O Instituto Histórico de São Leopoldo é uma instituição científica e cultural sediada na cidade brasileira de São Leopoldo. Fundado em 1975, dedica-se à preservação documental e à promoção da pesquisa, do debate e da divulgação da história local e regional, e particularmente de temas ligados à colonização alemã no Rio Grande do Sul.
Antecedentes O Instituto Histórico de São Leopoldo foi um dos resultados do processo de reafirmação cultural, social, política e étnica da comunidade de descendentes de alemães do Rio Grande do Sul. Apesar da importante contribuição que os alemães deram para o desenvolvimento do estado em múltiplos níveis, durante o Estado Novo o governo de Getúlio Vargas implementou uma política nacionalista e uma campanha de erradicação de estrangeirismos, objetivando estabelecer no país uma cultura homogênea e lusófona. Isso teve um impacto desestruturador dramático sobre todas as comunidades de descendentes de estrangeiros. O uso de línguas estrangeiras foi proibido, descendentes foram perseguidos e o cultivo da memória e das suas tradições foi reprimido.Gevehr, Daniel Luciano & Santos, Rodrigo Luis dos. "Uma confraria para salvar a história da imigração e colonização alemã do esquecimento: o Instituto Histórico de São Leopoldo (IHSL) e suas escritas". In: Diálogos, 2022; 26 (2)
Com o fim da Era Vargas em 1945 as comunidades começaram a procurar resgatar o legado de seus ancestrais e a sua identidade étnica e cultural, mas os efeitos da política repressora ainda se fariam sentir por muitos anos. Entre os alemães do Rio Grande do Sul, o primeiro movimento afirmativo foi o Congresso de História e Geografia organizado em São Leopoldo em 1946, comemorando o centenário da transformação da colônia em vila, promovido pela Prefeitura de São Leopoldo em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. O Congresso teve como objetivo principal reunir intelectuais dispostos a pesquisar e debater o processo imigratório e colonizador iniciado em 1824.
No início da década de 1950 esse grupo de pesquisadores começou a coletar uma grande quantidade de objetos, livros, cartas, jornais, documentos e outros elementos que estavam dispersos e ameaçados de perda e pudessem subsidiar a pesquisa histórica, levando à fundação em 1959 do Museu Visconde de São Leopoldo, que passou guardar esse acervo e organizar os trabalhos historiográficos. Em 1974 outro marco importante foi a organização das grandes comemorações do Biênio da Colonização e Imigração no Rio Grande do Sul 1974-1975, que celebrou a chegada dos imigrantes alemães a partir de 1824 e dos italianos a partir de 1875. Entre as atividades desenvolvidas no Biênio estava a primeira edição do Simpósio de História da Imigração e Colonização.
Fundação Acompanhando essa movimentação, o Instituto Histórico de São Leopoldo foi fundado em 25 de julho de 1975, em cerimônia ocorrida na Biblioteca Pública Municipal. A fundação foi promovida por um grupo que já havia participado da fundação e das atividades de Museu Visconde de São Leopoldo e por outros ativistas recentemente agregados, liderados por Telmo Lauro Müller, Germano Oscar Moehlecke, Arthur Rabuske, Klaus Becker e Carlos de Souza Moraes. Fizeram parte da mesa diretora da cerimônia o prefeito leopoldense Henrique da Costa Prietto; o jornalista Celito de Grandi, representando o ministro do Trabalho; Sejalmo Nery, presidente da Câmara de Vereadores; Jacy Sampaio Moreira, coronel comandante da Guarnição Federal de São Leopoldo; Luiz Marobin, jesuíta, professor e vice-reitor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos; Wilhelm Hunke (irmão Liberato), marista, professor e vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Werner von Beyme, cônsul-geral da Alemanha, e Rodolfo Englert, presidente da Comissão Estadual do Biênio, e no ato foram empossados os primeiros vinte sócios efetivos. Foi eleito como primeiro presidente o historiador Telmo Lauro Müller, diretor do Museu Visconde de São Leopoldo, que presidiria o Instituto por trinta anos. A sede do Instituto foi instalada provisoriamente na Biblioteca, mas logo depois foi transferida para prédio novo do Museu.
Müller já havia desempenhado um papel decisivo na criação do Museu e na formação do seu acervo, e a acumulação da função de presidente do Instituto estreitou as atividades das duas instituições. Müller também foi a força determinante na orientação conceitual da historiografia produzida por ambas, incentivando o memorialismo e fomentando a construção de narrativas afirmativas, conciliadoras e em boa parte superficiais e laudatórias a respeito do legado dos alemães no estado, suavizando os conflitos e contradições, enfatizando o sentimento de acolhida e a generosidade do povo sulino, num processo de integração dos alemães à sociedade local que teria sido harmonioso, e enaltecendo os alemães como um povo a ser imitado pela sua operosidade, honra, cultura e disciplina. Ao mesmo tempo, essa historiografia combatia a influência dominante do grupo de intelectuais que havia consagrado sua versão da história e da identidade cultural do estado baseadas principalmente na herança portuguesa e na figura do gaúcho dos pampas, excluindo a participação de outros grupos e etnias.Weber, Roswithia. "A criação de um museu de imigração alemã no pós-nacionalização". In: Memória em Rede, 2013; 3 (9)Santos, Rodrigo Luis dos. "Entre Papeis, Representações e Discursos: O Acervo Documental do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo e as Mudanças na Historiografia sobre a Imigração Alemã no Sul do Brasil". In: Revista de História Bilros: História(s), Sociedade(s) e Cultura(s), 2022; 6 (11)
Evolução
Essas narrativas ufanistas e pouco científicas prevaleceram no Instituto, assim como no Museu, até a década de 1990, quando começaram a ganhar espaço produções mais alinhadas com os princípios da ciência e mais empenhadas em uma análise crítica aprofundada da imigração e colonização, movimento que ganhou ímpeto após a publicação da tese de doutorado de Marcos Justo Tramontini em 1997, pesquisador vinculado as Instituto Histórico desde 1993. Segundo Gevehr & Santos, o trabalho de Tramontini "é considerado até hoje um divisor de águas na historiografia sobre a imigração alemã no Rio Grande do Sul e no Brasil", demostrando em uma pesquisa rigorosa que "a sociedade imigrante e seu relacionamento com os nacionais era marcada pela complexidade, pelos conflitos, arranjos, estratégias e desejo de exercer cidadania. Deste modo, Tramontini contribuiu para uma mudança nas percepções historiográficas sobre a imigração alemã não apenas no espaço acadêmico, mas dentro do próprio Instituto Histórico de São Leopoldo".
