Maleque ibne Anas (), nome completo Abu Abedalá Maleque ibne Anas ibne Maleque ibne Abi Amir Alasbai Aliamani (; Medina, c. – ), foi um tradicionalista, jurista e erudito muçulmano, epônimo e principal autoridade formativa do maliquismo, uma das quatro grandes escolas jurídicas do sunismo. De origem iemenita e pertencente aos , passou praticamente toda a vida em Medina, onde estudou com alguns dos principais representantes da tradição religiosa local e, ainda jovem, começou a ensinar e emitir pareceres jurídicos na Mesquita do Profeta. Sua reputação atraiu estudantes de diferentes regiões do mundo islâmico, e seus discípulos tiveram papel decisivo na transmissão e posterior sistematização de seus ensinamentos.
Como tradicionalista, Maleque alcançou grande autoridade pela seletividade com que escolhia seus transmissores e pelo rigor atribuído à avaliação e transmissão dos hádices. Como jurista, embora geralmente associado aos estudiosos do hádice do Hejaz, empregava também o arraie e o raciocínio analógico. Não deixou uma exposição sistemática de seus princípios jurídicos, que foram reconstruídos posteriormente pelos juristas maliquitas a partir de suas decisões. Seu método conferia particular importância ao Alcorão, à Suna, às opiniões dos companheiros de Maomé, ao consenso e especialmente à prática dos habitantes de Medina, considerada depositária privilegiada da tradição de Maomé e das primeiras gerações muçulmanas. Também lhe são atribuídos o emprego do interesse público, do e de outros instrumentos de raciocínio jurídico.
Sua principal obra é o al-Muwaṭṭa, uma das mais antigas grandes compilações preservadas de hádice e jurisprudência islâmica, na qual reuniu tradições atribuídas a Maomé, opiniões dos companheiros e tabis, a prática jurídica medinense e suas próprias opiniões. Transmitida em diferentes recensões por seus discípulos, a obra tornou-se uma das principais expressões da tradição jurídica de Medina. Embora a constituição do maliquismo como escola organizada tenha ocorrido sobretudo por meio da atividade das gerações posteriores de seus discípulos, a autoridade de Maleque e a transmissão de seu ensinamento forneceram a base sobre a qual a escola se desenvolveu e se difundiu especialmente pelo Norte da África e pelo Alandalus.
Vida
Maleque ibne Anas nasceu em 93 A.H. (712), embora sejam transmitidas datas entre 90 e 98 A.H. (709–717). Seu nome completo era Abu Abedalá Maleque ibne Anas ibne Maleque ibne Abi Amir Alasbai Aliamani. Pertencia aos , de origem iemenita, e por sua ascendência também recebeu as nisbas Alasbai, Iamuri, Alhimiari e Aliamani. Segundo uma tradição, nasceu na aldeia de , em Uádi Alcura, tendo sua família se estabelecido posteriormente em e depois em Medina. Seu avô Maleque, ou o pai deste, Abu Amir, emigrara do Iêmem para Medina e se tornara aliado dos taimitas. Abu Amir é apresentado em algumas fontes como um companheiro de Maomé que teria participado de todas as campanhas do profeta exceto Badre, embora outra tradição o considere um mucadrame. Seu avô Maleque pertenceu à geração dos tabis, transmitiu tradições de diversos companheiros, esteve entre os homens que prepararam e sepultaram Otomão após seu assassinato e participou da cópia do Alcorão realizada durante o califado deste. Seu pai, Anas, é menos conhecido por sua atividade erudita, embora também lhe sejam atribuídas algumas transmissões.
Criado em Medina, um dos principais centros de estudos islâmicos de seu tempo, Maleque não teria inicialmente demonstrado interesse pelos estudos. Segundo uma tradição transmitida pelo próprio jurista, decidiu dedicar-se ao conhecimento depois que seu irmão Nadre respondeu corretamente a uma pergunta do pai à qual ele dera uma resposta errada. Seu primeiro mestre foi , com quem estudou hádice, jurisprudência, questões controversas e argumentos contra os adeptos de correntes doutrinais que considerava heterodoxas. Uma tradição afirma que se dedicou exclusivamente a esse mestre durante sete anos, ou oito segundo outra versão. Também teria estudado língua e gramática, ou segundo outra tradição questões doutrinais, com . Frequentou ainda o círculo do jurista , cuja utilização do raciocínio jurídico exerceu influência sobre sua formação, embora se afirme que Maleque posteriormente deixou seu círculo por divergências quanto à tradição e às opiniões dos predecessores.
Entre seus mestres mais importantes esteve Ibne Xiabe Azuri, de quem recebeu grande quantidade de tradições. Frequentou também os círculos de Nafi ibne Hurmuz, , Aiube Açaquetiani, , e Hixame ibne Urua. As fontes elevam a cerca de novecentos o número de seus mestres, aproximadamente trezentos tabis e seiscentos membros da geração seguinte. Maleque tornou-se conhecido pela seletividade com que escolhia seus transmissores e afirmava ter encontrado dezenas de homens pessoalmente íntegros na Mesquita do Profeta de quem, contudo, não recebeu tradições por não os considerar suficientemente qualificados para transmiti-las. Por volta dos vinte anos começou a ensinar e emitir pareceres jurídicos, e seu círculo na Mesquita do Profeta tornou-se conhecido em pouco tempo. Estudantes provenientes de diferentes regiões do mundo islâmico dirigiram-se a Medina para estudar hádice e jurisprudência com Maleque, especialmente durante a peregrinação. Nos últimos anos, em razão de uma enfermidade que não revelava publicamente, deixou de ensinar na mesquita e passou a receber os alunos em casa. Manteve também intercâmbio intelectual com estudiosos que visitavam o Hejaz, entre eles Abu Hanifa, , , e Maomé Axaibani. Axaibani permaneceu cerca de três anos em seu círculo, permitindo também a Maleque familiarizar-se com a jurisprudência iraquiana. Maleque manteve ainda correspondência sobre questões jurídicas com Alaite ibne Sade.
