Almufadal ibne Maomé ibne Ialá Adabi (; ) foi um filólogo, transmissor de poesia e estudioso árabe da escola de Cufa, considerado uma autoridade na poesia da Jailia. Membro dos dabaítas, ramo dos tamimitas, destacou-se pelo conhecimento do vocabulário árabe pouco usual, da gramática, da genealogia, dos Dias Árabes e, sobretudo, da antiga tradição poética. Recebeu o epíteto de ráuia (rāwiya), conferido a grandes transmissores de poesia, e adquiriu reputação entre seus contemporâneos pela fidelidade e confiabilidade de suas transmissões.
Partidário da casa de Ali, Almufadal participou, em 145 A.H. (762), da revolta de contra o califa abássida Almançor. Após a derrota da revolta, foi preso, mas recebeu o perdão do califa e foi nomeado preceptor do futuro Almadi. Desenvolveu sua atividade intelectual principalmente em Cufa, onde ensinou língua e literatura árabes e formou numerosos discípulos, e esteve posteriormente em Baguedade, onde participou de discussões sobre poesia, exegese e questões linguísticas durante o califado de Harune Arraxide. A data de sua morte é incerta: embora as fontes transmitam datas entre 164 e 171 A.H. (781–787), tradições que o apresentam ativo durante o reinado de Harune Arraxide e conhecedor de acontecimentos de 176 A.H. (792–793) levaram à proposta de que tenha vivido pelo menos até esse período.
Sua obra mais importante são as , uma das principais antologias conservadas da poesia árabe antiga, composta por 126 poemas de 67 autores, predominantemente poetas da Jailia e mucadrames. A antiguidade de parte do material reunido, somada à reputação de Almufadal como transmissor cuidadoso, confere à coletânea particular importância para o conhecimento da antiga poesia árabe. Além das Mufaḍḍaliyyāt, são-lhe atribuídas obras sobre provérbios, vocabulário raro, interpretação poética e métrica, entre elas o Kitāb al-Amthāl, considerado a mais antiga coletânea preservada de provérbios árabes desse gênero.
Vida
Almufadal ibne Maomé ibne Ialá ibne Amir ibne Salime Arramal Adabi pertencia aos Banu Talaba ibne Saíde ibne Daba, ramo dos dabaítas, que por sua vez faziam parte dos tamimitas, e era árabe livre de nascimento. A data e o local de seu nascimento são incertos. Hüseyin Elmalı considera provável que tenha nascido em Cufa no início do , enquanto Ilse Lichtenstädter observa que seu pai era uma autoridade nos acontecimentos relacionados às guerras travadas pelos árabes nas fronteiras do Coração entre 30 e 90 A.H. (651–709) e admite, por isso, a possibilidade de Almufadal ter nascido nessa região. Seu avô havia exercido funções relacionadas à arrecadação do caraje em Rei, Hamadã e . Seu pai, , era transmissor versado na antiga história dos árabes. Almufadal estudou leitura corânica, hádice e tradições históricas (akhbār) com eruditos como , Abu Isaque Açabii, Ácime ibne Badala, , , e . Almufadal era partidário da casa de Ali e, em 145 A.H. (762), participou da revolta conduzida por contra o califa abássida Almançor . Após a derrota e morte de Ibraim, foi preso, mas posteriormente perdoado pelo califa, que o nomeou preceptor de seu filho, o futuro califa Almadi . Nessa condição, acompanhou Almadi numa viagem ao Coração. Almufadal viveu principalmente em Cufa, onde se dedicou ao estudo da língua e literatura árabes e atuou como professor. Durante o califado de Harune Arraxide , esteve também em Baguedade, participando, na presença do califa e de outros dignitários, como , de discussões sobre poesia, exegese e questões linguísticas com eruditos como e Alasmai.
Almufadal adquiriu reputação por seus conhecimentos de vocabulário árabe pouco usual, gramática, genealogia, Dias Árabes (ayyām al-ʿArab) e, sobretudo, poesia antiga, sendo considerado uma autoridade na poesia da Jailia. Como seu contemporâneo Hamade Arrauia, recebeu o epíteto de ráuia (rāwiya), empregado para grandes transmissores de poesia, mas distinguiu-se particularmente pela reputação de fidelidade e confiabilidade de suas transmissões. As tradições literárias apresentam os dois eruditos como rivais e contrastam frequentemente seus métodos: enquanto Almufadal era elogiado por transmitir a poesia antiga sem alterações, Hamade era acusado de introduzir em poemas da Jailia versos de sua própria composição. Segundo um relato conservado no Kitab al-Aghani, Almufadal chegou a afirmar que Hamade havia causado à poesia árabe um dano impossível de reparar, pois seu conhecimento da linguagem, dos poetas e de seus estilos lhe permitia compor versos à maneira dos antigos e inseri-los em cássidas autênticas de modo que somente críticos particularmente competentes poderiam reconhecer as interpolações. Outro relato preservado no Kitab al-Aghani atribui a Almufadal a descoberta de uma dessas falsificações na presença do califa. Hamade teria recitado versos que atribuía a Zuair ibne Abi Sulma, pertencentes a uma cássida cujo início conservado não continha o nasib. Quando o califa perguntou pela parte ausente, Hamade acrescentou vários versos de nasib. Almufadal observou que provavelmente existira originalmente uma passagem desse tipo antes dos versos preservados, mas que ninguém mais a conhecia, levando Hamade a admitir que havia composto os versos apresentados. O mesmo relato afirma que ambos foram recompensados por suas recitações, mas Almufadal recebeu quantia consideravelmente maior, não apenas por seu conhecimento, mas também por sua fidelidade e honestidade na transmissão.
