O CAMM (Common Anti-Air Modular Missile) é uma família de mísseis superfície-ar desenvolvida pela MBDA UK para o Reino Unido. O CAMM é derivado do míssil ar-ar de curto alcance ASRAAM (Advanced Short-Range Air-to-Air Missile), compartilhando com este diversos componentes e características estruturais, mas incorporando aviônica modernizada, sistema de lançamento vertical a frio (soft vertical launch) e uma cabeça de busca por radar terminal ativo. A família CAMM encontra-se em serviço ativo ou encomendada pelas forças armadas de múltiplos países.
Na Marinha Real Britânica, o CAMM — variante de defesa de ponto e de área local com alcance superior a — constitui o elemento interceptor do sistema de defesa antiaérea Sea Ceptor, que substituiu os mísseis Sea Wolf nas fragatas da Tipo 23 a partir de 2018. Em 2023, previa-se o armamento das fragatas da Tipo 26 e da Tipo 31 planejadas para 2028, além da substituição dos mísseis Aster 15 nos contratorpedeiros da Tipo 45. No Exército Britânico, o CAMM opera como o míssil interceptor do sistema de defesa antiaérea Sky Sabre / Land Ceptor, substituindo o sistema Rapier a partir de 2021. As tecnologias desenvolvidas para o programa CAMM também foram aproveitadas na modernização do ASRAAM em serviço na Força Aérea Real.
Uma variante de alcance estendido, o CAMM-ER, foi desenvolvida em parceria pelo Reino Unido e pela Itália, alcançando alvos a mais de de distância. No Brasil, a Avibras anunciou em 2014, em cooperação com a MBDA, o desenvolvimento do míssil AV-MMA (Míssil de Média Altitude da Avibras), baseado na arquitetura do CAMM, com alcance superior a para emprego no sistema de artilharia de saturação Astros 2020 e em navios de escolta da Marinha do Brasil. Uma versão de médio alcance de maior porte, o CAMM-MR, com raio de interceptação acima de , começou a ser projetada em 2022 pelo Reino Unido e pela Polônia para equipar as futuras fragatas polonesas da classe Wicher e as baterias do sistema de defesa antiaérea Wisła.
Desenvolvimento
Cronologia de pesquisa e desenvolvimento O míssil modular antiaéreo comum tem suas origens no Programa de Demonstração de Tecnologia (TDP), financiado em conjunto pela MBDA e pelo Ministério da Defesa britânico (MoD) como parte do projeto FLAADS (Future Local Area Air Defence System). O programa FLAADS integrou a iniciativa setorial Team Complex Weapons (parceria industrial britânica congregando empresas como a MBDA e a Thales UK) destinada a fornecer armamentos de precisão e salvaguardar a soberania tecnológica do Reino Unido no setor de defesa. O objetivo do FLAADS consistia em desenvolver uma plataforma modular comum (CAMM) apta a equipar as forças armadas nos ambientes aéreo, terrestre e naval.Complex Weapons Hansard, 15 de julho de 2008. Durante as fases iniciais do programa, foram estabelecidos os requisitos operacionais para neutralizar ameaças aéreas contemporâneas e futuras caracterizadas por alta velocidade terminal, manobras evasivas acentuadas, baixa assinatura de radar e contramedidas eletrônicas avançadas.FLAADS MBDA, junho de 2010.
A Fase 1 do TDP validou tecnologias críticas de lançamento vertical a frio (SVL), a cabeça de busca por radar ativo de custo reduzido, o enlace de dados bidirecional de banda dupla e a arquitetura aberta programável. A Fase 2 teve início em 2008, abrangendo a fabricação de subsistemas de voo, ensaios de guiamento no meio do curso e testes com a cabeça de busca aerotransportada a bordo de uma aeronave experimental Hawker Siddeley Andover operada pela QinetiQ. O sistema de lançamento a frio foi demonstrado em uma sucessão de testes a partir de 2003, culminando no disparo bem-sucedido de um míssil completo em maio de 2011. Em janeiro de 2012, o Ministério da Defesa britânico concedeu à MBDA um contrato de 483 milhões de libras para o desenvolvimento do sistema FLAADS (Maritime) com vistas a substituir os mísseis Sea Wolf nas fragatas Tipo 23, projeto então denominado Sea Ceptor.