O número de pessoas que receberam ensinamentos ou transmitiram tradições de Maleque é apresentado pelas fontes como superior a mil. Entre os discípulos que tiveram papel decisivo na transmissão de sua jurisprudência estavam , que difundiu suas opiniões no Egito; , considerado seu principal discípulo e responsável por importante contribuição à codificação da jurisprudência da escola; e . No Norte da África destacaram-se, entre outros, Açade ibne Alfurate, cuja obra teve papel importante na formação da tradição jurídica maliquita, enquanto no Alandalus sua escola foi difundida por discípulos como e . Entre seus transmissores encontravam-se ainda grandes estudiosos de outras tendências, inclusive alguns de seus próprios mestres. Maleque viveu aproximadamente metade de sua vida sob os omíadas e metade sob os abássidas. Em geral, manteve-se afastado das disputas políticas e não apoiou abertamente nem os governantes nem seus adversários. Em 144 A.H. (761), Almançor encarregou-o de transmitir aos haçânidas de Meca, entre eles Maomé Anáfece Azaquia e seu irmão Ibraim, a exigência de que se apresentassem ao califa, missão que não obteve resultado. Schacht considera o episódio indicativo de que Maleque já possuía posição de destaque e não era então abertamente hostil ao governo.
Durante a revolta de Maomé Anáfece Azaquia em Medina, em 145 A.H. (762), uma tradição sua segundo a qual o divórcio pronunciado sob coerção não era válido foi interpretada pelos partidários do rebelde como aplicável à baia prestada sob coerção ao califa Almançor. Acusado de favorecer dessa maneira a revolta, Maleque foi preso em 146 A.H. (763) por ordem do governador de Medina, , açoitado publicamente e sofreu uma lesão no ombro. A TDV considera possível tanto que seus adversários tenham explorado politicamente a transmissão quanto que os partidários de Anáfece Azaquia a tenham interpretado em benefício próprio, e observa que sua conduta geral não demonstra oposição ao governo. Posteriormente, Almançor desculpou-se com Maleque e restabeleceu boas relações com ele. Schacht acrescenta que Maleque não participou ativamente da revolta e permaneceu em casa, e observa que a punição, que teria deslocado seu ombro, aumentou ainda mais seu prestígio. Segundo ele, o episódio não prejudicou permanentemente as relações do jurista com o governo: em 160 A.H. (776–777), o califa Almadi consultou-o acerca de alterações na estrutura do santuário de Meca e, em 169 A.H. (785–786), Alhadi visitou-o durante a peregrinação.
Almançor teria proposto que as doutrinas reunidas por Maleque fossem convertidas numa obra e impostas como referência comum nas diferentes regiões do califado. A tradição atribui propostas semelhantes a Almadi e Harune Arraxide, mas Maleque teria recusado, argumentando que os estudiosos das diferentes regiões haviam recebido tradições distintas e desenvolvido opiniões próprias, não sendo correto obrigá-los a abandonar essas diferenças. Schacht, porém, considera fictícia a tradição segundo a qual Almançor desejava transformar o al-Muwaṭṭa numa espécie de código canônico para todo o império. Fora das viagens a Meca para o haje ou a unra, Maleque permaneceu em Medina durante toda a vida e recusou um convite de Almadi para se estabelecer em Baguedade. Morreu em Medina após breve enfermidade, tradicionalmente em 14 de Rabi Alaual de 179 A.H. (7 de junho de 795), embora sejam transmitidas outras datas para sua morte. A oração fúnebre foi conduzida pelo governador da cidade, e Maleque foi sepultado no cemitério de Albaqui. Schacht situa igualmente sua morte em 179 A.H. (795), aos cerca de 85 anos.
Atividade como tradicionalista
Maleque alcançou grande reputação como tradicionalista e foi descrito pelas fontes com títulos como hafiz, huja, imame e “comandante dos crentes no hádice”. Sua memória e capacidade de avaliação das cadeias de transmissão foram particularmente elogiadas. Apesar de lhe ser atribuída a memorização de cerca de 100 mil hádices, transmitia apenas uma parcela reduzida do material que conhecia e criticava aqueles que relatavam indiscriminadamente tudo o que haviam ouvido. Após sua morte, teriam sido encontradas em sua casa caixas contendo folhas com tradições que jamais transmitira publicamente. A seletividade estendia-se aos transmissores. Maleque afirmava que não se devia receber conhecimento de quatro categorias de pessoas: alguém de comportamento leviano; um adepto de inovação religiosa que promovesse sua doutrina; alguém que mentisse nas relações cotidianas, ainda que não atribuísse falsidades a Maomé; e uma pessoa virtuosa que, por causa da idade, já não conseguisse transmitir com precisão. Sua própria confiabilidade e o rigor aplicado aos homens de quem recebia tradições contribuíram para que cadeias nas quais figurava fossem consideradas especialmente fortes. Albucari considerou a cadeia Maleque — Nafi — Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe entre as mais autênticas, enquanto Abu Daúde Assijistani destacou também Maleque — Abu Azinade — Alaraje — Abu Huraira e Maleque — Azuri — — Ibne Omar. Alguns estudiosos atribuíram ainda elevada autoridade a seus relatos .