O Biênio da Colonização e Imigração foi um megaevento promovido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, para celebrar, ao longo dos anos de 1974 e 1975, a história e a contribuição dos imigrantes de diversas origens para a formação e crescimento do estado.
Instituído pelo Decreto nº 22.410 de 22 de abril de 1973 e realizado com a colaboração de múltiplas instituições e grupos, envolto em uma retórica de exaltação e estabelecendo uma visão histórica seletiva que apaziguava ou ocultava conflitos e contradições, tanto passados como presentes, pretendeu enaltecer os pioneiros imigrantes e consagrar a integração ordeira, pacífica e frutífera dos seus descendentes à sociedade gaúcha, sendo o coroamento oficial de um processo de reabilitação e afirmação que vinha se desenvolvendo espontaneamente por iniciativa das comunidades desde meados da década de 1950, após um período de discriminação e repressão iniciado no governo de Getúlio Vargas.
Organizando centenas de atividades em mais de 150 cidades e distritos, foi um marco na história sociocultural do estado e deixou um importante legado, estimulando intercâmbios culturais e econômicos com outros estados e países, chancelando a retomada da autoestima das comunidades e de festividades e tradições abandonadas, desencadeando um grande crescimento nas pesquisas acadêmicas sobre a colonização, dinamizando o turismo e promovendo uma imagem pública positiva para o Rio Grande do Sul. Embora as celebrações tenham pretendido contemplar todos os grupos e etnias formadores da sociedade gaúcha, os portugueses, alemães e italianos receberam a maior parte das atenções oficiais.
Antecedentes
A partir de meados da década de 1950, as diversas comunidades descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul começaram a se reorganizar após o período de repressão que ocorreu durante o governo de Getúlio Vargas, que havia procurado fortalecer a "verdadeira" identidade do Brasil, impondo a aculturação forçada dos ditos "quistos culturais" e promovendo uma agressiva campanha de supressão de todos os sinais de estrangeirismo, inclusive o uso de línguas e o cultivo de antigas tradições. Antes considerados valiosos auxiliares para o progresso do Brasil, os imigrantes e seus descendentes passaram a ser vistos com desconfiança e como potenciais traidores da Pátria. Durante a II Guerra Mundial, quando o Brasil declarou guerra às Potências do Eixo (incluindo Itália, Alemanha e Japão, que haviam enviado ao Brasil grandes levas de imigrantes), a repressão e as perseguições se intensificaram, e a questão étnica foi encarada como um problema de segurança nacional. Uma grande quantidade de objetos e documentos históricos foi destruída pelos próprios descendentes de imigrantes, temendo que sua posse desse motivo para represálias das autoridades.Manfio, Juliana Maria. A construção de uma memória: as comemorações do centenário da imigração italiana na região da ex-colônia Silveira Martins (1975-1993). Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2019, pp. 44-46
Em 1953 o monumento levantado em Caxias do Sul para homenagear os imigrantes italianos foi rebatizado pela Lei 1.801 de 2 de janeiro de 1953 como Monumento Nacional ao Imigrante, passando a celebrar a memória de todas as etnias."Monumento Nacional ao Imigrante é reconhecido oficialmente como símbolo de Caxias". Olá Serra Gaúcha, 18 de maio de 2015 Era o início oficial do processo de reversão da difícil situação anterior, mas de fato os preconceitos ainda iriam perdurar por muitos anos. Entre as décadas de 1960 e 1970, já sob um outro contexto político e cultural, emergindo um ambiente propício a uma ampla reconciliação, a reorganização das comunidades se intensificou rapidamente em todo o estado, quando já vinha sendo produzido um discurso afirmativo divulgado por uma historiografia laudatória e grandiloquente, que exaltava supostas qualidades especiais dos imigrantes e resgatava do esquecimento documentos, memórias e outros elementos culturais e identitários, enquanto grupos em várias cidades erguiam monumentos e reuniam coleções museológicas e arquivísticas. As comunidades alemã e italiana estavam particularmente mobilizadas, preparando-se para comemorar com grandes festejos o Sesquicentenário da Imigração Alemã em 1974 e o Centenário da Imigração Italiana em 1975.Manfio, p. 17
Criação do Biênio
O Governo do Estado estava apoiando essa movimentação, e pelo Decreto nº 22.410 de 22 de abril de 1973 instituiu oficialmente o Biênio. Na exposição de motivos, foi declarado: "É um apelo do dever cívico exaltar a obra daqueles que, após lutas longas e ásperas, ocuparam e povoaram a área que constitui o território deste Estado, incorporando-o à Pátria comum. Não menos digno de reconhecimento é o trabalho das levas imigratórias que para cá vieram e aqui se fixaram, provindas de terras distantes em busca de uma pátria nova, e se juntaram aos primeiros povoadores no esforço das realizações solidárias, que nos conduzem a todos a um mesmo destino, sob as aspirações da unidade nacional". O Decreto menciona em seguida os pioneiros vindos de Laguna a partir de c. 1725, os açorianos, os alemães, italianos e outras correntes que "ajudaram a plasmar e enriquecer a paisagem humana de que tanto nos orgulhamos, pelo alto sentido dos valores que nela cultivam, pela constância das nossas vigílias cívicas, pela prosperidade que juntos alcançamos". E evocando os méritos dessas gentes para "a ingente obra de construção e progresso", o governador Euclides Triches, no uso dos poderes que lhe atribuía a Constituição Estadual, instituía o Biênio da Colonização e Imigração, para celebrar, nos anos de 1974 e 1975, "o feito dos pioneiros, o Sesquicentenário da Imigração Alemã, o Centenário da Imigração Italiana e a contribuição das demais correntes imigratórias que se fixaram no Rio Grande do Sul"."Decreto nº 22.410". Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 22 de abril de 1973
