Introdução
Evo Morales construiu sua trajetória de vida no meio rural andino, em uma família indígena aimará. Sua vida foi marcada pelo trabalho agrícola e pelas desigualdades enfrentadas pelos povos indígenas. Durante a década de 1990, destacou-se como líder sindical dos produtores de coca do Chapare, enfrentando políticas de erradicação influenciadas pelos Estados Unidos. Esse cenário o projetou como liderança combativa e representativa de grupos marginalizados. Assim, Morales consolidou-se como símbolo de resistência indígena e camponesa diante do combate ao cultivo da folha de coca e ao próprio neoliberalismo.
Sua atuação política consolidou-se por meio da articulação de movimentos sociais e da criação do Movimento ao Socialismo (MAS), que buscava integrar demandas populares ao sistema institucional. Evo Morales foi eleito deputado em 1997, ampliando sua visibilidade e capacidade de mobilização. Sua retórica defendia a soberania nacional, a valorização indígena e a crítica às elites tradicionais. No início dos anos 2000, destacou-se em protestos como a Guerra da Água e a Guerra do Gás, evidenciando o descontentamento com a exploração de recursos naturais. Assim, antes de 2005, já se consolidava como figura central na reconfiguração política boliviana.
Primeiro Governo 2006-2010
Seu primeiro governo ficou marcado pela consolidação de um modelo político que pretendia romper com parte significativa das políticas neoliberais implementadas desde a década de 1980 e ampliar a participação política de setores indígenas, camponeses e populares historicamente marginalizados. As políticas de distribuição de renda no governo de Evo Morales foram fundamentais na inclusão social por meio da redistribuição dos recursos obtidos com a nacionalização dos hidrocarbonetos. Esses programas de transferência de renda e o aumento do investimento social fortaleceram o mercado interno, ampliaram o acesso à educação e à saúde.
Os programas sociais em destaque, como Juancito Pinto - um programa similar ao Bolsa Família -; Renda Dignidad, que é um programa de complemento de aposentadoria; Juanita Azurdy, que é um programa de ajuda as gestantes e a Missão Solidária, programa de ajuda a saúde, foram fundamentais na política assistencialista. O governo ampliou o Bonosol, criado pelo presidente Gonzalo Sánchez de Lozada nos anos 1990, rebatizando de Renda Dignidade e o tornou mensal ao invés de anual.
Estes programas permitiram a redução da extrema pobreza de 63% em 2008 para 35% em 2010. As nacionalizações das empresas estatais também foram uma marca muito importante em seu governo. Em maio de 2006, as nacionalizações dos recursos naturais, em especial o gás, consistiram em uma forma de promover o desenvolvimento econômico alternativo, em lugar do modelo capitalista neoliberal que imperou no país andino até o ano de 2005.
Outras nacionalizações, como das empresas de Mineração/Metalurgia, Petróleo, Telecomunicações e Energia Elétrica, foram marcas de seu governo com o apoio da população. A oposição reagiu de forma intensa às nacionalizações feitas por Evo Morales entre 2006-2008. Governadores e lideranças dos departamentos da chamada "Meia Lua" (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), além de setores empresariais e elites econômicas, argumentavam que as medidas afastariam investimentos estrangeiros e aumentariam o controle do Estado sobre a economia.
A reação ultrapassou o campo político e assumiu caráter institucional e regional. Em 2008, esses departamentos impulsionaram movimentos autonomistas, organizaram protestos, greves e referendos de autonomia, intensificando a polarização entre o governo central e a oposição. O conflito atingiu seu auge durante a chamada crise política de 2008, marcada por confrontos, ocupações de prédios públicos e forte tensão entre o governo e os governos departamentais. Ao mesmo tempo, os apoiadores de Morales defendiam que as nacionalizações eram necessárias para recuperar a soberania sobre os recursos naturais e financiar políticas sociais, o que ampliou a base de apoio popular ao governo.
As políticas nacionalistas implementadas durante o governo de Evo Morales não atingiram diretamente o setor bancário, que sofreu apenas novas regulamentações, sem prejuízos significativos às suas atividades. Em razão disso, os bancos não participaram das tentativas de desestabilização política lideradas por setores da burguesia agroindustrial e, ao longo do período, apresentaram resultados positivos em seus balanços financeiros. Além disso, o governo foi favorecido pelo contexto econômico internacional do início dos anos 2000, marcado pelo boom das commodities, fator que, aliado às políticas econômicas adotadas, contribuiu para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB).
