Atá ibne Abi Rabá (), cujo nome completo era Abu Maomé Atá ibne Abi Rabá Aslame Alcoraixi (; m. ), foi um jurista, tradicionalista e exegeta muçulmano da geração dos tabis, considerado uma das principais autoridades religiosas de Meca de seu tempo. De origem núbia e nascido no Iêmem, foi levado ainda jovem para Meca, onde se tornou maula dos coraixitas e estudou com numerosos companheiros de Maomé, entre eles Abedalá ibne Abas, Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, Aixa e Jabir ibne Abedalá. Após a morte de Ibne Abas, ocupou posição de destaque no ensino da Mesquita Sagrada e tornou-se uma das principais autoridades consultadas para a emissão de pareceres jurídicos na cidade.
Atá exerceu particular influência na formação da tradição jurídica do Hejaz e tornou-se conhecido como autoridade nas questões relativas ao haje, recorrendo ao ijtihād e ao raʾy quando não encontrava uma determinação textual aplicável. Destacou-se também na exegese do Alcorão, e tradições exegéticas transmitidas por sua autoridade foram preservadas por autores posteriores. No hádice, foi geralmente considerado um transmissor confiável, embora seus relatos mursal tenham recebido avaliações mais cautelosas e, no fim da vida, problemas de memória tenham levado alguns discípulos a deixar de registrar suas transmissões. Entre os estudiosos associados à transmissão de seus ensinamentos estiveram Ibne Juraije, Abu Hanifa, Alauzai, Ibne Xiabe Azuri e Anre ibne Dinar.
Vida
Atá ibne Abi Rabá nasceu em Janade, no Iêmem, numa família de origem núbia. A data de seu nascimento é incerta: as fontes situam-na durante os califados de Omar ou Otomão , havendo também a indicação de 27 A.H. (647). Seu nome completo era Abu Maomé Atá ibne Abi Rabá Aslame Alcoraixi. Ainda muito jovem foi levado para Meca, onde era maula dos coraixitas, sendo sua vinculação atribuída aos firitas ou aos jumaítas. Segundo outra informação, transmitida pela Encyclopaedia of Islam, era maula da família de . Em Meca, Atá estudou com numerosos companheiros de Maomé e afirmou ter conhecido cerca de duzentos deles. Entre aqueles dos quais recebeu conhecimento estavam Abedalá ibne Abas, Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, Aixa, Jabir ibne Abedalá, , Abedalá ibne Azobair e Abu Adarda. Entre os estudiosos que transmitiram por sua autoridade ou estudaram com ele estiveram Mujaíde ibne Jabre, Ibne Juraije, Abu Hanifa, Alauzai, Ibne Xiabe Azuri, Anre ibne Dinar e Abederramão ibne Abi Laila. Durante o conflito entre Abedalá ibne Azobair e os omíadas, Atá apoiou o primeiro e perdeu uma das mãos em combate, atingida por um golpe de espada. Já era cego de um dos olhos e, no fim da vida, perdeu também a visão do outro. Após a morte de Ibne Abas, Atá assumiu sua posição de ensino na Mesquita Sagrada e tornou-se uma das principais autoridades consultadas para a emissão de pareceres jurídicos em Meca. Sua reputação ultrapassou a cidade ainda durante sua vida; uma tradição registra, por exemplo, que Abu Hanifa frequentou suas aulas, testemunho que Joseph Schacht considerou possivelmente a mais antiga evidência autêntica da influência de Atá na história do direito religioso islâmico. Atá morreu em Meca em 114 A.H. (732), embora também seja transmitido o ano de 115 A.H. (733). Em razão das divergências acerca da data de seu nascimento, as fontes atribuem-lhe 88 ou 100 anos de idade no momento da morte.
Jurisprudência
Atá foi uma das principais figuras da antiga escola jurídica de Meca e desempenhou papel importante na formação da tradição jurídica do Hejaz. Sua autoridade foi reconhecida ainda por seus contemporâneos. Uma tradição atribui a Ibne Abas a censura aos habitantes de Meca por continuarem a reunir-se em torno dele quando dispunham de Atá entre eles, afirmação que também é atribuída a Abedalá ibne Omar. Seu conhecimento e suas qualidades foram igualmente elogiados por Abu Hanifa, Ibne Juraije, Catada ibne Diama, Alauzai e . Atá tornou-se particularmente conhecido como autoridade nas questões relativas ao haje. As fontes atribuem-lhe cerca de setenta peregrinações, e sua residência em Meca proporcionava-lhe contato permanente com os ritos e problemas jurídicos associados à peregrinação. Nos casos para os quais não encontrava uma determinação textual, recorria ao próprio ijtihād e ao raʾy. Algumas de suas opiniões pessoais exerceram influência posterior sobre Axafii, cuja formação jurídica estava vinculada ao ambiente intelectual de Meca.
