodos e gêneros da música popular brasileira, incluindo obras de compositores como Milton Nascimento, Luiz Gonzaga Jr., Cetano Veloso, Adoniran Barbosa e João Bosco.
O álbum foi registrado nos estúdios da Odeon em dezembro de 1974, com arranjos de Arthur Verocai e participação do Grupo Ré-Lax e de outros músicos. Em 2012, o álbum foi relançado em compact disc (CD), pela gravadora EMI, com apresentação do pesquisador musical Rodrigo Faour.
A recepção crítica ao álbum destacou principalmente a seleção de repertório, a interpretação de Marlene e os arranjos de Verocai, embora algumas avaliações tenham apontado diferenças entre a intensidade do espetáculo e sua transposição para o disco. Em avaliações posteriores, o álbum também foi associado à fase de renovação artística da cantora.
Antecedentes e contexto Após a estreia do espetáculo É a Maior!, em 1969, dirigido por Fauzi Arap, Marlene passou a realizar apresentações voltadas também a plateias mais jovens e a trabalhar com compositores e profissionais ligados à produção cultural daquele período. O novo espetáculo, intitulado Te Pego pela Palavra, foi escrito e dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, e estreou na boate Number One, em Ipanema, marcando o retorno da cantora às noites cariocas após o espetáculo Na Boca da Noite um Gosto de Mel, apresentado em 1971 na boate Cold-45, sob direção de Fauzi Arap e Hermínio Bello de Carvalho.
Hermínio definiu Te Pego pela Palavra como situado "quase numa linha de humor", entendendo o gênero não apenas como alegria ou riso, mas também como recurso de ironia e observação do cotidiano, incluindo questões relacionadas ao amor. O roteiro foi estruturado como uma espécie de contação teatral, com pequenos intervalos nos quais eram inseridos momentos de humor, abordando o cotidiano, personagens, o amor e o riso. A ambientação ficou a cargo da equipe de Luiz Pessanha, formada por Fernando Sae e Zé Cruz, que utilizou espelhos, materiais leves, volumes e outros elementos para ampliar visualmente o espaço da boate. A concepção cenográfica também considerava a movimentação corporal de Marlene, e sua interpretação sobre as diferentes intenções presentes nas letras e textos.
Na parte musical, Arthur Verocai, que já havia trabalhado com Marlene em É a Maior!, atuou como coordenador e preparou os arranjos executados pelo Grupo Ré-Lax. O espetáculo contou ainda com a participação do ator Otávio César, integrante do Grupo Mineiro, com quem Marlene havia trabalhado anteriormente em Botequim. Ao todo a cantora interpretava 60 canções, a maioria inéditas, em um repertório que reunia gêneros como embolada, samba e tango e buscava revisitar diferentes fases da música popular brasileira, incluindo referências a intérpretes e personagens como Carmen Miranda, Almirante, Augusto Calheiros e Horacina Corrêa. O repertório incluía canções de autores como Milton Nascimento, Luiz Gonzaga Jr., Maurício Tapajós, Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa, Caetano Veloso, Ari Barroso, Manezinho Araújo e João Bosco.
Detalhes do álbum e lançamento Fontes divergem quanto à data de gravação do álbum. O Jornal do Brasil informou que as gravações ocorreram na semana de 30 de novembro de 1974 e que o lançamento estava previsto para a primeira quinzena de dezembro. Já o Luta Democrática registrou a gravação em 10 de dezembro de 1974, nos estúdios da Odeon, com a presença de amigos, fãs e jornalistas, e informou que o lançamento estava previsto para o final daquele ano. Segundo o Jornal do Brasil, o espetáculo foi levado ao estúdio durante uma noite devido às limitações então existentes para registrar em disco o som e o caráter de uma apresentação ao vivo, buscando-se reproduzir o show com a maior fidelidade possível.
Embora no LP conste que o álbum foi lançado em 1974, de acordo com a Tribuna da Imprensa, o lançamento ocorreu em 21 de janeiro de 1975, em um coquetel realizado no Teatro Senac, em Copacabana.
Relançamento Em 2012, a EMI lançou o álbum pela primeira vez em compact disc (CD), como parte das comemorações dos 90 anos de Marlene e de seus 70 anos de carreira. A edição teve texto de apresentação escrito pelo pesquisador musical Rodrigo Faour e reuniu o conteúdo do LP original, além de informações adicionais sobre o espetáculo e seu contexto.
Recepção crítica
O jornal Opinião afirmou que a energia presente no espetáculo não foi plenamente captada na gravação: "mal gravado, ele deixa a voz de Marlene solta, seca, distanciada do acompanhamento". A publicação também apontou que o disco não conseguia reproduzir "a vibração intensa que era a tônica do show ao vivo". Apesar das limitações técnicas, considerou o álbum importante pelo "valor do repertório selecionado e a força que, apesar de tudo, Marlene imprime a cada palavra". O Diário da Manhã considerou o álbum "dos melhores" e destacou o repertório, descrito como "de primeiríssima". Sobre Marlene, o jornal afirmou que ela "aliou sua força interpretativa ao talento cênico que lhe é peculiar", enquanto classificou os arranjos de Arthur Verocai como "excelentes". Ao final, definiu o trabalho como "um fenomenal disco/show de uma mulher extraordinária". A Tribuna considerou o álbum como "o destaque artístico dos nacionais lançados pela Odeon" no mesmo período.
O Diário de Pernambuco considerou o álbum "um dos melhores lançamentos dos últimos meses" e o descreveu como a gravação ao vivo de "um dos seus melhores shows". A publicação destacou a seleção de repertório, afirmando que Marlene, além de "intérprete excepcional", escolhia músicas "de ontem e de hoje com extraordinário bom gosto". O jornal também ressaltou a participação de Sivuca, que, segundo a crítica, "dando seu show à parte". Ao final, o jornal afirmou que o LP "não pode ser desprezado pelo público que gosta de música popular brasileira" e atribuiu ao álbum "Nota Dez!". O Diário do Paraná descreveu o LP como "uma sucessão musical entremeada entre passado e presente", destacando a combinação de ritmos e repertórios de diferentes épocas, e a interpretação de Marlene, que segundo ele, demonstrava sua "versatilidade", passando "do tango para o samba de breque, como se estivesse brincando de amarelinha". O jornal classificou o trabalho como "excelente" e "uma nova arma para a defesa da música brasileira". Cláudio Cavalcanti do Diário de Notícias, escreveu que o "disco é primoroso, tão bom quanto o show, e ouvir Marlene um pouco me reconcilia com a vida".
Em 2012, o Notas Musicais considerou o trabalho "o ápice dessa reinvenção" de Marlene e afirmou que a gravação havia originado "um grande disco". O crítico destacou o "canto teatral" da cantora, descrito como "a alma do disco", e os "refinados" arranjos de Arthur Verocai, que, aliados à força vocal de Marlene, "revitalizam" diferentes gêneros e canções. Ao final, classificou o álbum como "a obra-prima da discografia da cantora", destacando sua "palavra teatral" e a "música vigorosa do disco".
Lista de faixas Créditos adaptados do LP Te Pego pela Palavra, de 1974.
Ficha técnica Créditos adaptados dos LPs Te Pego pela Palavra, de 1974.
Arranjos e condução: Arthur Verocai Direção e produção: Hermínio Bello de Carvalho
Categoria:Álbuns de 1974 Categoria:Álbuns de música popular brasileira Categoria:Álbuns em língua portuguesa na década de 1970