Como professor, Almufadal formou numerosos estudiosos da língua e literatura árabes. Entre os vinculados à escola de Cufa estavam seu enteado Abu Abedalá ibne Alarabi, Alquiçai, Alfarrá e ; entre os estudiosos de Baçorá que aprenderam com ele figuravam Abu Anre Axaibani e . , e são igualmente mencionados entre seus discípulos. A data da morte de Almufadal é objeto de divergência nas fontes. São mencionados os anos de 164 A.H. (781), 168 A.H. (784), 170 A.H. (786) e 171 A.H. (787), enquanto o Fihrist não fornece uma data. Entretanto, relatos segundo os quais esteve em Baguedade e participou de debates na presença de Harune Arraxide depois da ascensão deste ao califado, em 170 A.H. (786), tornam problemáticas algumas dessas cronologias. Também lhe é atribuída uma notícia sobre a revolta de Iáia ibne Abedalá ibne Haçane, ocorrida em 176 A.H. (792–793). Com base nesses elementos, foi proposto que Almufadal tenha morrido depois de 176 A.H. e que a data de 168 A.H. (784) encontrada na tradição manuscrita possa resultar de uma alteração de 178 A.H. (794), ano que, por essa hipótese, corresponderia à sua morte.
Obras
Almufadal escreveu obras em diferentes campos da filologia árabe, abrangendo poesia, métrica, vocabulário e provérbios. Sua principal obra é as , antologia de poesia árabe antiga também conhecida como Kitāb al-Ikhtiyārāt e Kitāb al-Mukhtārāt. Segundo uma tradição, Almufadal a compilou para seu discípulo Almadi, com o objetivo de instruí-lo na língua, literatura e poesia árabes antigas. Outra explicação para a origem da coletânea é atribuída ao próprio Almufadal e remonta ao período em que Ibraim ibne Abedalá esteve escondido em sua casa. A pedido de Ibraim, Almufadal teria levado livros para que ele lesse; Ibraim, considerado bom conhecedor da poesia antiga, assinalou diversos poemas, que Almufadal posteriormente reuniu num único volume. Essa coletânea teria ficado conhecida como Iquitiar Almufadal.
As Mufaḍḍaliyyāt compreendem 126 poemas de 67 poetas, incluindo tanto cássidas completas e extensas quanto fragmentos menores. A maior parte pertence a poetas da Jailia e mucadrame, enquanto apenas seis dos autores representados nasceram muçulmanos; dois dos poetas cujas cássidas foram incluídas eram cristãos. Alguns dos poemas são muito antigos, e sua datação pode em determinados casos ser inferida dos acontecimentos neles mencionados. Os mais antigos são atribuídos a , e provavelmente remontam à primeira década do . A antologia preserva, assim, uma ampla seleção da poesia árabe antiga, cujo valor é acrescido pela antiguidade dos textos nela conservados e pela reputação de Almufadal entre seus contemporâneos como transmissor confiável.
A coletânea distingue-se, nesse aspecto, da , compilada por Abu Tamame cerca de cinquenta anos mais tarde e constituída sobretudo por fragmentos curtos de poemas ou versos isolados. Embora a Ḥamāsa tenha inicialmente alcançado maior popularidade e recebido comentários com mais frequência, Lichtenstädter considera as Mufaḍḍaliyyāt uma antologia de mérito excepcional, tanto pela riqueza da seleção quanto pela antiguidade dos poemas que preserva. A obra foi publicada parcialmente por Heinrich Thorbecke, em Lípsia, em 1885, sob o título Al-Ikhtiyârât, e integralmente, acompanhada do comentário de Abu Maomé Alcácime ibne Maomé Alambari, por Charles James Lyall, em dois volumes publicados em Oxford entre 1918 e 1921. Uma edição preparada por Aḥmad Muḥammad Shākir e ʿAbd al-Salām Muḥammad Hārūn foi posteriormente publicada no Cairo.
Entre as demais obras de Almufadal encontra-se o Kitab Alamtal, dedicado aos provérbios árabes e considerado a mais antiga obra desse gênero preservada. O livro reúne 160 provérbios acompanhados de relatos acerca de suas origens e serviu como uma das principais fontes para trabalhos posteriores sobre o tema. Um manuscrito é conservado na Biblioteca de Solimão, em Istambul; a obra foi impressa nessa cidade em 1300 A.H., edição posteriormente reproduzida no Cairo em 1327 A.H., e recebeu uma edição crítica preparada por Ihsan Abbas, publicada em Beirute em 1401 A.H. (1981). Almufadal é ainda autor do Kitab Alalfaz, um dicionário dedicado a palavras árabes de uso pouco frequente. A obra é apontada como uma provável fonte do Tahdhīb al-lugha, de Alazari, embora este não mencione Almufadal explicitamente pelo nome. As fontes também lhe atribuem o Kitab Maani Axir, dedicado ao significado dos poemas, e o Kitab Alarud, sobre a métrica árabe.
Bibliografia
Categoria:Tamimitas Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Naturais de Cufa