Ao mesmo tempo, o Decreto criou várias comissões para organizar o evento, supervisionadas pela Comissão Central, presidida pelo governador: A Comissão de Honra seria integrada pelo governador, o vice-governador, os senadores e deputados federais representantes do Rio Grande do Sul, o arcebispo de Porto Alegre, os presidentes da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Justiça, e os comandantes do 3º Exército, do 5º Distrito Naval e da 5ª Zona Aérea. A Comissão Coordenadora seria presidida pelo secretário da Casa Civil, tendo como coordenador geral o secretário de Turismo e como membros diversas autoridades e representantes de entidades de classe, e teria a função de organizar os trabalhos das nove Comissões Executivas setoriais, encarregadas de celebrar a colonização luso-brasileira, a imigração alemã, a imigração italiana e as outras correntes imigratórias. As Comissões Executivas formariam subcomissões e grupos de trabalho para a) organizar festividades e comemorações sociais, esportivas e populares; b) promover atividades de cunho histórico e cultural, incluindo pesquisas, publicações, conferências e concursos; e c) promover relações e intercâmbios com os países de origem dos imigrantes. A instalação da Comissão Central foi realizada no Palácio Piratini em Porto Alegre em 15 de maio de 1973.Lima, Tatiane de. Os "usos políticos do passado" nas comemorações oficiais do biênio da colonização e imigração do Rio Grande do Sul (1974–1975). Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2017, pp. 38-46
Atividades e significados
Desde logo o Governo entendeu as comemorações não apenas como um memorial da história e um congraçamento de etnias e grupos, mas também como uma oportunidade para promover o estado fora de suas fronteiras e impulsionar o desenvolvimento econômico e cultural. O discurso de Victor Faccioni, secretário da Casa Civil, na cerimômia de instalação da Comissão Central, assinalava a perspectiva de futuro: era "um momento excepcional da nossa existência como povo ordeiro, trabalhador, pacífico, um povo que encontra no acervo do passado as lições de coragem, de honra, de trabalho e de patriotismo que nos alentam para a construção de um Rio Grande maior".Manfio, Juliana Maria & Vendrame, Maíra Ines. "A construção de uma história pública da imigração italiana no Sul do Brasil". In: Anos 90 — Revista do Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2024 (31) Cumprindo com as determinações do Decreto, foi organizada uma extensa série de atividades em muitas cidades coloniais e na capital Porto Alegre, engajando um exército de colaboradores e mobilizando grande parte do estado. O ano de 1974 foi dedicado à celebração dos portugueses, alemães, árabes, negros, argentinos, franceses, uruguaios, espanhóis e ingleses, e o de 1975 aos italianos, poloneses, japoneses, israelenses, norte-americanos, libaneses e indígenas. Apesar de serem incluídos todos esses grupos, as atenções oficiais se voltaram principalmente para os portugueses/açorianos, os alemães e os italianos. Outros grupos e etnias tiveram poucas atividades.Lima (2017), pp. 36-37; 57
Embora não haja uma estatística precisa, pelo menos 165 cidades e distritos organizaram alguma atividade integrada aos festejos, maciçamente concentrados na metade norte do estado, refletindo a geografia dos principais núcleos de colonização.Lima (2017), pp. 57-59 Foram erguidos diversos monumentos; inaugurados museus, logradouros, igrejas, bibliotecas, escolas, clubes e sociedades; cunhadas medalhas; organizados desfiles, banquetes, bailes, chás, gincanas, torneios esportivos, horas cívicas, sessões de cinema e teatro, recitais de música, poesia e dança, escolha de rainhas; celebração de instituições e personagens históricos; batismo de ruas; recepções de autoridades, convidados especiais e delegações nacionais e estrangeiras; seminários, simpósios e debates eruditos; lançamento de publicações; feiras e exposições de arte, artesanato e produtos da indústria; celebrações religiosas, e festejos populares diversos, atraindo multidões.Lima (2017), pp. 59-60Manfio, pp. 38-53 O presidente da República Ernesto Geisel visitou o estado em duas oportunidades para participar dos eventos mais importantes: em 25 de julho de 1974, para a abertura das comemorações do Sesquicentenário da Imigração Alemã em São Leopoldo, e em 20 de maio de 1975, para a abertura das comemorações do Centenário da Imigração Italiana em Nova Milano.Lima (2017), pp. 72; 78