Em 2013, a MBDA e a Thales UK divulgaram o escopo da cooperação técnica no programa CAMM/FLAADS. Contratos de produção na ordem de 1 milhão de libras foram transferidos para as instalações da Thales em Belfast, contemplando modelagem térmica interna, análise estrutural e usinagem de precisão de componentes. As instalações da Thales em Basingstoke foram contratadas para o fornecimento das espoletas a laser de proximidade do CAMM sob um acordo de 11 milhões de libras, desenvolvendo também unidades de segurança e armação do míssil.
Ao longo desse processo, o ASRAAM serviu como base de projeto aerodinâmico para o novo armamento, ao qual foram adicionados novos softwares de controle, pacote de vetoração e rotação inicial (turnover pack), aletas cruciformes dobráveis, cabeça de busca por radiofrequência ativa (RF) e terminal de enlace de dados. Outros subsistemas foram aproveitados de programas prévios: cerca de 70% do software de comando e controle foi adaptado do sistema PAAMS (Principal Anti-Air Missile System) utilizado nos contratorpedeiros Tipo 45, além de componentes eletrônicos derivados do míssil Sea Wolf Block 2. Em contrapartida, inovações criadas para o CAMM foram retroalimentadas no desenvolvimento do míssil ASRAAM na atualização Block 6. A modularidade estrutural reduziu expressivamente os custos globais de desenvolvimento do vetor.
Em janeiro de 2015, o governo britânico formalizou a assinatura de um contrato de desenvolvimento e produção em série com a MBDA.
Testes Em setembro de 2017, realizou-se o primeiro disparo real de qualificação do sistema naval Sea Ceptor (CAMM) a partir da fragata Tipo 23 HMS Argyll. Em 24 de junho de 2021, a MBDA anunciou que a versão de longo alcance CAMM-ER havia concluído com sucesso seus testes de disparo real em um campo de provas na Itália.
Produção Em 13 de março de 2024, a MBDA anunciou uma meta de triplicação da taxa mensal de produção da família de mísseis CAMM entre 2022 e 2026, duplicando a capacidade industrial de suas instalações em Bolton (Reino Unido) e estabelecendo uma segunda linha de montagem final para o míssil CAMM-ER na Itália.
Características técnicas As variantes da família CAMM compartilham uma série de tecnologias e padrões operacionais.
O sistema de guiamento do míssil combina um enlace de dados bidirecional para atualização de trajetória a meio-curso e retargeting com uma cabeça de busca por radar ativo (RF) equipada com amplificador de potência em estado sólido de nitreto de gálio (GaN), proporcionando guiamento terminal de alta precisão (trancamento após o lançamento ou lock-on after launch - LOAL) em quaisquer condições meteorológicas. Como as correções de curso são transmitidas via enlace de dados, as coordenadas do alvo até a fase de engajamento terminal podem ser geradas pelos canais de controle de tiro dos próprios radares de vigilância tridimensional (3D) modernos, dispensando a necessidade de radares de controle de tiro dedicados ou iluminadores de alvos nos navios ou baterias terrestres, o que reduz custos de aquisição, peso no mastro e complexidade de manutenção. Esse arranjo possibilita a recepção de dados de engajamento a partir de múltiplas fontes externas conectadas a redes táticas conjuntas (como o padrão Link 16 da OTAN), permitindo que aeronaves de patrulha e outros sistemas de armas forneçam coordenadas de tiro remotas. A integração desses sensores confere alta cadência de disparo contra ataques de saturação e diversidade de alvos aéreos, além de assegurar uma capacidade secundária contra alvos de superfície (modo míssil superfície-superfície). Especialistas apontam, todavia, que a forte dependência de enlaces de dados pode suscitar vulnerabilidades frente a ambientes de intensa guerra eletrônica.
