Paulo César Ximenes Alves Ferreira (Rio de Janeiro, ) é um economista brasileiro. Funcionário de carreira do Banco Central do Brasil, ocupou diversas posições no Ministério da Fazenda ao longo das décadas de 1980 e 1990, entre as quais a de secretário do Tesouro Nacional (1988). Foi diretor-executivo do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Presidiu o Banco Central do Brasil entre março e setembro de 1993, durante o governo Itamar Franco, e o Banco do Brasil de 1995 a 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Origens e formação Paulo César Ximenes nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 30 de dezembro de 1943. É filho de Pedro da Costa Alves Ferreira e de Aura Ximenes Alves Ferreira. Aos dezessete anos, prestou concurso para o Banco do Brasil, sendo classificado para a agência de Londrina, no Paraná, onde tomou posse em 1964.

Em 1966, antes de completar dois anos na instituição, obteve requisição para ingressar no Banco Central, que estava em fase de organização. Inicialmente lotado na Contabilidade Geral, no Rio de Janeiro, transferiu-se em 1968 para Porto Alegre, onde foi criada uma área de contabilidade regional. Na capital gaúcha, cursou a graduação em economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduando-se em 1972. Obteve, em 1977, especialização na área monetária junto ao Centro de Estudos Monetários Latino-Americanos.

Carreira no Banco Central e no Ministério da Fazenda Ainda em 1972, Ximenes foi transferido para Brasília, passando a atuar como economista no Departamento Econômico (Depec) do Banco Central. Naquela época, o Banco Central dividia com o Banco do Brasil a função de autoridade monetária, cabendo-lhe elaborar o Orçamento Monetário — tarefa cuja coordenação Ximenes posteriormente assumiu. O Orçamento Monetário era o instrumento pelo qual se autorizava a expansão da base monetária a partir das operações do Banco Central e do Banco do Brasil, aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Assessoria econômica e Secretaria-Geral A partir de 1979, já no governo Figueiredo, Ximenes foi requisitado para a Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda, então chefiada por Maílson da Nóbrega. Com a chegada de Ernane Galvêas à pasta, Maílson tornou-se secretário-geral do ministério e Ximenes exerceu por um período a função de secretário-geral adjunto. De volta ao Banco Central, chefiou a Delegacia Regional de Porto Alegre entre 1985 e 1987.

Reordenamento das finanças públicas Durante a gestão de Maílson como secretário-geral, foi constituído um grupo de trabalho — coordenado por Raymundo Moreira e integrado por mais de 150 técnicos do Banco Central, Banco do Brasil e dos ministérios da Fazenda e do Planejamento — com o objetivo de reorganizar as finanças públicas do país. As conclusões do grupo recomendaram a unificação dos orçamentos (com a extinção do Orçamento Monetário), o fim da conta movimento do Banco do Brasil, a criação da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e a transferência das atividades de fomento do Banco Central para outras instituições. Ximenes participou do processo e considerou-o decisivo para o aperfeiçoamento da gestão fiscal brasileira.

Secretário do Tesouro Nacional Em 1987, quando Bresser Pereira assumiu o Ministério da Fazenda, Maílson da Nóbrega tornou-se secretário-geral e convidou Ximenes para secretário-geral adjunto. Após o fracasso do Plano Bresser e a posse de Maílson como ministro, em 1988, Ximenes primeiro ocupou a Secretaria de Assuntos Econômicos e, em seguida, assumiu a chefia da Secretaria do Tesouro Nacional, sucedendo Andrea Calabi. Quando Mário Berard foi deslocado para a presidência do Banco do Brasil, Ximenes passou à Secretaria-Geral do Ministério da Fazenda, transmitindo o comando da STN a Luiz Antônio Andrade Gonçalves.

