Tarafa ibne Alabede (), nascido Anre ibne Alabede (; Barém, – 564), foi um poeta becrita da Jailia, pertencente aos caicitas e ao ramo dos dubaiaítas. Tarafa era um epíteto tradicionalmente relacionado ao tamarisco. Proveniente de uma família que incluía diversos outros poetas, tornou-se um dos mais reputados autores da poesia árabe pré-islâmica e foi classificado entre os melhores compositores de cássidas pela tradição crítica árabe. Pouco pode ser estabelecido com segurança sobre sua vida. A tradição biográfica afirma que perdeu o pai ainda criança, entrou em conflito com os parentes pela herança materna e, durante a juventude, afastou-se de seu povo antes de chegar à corte lácmida de Hira. Sua morte também é objeto de narrativas literárias: segundo uma delas, após satirizar o rei Anre ibne Hinde, recebeu deste uma carta que continha secretamente uma ordem para sua execução no Barém.
Diferentes datas entre 550 e 569 foram propostas para sua morte, frequentemente situada por volta de 564, e a tradição afirma que morreu com apenas vinte ou vinte e seis anos. A historiografia moderna, contudo, considera que os relatos sobre sua vida foram em grande medida reconstruídos a partir da própria poesia que lhe era atribuída e não podem ser aceitos como acontecimentos historicamente estabelecidos. O corpus atribuído a Tarafa compreende um divã transmitido em diferentes recensões, cuja autenticidade não pode ser determinada integralmente. Sua composição mais célebre é a Muʿallaqa, geralmente transmitida com 103 versos e considerada a mais longa das Muʿallaqāt, na qual se destacam o , uma extensa descrição da camela e temas como o vinho, a generosidade e a morte. Outros poemas atribuídos a Tarafa foram relacionados pela tradição aos conflitos entre becritas e taglibitas durante a Guerra de Albaçus, entre eles uma composição sobre o Dia do Raspar das Cabeças. Sua poesia continuou a ser comentada, editada e traduzida durante os períodos medieval e moderno.
Nome e genealogia
Tarafa pertencia aos becritas, mais especificamente aos caicitas, ramo dos dubaiaítas. Seu nome completo é transmitido como Anre ibne Alabede ibne Sufiane ibne Sade ibne Maleque ibne Dubaia ibne Caice ibne Talaba (ʿAmr ibn al-ʿAbd ibn Sufyān ibn Saʿd ibn Mālik ibn Ḍubayʿa ibn Qays ibn Thaʿlaba). Seu nome pessoal era Anre, enquanto Tarafa, pelo qual se tornou conhecido, era um epíteto. İşler relaciona o apelido a ṭarfa, "tamarisco", e a um verso que teria composto, enquanto Montgomery o relaciona a ṭarafāʾ, nome coletivo da mesma planta. Era filho de Alabede ibne Sufiane e de Uarda binte Catada, e tinha entre seus irmãos Mabade e Calide. Entre seus parentes mencionados como poetas estavam sua irmã , seu tio materno , seu tio e , tio de seu pai.
Tradição biográfica
Segundo a tradição biográfica, Tarafa nasceu no Barém e perdeu o pai ainda criança. Após a morte deste, entrou em conflito com seus tios paternos, que teriam prejudicado sua mãe, Uarda, na divisão da herança. Tarafa reagiu compondo versos satíricos contra eles, considerados na tradição como sua primeira composição poética. Ainda criança, teria demonstrado sua precocidade ao ouvir o poeta empregar, na descrição de um camelo, um qualificativo próprio de uma fêmea. Tarafa teria então observado que "o camelo se tornou uma camela", expressão posteriormente proverbial, ao que Almuçaiabe teria prognosticado que o jovem acabaria morto em consequência da própria língua. Os relatos sobre sua juventude apresentam Tarafa como inclinado aos prazeres, comportamento que teria provocado a desaprovação de seus parentes e seu afastamento deles. Tarafa deixou então seu povo, mas posteriormente retornou e passou algum tempo pastoreando os camelos de seu irmão Mabade. Não tendo permanecido por muito tempo entre os seus, partiu novamente e chegou, acompanhado de seu tio materno Almutalamis, a Hira, capital do Reino Lácmida.
Segundo uma das narrativas de sua morte, Anre entregou a Tarafa e Almutalamis cartas destinadas ao governador do Barém, fazendo-os acreditar que continham ordens para recompensá-los. Desconfiado durante a viagem, Almutalamis mandou ler sua carta e descobriu que ela determinava sua execução; descartou-a e fugiu, enquanto Tarafa, apesar da advertência do tio, recusou-se a abrir a sua e prosseguiu até o destino. O governador, apresentado na tradição como parente de Tarafa, teria se recusado a cumprir a ordem, aconselhando-o a fugir e posteriormente abandonando o cargo. Seu sucessor executou a sentença, e uma versão afirma que Tarafa teve as mãos e os pés cortados antes de ser enterrado. Após sua morte, sua irmã Alquirnique e Almutalamis teriam composto elegias em sua memória. As circunstâncias e mesmo a data da morte são incertas. Segundo İşler, diferentes datas entre 550 e 569 foram propostas, e o autor indica, com ressalva, o ano de 564. A tradição sustenta ainda que Tarafa teria morrido com vinte ou vinte e seis anos de idade, circunstância à qual se associa o epíteto Ibne Alisrine ("filho dos vinte").