Schacht caracterizou Atá como um destacado representante da antiga escola mecana de direito religioso e procurou distinguir, entre as doutrinas que lhe são atribuídas, um núcleo que considerava historicamente autêntico de acréscimos posteriores. Segundo sua análise, Atá não hesitava em empregar o raʾy, tanto de maneira disciplinada quanto, ocasionalmente, de modo que Schacht qualificou como arbitrário, e as tradições segundo as quais teria posteriormente rejeitado o recurso à opinião pessoal seriam tardias. Cerrahoğlu contestou essa interpretação, argumentando que o emprego do ijtihād em questões sem determinação textual não era incompatível com a condenação de opiniões consideradas desprovidas de fundamento, posição igualmente atribuída a outros estudiosos das primeiras gerações. As duas fontes também divergem acerca da especialização de Atá nas questões da peregrinação. Schacht observou que, no início do A.H., os interesses dos especialistas em direito islâmico já se haviam expandido de problemas estritamente religiosos para questões jurídicas mais técnicas e, com base nisso, mostrou-se cético diante da tradição que apresentava o haje como a área predileta de Atá. Cerrahoğlu rejeitou essa conclusão, argumentando que sua residência em Meca e a tradição segundo a qual realizou cerca de setenta peregrinações tornam plausível que tivesse adquirido conhecimento particularmente aprofundado nessa matéria.
Exegese do Alcorão
Atá destacou-se também na exegese do Alcorão, e as fontes atribuem-lhe uma obra nesse campo. Suas tradições exegéticas, transmitidas por diferentes cadeias, foram incorporadas aos trabalhos de autores como Abede Arrazaque Açanani, Sufiane Atauri e Atabari. Numerosas explicações relativas ao vocabulário incomum do Alcorão também foram transmitidas por seu intermédio a partir de Ibne Abas. As tradições exegéticas atribuídas a Atá refletem características da exegese das primeiras gerações, concentrando-se mais no significado dos versículos e na compreensão de seu propósito do que em análises linguísticas pormenorizadas. Suas explicações de palavras incomuns contribuíam especialmente para esclarecer o sentido de disposições jurídicas contidas no texto corânico, estabelecendo uma ligação entre sua atividade como exegeta e sua atuação como jurista.
Hádice
Atá foi considerado um transmissor confiável por estudiosos como Iáia ibne Maine, Abu Zura Arrazi e Ibne Hibane, e numerosas tradições transmitidas por sua autoridade foram incorporadas às principais coleções de hádice, entre elas as de Albucari e Muslim. Seus hádices mursal, contudo, receberam avaliação menos favorável de críticos como Iáia ibne Saíde Alcatane, Ali ibne Almadini e Amade ibne Hambal, que os consideraram inferiores aos mursal de tabis como Saíde ibne Almuçaiabe e Mujaíde ibne Jabre. Essa avaliação foi atribuída, entre outras razões, à amplitude do círculo de pessoas das quais Atá aceitava transmissões. No fim da vida, Atá começou a sofrer de esquecimento. Por esse motivo, alguns discípulos, entre eles Ibne Juraije e Caice ibne Sade, deixaram de registrar hádices transmitidos por ele, receando que as cadeias de transmissão se confundissem. Cerrahoğlu interpreta essa informação como uma precaução relacionada especificamente à deterioração de sua memória e rejeita que ela demonstre uma perda mais geral da autoridade intelectual de Atá.
Schacht apresentou uma interpretação mais cética das tradições atribuídas a Atá. Considerou difícil determinar em que medida ele empregava relatos provenientes de Maomé e dos companheiros como argumentos jurídicos e sugeriu que, quando o fazia, esses relatos poderiam ser predominantemente mursal. Também relacionou o abandono de suas aulas por alguns contemporâneos mais jovens ao problema da autenticidade da tradição posteriormente atribuída a ele. Cerrahoğlu contestou essas conclusões, salientando que Atá teve contato com numerosos companheiros, transmitiu hádices musnad considerados autênticos e continuou a ser reconhecido pelos próprios críticos muçulmanos como transmissor confiável e importante jurista. Também recordou a avaliação atribuída a Axafii, segundo a qual nenhum dos tabis teria demonstrado maior apego ao hádice que Atá.
Bibliografia
Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do século VII Categoria:Pessoas do século VIII Categoria:Núbia Categoria:Jumaítas