Entretanto, para todos os efeitos positivos das iniciativas governo nas distribuições de renda, ainda assim não foi o suficiente para melhorar a qualidade de vida dos bolivianos. A economia no governo de Evo Morales mais que duplicou seu Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro mandato de Evo Morales, iniciado em 2006, e mantém uma média de crescimento superior a 4,5%. Entre 2005 e 2009, a pobreza no país diminuiu de 60,6% para 49,6% e a pobreza extrema de 38,2% para 25,3%.
O Estado Plurinacional
Os bolivianos votaram, em um referendo iniciado em 2006, durante o primeiro governo de Evo Morales, por uma nova Carta Magna. Nela, apresentou-se o Estado Plurinacional como uma potencialidade, a partir da perspectiva de unidade constitucional somada à diversidade de concepções nacionais, fortalecendo a ideia de Estado por meio da realidade concreta e deixando de lado seu passado colonial.
A promulgação da Constituição de 2009 foi um marco na consolidação do Estado Plurinacional. Resultado de um processo constituinte iniciado após intensas mobilizações sociais, a nova Constituição buscou romper com a herança excludente das Cartas Magnas anteriores. O novo texto constitucional da Bolívia não tinha como objetivo apenas introduzir um direito, mas refundar uma sociedade multicultural que se utilizasse do texto jurídico, sem depender dele para existir. A formação do Estado a partir dessas duas visões de mundo busca não o antagonismo, mas o desenvolvimento compartilhado, no qual todos os valores são partilhados.
Um dos principais elementos dessa Constituição foi a criação do chamado Estado Plurinacional, que reconhece oficialmente a existência de múltiplas nações dentro do território boliviano. Essa mudança significou o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos políticos, com direito à autonomia, à preservação de suas culturas e à participação nas decisões do Estado. A vitória da população indígena não se traduziu em garantias de direito, mas uma alteração da estrutura colonial, pois novas categorias originárias tiveram um especial protagonista, com destaque para o povo indígena.
O Estado passou a desempenhar um papel central na gestão de riquezas, como o gás natural e os minerais, visando à redistribuição de renda e à redução das desigualdades sociais. A introdução da cosmovisão no texto constitucional do Bien Vivir, a filosofia indígena, como um novo sujeito de direito; a criação de um tribunal constitucional plurinacional, a igualdade de gênero, a jurisdição autônoma indígena, o direito à água e à segurança alimentar, o reconhecimento das autoridades indígenas e a democracia comunitária são algumas das conquistas obtidas pelo povo boliviano.
A implementação da Constituição e do Estado Plurinacional enfrentou desafios e resistências, especialmente por parte de setores conservadores e elites regionais. Ainda assim, esse processo representou uma profunda reconfiguração do Estado boliviano, ao incorporar demandas históricas de inclusão e reconhecimento. Desse modo, a Constituição de 2009 permanece como um marco na história contemporânea da Bolívia, sendo frequentemente analisada como exemplo de transformação institucional na América Latina. Dessa maneira, o seu legado está diretamente ligado à ampliação da cidadania e à valorização da diversidade.
Legado Histórico
O primeiro governo de Evo Morales 2006-2010 interrompeu um regime neoliberal que por mais de 15 anos assolou o país. Seu governo deixou um grande legado na reconfiguração do papel do Estado na Bolívia, com destaque para a nacionalização dos recursos naturais, especialmente o gás, o que ampliou a arrecadação estatal e permitiu maior investimento social. Houve uma significativa redução na pobreza e inclusão de setores historicamente marginalizados, sobretudo populações indígenas e camponesas.
Além disso, a convocação da Assembleia Constituinte e a promulgação da Constituição de 2009 consolidaram mudanças institucionais profundas. O governo também fortaleceu a soberania nacional e a integração regional com países latino-americanos. Desse modo, seu governo marcou uma ruptura com políticas neoliberais anteriores e estabeleceu bases para um novo modelo político e social sem romper com o capitalismo.
O primeiro buscou responder às demandas por mudanças estruturais por meio da construção de uma nova institucionalidade, pautada na ampliação da participação democrática, na promoção da igualdade política e social e na implementação de um novo projeto econômico. Nesse contexto, ocorreram transformações significativas na organização do Estado e na composição do bloco no poder, consolidando uma nova coalizão política sob a liderança da chapa Evo Morales–García Linera. Apesar dos expressivos avanços econômicos, sociais e institucionais alcançados ao longo do período, o governo manteve-se inserido na lógica do sistema capitalista, sem promover sua superação.
TAPIA MEALLA, Luis. La condición multisocietal. Multiculturalidad, pluralismo, modernidad. Muela del Diablo, 2010.
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