Aláqueme Atirmidi (), nome completo Abu Abedalá Aláqueme Maomé ibne Ali ibne Haçane Atirmidi (; m. ), foi um estudioso e místico muçulmano de Termez, conhecido sobretudo por suas contribuições ao sufismo e por sua doutrina da santidade. Formado inicialmente nas ciências tradicionais, especialmente no hádice, voltou-se posteriormente para o ascetismo e a experiência mística. Suas concepções religiosas provocaram oposição em Termez e levaram-no temporariamente ao isolamento, mas foi posteriormente reabilitado e continuou ensinando e escrevendo até sua morte.
Aláqueme desenvolveu uma concepção do sufismo centrada na sabedoria e no conhecimento espiritual, elaborando uma antropologia que relacionava as faculdades humanas a diferentes graus de conhecimento e proximidade de Deus. Tornou-se particularmente conhecido pela teoria do «selo dos santos» (ḫatm al-awliyāʾ) e por sua hierarquização dos graus de santidade, concepções que exerceram influência sobre místicos posteriores, especialmente Ibne Arabi. Autor prolífico, escreveu sobre sufismo, hádice, exegese corânica, ética e outros campos das ciências islâmicas; entre suas obras mais importantes encontram-se Ḫatm al-awliyāʾ, ʿIlal al-sharīʿa, Nawādir al-uṣūl fī maʿrifat aḫbār al-Rasūl e sua autobiografia Budūʾ šaʾn.
Vida
Aláqueme Atirmidi nasceu em Termez, provavelmente no início do A.H. (IX). Seu nome completo era Abu Abedalá Aláqueme Maomé ibne Ali ibne Haçane Atirmidi. Em sua obra autobiográfica Budūʾ šaʾn, relata que ainda jovem foi incentivado ao estudo por um mestre que descreve como uma manifestação favorável de seu destino; é provável que se tratasse de seu próprio pai, que era estudioso de hádice e com quem aprendeu desde cedo ciências tradicionais e racionais. Estudou hádice com diversos tradicionalistas em Termez e Bactro e jurisprudência com um destacado jurista hanafita. Uma tradição posterior, preservada por Atar, afirma que, impossibilitado de acompanhar seus companheiros em viagens de estudo por não querer deixar sua mãe sozinha, teria encontrado e recebido instrução dele.
Aos 27 anos, Aláqueme partiu com a intenção de realizar a peregrinação a Meca. Permaneceu algum tempo no Iraque, onde estudou hádice, e chegou à cidade por Baçorá. Segundo seu relato autobiográfico, costumava orar nas proximidades da Caaba durante a madrugada, arrependeu-se de seus pecados e pediu a Deus que lhe permitisse reformar sua conduta, abandonar o apego ao mundo e memorizar o Alcorão. Começou a memorizá-lo durante a viagem de retorno e a concluiu depois de regressar a sua terra natal. Passou então a estudar obras voltadas ao conhecimento de Deus e à vida futura e procurou um mestre espiritual, ao mesmo tempo que se dedicava ao jejum frequente e às orações voluntárias. Influenciado por uma obra de , adotou práticas ascéticas e de disciplina espiritual. Em sua autobiografia, descreve um período de isolamento, durante o qual frequentava lugares ermos, ruínas e cemitérios, e relata experiências visionárias que culminaram, segundo sua interpretação, na remoção da barreira entre ele e Deus e no recebimento de inspiração.
Aláqueme teve contato com sufis como , Iáia ibne Muade Arrazi e . Escreveu sobre sufismo, ética, calâm, hádice, exegese corânica, história das seitas e ciências da linguagem. A difusão de suas ideias provocou, contudo, forte oposição. Foi acusado de falar de maneira imprópria sobre o amor divino, corromper os costumes, introduzir inovações religiosas e até reivindicar a condição de profeta. As acusações foram apresentadas ao governador de Bactro, que exigiu dele um compromisso escrito de não tratar publicamente desses assuntos. A Encyclopaedia of Islam associa a perseguição sobretudo às ideias apresentadas em Ḫatm al-awliyāʾ e ʿIlal al-sharīʿa. Segundo Marquet, após ser convocado a Bactro para responder perante o governador, Aláqueme permaneceu isolado durante alguns anos, até que seus adversários foram obrigados a abandonar Termez e ele próprio foi reabilitado e pôde regressar à cidade. A partir de então, pouco se conhece de sua vida. Seu próprio relato afirma que as adversidades contribuíram para seu amadurecimento espiritual e que, depois da queda de seus adversários, passou novamente a reunir pessoas ao seu redor. Continuou escrevendo e instruindo seus discípulos até o fim da vida. Morreu em Termez, provavelmente em 320 A.H. (932), e seu túmulo tornou-se local de visitação.
Pensamento
Aláqueme procurou conciliar a tradição religiosa com a razão e conferir uma fundamentação racional às ciências transmitidas. Sua concepção de sabedoria incorporava elementos provenientes da filosofia helenística e do gnosticismo, contribuindo para uma nova elaboração intelectual do sufismo e estando na origem de seu epíteto Aláqueme, «o sábio». Entendia o sufismo em grande medida como sabedoria e dividia o conhecimento em ciência, sabedoria exterior e sabedoria interior, dedicando particular atenção às duas últimas. Para ele, o sufismo não consistia apenas em estados espirituais subjetivos, mas também em verdades objetivas, enquanto os conhecimentos superiores e ocultos dos profetas e dos santos provinham diretamente de Deus. Marquet ressalta, contudo, a complexidade dessa síntese. Aláqueme situava-se entre os tradicionalistas e rejeitava a discussão do Alcorão e da suna, repudiava o calâm e o uso da opinião pessoal, demonstrava simpatia pelos hambalitas e censurava os racionalistas. Também condenava a filosofia, pelo menos a de outros autores, e aceitava a designação de Aláqueme, em oposição aos filósofos muçulmanos. Apesar disso, sua obra incorporou numerosos temas provenientes do xiismo e utilizou elementos de origem lírica, lógica, científica, alquímica e filosófica. Marquet interpreta sua produção como resultado da confluência de tradições diversas, assimiladas e reorganizadas segundo uma perspectiva fundamentalmente religiosa.