O CAMM adota um sistema de lançamento a frio denominado Lançamento Vertical Suave (Soft Vertical Launch - SVL). Diferente dos lançamentos convencionais a quente (nos quais o motor-foguete entra em combustão direta no interior do silo), o método SVL utiliza um gerador de gás para ejetar pneumaticamente o míssil para fora do tubo de acondicionamento; uma vez no ar, microfoguetes direcionais situados na parte superior do míssil giram o corpo da arma na direção exata do alvo antes da ignição do motor principal. Proporcionando cobertura em 360°, esse conceito técnico oferece vantagens estratégicas: Aumento do alcance útil máximo ao conservar integralmente o propelente do motor-foguete para a fase de aceleração e interceptação cinemática; Redução do alcance mínimo de engajamento ao encurtar o raio da curva de manobra inicial após a ejeção, economizando energia mecânica (economizando cerca de 30% do peso de lançamento); Diminuição substancial do estresse térmico e estrutural sobre a plataforma lançadora, eliminando condutos complexos de exaustão de gases quentes e viabilizando lançadores mais leves e compactos; permite ainda disparos terrestres a partir de áreas urbanas densas ou florestas fechadas; Minimização de riscos operacionais por falha de ignição, impedindo que motores bloqueados danifiquem a plataforma de lançamento ou mísseis adjacentes; Redução drástica das assinaturas térmica, visual e de fumaça no instante do disparo, dificultando a localização da bateria e evitando a obstrução dos sensores ópticos e radares de bordo.
Os mísseis da família CAMM são projetados como munições seladas livres de manutenção durante sua vida útil em estoque (estimada entre 10 e 20 anos), permanecendo protegidos dentro dos casulos de lançamento até o momento do disparo. A programação emprega arquitetura de sistemas abertos, facilitando a integração contínua com novos radares e sistemas de gerenciamento de combate ao longo de sua vida operacional. Todas as versões são certificadas como munição insensível segundo os padrões internacionais de segurança.
As munições CAMM podem ser empregadas de forma intercambiável tanto por baterias terrestres quanto por plataformas navais, racionalizando estoques e cadeias logísticas entre diferentes ramos militares.
Defesa antiaérea terrestre (Land Ceptor) thumb|Sistema de defesa antiaérea Sky Sabre do Exército Britânico, exibindo a viatura iLauncher e o radar Giraffe ao fundo. thumb|Radar AESA KRONOS Land do sistema MAADS (Medium Advanced Air Defence System) da Força Aérea Italiana.
A variante terrestre do sistema CAMM é comercializada sob o pacote EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions) ou como "Land Ceptor".
O sistema utiliza a unidade de lançamento inteligente iLauncher (Intelligent Launcher), um veículo lançador paletizado e modular montado sobre chassi veicular 8x8, com capacidade para transportar e lançar até oito mísseis CAMM ou CAMM-ER. O iLauncher incorpora o mastro de enlace de dados bidirecional para comunicações com os mísseis em voo e pode integrar torretas eletro-ópticas para aquisição passiva de alvos na linha de visada. A viatura conta com mecanismo de autorrecarregamento por gancho e troca rápida de contêineres com apoio de guindaste de bordo (reduzindo pela metade o tempo de remuniciamento em relação ao antigo Rapier). É provido de fonte de energia autônoma e equipamentos internos de diagnóstico, permitindo sua operação remota no solo e de forma desconectada do veículo transportador.
Na configuração EMADS, o CAMM e o iLauncher operam em conjunto com variados radares de vigilância e postos de comando tático, integrando-se a arquiteturas avançadas como o IBCS (Integrated Air and Missile Defence Battle Command System) da Northrop Grumman. A comunicação sem fio por enlace de dados dispensa o cabeamento físico entre as viaturas lançadoras, sensores de radar e centros de comando, agilizando o desdobramento no terreno e permitindo a dispersão tática dos componentes da bateria a distâncias de até , aumentando a sobrevivência contra fogos de contrabateria.
Defesa antiaérea naval (Sea Ceptor)