Chefia do Departamento de Operações Bancárias Antes de deixar o governo, Ximenes ainda chefiou o Departamento de Operações Bancárias (Deban) do Banco Central. Nessa função, executou uma das recomendações do grupo de trabalho de finanças públicas: a transferência para o Banco do Brasil das atividades de fomento até então exercidas pelo Banco Central, como o redesconto a manufaturados exportáveis e os financiamentos a trading companies. No Deban, também lidou com a questão dos bancos estaduais, que sacavam contra seus próprios depósitos e se endividavam junto ao Banco Central no redesconto ou deixavam de recolher o depósito compulsório, configurando o que Ximenes qualificou como emissão irregular de moeda.

Banco Mundial e BID Durante a maior parte do governo Collor, Ximenes ocupou cargos em organismos multilaterais. Exerceu brevemente a função de secretário-geral do Ministério da Infraestrutura, sob o ministro Ozires Silva, e em seguida partiu para Washington, D.C., onde atuou como diretor-executivo do Banco Mundial, representando o Brasil, por três anos (1990–1992). Em 1992, serviu como diretor-executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), representando Brasil, Equador e Suriname.

Presidência do Banco Central Nomeação e contexto Em março de 1993, já sob a presidência de Itamar Franco, o ministro da Fazenda Eliseu Resende convidou Ximenes a retornar ao Brasil para assumir a presidência do Banco Central, em substituição a Gustavo Loyola. A indicação foi bem recebida pelo mercado financeiro, mas gerou desconforto no Palácio do Planalto, pois Ximenes, quando secretário-geral da Fazenda, havia sido responsável pelo afastamento de Alcir Calliari da Diretoria de Recursos Tecnológicos do Banco do Brasil. Ximenes condicionou a aceitação do convite à prerrogativa de influir na composição da nova diretoria do Banco Central.

Na sabatina perante a Comissão Econômica do Senado, Ximenes defendeu controle rigoroso sobre os bancos estaduais e propôs uma reforma fiscal ampla, negociada com o Congresso, que permitisse ao governo maior flexibilidade na gestão das receitas tributárias, com o objetivo de reduzir juros e inflação. Declarou que seria difícil assegurar crescimento econômico durante a administração Itamar, e que a redução dos índices inflacionários só seria possível mediante uma ampla reforma tributária. Essas declarações provocaram irritação no presidente Itamar Franco, que cogitou demiti-lo antes mesmo da posse, sendo dissuadido por Eliseu Resende.

Gestão e conflitos com o governo A posse de Ximenes ocorreu em 6 de abril de 1993. Ainda naquele mês, Itamar Franco divulgou um programa de desenvolvimento que ia contra o compromisso assumido pelo Banco Central de evitar receituários heterodoxos. A autarquia não acatou a orientação de cortar juros, e o presidente reagiu chamando a instituição de "caixa preta", ordenando que Vando Borges, então ministro interino da Fazenda, tomasse providências para subordinar o Banco Central às metas do governo.

A divergência sobre o nível dos juros foi o principal foco de atrito ao longo de toda a gestão. O presidente Itamar recebia de colaboradores — entre os quais José Eduardo Andrade Vieira, ministro da Indústria e do Comércio e proprietário do Banco Bamerindus — a avaliação de que a taxa de curto prazo poderia ser drasticamente reduzida. Ximenes discordava, sustentando que, embora isso pudesse ser viável em outros países, não se aplicava à realidade brasileira da época. Chegou a colocar o cargo à disposição, argumentando que as cobranças públicas pela imprensa desgastavam a autoridade das instituições.

No início de junho de 1993, o governo lançou o Plano de Ação Imediata (PAI), com corte de despesas e redução do deficit público. Ximenes avaliou que a disposição do governo de conter gastos, abrindo espaço para uma reforma fiscal a partir da revisão constitucional, criava condições favoráveis à desaceleração da inflação. Destacou, ainda, que a renegociação da dívida junto ao Clube de Paris refletia a credibilidade do plano e alertou os bancos públicos a se prepararem para operar em ambiente de inflação mais baixa.