Antropologia espiritual
A antropologia de Aláqueme relacionava a constituição física do ser humano a uma hierarquia de faculdades espirituais. Marquet identifica em sua obra uma narrativa da pré-formação da humanidade construída a partir de diversas passagens corânicas. Nela, a criação e a história espiritual dos descendentes de Adão são explicadas por uma sucessão de «luzes» associadas à proximidade divina, à gnose, ao destino, à inteligência, à vida e ao monoteísmo. A combinação dessas luzes determinaria diferentes condições espirituais entre os seres humanos.
Aláqueme concebia o organismo humano como uma unidade formada por coração e corpo, na qual se distinguia uma série de órgãos e faculdades. O corpo exterior, com seus membros e órgãos, correspondia aos sentidos, enquanto a dimensão interior compreendia a alma, o espírito, a inteligência e outras faculdades de conhecimento. Marquet destaca particularmente a oposição entre coração e razão: o conhecimento meramente exterior e utilitário permaneceria ligado à razão, enquanto o conhecimento interior seria acumulado no coração e percebido por sua «visão». À medida que o crente progride espiritualmente, o coração torna-se capaz de receber formas superiores de conhecimento, até alcançar a percepção da unidade divina e a gnose de Deus.
Na formulação apresentada pela TDV, Aláqueme atribuía grande importância aos conceitos de ḥaqq, ʿadl e ṣidq. O primeiro estaria relacionado aos órgãos, o segundo aos corações e o terceiro às inteligências. Como esses princípios pertenciam simultaneamente ao conhecimento de Deus e à religião, sua concepção aproximava progressivamente religião e conhecimento espiritual. Distinguia ainda as atividades espirituais resultantes do esforço humano daquelas produzidas pela graça divina, correspondentes respectivamente a formas geral e especial de santidade.
Santidade
A doutrina da santidade ocupa posição central no pensamento de Aláqueme. Para ele, os santos não se limitavam ao cumprimento das prescrições e proibições religiosas, mas deviam também purificar suas intenções e vigiar continuamente a própria alma. A prática reiterada do bem poderia tornar-se uma disposição permanente, preservando-os do erro. O santo que recebe inspiração divina, designado muḥaddath ou mukallam, alcançaria um grau em que poderia estar seguro da veracidade do conhecimento recebido. A santidade, assim como a profecia, não seria adquirida pelo esforço individual, mas concedida por Deus. Diferentemente dos profetas, porém, os santos não possuiriam a missão de transmitir uma revelação pública. Sua formulação mais conhecida é a teoria do «selo dos santos» (ḫatm al-awliyāʾ). Assim como existe um selo dos profetas, Aláqueme sustentava a existência de um selo dos santos, entendido não apenas como o último deles, mas como aquele que ocupa a posição espiritual mais elevada e perfeita entre os santos. Essa concepção exerceu ampla influência sobre o sufismo posterior, sobretudo sobre Ibne Arabi, que lhe dedicou atenção especial.
Marquet apresenta uma hierarquia mais pormenorizada da vida mística. Num primeiro grau situam-se os santos do monoteísmo, aos quais seria permitido conservar certos apetites da alma. Acima deles aparecem os ghurabāʾ kirām, cuja disciplina espiritual é mais rigorosa; em seguida encontram-se os «quarenta» ṣiddīqs, associados a uma inspiração divina particular. No ápice encontra-se o munfarid, o indivíduo singular que teria alcançado o mais alto grau da unidade divina. Esse personagem é descrito como muḥaddath, recipiente de inspiração, e sua posição aproxima-se mais da dos profetas do que a dos demais santos, embora permaneça subordinada à profecia. Marquet relaciona a ideia do selo dos santos à noção xiita do selo dos profetas, mas considera que Aláqueme a reelaborou de forma profundamente distinta: seu santo supremo permanece ligado primordialmente a Maomé. A influência de sua doutrina pode ser percebida em numerosos místicos posteriores; além de sua presença na obra de Abdalcáder Guilani, Marquet considera que a incorporação e transformação de elementos provenientes do xiismo e de outras correntes fazem de Aláqueme, em determinados aspectos, um precursor de Ibne Arabi.
Recepção e influência
As ideias de Aláqueme suscitaram controvérsia ainda durante sua vida. Foi acusado de considerar os santos superiores aos profetas, de formular concepções inéditas sobre o amor divino, de empregar hádices fabricados e de introduzir inovações religiosas. O próprio Aláqueme rejeitou essas acusações. A TDV observa especificamente que não há em Ḫatm al-awliyāʾ nem em suas demais obras afirmação de que a santidade seja superior à profecia. Seus seguidores vieram a ser conhecidos como , tendo entre seus principais representantes e . Sua influência, entretanto, ultrapassou esse círculo. Algazali utilizou extensamente uma de suas obras ao discutir a ilusão espiritual no Iḥyāʾ ʿulūm al-dīn, enquanto recorreu a outra em seu Kitāb al-Rūḥ. registra a elevada consideração que seu mestre e tinham por Aláqueme. Também se atribui a Baadim Naquexebande grande estima por ele, enquanto e, especialmente, Ibne Arabi demonstram influência de suas concepções.
Obras