J. E. Montgomery observa que nada de concreto se conhece sobre a vida de Tarafa e considera que os relatos biográficos preservados pela literatura medieval foram em grande medida reconstruídos com base nos poemas que lhe eram atribuídos e por vezes incorporam elementos deles. As próprias fontes antigas preservam versões divergentes de sua biografia; Ibne Cutaiba, por exemplo, transmite duas narrativas diferentes, uma delas relativamente desenvolvida e outra concentrada em sua morte. Montgomery considera, por isso, que não se deve atribuir crédito histórico a esses relatos biográficos.
Poesia
Tarafa ocupa posição destacada entre os poetas da Jailia na tradição crítica árabe. Ibne Cutaiba considerou-o o poeta que melhor compunha cássidas, enquanto Alasmai o incluiu na primeira classe dos poetas. Outras avaliações antigas foram igualmente elogiosas: ao ser questionado sobre o melhor poeta dos árabes, Labide teria indicado primeiro Inru Alcaice ibne Hujer e, em seguida, Tarafa, a quem chamou de "jovem dos vinte"; Haçane ibne Tábite teria distinguido os hudailitas como a melhor tribo na poesia e Tarafa como o melhor na composição de cássidas, enquanto Jarir também o teria apontado como o melhor poeta árabe. O corpus poético atribuído a Tarafa foi transmitido por diferentes linhas. Segundo İşler, o divã foi constituído pela incorporação de materiais adicionais às transmissões de Alasmai e Abu Ubaida e reúne 814 versos, incluindo os 103 geralmente atribuídos à sua Muʿallaqa. A transmissão do corpus, contudo, apresenta problemas de atribuição. Montgomery distingue duas recensões principais do divã, uma associada a Alasmai e outra a Ibne Aciquite, e considera impossível determinar com segurança quais das composições transmitidas sob o nome de Tarafa são autênticas.
Muʿallaqa
A composição mais célebre atribuída a Tarafa é sua Muʿallaqa, geralmente transmitida com 103 versos e considerada a mais longa entre as Muʿallaqāt. A cássida inicia-se com um de dez versos dedicado à recordação e descrição da amada, seguido por uma extensa descrição da camela, que ocupa aproximadamente os trinta versos seguintes. A partir daí, o poema passa a temas relacionados ao próprio poeta e à sua tribo, aos encontros em torno do vinho, às mulheres, à morte, à generosidade e à avareza, às desavenças com seu primo Maleque e à exaltação de sua própria agilidade, audácia e valentia. Entre os comentadores da Muʿallaqa encontram-se e Abu Becre ibne Alambari. No , Georg Wilhelm Freytag publicou o texto árabe acompanhado de comentário e tradução latina, em 1829.
Guerra de Albaçus
Algumas das composições atribuídas a Tarafa foram associadas pela tradição aos conflitos entre becritas e taglibitas, particularmente à Guerra de Albaçus. Montgomery identifica entre os poemas de temática guerreira do divã uma composição de 22 versos dedicada ao Dia do Raspar das Cabeças, que começa:
Outra composição atribuída a Tarafa foi relacionada pelos comentadores à Guerra de Albaçus. Montgomery identifica o poema 19 do divã como uma invectiva tribal dirigida contra um adversário não nomeado no próprio texto, mas identificado pelos comentadores como um taglibita. Esses mesmos comentadores situaram a composição no contexto do acordo de paz que encerrou a guerra entre becritas e taglibitas. A identificação do adversário e a associação do poema ao acordo dependem, portanto, dos comentadores, e não de indicações explícitas no próprio poema. Diante dos problemas de atribuição do corpus, essas composições não permitem estabelecer por si mesmas a participação pessoal de Tarafa nos acontecimentos a que foram associadas.
Características e recepção
A poesia atribuída a Tarafa aborda temas como a evocação da amada, a descrição da montaria, a exaltação tribal, a guerra, o vinho, a generosidade e a morte. Sua Muʿallaqa destaca-se pela extensão da descrição da camela, que ocupa cerca de trinta versos e percorre sucessivamente diferentes partes do animal. Na parte posterior da composição aparecem temas relacionados ao próprio poeta e à sua tribo, ao vinho, às mulheres, à morte, à generosidade e à avareza, às desavenças com seu primo Maleque e à sua agilidade, audácia e valentia. Um dos versos atribuídos a Tarafa alcançou ampla circulação como provérbio:
Edições
A obra atribuída a Tarafa possui longa tradição de comentário e edição. Sua Muʿallaqa foi comentada, entre outros, por Ibne Caiçane e Abu Becre ibne Alambari. Johann Jacob Reiske publicou em Leida, em 1742, uma edição acompanhada do comentário de Anaás e de tradução latina; posteriormente, Georg Wilhelm Freytag publicou em Halle, em 1829, o texto árabe da Muʿallaqa, acompanhado de comentário e tradução latina. O divã conheceu numerosas edições durante os séculos XIX e XX. Wilhelm Ahlwardt incluiu-o em sua edição conjunta dos divãs de seis poetas da Jailia, publicada em Londres em 1870. Uma edição com o comentário de Alalame Axantamarini foi publicada em Berlim em 1895, enquanto M. Seligsohn publicou uma tradução francesa em Paris, em 1901. Aḥmad ibn Amīn al-Shinqīṭī preparou outra edição, publicada em Cazã em 1909, baseada nos comentários de Ibne Aciquite e Alalame Axantamarini e seguindo a ordenação atribuída ao primeiro. Durriyya al-Khaṭīb e Luṭfī al-Saqqāl prepararam uma edição publicada em Damasco em 1975 com o comentário de Alalame Axantamarini.
Bibliografia
Categoria:Dubaiaítas Categoria:Poetas árabes do século VI