Em agosto, novos atritos surgiram quando Itamar Franco voltou a cobrar redução dos juros e determinou medidas relativas aos cheques pré-datados, tema sobre o qual Ximenes sustentava que não poderia, como presidente do Banco Central, contrariar a legislação vigente, que definia o cheque como meio de pagamento à vista. Fernando Henrique Cardoso, já à frente da Fazenda desde maio, interveio para evitar a demissão de Ximenes.

Demissão O episódio decisivo foi o anúncio, por Itamar Franco, de uma redução nas tarifas bancárias, contrariando a posição do Banco Central, que considerava que a medida levaria os bancos a repassar custos administrativos às taxas de juros nominais. Com a situação insustentável, Ximenes pediu demissão em 13 de agosto de 1993, sendo substituído por Pedro Malan, então negociador da dívida externa.

Presidência do Banco do Brasil Nomeação e resistências Após a posse de Fernando Henrique Cardoso na chefia do Executivo federal, em janeiro de 1995, Ximenes recebeu a indicação para comandar o Banco do Brasil. A escolha gerou resistências na base aliada do governo, sobretudo entre parlamentares vinculados ao setor rural, que temiam o fechamento de agências mantidas por pressão política. As objeções atrasaram sua posse por cerca de um mês; ao final das negociações, Ximenes assegurou a nomeação de cinco dos seis diretores do banco e assumiu o cargo em 16 de fevereiro de 1995, no lugar de Alcir Calliari.

Crise financeira e programa de ajustes O Banco do Brasil enfrentava um quadro financeiro grave. Com a estabilização trazida pelo Plano Real, o sistema bancário perdera receitas derivadas do float inflacionário. No caso do BB, esses ganhos representavam cerca de 40% das receitas de intermediação financeira no primeiro semestre de 1994 e caíram para menos de 5% nos períodos seguintes, gerando perdas anuais estimadas em quatro bilhões de reais. Ao mesmo tempo, o aperto de liquidez provocou aumento da inadimplência, e as oscilações cambiais causaram prejuízos nos investimentos internacionais da instituição. O BB registrou prejuízo de 85,4 milhões de reais no segundo semestre de 1994 — o primeiro resultado negativo de sua história recente.

Ximenes implantou, já em fevereiro de 1995, um programa de ajustes com dois eixos: no curto prazo, elevação de receitas e redução de despesas; no médio e longo prazo, modernização da empresa para competir em um ambiente de inflação baixa. Uma das primeiras medidas foi adotar a gestão colegiada com foco em resultados. Na área de crédito, a análise de risco foi segregada das funções operacionais, implantou-se uma central de análise de crédito (que obteve certificação ISO 9002 em novembro de 1997) e foi adotado o sistema de credit scoring para pessoas físicas.

Ximenes também alterou os critérios de provisão de créditos inadimplentes, passando a realizar o provisionamento integral já após sessenta dias de vencimento, em vez do prazo anterior de 180 dias — mudança que, embora agravasse os resultados contábeis no curto prazo, visava conferir maior transparência patrimonial ao banco. Os prejuízos acumulados atingiram 4,3 bilhões de reais em 1995 e 7,8 bilhões no primeiro semestre de 1996, levando o patrimônio líquido do banco abaixo do mínimo exigido pelo Acordo da Basileia.

Capitalização e modernização Diante do desequilíbrio patrimonial, o governo promoveu em maio de 1996 uma chamada de capital de oito bilhões de reais. Como o mercado não absorveu a totalidade da emissão, o Tesouro Nacional assumiu as sobras, elevando sua participação no capital do banco de 29% para 73%. A operação foi acompanhada de uma ampliação das prerrogativas dos acionistas minoritários nas deliberações dos conselhos de administração e fiscal, medida que Ximenes apresentou como forma de reduzir a ingerência política na gestão da instituição.