Assim foi instituído um outro paradigma historiográfico, fortalecido em seguida por outros pesquisadores, ampliando as temáticas estudadas, incluindo a história de outras etnias, fazendo pontes com a Antropologia, a Sociologia, a Linguística, a Ciência Política e outros ramos do saber, e recorrendo a metodologias introduzidas pela Nova História Política, a Nova História Cultural, a Micro-História e outras correntes que se faziam conhecidas no Brasil nesta época, período em que os pesquisadores diletantes que antes dominaram o Instituto deram lugar aos acadêmicos e o Instituto progressivamente se afastava da orientação do Museu. Em 2000 o Instituto firmou uma parceria com o Programa de Pós-graduação em História da UNISINOS, e o dinamismo de Tramontin, Arthur Blásio Rambo e Martin Norberto Dreher, sócios do Instituto e professores da UNISINOS, ampliou os contatos e intercâmbios da entidade com grupos e instituições de pesquisa de todo o Brasil e também do exterior. Desde então o Instituto Histórico se tornou um dos protagonistas na produção, debate e difusão da historiografia sobre imigração alemã.
Hoje o Instituto tem como missão "promover e divulgar reflexões, estudos e investigações históricas sobre migrações humanas, emigração, imigração e colonização","Objetivo". Instituto Histórico de São Leopoldo, consulta em 2 de setembro de 2026 e mesmo que já não se defina como uma instituição voltada exclusivamente para a história dos alemães, diversos membros ainda se dedicam a esta temática.Witt, Marcos Antônio. "A historiografia das migrações alemãs no Bicentenário (1824-2024)". In: Monsma, Karl (org.). Passado e presente de imigrantes alemães e descendentes no Brasil: historiografia, representações, atividades econômicas, participação política, religião e identidades. Fundação Fênix, 2022, p. 40 Aumentou seu corpo de sócios efetivos para trinta, publica o periódico Anais do Instituto Histórico de São Leopoldo,Elmir, Cláudio Pereira. "Carlos Teschauer: um sacerdote riograndense. O elogio patronímico de Milton Valente no Instituto Histórico de São Leopoldo". In: Fleck, Eliane Cristina Deckmann & Zanotto, Gizele (orgs.). Religiões e Religiosidades no Rio Grande do Sul, Volume 6: Campo religioso sul-riograndense. Associação Nacional de História, 2018, p. 210 mantém um valioso acervo documental e fotográfico,Flores, Hilda Agnes Húbner. História da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul. EST Edições, 2004, p. 127 desde 1988 tem um representante no Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de São Leopoldo,"Decreto nº 1665/1988". Prefeitura de São Leopoldo, promove seminários, debates e encontros mensais com grupos de intelectuais acadêmicos e não-acadêmicos de quase todas as áreas da História e da Linguística,"Editorial: A História num outro plano: in memoriam de Marcos Justo Tramontini". In: História Unisinos, 2005; 9 (1):73-74 e destaca-se entre suas atividades a organização dos Simpósios de Imigração e Colonização no Rio Grande do Sul, encampados pelo Instituto logo após sua criação em 1974 e desde então continuados ininterruptamente a cada dois anos,Dreher, Martin N. & Gertz, René E. "Apresentação". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2024 (166) a partir da década de 2000 organizados em parceria com o Programa de Pós-graduação em História da UNISINOS e transformados em eventos internacionais,Dreher, Martin N. "Apresentação". In: Dreher, Martin N. & Tramontini, Marcos Justo (orgs.). Leituras e interpretações da imigração na América Latina: XVI Simpósio de História da Imigração e Colonização. Oikos, 2007, p. 3 que têm ocupado uma posição central nas pesquisas sobre a imigração. Helga Landgraf Piccolo, ao analisar a bibliografia já produzida pelo Instituto ou com seu apoio, enfatizou em 2007 "o muito que já foi produzido em termos de conhecimento histórico. E prova que o Instituto Histórico de São Leopoldo justifica a sua existência e os objetivos que traçou ao ser fundado".Piccolo, Helga Iracema Landgraf. "Leituras e interpretações da imigração alemã no Brasil". In: Dreher, Martin N. & Tramontini, Marcos Justo (orgs.). Leituras e interpretações da imigração na América Latina: XVI Simpósio de História da Imigração e Colonização. Oikos, 2007, p. 15
Ver também História do Rio Grande do Sul Colonização alemã no Rio Grande do Sul
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